O suicídio de Allan
Kardec
É preciso propagar a moral e a verdade. (MUMS)
Os incapazes de atacar um pensamento atacam o pensador. (Paul Valery)
Introdução
Caro leitor,
não estranhe o título
desse texto, mas realmente
“suicidaram” Allan Kardec. Os fundamentalistas, por
falta de argumentos que
venham a derrubar as bases da Doutrina
Espírita, passam a alardear, aos quatro
ventos, que Kardec
teria se suicidado. Recentemente recebemos um
e-mail, que de tão
engraçado não houve como
nos conter, e só
com muito esforço
conseguimos parar de rir, pois
nele um evangélico,
literalmente, disse:
“Se suicidou (A.Kardec) de tão obcediado que foi pelos chamados espíritos de luz, estes mesmos espíritos que são a chave da doutrina espírita...”
Apertado pelos
nossos questionamentos esse
pobre desinformado acabou confessando que:
“Quanto a Allan Kardec (se suicidou ou não) não obtive esta informação através de pesquisa, mas sim dos meus próprios familiares espíritas o que me fez ficar envergonhado no que relatei a você, em e-mail anterior. Confesso que acredito no que você me relatou a respeito deste assunto pois, considero e sei o que digo. Você não é só um estudioso, mais um praticante”.
Louvável
essa sua atitude, pois
acabou, honrosamente, por
confessar que não
havia obtido essa informação de fonte
insuspeita, cuja fundamentação
só pode ser feita
em pesquisadores ou
biógrafos. Só que
ficamos a pensar que “tipo”
de Espiritismo freqüentam os familiares
dele para lhe passar
uma informação dessas. Até
aí, isso não
passa de evidente anedota,
e põe anedota nisso...
Mas aproveitando a oportunidade,
para um esclarecimento sobre
as circunstâncias da morte de
Kardec, vamos passar a você, caro
leitor, o que
encontramos a respeito. E quem
sabe se esse texto não
venha a cair nas mãos de pessoas
interessadas na verdade dos fatos,
já que detratores,
sem base de pesquisa
séria, buscam denegrir Allan
Kardec, por absoluta incompetência
de lhe refutar os argumentos
lógicos e racionais.
O que relatam os seus biógrafos e pesquisadores
Vejamos
alguma coisa da biografia de
Allan Kardec, por:
1)
Henri
Sausse
Hippolyte-Léon-Denizard Rivail –
Allan Kardec – faleceu em Parias, rua e passagem Sant’Ana, 59, 2ª circunscrição e mairie de la Banque, em 31 de março de 1869, na idade de 65 anos, sucumbindo da ruptura
de um
aneurisma. (KARDEC, A.O que
é o Espiritismo, pág. 44).
2) André Moreil
E, então, na manhã de 31 de março de 1869, o coração de Denizard Hippolyte Léon Rivail –
Allan Kardec detém-se para sempre, em conseqüência
da ruptura
de um
aneurisma. (Vida
e Obra
de Allan Kardec, p.
85);
3) Revista Grandes Líderes da História
Os
problemas
de Saúde
Em sua primeira crise cardíaca, Kardec recebeu a ajuda de um médico muito especial. Seu grande amigo Antoine Demeure, médico com o qual se correspondia, mas a quem nunca havia encontrado, acabara de morrer, no dia 25 de janeiro de 1865, aos 71 anos. O doutor Demeure, espírita convicto, vivia a caridade pregada pela Doutrina de forma plena. Cinco dias depois da falência de seu corpo, seu espírito foi evocado em uma sessão da Sociedade Espírita de Paris, comunicação narrada em “O Céu e o Inferno”. Dois dias depois desse encontro entre os dois amigos – um vivo e outro morto -, o bondoso médico apareceu para acudir Allan Kardec com seus problemas cardiovasculares. Embora fosse uma alma crente nas verdades espíritas, Demeure era também um cientista positivista e logo passou um belo sermão em seu amigo encarnado. Primeiro, disse que a crise não duraria muito, se Kardec seguisse suas prescrições. Mas, no dia seguinte, tratou logo de dar um belo “puxão de orelha” no velho professor, dizendo que ele deveria cuidar melhor de sua saúde, pois ainda tinha que terminar a codificação da Doutrina. Se, por descaso e excesso de trabalho, desencarnasse antes de acabar o que começara, Kardec seria mesmo julgado por homicídio voluntário nos tribunais divinos.
Assim, a partir de 1865, o Codificador passou a dividir seus trabalhos, como responde um gigantesco número de correspondência, com secretários e auxiliares. Mas a verdade é que continuou abusando de sua cada vez mais combalida saúde e, vira e mexe, caía doente. E as coisas foram nessa toada até o mês de março de 1869. Curiosamente, em abril, a edição da “Revista Espírita” – que chegou às bancas após a morte de Kardec -, trazia uma mensagem do Codificador, informando que, a partir do dia 1º de abril daquele mês, o escritório para assinaturas e expedição do periódico seria transferido para a sede da Livraria Espírita, na rue Lille 7. Kardec também avisava que ele próprio estava de mudança para a Avenue et Villa Ségur 39, onde possuía uma casa desde 1860, mais ou menos. Enquanto encaixotava as coisas na casa da rue Saint-Anne, ele recebeu a visita de um caixeiro de livraria. Ao atender o sujeito, Kardec caiu fulminado, vítima
da ruptura
de um
aneurisma. O relógio andava entre onze da manhã e meio-dia. Seu empregado tentou erguê-lo, mas em vão. O seu amigo Gabriel Delanne usou do magnetismo, mas também foi em vão. O corpo de Allan Kardec já estava morto. Segundo E. Muller, amigo da família, “nada de tétrico marcara a passagem de sua morte; se não fora pela parada da respiração, dir-se-ia que ele estava dormindo”. (Revista
Grandes
Líderes
da História:
Allan Kardec, pp.
31-32).
4) Jorge Damas Martins e Stenio Monteiro de Barros
São os autores
do livro Allan
Kardec – Análise de Documentos
Biográficos, que fornecem
até uma cópia da certidão
de óbito do codificador, cuja
tradução do francês, constante
do livro, transcrevemos:
|
343
Rivail
?
de ses-
senta e
cinco anos
de idade
Assinaturas
|
Ao primeiro de abril de mil oitocentos e sessenta e nove, às dez horas e meia da manha.
Certidão de óbito de Léon Hippolyte Denisart
Rivail, falecido ontem às duas horas da tarde em seu domicílio em Paris, rua Ste Anne nº 59, nascido em Lyon (Rhône), escritor, filho de Rivail, e de Duhamel sua esposa, falecidos. Casado com Amélie Gabrielle Boudet, de
setenta e três anos de idade, sua esposa, sem profissão. O dito óbito devidamente constatado por nós, François Ernest Labbé, adjunto do prefeito e oficial do estado civil no Segundo Distrito de Paris; totalmente feita conforme declaração de Armand Théodore Desliens, empregado, de vinte e cinco anos de idade, morador no Boulelvard du Prince
Eugène nº 110 e de Alexandre Delanne, negociante, de trinta e nove anos de idade, morador na passagem Choiseul nº 39 & 41,
não-parentes, testemunhas que assinam conosco após leitura da certidão.
---------assinaturas----------
|
Continuando, em pouco mais à frente:
2
– 31 de Março
de 1869
O
registro das testemunhas do óbito, ocorreu “ao primeiro de abril de 1869, às dez horas e meia da manha”. Informaram que Rivail faleceu “ontem... em seu domicílio em Paris, na rua Ste. Anne, nº 59”.
A
certidão ressalta o que todos sabemos: Allan Kardec retorna ao plano espiritual, numa quarta-feira, dia 31 de março do ano de 1869, fulminado, como
citam seus
biógrafos,
pela
ruptura
de um
aneurisma. (31).
Imediatamente após conhecimento do fato, o Sr. E. Muller, grande amigo de Kardec e de sua esposa, mandou o seguinte telegrama aos espíritas lioneses: “Monsieur Allan Kardec est mort, on l’enterre vendredi”, ou seja, em português: “Morreu o Sr. Allan Kardec, será
enterrado sexta-feira”.
No
mesmo dia, o sr. Muller assim se expressava em carta ao Sr. Finet, de Lião:
(....)
Ele morreu esta manhã, entre onze e doze horas, subitamente, ao entregar o número da “Revue” (32) a um caixeiro de livraria que acabava de comprá-lo, ele se curvou sobre si mesmo, sem proferir uma única palavra: estava morto.
Sozinho em sua casa (Rua Sant’Ana), Kardec punha em ordem livros e papéis para a mudança que se vinha processando e que deveria terminar amanhã. Seu empregado, aos gritos da criada e do caixeiro, acorreu ao local, ergueu-o... nada, nada mais. Delanne (33) acudiu com toda a presteza, friccionou-o, magnetizou-o, mas em vão. Tudo estava acabado.
(31) Nota da editora: Dificilmente a causa da
desencarnação de Kardec teria sido o rompimento de um aneurisma, como se tem dito, chegando-se a especificar que teria sido da aorta descendente. A constatação do óbito por aneurisma, à época, se daria apenas através da necropsia, e não se consta que os despojos de Allan Kardec
tenham sido submetidos a esse exame. A descrição do Sr. Muller, que diz: “ele se curvou sobre si mesmo, sem proferir uma única palavra, estava morto”, acrescida da descrição de toda a cena, nos leva a crer tenha
ocorrido uma parada cardíaca após um infarto fulminante do miocárdio. Demais, é manifesto, em suas biografias, pelas orientações médicas descritas, que Kardec era cardíaco. Dos arquivos de Canuto Abreu,
publicada por Wantuil &
Thiesen (pp. 112-113), uma carta de Kardec ao sr. Judermühle diz o seguinte: “Desde o dia 31 de janeiro (1865) [...] fui
acometido de um reumatismo interno que se estendeu ao coração e aos pulmões”... Esta é a descrição de uma insuficiência cardíaca congestiva. L.
Palhano Jr.
(32) Nota da editora: “Entregou o número da ‘Revue’”. Este fato confirma que Kardec esteve lúcido até os seus últimos momentos na Terra, visto que nesse número da revista seus pensamentos mantinham a coerência e o bom-senso de sempre. L. Palhano Jr.
(33) Alexandre Delanne, pai do engenheiro e emérito pesquisador e escritor espírita Gabriel Delanne.
(MARTINS, J. D. e BARROS, S. M. Allan Kardec – Análise
de Documentos
Biográficos, pp. 58-62).
Possivelmente
um detrator mais perspicaz, poderá dizer que, num texto do livro Obras Póstumas, há provas de que Kardec foi alertado para o seu problema de saúde, e embora de princípio ele tenha se mostrado receptivo, o tempo