OS UMBANDISTAS NÃO SÃO ESPÍRITAS

PRÓDROMO

 

 

Recebido o pleito, tenho impressão de que já analisei mais ou menos esse texto, em uma resposta ao próprio Adílson Marques, quando intercambiamos eu e ele certas mensagens. De toda sorte, procederei a novo exame do conteúdo, mas, de logo, já me adianto a vos dizer da existência de erro de interpretação. Quando Allan Kardec se reporta aos espíritas como aqueles que acreditam nos fenômenos, o Mestre de Lyon alude aos experimentadores, como ele próprio categoriza no item 28 do capítulo III de O Livro dos Médiuns. Assim não se considerasse a referência de Kardec a tais espíritas experimentadores, não haveria lógica e coerência em outra assertiva dele a constar do item 36 de O Espiritismo em Sua Mais Simples Expressão: "O verdadeiro espírita não é aquele que crê nas manifestações, mas aquele que aproveita o ensinamento dado pelos Espíritos. De nada serve crer, se a crença não o faz dar um passo à frente no caminho do progresso e não o torna melhor para o seu próximo" (vide verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos, no assinalado item 28 de O Livro dos Médiuns). Ademais, havendo Allan Kardec proposto e cunhado o vocábulo Espiritismo, para diferenciá-lo de Espiritualismo, como ele próprio examinara na introdução de O Livro dos Espíritos, não há por que julgar espíritas os umbandistas, a quem somos, porém, devedores do maior respeito. A Umbanda, apesar de merecer um sério estudo sob ângulo teológico próprio, tal qual assinalam Woodrow Wilson Da Matta e Silva e Francisco Rivas Neto, tem uma natureza ritualística singular, heterogênea e teleológica, incompossível com o próprio conceito de Espiritismo. Como religião medianímica, a Umbanda integra certamente o Espiritualismo.

 

Não se trata, aqui, de os espíritas nos diferenciarmos dos umbandistas, em razão de qualquer preconceito religioso, uma vez que reconhecemos na religião de Umbanda muitos elementos positivos e necessários à compreensão antropológica, sociológica e mediúnica de muitos fenômenos autênticos a ela inerentes (vide questão 628 de O Livro dos Espíritos).


Parece-me que a miscelânea conceitual, o mistifório de idéias entre Espiritismo e Umbanda adveio do fato de Kardec, em determinados momentos, haver associado o nome Espiritismo, na sua dimensão semântica material, na dimensão de significante e não de significado, à fenomenologia natural em que estribada a principiologia doutrinária. Daí nasceu o pseudoconceito, culturalmente arraigado ao Brasil, de que, quando alguém se comunica com um Espírito de qualquer natureza, existe aí espiritismo (a propósito, com minúscula) e não mediunismo. Desse modo, o Espiritismo há de se distinguir da Umbanda, porque ele e ela têm modelos de representação bem distintos, além de o primeiro ser uma doutrina experimental (ciência de observação) e filosófica (premissas morais), voltada à dimensão religiosa cristã (vide o artigo Discurso de Abertura pelo Srº Allan Kardec – O Espiritismo é uma religião?, na edição de dezembro de 1868 da Revue Spirite).

 

Nesse aspecto, a Umbanda tem maior abrangência, porque não se limita - entenda-se bem o uso do verbo - à esfera cristã, estendendo-se a outros elementos culturais, a exemplo do animismo africano. Assim, de modo perfunctório, concluo, ad referendum, pela incompatibilidade saltitante e notória do texto com os propósitos do GAE, porquanto se transmite, por meio daquele, a falsa idéia de que mediunismo e Espiritismo são a mesma coisa, a tal ponto que um praticante de magia negra - na acepção vulgar - pode ser também considerado espírita, em face da crença na fenomenologia mediúnica e espirítica. Como asseverado no capítulo XVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 4, "in fine", "reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelo esforço que ele empreende para dominar as suas más inclinações". Sub Censura. Abraços,

 

Ricardo

 

 

 

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