PERISPÍRITO

versus

 MODELO ORGANIZADOR BIOLÓGICO (MOB)

&

CAMPOS MORFOGENÉTICOS

 

CONFUTAÇÃO AO NIILISMO ESPIRÍTICO OU PURISMO REDUCIONISTA

DE DRº ISO JORGE TEIXEIRA

 

 

PARTE I

 

PROLEGÔMENOS

JUSTIFICATIVA DE APRESENTAÇÃO DO ARTIGO

 

            Mais uma vez, imbuído pela necessidade imperativa de redargüir às investidas de um médico psiquiatra do Rio de Janeiro contra quem não pensa como ele, arremeto-me à liça teórica para esmiuçar um problema suscitado pelo referido facultativo, no referente à natureza e ao conceito do perispírito. Não fosse o comportamento acusatório, de que se vale o respeitável médico, aqui não estaria a esgrimir com ele na senda literária, visto ser a qualquer cidadão assegurado, nos termos do inciso IV do art. 5º da Carta da República, o direito de exprimir-se livremente, vedado o anonimato.

 

Um aspecto existe, porém, de que não poderia eu descuidar, a bem de tantos quantos possam ler e examinar os artigos, em tom de catilinária, redigidos por aquele médico e publicados em alguns sítios da internet (li-os, por exemplo, em www.panoramaespirita.com.br e em www.terraespiritual.org): promover o contraditório e a defesa de conceitos respeitantes à Doutrina Espírita e não inconciliáveis com ela, apesar de assim tentar fazer crer o articulista, amparado este, a seu turno, em uma leitura pessoal e particularista, de consistência dubitável.

 

Como alhures procurei demonstrar, no artigo Colônias Espirituais: Fantasias Anímicas de Chico Xavier? (Parte I e Parte II), também encontrável nos sítios retrocitados, o psiquiatra atribui ao Codificador e aos Espíritos palavras e expressões nem ditas nem escritas por eles. Em verdade, porque baseado em modo próprio e reducionista de interpretar a Doutrina Espírita, o nobre articulista, por meio da pena de Kardec, redige determinadas frases, certas idéias, suspeitas palavras, que, após acurado e minucioso cotejo, lá não se encontram nem se lêem, tampouco equivalem semanticamente àquelas usadas pelo Codificador e pelos Espíritos. Deve passar-lhe despercebida a mixórdia teorética em que se emaranha: confundir a sua com a interpretação de Kardec e dos Espíritos. Tais assertivas do corpo doutrinário, o psiquiatra os retira de um contexto sem o qual perdem o significado, a fim de implementar conceitos prévios em defesa de autoproclamado purismo doutrinário.

Decerto, percebe-se-lhe extensíssima boa vontade, mas não se podem, em nome dessa benemerência doutrinal, alçar hipóteses particularíssimas à envergadura de conceitos apodícticos, sem haver notório prejuízo à razoabilidade. Tal fenômeno de hermenêutica, entrevisto no culto médico, deve-se à necessidade insopitável de ser purista e de ser mais espírita do que o próprio Allan Kardec.

 

Desse jeito, ao substituir-se a Kardec e ao sobrepor uma interpretação pessoal, intuitu personae, à dos Espíritos, tenciona o culto psiquiatra, sem ressaibos mínimos de circunspecção, vazar putativamente a sua autoridade, como facultativo, na do Mestre de Lyon, como codificador. Não satisfeito, deita ele uma série de pensamentos e idéias como se, de fato, Kardec os houvera defendido e alguém os pudera do Espiritismo inferir com absoluta certeza. Nada mais podem ser tais elucubrações, imputadas a Kardec e aos Espíritos, do que meras interpretações da interpretação, exegeses da exegese, subsistemas do sistema, hermenêuticas da hermenêutica. Note-se, ademais, algo mais grave: o médico diz, escreve e afirma, em numerosos artigos, haver Kardec dito, escrito e afirmado a mesma coisa, sem, contudo, apontar a fonte de que a identidade conceitual se deriva e sem demonstrar o porquê de as duas interpretações coincidirem.

 

De outra sorte, o médico deve ter-se habituado ao axiomático, razão pela qual não embasa as premissas das conclusões. Outras vezes, louva-se em sofismas do tipo argumentum ad verecundiam (apelo à autoridade) ou do tipo non sequitur (não se segue: quando a conclusão não decorre das premissas) ou ainda do tipo petitio principii (tautologia, em que não se diferenciam logicamente nem a causa nem a conseqüência, nem as premissas nem a conclusão, ou seja, argumentação circular, silogismo cíclico).

 

Outrossim, não se está aqui malsinando o direito do articulista de pensar e de interpretar, como lhe aprouver ou parecer melhor e mais conveniente, o contido no corpo doutrinário. Censura-se, isto sim, por inadmissível, a ventilada continência de uma interpretação personalíssima no próprio contexto da Doutrina Espírita, sem margem a nenhuma outra, tanto válida quanto a dele poderia ser.

 

Vale a pena repisar: não me abalançaria, nesse contexto, a ilidir as opiniões do nobre esculápio, se exercesse ele tão somente um direito de opinião, sem pretender enxovalhar a imagem alheia, por meio de assacadilhas maliciosas, nem desqualificar as idéias de respeitáveis estudiosos, por meio de irrisões infundadas.

 

Esse artifício de pôr em descrédito aqueles cujas idéias ele nem robora nem corrobora, já procurei demonstrá-lo e refutá-lo no artigo Divaldo Pereira Franco em Arrazoado - Vítima de Uma Perseguição Desmesurada (Drº Iso Jorge Teixeira: - “Não”, Kardec:- “Sim”), em que apontei textualmente a metodologia acomodatícia de manipulação de textos e de fatos, assim como as desatenções propositadas a certos detalhes, como se a interpretação do digno facultativo os espelhasse a contento. Além do mais, o esculápio dirige pérfidas e gratuitas insinuações àqueles de cuja posição doutrinária ele discorda, havendo, por exemplo, em arroubos de sutilidade paquidérmica, imputado a Divaldo Pereira Franco a conduta de viver, de sobreviver e de hospedar-se em hotéis cinco estrelas à custa do Espiritismo, na por ele chamada “indústria da filantropia”. Somente quem não conhece, de mais próximo, o médium baiano ou não lhe prive da amizade poderia injuriá-lo desse modo absolutamente despiciendo.

 

Diante de tamanha e gratuita afronta a uma pessoa digna, cuja biografia conheço e acompanho, parece difícil e quase irrealizável resistir ao impulso de seguir à risca o conselho de Beccaria (1998, p.84), não forcejasse eu em tentar ser espírita autêntico:

 

As injúrias pessoais contrárias à honra, isto é, aquela justa porção de consideração que cada cidadão tem de direito de exigir dos outros, devem ser punidas com a infâmia.

 

Entrementes, outra causa existe, não tanto subliminar quanto o médico gostaria de que ela fosse, desse posicionamento intolerante e irascível, sarcástico e insultuoso, com que tenciona esmagar, sem muito êxito, a existência de organizações no mundo espiritual e malbaratar, na mesma estocada, as hipóteses lançadas pelo Espírito André Luiz. Deus e o próprio médico devem saber o de que estou falando.

 

Desse modo, no intuito precípuo de mostrar a outra face da moeda e de não ser enquadrado nos efeitos da máxima sentenciosa latina qui tacet consentire videtur, isto é, quem cala consente, deixo-me conduzir pela vontade maior de examinar o problema suscitado pelo facultativo, em vários artigos, mormente no seu Perispírito e Modelo Organizador Biológico, nuperpublicado pelo sítio Panorama Espírita (www.panoramaespirita.com.br). A minha resposta a ele deve parecer-lhe uma afronta ao seu título de doutor (?), a que bastas vezes ele há recorrido para alegar sabença, quando se irroga, ora nas linhas ora nas entrelinhas, a condição de autoridade máxima do Espiritismo, perante a qual todos haveriam de justificar-se e de explicar-se, como verdadeira palmatória do mundo.

 

 

NATUREZA CONCEITUAL DE PERISPÍRITO NA CODIFICAÇÃO

EM FACE DA HIPÓTESE DO MODELO ORGANIZADOR BIOLÓGICO (MOB)

E DA TEORIA DOS CAMPOS MORFOGENÉTICOS

 

BREVE ANÁLISE DO CONCEITO DE PERISPÍRITO

 

            A terminologia perispírito surgiu devido à necessidade, sentida pelo Codificador, de viabilizar uma designação específica para o envoltório a que se referiam os Espíritos, no decurso do progresso conceitual e informativo do Espiritismo. Na introdução, subdivisão VI, de O Livro dos Espíritos, Kardec (2005, pp.31-32) grafou:

 

Há no homem três coisas: 1º, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º, a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3º, o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre (sic) entre a matéria e o Espírito.

 

Tem assim o homem duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos animais, cujos instintos lhe são comuns; pela alma, participa da natureza dos Espíritos.

 

O laço ou perispírito, que prende ao corpo o Espírito, é uma espécie de envoltório semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro. O Espírito conserva o segundo, que lhe constitui um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, porém que pode tornar-se acidentalmente visível e mesmo tangível, como sucede no fenômeno das aparições. (grifo nosso em negrito)

 

            Toda introdução, malgrado o significado intrínseco da palavra, deve ser redigida ao final de uma obra, regra a que, certamente, obedeceu Kardec, quando ali sintetizou, na subdivisão VI da introdução da obra inaugural da Doutrina Espírita, todos os princípios, postulados e corolários em que está o Espiritismo fundamentado. Desse modo, não se pode apreender o sentido mais profundo de um conceito se não se procura interpretar de maneira sistêmica o contexto em que ele aparece. Nessa esteira, por exemplo, apesar de, na síntese introdutória do Espiritismo, ser o perispírito designado como semimaterial, a natureza desse envoltório continua a ser examinada no decurso da obra, tal qual se pode observar, em O Livro dos Espíritos, nas questões 27 e 27-a (2005, pp.83-84):

 

                                               27. Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o espírito?

 

Sim e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas, ao elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre (sic) o espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o espírito possa exercer ação sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo com o elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que o espírito também não o fosse. Está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inumeráveis combinações com esta e sob a ação do espírito, de produzir a infinita variedade das coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá. (grifo nosso em negrito)

 

a)       Esse fluido será o que designamos pelo nome de eletricidade?

 

Dissemos que ele é suscetível de inúmeras combinações. O que chamais fluido elétrico, fluido magnético, são modificações do fluido universal, que não é, propriamente falando, senão matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente.

 

            Perceba-se como os Espíritos sentiram enorme dificuldade em transmitir a idéia da natureza do fluido universal, graças à limitação da linguagem articulada. Se na síntese introdutória existe referência ao perispírito (composto pelo fluido universal de cada globo) como semimaterial, existe na resposta da questão 27 e subitem 27-a alusão a ser “(...) de certo ponto de vista, (...) lícito classificá-lo com o elemento material”. No ponto em que os Espíritos fizeram alusão a não ser o fluido “positivamente matéria”, observe-se que, sob o ângulo da matéria como a percebe o sensório humano, afigura-se ela possuidora de certas características: ponderabilidade, coesão, tangibilidade, densidade etc. Assim considerada a matéria (daí a expressão positivamente), não pode ser material o fluido cuja natureza os Espíritos tencionaram descortinar.

 

Há uma referência curiosíssima dos Espíritos, na conclusão da primeira resposta supra-assinalada, ao fato de que, sem o fluido universal ou primitivo, “a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá”. A natureza de tal fluido estaria relacionada à existência de forças primordiais do universo ou à sua origem primitiva, como tenciona a Teoria do Campo Unificado ou demais teorias de unificação das forças gravitacional, eletromagnética, nuclear forte e nuclear fraca?

 

Por outro lado, ao se referirem às “inúmeras combinações” desse fluido, as Entidades não o consideraram, “(..) propriamente falando, senão matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente”. Eis uma aparente ambivalência conceitual: de um lado, fluido de natureza semimaterial; de outro, fluido qual matéria mais perfeita, mais sutil e possivelmente independente. Ora, o fato de o fluido ser matéria mais perfeita não o faz deixar de ser matéria, assim como o vapor d´água não deixa de ser água. O próprio vapor, em determinadas pressão (menor) e temperatura (maior) críticas, pode convolar-se em estado gasoso. Nem em um nem em outro exemplo, contudo, a substância deixa de ser a originária, somente se encontrando em condições alteradas de pressão e temperatura, fenômeno inerente às denominadas transformações físicas. Não obstante, não é o fluido, em rigor lógico, que se origina da matéria, mas é a matéria que se origina do fluido, cuja combinação físico-química específica, sob atuação de um psiquismo organizador e estruturador, pode vir a derivar para outras modalidades também fluídicas.

 

            Na questão 27, ainda se nota referência dos Espíritos à “trindade universal”: Deus, espírito e matéria. Sendo eles a trindade universal, pode raciocinar-se por exclusão e chegar-se à ilação de que será evidentemente matéria tudo quanto não for nem Deus nem espírito, ainda que matéria especializada, sutilizada, aprimorada, perfeita ou quintessenciada. Esse problema terminológico se agravou ainda mais quando os Espíritos responderam à questão 82 do livro inaugural:

 

                                               82. Será certo dizer-se que os Espíritos são imateriais?

           

Como se pode definir uma coisa quando faltam termos de comparação e com uma linguagem deficiente? Pode um cego de nascença definir a luz? Imaterial não é bem o termo; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito há de ser alguma coisa. É a matéria quintessenciada, mas sem analogia para vós outros, (sic) e tão etérea que escapa inteiramente ao alcance dos vossos sentidos.

 

            Na exata medida em que os Espíritos consideraram semimaterial, quintessenciado, matéria mais perfeita e mais sutil o fluido universal, eles próprios usaram a referida expressão para designar a natureza do Espírito. Nesse contexto, em se diferenciando ontologicamente o conceito de fluido e o conceito de espírito, poderia concluir-se pela contradição dos Espíritos da Codificação? Não, absolutamente não! Simplesmente vieram de não conseguir nenhum mais preciso termo de comparação para designar a natureza mesma do Espírito, na sua essência ôntica. Outrossim, os próprios Numes tentaram sinalizar uma solução ao problema gerado pela inexatidão da linguagem, na questão 28 da mesma obra:

 

 

28. Pois que o espírito é, em si, alguma coisa, não seria mais exato e menos sujeito a confusão dar aos dois elementos gerais as designações de – matéria inerte e matéria inteligente?

 

As palavras pouco nos importam. Compete-vos a vós formular a vossa linguagem de maneira a (sic) vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos. (grifo nosso em negrito)

 

 

EXAME DA 1º PARTE  DO ARTIGO PERISPÍRITO E MODELO ORGANIZADOR BIOLÓGICO

ADAPTAÇÃO DE PALESTRA PROFERIDA NA SALA FILOSOFIA ESPÍRITA (PALTALK)

 

            O ínclito esculápio, autor do assinalado artigo, principia por referir-se à necessidade efetiva de que “(...) saibamos, exatamente, o que nos diz a Doutrina dos Espíritos e Kardec sobre o PERISPÍRITO [caixa alta original], porque, (sic) assim evitaremos muitas confusões, falsas deduções (sofismas), enfim, distorções doutrinárias”. Em seguida, transcreve ele o contido na subdivisão VI da introdução de O Livro dos Espíritos, exatamente como o fiz, no intento prévio de balizar o termo e o conceito adotados por Kardec e pelos Espíritos na Codificação. Aqui, logo no intróito, já se depara um grave problema, enfrentado pelo articulista de maneira perfunctória: saber exatamente o que nos dizem a Doutrina dos Espíritos e Kardec. Decerto, ele deve partir da proposição de que já compreendeu de modo exato o que lhe dizem o Espiritismo e o Mestre de Lyon, sem, porém, demonstrar de onde provieram a certeza e a exatidão, tão somente transliterando, como o fiz, os excertos da síntese introdutória, com a diferença de que à transposição dele não se seguiu nenhum exame do texto, de tão claro, de tão óbvio, de tão evidente.

 

            Um pouco à frente, ao perfazer uma interpretação literal, sem examinar sistemicamente os conceitos, o psiquiatra reporta-se a estar aí, “clara e resumidamente, definido o perispírito, segundo a Doutrina dos Espíritos”. Desse modo, deve ao articulista ser conveniente terminar a análise do sistema doutrinário por meio da aplicação da máxima latina in claris cessat interpretatio, isto é, a interpretação cessa na clareza (e são os confrades que começam a realizar “falsas deduções”!).

 

Assim, infere o médico, sob uma tal clareza solar, actínica, começarem os confrades “a extrair conclusões, que, a nosso ver [claríssimo], não são verdadeiras”, e a dizer: ‘Se o perispírito é semimaterial, ele é matéria’”. Em seqüência, sempre à luz da mesma clareza, o esculápio assinala a posição de que, “(...) dizemos nós, se o perispírito fosse ‘matéria’, os Espíritos Superiores não teriam dito que ele é ‘semimaterial’”, achegando-se à ilação inevitável de que o “perispírito possui uma aspecto material, sim, mas aqui se trata de matéria quintessenciada, cuja natureza desconhecemos até hoje...”. Desse modo, sempre claríssimo e ofuscante, a ponto de, a essa altura, bem lhe poderem caber óculos escuros, segue o médico psiquiatra na sua exposição:

 

Os referidos confrades argumentam, então: ‘O perispírito é energia, logo, (sic) é material! Também discordamos deste argumento, pois matéria é matéria e energia é energia, não confundamos uma com a outra; como diria o confrade RAYMUNDO MOURA [caixa alta original] jocosamente: ‘Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa...

Enfim, o que gostaríamos de ressaltar é que a matéria pode transformar-se em energia e vice-versa, mas o perispírito não nem matéria, nem energia e assim teria de ser, pois é através da sua ‘porção’ espiritual, digamos assim, que o Espírito consegue atuar sobre os obstáculos materiais e é através de sua ‘porção’ material, (sic) que os aspectos materiais atuam no Espírito (cf. resposta à questão 135-a, ‘in fine’, de OLE).

 

            Primeiramente, necessário examinar em que acepções o psiquiatra utiliza as palavras matéria e energia. De um certo modo, todos os seres humanos acabam induzidos a servir-se do senso comum para compreender determinados conceitos, porque existem os canais de percepção sensorial, que delimitam o sentido imediato das coisas percebidas.

 

Ademais, quando os Espíritos sentiram razoável dificuldade em apresentar conceitos e definições a Kardec, depararam com um problema semiótico e lingüístico, porquanto sentiram a necessidade efetiva de dizer mais do que poderiam com instrumento tão limitado quanto o da linguagem articulada. Ora, os conceitos e as definições conseguidos pelos Espíritos acabaram restritos ao paradigma de conhecimento da época, modelo assentado, àquele estádio da história, em uma visão positivista, uma vez que os Instrutores deveram respeitar o tempo das idéias e o ritmo de progresso do conhecimento humano.

 

Por conseguinte, o paradigma em que assentado o Espiritismo parece haver sofrido a influência inelutável do modelo newtoniano, consectário da revolução copernicana, e das metodologias de René Descartes (1596-1649), de Francis Bacon (1561-1626) e de Auguste Comte (1798-1857), visto representarem, àquele tempo, os sistemas de experimentação mais propícios à consagração epistemológica do senso comum ou à prova da correspondência entre a experiência e a percepção.

                                                            

    René Descartes (1596-1649)          Francis Bacon (1561-1626)            Auguste Comte (1798-1857)

  filósofo e matemático francês                      filosófo inglês                       filósofo e positivista francês

 

Não se pode olvidar o fato de que Allan Kardec, discípulo, em Yverdon, na Suíça, de Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), pai da Escola Nova, tivera uma educação polimática (multidisciplinar) voltada, sobretudo, à educação e à pedagogia como instrumentos de transmissão de conhecimentos. Outrossim, o método do educador suíço recebera o apoio de outros pensadores da educação, como Johann Gottlieb Fichte (1762-1814). Nesse período, a Filosofia ainda não havia abandonado mais amplamente a posição enciclopédica por ela ocupada na história do conhecimento humano, de tal modo que a Doutrina Espírita seria vazada em um filosofema próprio do século XIX, relativamente às premissas gnoseológicas e epistemológicas desse período. Vivia-se pari passu uma tensão filosófico-histórica, em um ambiente de fricções ideológicas entre o pensamento teológico retrógrado e o pensamento metológico-científico, as quais, sob influência residual do Iluminismo ou Ilustração, tendiam a uma opção antropocêntrica da ratio essendi universal. Nesse contexto, Charles Robert Darwin (1809-1882) propusera a teoria da evolução pela seleção natural, ao lado dos trabalhos de Alfred Russel Wallace (1823-1913), que paralelamente chegara às mesmas conclusões do naturalista inglês e que se tornaria espírita, e após as pesquisas de Jean-Baptiste de Monet (1744-1829), o Cavaleiro de Lamarck.

 

                                                    

                      Johann H. Pestalozzi                      Johann G. Fichte            Charles R. Darwin

                                (1746-1827)                                  (1762-1814)                              (1809-1882)

                           pedagogo suíço                           filósofo alemão               naturalista inglês

 

                                   

                                       Alfred Russel Wallace                      Jean-Baptiste de Monet

                                                   (1823-1913)                                            (1744-1829)

                                  naturalista e pensador inglês                 biólogo e pensador francês

Assim, o século XIX ainda experimentava os efeitos do auge do modelo clássico de conhecimento, pelos motivos acima expostos. O conceito de matéria, quantificado no de massa, ainda se mantinha intacto, pois ainda receberia mais fortemente o impacto da noção de energia radiante, a partir da análise do raios catódicos descobertos, pela primeira vez, por James Wilhelm Hittorf (1824-1914), em tubos de gás rarefeito, e estudados por William Crookes (1832-1919). Somente poucos anos antes, em 1873, surgira a teoria ondulatória do eletromagnetismo de James Clerk Maxwell (1831-1879), com fulcro nos trabalhos anteriores de outros físicos, cujos nomes aqui restarão omitidos pela necessidade da síntese. Dessa maneira, o conceito positivo de matéria era, nessa fase da história da ciência, aquele aprendido nas primeiras séries, apesar de o conceito haver começado a sofrer ampliação semântica, decorrente das investigações da energia radiante, da eletricidade, do magnetismo e do eletromagnetismo: matéria é tudo quanto ocupa lugar no espaço, consideradas as suas características de tangibilidade, de coesão, de compactação, de densidade, de apreensão parcial ou total pelos sentidos etc.

                                                                                     

       James C. Maxwell                       James Wilhelm Hittorf                        Sir William Crookes

              (1831-1879)                                          (1824-1914)                                            (1832-1914)

          físico escocês                           físico alemão                               físico e químico inglês

 

            Tal conceito-definição clássico de matéria também se encontra consignado por Roditi (2005, p.147), no Dicionário Houaiss de Física:

 

1 Corpo que ocupa espaço e pode ser percebido pelos sentidos humanos. 2 O que constitui os blocos fundamentais das partículas. 3 FÍS Agregado de partículas que possuem massa. (grifo nosso em negrito)

 

Vale a pena consignar primeiramente, in totum, a dicção filosófica dos vocábulos matéria e energia. Abbagnano (1998, pp. 332-333) examina e sumariza proficientemente a evolução semântica e filosófica do vocábulo energia, também se reportando, no decurso do verbete, à noção de matéria:

 

ENERGIA (in. Energy; fr. Energie; al. Energie; it. Energia). 1. Qualquer capacidade ou força capaz de produzir um efeito ou de realizar um trabalho. Nesse sentido E. é sinônimo de atividade (v.) e de força (v.); fala-se de “E. espiritual”, “E. material”, “E. nervosa”, “E. física”, (sic) etc.

 

2. Como conceito físico, entende-se por E. a capacidade de realizar um trabalho; por trabalho, entende-se o deslocamento do ponto de aplicação de uma força. Esses conceitos só foram claramente formulados na primeira metade do século XIX. No entanto, a distinção entre E. potencial (ou de posição) e E. cinética (ou de movimento) deve-se a Leibniz, que em 1686 a exprimia numa dissertação intitulada Demonstratio erroris memorabilis Cartesii, como a distinção entre força viva e força morta. Leibniz considerava a força viva igual ao produto do “corpo” (massa) pelo quadrado da velocidade: fórmula que depois foi corrigida, passando-se a considerar a força viva igual ao semiproduto da massa pelo quadrado da velocidade [fórmula do cálculo de Energia Cinética].

 

A segunda guinada conceitual importante na evolução da noção de E. ocorre em meados do século XIX, com a descoberta do princípio de conservação da E. (ou primeiro princípio da termodinâmica) por Meyer (1842) E JOULE (1843), que estabelece a equivalência entre E. mecânica e calor. Essa equivalência demonstrava que o calor é uma forma de E., por conseguinte, o conceito de E. extrapolava o domínio mecânico. A generalização foi feita por Helmholtz na sua famosa dissertação Sobre a conservação da força (1847). A ele se deve o uso do termo E., que antes se confundia com força; considerou também como energia E. qualquer entidade que possa ser convertida em outra forma e caracterizou a E. como indestrutível, pois comporta-se como qualquer outra substância: não pode ser criada nem destruída. Deste ponto de vista, os cientistas começaram a falar de numerosas formas de E.: magnética, elétrica, química, acústica, (sic) etc., e a E. passou a ser a segunda substância da física, já que a primeira é a matéria. Todavia, tanto em ciência como em Filosofia tentou-se também reduzir a matéria à E., constituindo-se o energismo (v.).

 

A terceira guinada conceitual importante dessa noção ocorreu com a teoria da relatividade e com a mecânica quântica. Com a redução da matéria (v) à densidade de campo (v.), o dualismo entre as duas substâncias tradicionais da física clássica perdeu o sentido. Por um lado, portanto, parece que a ciência acolheu o princípio do energismo, pois a matéria deixou de ser uma substância em si mesma, mas, por outro lado, pode-se dizer que o próprio energismo foi descartado, pois o conceitual fundamental já não é de E., mas de campo (v.), e qualquer distinção qualitativa entre matéria e E. ou matéria e campo perdeu importância (cf. A. EINSTEIN-L. INFELD, The Evolution of Physics, III. Trad. It., pp. 251 ss.). (grifo nosso em negrito)

 

            Destarte, sob o bafejo filosófico da Física Moderna, a partir da interconversibilidade da matéria com a energia e da energia com a matéria, resulta improfícua a distinção baseada na dualidade dos conceitos de substância energética e de substância material. Nesse mesmo diapasão, mutatis mutandis, podem exemplificar-se as noções clássica e moderna de energia no verbete do Dicionário de Ciências (1990, pp.192-193):

 

A matéria obedece (sic) uma lei de CONSERVAÇÃO que afirma: num sistema isolado existe uma quantidade, a energia, imutável qualquer que seja a transformação por que ele passe. Ela aparece sob diversas formas cuja soma, que é a energia total, não varia, embora possa haver transformação de uma forma em outra.

 

Todo problema de mecânica envolve dois tipos de energia (v. OSCILADOR): POTENCIAL e CINÉTICA. A energia potencial é ligada à posição de um objeto. No caso de uma força constante e um deslocamento em linha reta, a varia da energia potencial de um corpo é o PRODUTO ESCALAR da força que atua no corpo pelo vetor deslocamento de seu ponto de aplicação. É o caso, por exemplo, da energia potencial gravitacional de um corpo em relação à Terra (sic) que é igual a seu peso multiplicado pela altura em que ele se encontra (desde que esta altura não seja muito grande).

 

A energia cinética é associada ao movimento. Para um corpo de massa m e velocidade v, ela vale mv2/2.

 

Existem outros tipos de energia. A energia clássica (do tipo potencial) é associada à deformação de uma mola que, uma vez liberada, a converterá em energia cinética e vice-versa até que, por dissipação térmica (ligada à agitação aleatória dos ÁTOMOS da mola), seja freada até parar. A energia eletrostática (também do tipo potencial) é devida à atração e repulsão entre CARGAS elétricas. A energia RADIANTE é uma forma diferente (do tipo cinética) associada às oscilações do CAMPO ELETROMAGNÉTICO. A energia química (liberada nas REAÇÕES QUÍMICAS) é, de fato, constituída da energia cinética dos ELÉTRONS nos átomos e da energia potencial elétrica  da interação entre elétrons e núcleos.

 

Na teoria da RELATIVIDADE, a energia total (cinética+potencial) de um corpo de massa m é dada por: E=mc2 (c é a velocidade da luz). Numa reação nuclear, uma perda de massa δm é acompanhada de uma liberação de energia δmc2.

 

Infelizmente, apesar desta lei de conservação, a parte da energia utilizável pelo homem não se conserva facilmente. A disponibilidade de energia é governada pelas leis da TERMODINÂMICA. Elas introduzem o conceito de ENTROPIA que se traduz pelo conceito de degradação de energia durante qualquer transformação irreversível. (caixa alta original)

 

            Também se pode encontrar no itinerário histórico do vocábulo energia a base conceptual em que formado, tal qual assinala Gibert (1982, pp.227-229):

 

                                               Mas comecemos por perguntar: o que é a ENERGIA?

 

Etimologicamente, o vocábulo é formado de “En” (em, dentro) e “Ergon” (acção) - em suma, acção interior. Na mecânica nasce com o significado de “capacidade de fornecer trabalho”.

 

A palavra energia aparece associada à noção de trabalho, pela primeira, julgamos, nas obras de Kepler e nas de Galileu, mas, obviamente, com formas de expressão extremamente nebulosas. É preciso mais de um século para, com Euler, se definir claramente um esforço, equivalente ao trabalho, medido pelo produto da força pelo caminho percorrido (1755), igual ainda ao produto da massa por metade do quadrado da velocidade, ou seja a força-viva (1695). Young volta a usar essa noção do trabalho (1807), mas só em 1852 Rankine (1820-1872) usa o termo energia como sinônimo de trabalho; a ele também se devem os conceitos de energia potencial e energia cinética (1859). Esses conceitos já tinham sido compreendidos por Leibnitz (1646-1716) quando em 1695 fez uma distinção entre força viva e força morta (que não provoca um movimento, em virtude de uma resistência). O prórprio vocábulo trabalho, com o sentido actual, deve-se a Poncelet (1788-1867), que o utilizou pela primeira vez em 1826. Isto tudo é talvez pouco importante em si mesmo, mas mostra como certas idéias levam tempo a alcançar uma implantação generalizada, por vezes, aliás, meramente por terem sido esquecidas – talvez por não serem compreendidas pelos sucessores de quem as emitiu pela primeira vez... São contudo questões que mereceriam uma análise mais cuidadosa. (grifo nosso em negrito e sublinhado)

 

           

                                                                 Armando Gibert (1914-1985)

                                                      físico e historiador da ciência lusitano

 

            Note-se como se afigura extenso o conteúdo semântico do vocábulo energia, razão pela qual se deve cuidar em contextualizá-la. Assim, à revelia de toda a evolução conceitual e semântica dos vocábulos examinados, o psiquiatra, de cujo artigo se trata aqui, persegue o conceito de que “matéria é matéria e energia é energia”, servindo-se mais uma vez de uma petição de princípio, de uma tautologia. Não me parece dever-se a desatenção à ignorância, mas à consecução do propósito de sustentar idéias próprias e pessoais, em nome de um claudicante purismo doutrinário. De mais a mais, não tem lógica o argumento de que o perispírito “não é nem matéria, (sic) nem energia e assim teria de ser, pois é através de sua ‘porção’ espiritual, digamos assim, que o Espírito consegue atuar sobre os obstáculos materiais e é através de sua ‘porção’ material, que os aspectos materiais atuam no Espíritos (cf. resposta à questão 135-a, ‘in fine’, de OLE)”.

            Cáspite! Se o períspirito “não é nem matéria nem energia”, como pode ele ter uma “porção material”, para ligar-se à matéria, e uma “porção espiritual”, para ligar-se ao Espírito?  Evidentíssima contradição! Sob o ângulo da evolução dos conceitos de matéria e de energia, tudo aponta para a natureza dupla do perispírito, no qual se reconhecem uma natureza material e uma natureza energética. Outrossim, parece mais racional o argumento de que o perispírito é tanto matéria, em sentido amplo, quanto energia, em sentido estrito. Logo, para conseguir, de modo simultâneo, ligar-se tanto à matéria como ao Espírito, há de se lhe impor envergar ambas as naturezas, a considerar-se a influência do princípio inteligente individualizado sobre a natureza energética, menos grosseira, do perispírito. Por outro lado, a assertiva do nobre médico se antagoniza conceitualmente à opinião dos Espíritos da Codificação, como desde já se procura demonstrar.

 

            Já na questão 29 de O Livro dos Espíritos, as Entidades Tutelares começaram a ampliar os conceitos de fluido universal e de matéria, em absoluta coerência com o conceito do binômio matéria-energia interconversível da Física Moderna, como exposto acima:

 

                                               29. A ponderabilidade é um atributo essencial da matéria?

 

Da matéria como a entendeis, sim; não, porém, da matéria considerada como fluido universal. A matéria etérea e sutil que constitui esse fluido vos é imponderável. Nem por isso, entretanto, deixa de ser o princípio da vossa matéria pesada. (grifo nosso em negrito)

 

            Afigura-se evidente a contradição entre a idéia exposta pelo médico e a categórica afirmativa dos Espíritos, para os quais o fluido universal pode ser considerado matéria, etérea e sutil, porém sempre matéria. Nessa passagem, os Espíritos ainda confirmam ser o fluido universal o princípio da matéria pesada. Eis como o purismo doutrinário do psiquiatra se transforma em impuridade contradoutrinária. Mais à frente, na questão 93, os Numes responderam a Kardec, cujo comentário se segue em itálico:

 

93. O Espírito, propriamente dito, nenhuma cobertura tem, ou, como pretendem alguns, está sempre envolto numa substância qualquer?

 

Envolve-o uma substância [perceba-se: uma substância!], vaporosa para os teus olhos, mas ainda bastante grosseira para nós; assaz vaporosa, entretanto, para poder elevar-se na atmosfera e transportar-se aonde queira.

 

Envolvendo o gérmen de um fruto, há o perisperma; do mesmo modo, uma substância, que, por comparação, se pode chamar perispírito, serve de envoltório ao Espírito propriamente dito.

 

            Nesse ponto, em especial, vale assinalar haver sido o vocábulo perispírito cunhado pelo Mestre de Lyon e utilizado pelos Espíritos em toda a obra. Sob o amparo de tal raciocínio, pondera Ciamponi (1999, p.93):

                                              

(...) Kardec criou a palavra Espiritismo para referir-se à nova Doutrina, e também perispírito para designar o laço fluídico ou envoltório que une o Espírito ao homem. Ele mesmo, na Revista Espírita, dezembro de 1858, escrever, falando a respeito deste laço: A coisa existe; nossa é apenas a denominação. Para as coisas novas, necessitamos de vocábulos novos. E os próprios Espíritos os adotam nas comunicações que estabelecem conosco.

 

Como se deduz da leitura dos textos, os Espíritos “adotaram”, com reserva, a palavra perispírito, porquanto se verifica que não havia uma correlação perfeita entre a expressão conceptual do laço com a palavra empregada para traduzi-lo. (...).

 

            Parece correta a ilação de Ciamponi (1999, p.93), considerando-se a própria indeterminação dos Espíritos em estabelecer uma idéia única sobre a natureza essencial do envoltório. Em certo momento, chamam-no semimaterial, em outro, afirmam-no composto pelo fluido universal de cada planeta (fluido especializado), o qual, embora não seja positivamente matéria (tangibilidade, coesão, densidade, compactação, apreensão total ou parcial pelos sentidos), tem natureza de matéria etérea e sutil como precursora da matéria pesada. Também Rizzini (1992, p.124), em aderência à compreensão dos fluidos como de natureza material especializada, aduz precioso argumento:

 

(...) Mas ao elemento material deve juntar-se um outro: o fluido universal (ou matéria cósmica primitiva, matéria elementar primitiva), que exerce o papel de uma substância intermediária (sic) entre espírito e matéria propriamente dita. Distingue-se por suas propriedades especiais, sendo tido como o agente que o espírito utiliza em suas manipulações e construções; além disso, é o que confere à matéria o seu estado de agregação [referência às forças fundamentais da natureza?]. Seria uma como “matéria mais perfeita, mais sutil e que pode ser considerado como independente”.

 

Ter-se-ia, pois, à primeira vista uma sorte de tetralogia na constituição do universo. De fato, não é assim. O Criador está acima de um mero constituinte do universo, por ser a causa primária de tudo quanto existe. O fluido universal, embora elemento primordial, é taxativamente encarado como uma forma de matéria por todos os estudiosos e instrutores espirituais.

 

Segue-se que, sendo dois os “princípios constituintes do Universo” – espírito e matéria – a Doutrina Espírita há que ser caracterizada como dualista. (...). (grifo nosso em negrito)

 

            Não bastasse a utilização de tal conceito pelos Espíritos, o próprio Kardec (2005, p.350), no capítulo XIV de A Gênese, desdobrá-lo-ia com maior amplitude, havendo, portanto, de inumar qualquer celeuma a ser gerada por um purista de geração espontânea:

 

O fluido cósmico universal é, como já foi demonstrado, a matéria elementar primitiva, cujas modificações e transformações constituem a inumerável variedade dos corpos da Natureza. (cap. X). Como princípio elementar do Universo, ele assume dois estados distintos: o de eterização ou ponderabilidade, que se pode considerar o primeiro estado normal, e o de materialização e o de ponderabilidade, que, de certa maneira, consecutivo àquele. O ponto intermédio é o da transformação do fluido em matéria tangível. Mas, ainda aí, não há transformação brusca, porquanto podem considerar-se os nossos fluidos imponderáveis como termo médio entre os dois estados. (Cap. IV, nos 10 e seguintes).

 

            Eis a evidência de que o facultativo do Rio de Janeiro, desatento à leitura da codificação, perpetra contra a Doutrina Espírita e contra o Mestre de Lyon cincas de uma interpretação idiossincrática, pouco enfronhada no estudo sistêmico dos textos básicos. Aliás, observe-se o detalhe de que essa análise de Kardec está situada no último livro da codificação, havendo sido concebida em fase de grande amadurecimento conceitual da Doutrina, isto é, Kardec sabia exatamente o que estava escrevendo. Na mesma A Gênese, o Mestre de Lyon (2005, p.353) chamou à atenção o sentido em que se utilizara a expressão fluidos espirituais:

 

Não é rigorosamente exata a qualificação de fluidos espirituais, pois que, em definitiva, eles são sempre matéria mais ou menos quintessenciada. De realmente espiritual, só a alma ou princípio inteligente. Dá-se-lhes essa denominação por comparação apenas e, sobretudo, pela afinidade que eles guardam com os Espíritos. Pode dizer-se que são a matéria do mundo espiritual, razão por que são chamados fluidos espirituais. (grifos de Kardec)

 

            Poderiam, sobre a questão da materialidade dos fluidos, transcrever-se numerosas passagens dos textos espíritas, porém, a essa altura, mister somente aludir às anotações do Espírito Lammenais, no item 51 de O Livro dos Médiuns, como assinalou Kardec (2005, p.80):

O que uns chamam perispírito não é senão o que outros chamam envoltório material fluídico. Direi, de modo mais lógico, para me fazer compreendido, que esse fluido é a perfectibilidade dos sentidos, a extensão da vista e das idéias. Falo aqui dos Espíritos elevados. Quanto aos Espíritos inferiores, os fluidos terrestres ainda lhe são de todo inerentes; logo, são, como vedes, matéria. Daí os sofrimentos de fome, do frio, (sic) etc., sofrimentos que os Espíritos superiores não podem experimentar, visto que os fluidos terrestres se acham depurados em torno do pensamento, isto é, da alma. Esta, para progredir, necessita sempre de um agente; sem agente, ele nada é, para vós, ou, melhor, não a podeis conceber. O perispírito, para nós outros Espíritos errantes, é o agente por meio do qual nos comunicamos convosco, quer indiretamente, pelo vosso corpo ou pelo vosso perispírito, quer diretamente, pela vossa alma; donde, infinitas modalidades de médiuns e de comunicações. (...)

 

 

EXAME DA 2º PARTE DO ARTIGO PERÍSPÍRITO E MODELO ORGANIZADOR BIOLÓGICO

ADAPTAÇÃO DA PALESTRA PROFERIDA NA SALA FILOSOFIA ESPÍRITA (PALTALK)

ORIGEM ESTRUTURAL DO CORPO HUMANO

 

            Já se tencionou aqui demonstrar ser a análise do Drº Iso Jorge Teixeira, venia concessa, estritamente parcial, sem levar em conta o estudo sistêmico da Doutrina Espírita. Certamente para ater-se a idéias particulares, ele examina o todo pela parte, indo de encontro a concepções básicas do corpo doutrinário. O médico psiquiatra assim inicia a 2º parte:

 

Em nosso modo de entender, desconhecemos a origem estrutural do nosso corpo. Alguns confrades, baseados em obras não-doutrinárias [por óbvio, somente seria doutrinário aquilo que ele acata como tal], arriscam-se a dizer que todas as nossas mazelas terrestres ficariam marcadas em nosso perispírito... Assim, por exemplo, uma nossa leitora, ao tempo em que escrevíamos para o jornal espírita (órgão da FEESP), estava com um sério problema, pois o marido (espírita) não queria ter filhos, pois a esposa teria feito abortos na juventude e, segundo ele, tais abortos estariam marcados (com pontinhos pretos) no perispírito da esposa e ela teria de “pagar isso na próxima encarnação”!...

Pareceu-me um radicalismo do marido, pois a esposa desenvolvia, na época, uma obra assistencial muito bonita como crianças carentes e, a nosso ver, não precisaria resgatar o seu erro numa próxima encarnação... Muitas vezes cometemos muitos erros na juventude, por invigilância própria da idade, que podem ainda ser resgatados nesta encarnação e, a nosso ver, foi o caso dessa nossa leitora e este fato foi objeto de uma artigo nosso no JE, com ótima repercussão [???]...

O nosso corpo e as “raças” humanas foram criadas por DEUS, evolutivamente -, é esta a nossa tese, NEOCRIACIONISTA [cita sítios do Panorama Espírita nos quais estariam situados os artigos], não obstante, não podemos negar as pesquisas da Física moderna, como um dos determinantes do nosso corpo físico. (grifos nosso em negrito)

 

            Quando o psiquiatra declina não conhecer a origem estrutural do corpo humano, está ele a confirmar uma verdade, sem, porém, referir-se a nenhuma novidade. Para não desperdiçar a ensancha, alude, como sempre, aos confrades de opinião baseada em obras não-doutrinárias, menos a si próprio (é claro). Nesse aspecto, em particular, também se demonstrou não ter o médico opiniões tão doutrinárias quanto ele supõe – exemplo disto se pode obter na 1º parte do presente artigo, de tal modo que quem tem telhado de vidro...

 

            No excerto acima transcrito, refere-se o facultativo à tese pessoal de que “o nosso corpo e as ‘raças’ foram criadas por DEUS, evolutivamente”, a qual ele mesmo denomina “neocriacionista”. Ora, a tese novidadeira não se afigura tão nova assim – leia-se excerto de Kardec (2005, pp.243-244), em A Gênese, cap. X:

 

1.       Tempo houve em que não existiam animais; logo, eles tiveram começo. Cada espécie foi aparecendo, à proporção que o globo adquiria as condições necessárias à existência delas. Isto é positivo. Como se formaram os primeiros indivíduos de cada espécie? Compreende-se que, existindo um primeiro casal, os indivíduos se multiplicaram. Mas, esse primeiro casal, donde saiu? É um desses mistérios que entendem com o princípio das coisas e sobre os quais apenas se podem formular hipóteses. A Ciência ainda não pode resolver o problema; pode entretanto, pelo menos, encaminhá-lo para a solução.´

 

2.       É esta a questão primordial que se apresenta: cada espécie animal saiu de um casal primitivo ou de muitos casais criados, ou, se o preferirem, germinados simultaneamente em diversos lugares?

 

Esta suposição é a mais provável. Pode-se dizer que ressalta da observação. Com efeito, o estudo das camadas geológicas atesta, nos terrenos de idêntica formação, e em proporções enormes, a presença das mesmas espécies em pontos do globo muito afastados uns dos outros. Essa multiplicação tão generalizada e, de certo modo, contemporânea, fora impossível com um único tipo primitivo.

Doutro lado, a vida de um indivíduo, sobretudo de um indivíduo nascente, está sujeita a tantas vicissitudes, que toda uma criação poderia ficar comprometida, sem a pluralidade dos tipos, o que implicaria uma imprevidência inadmissível da parte do Criador supremo. Aliás, se, num ponto, um tipo se pode formar, em muitos outros pontos ele se poderia formar igualmente, por efeito da mesma causa.

Tudo, pois, concorre a provar que houve criação simultânea e múltipla dos primeiros casais de cada espécie animal e vegetal.

 

            Exorta-se a leitura de todo o referido capítulo, assim como a do cap. XI, item 15, intitulado HIPÓTESE SOBRE A ORIGEM DO CORPO HUMANO. É sabido e consabido que o Espiritismo sempre albergou a tese de que tudo quanto existe provém de Manifestação Divina, através de leis imutáveis e preordenadas por Deus a reger o mundo espírita e o mundo material. Ademais, a idéia de uma evolução causada e administrada por Deus pode facilmente encontrar-se em Chardin (1978, pp.99-100), na sua hiperfísica, dentro de uma perspectiva teológica moderna:

 

Marie-Joseph Pierre Teilhard de Chardin

  (1881-1955)

                                                                sacerdote católico, paleontólogo, físico e químico francês

 

Continua-se a ouvir dizer que o fato de o Universo se apresentar doravante a nós, não mais como um Cosmo, mas como uma Cosmogênese, em nada altera a idéia que podíamos anteriormente nos fazer do Autor de todas as coisas. “como se, repetem-nos, pudesse fazer alguma diferença para Deus criar instantaneamente ou evolutivamente”.

 

Não procurarei discutir aqui a noção (ou pseudonoção?) de “criação instantânea”, nem me estenderei sobre as razões que me fazem suspeitar, por sob essa associação de palavras, uma contradição ontológica latente.

 

Mas, em contrapartida, é absolutamente necessário que eu insista sobre o segundo ponto capital.

 

Enquanto que, no caso de um Mundo estático, o Criador (causa eficiente) fica, de qualquer modo, estruturalmente desligada de uma obra e, por isso mesmo, sem fundamento definido para a sua imanência, no caso de um Mundo de natureza evolutiva, pelo contrário, Deus não é mais concebível (nem estruturalmente, nem dinamicamente) senão na medida em que, como uma espécie de causa “formal”, coincide (sem de confundir) com o Centro de convergência da Cosmogênese. Nem estruturalmente, nem dinamicamente, insisto: porque se Deus não nos aparecesse agora, nesse ponto supremo e preciso em que doravante se organiza a natureza aos nossos olhos, não seria mais rumo a Ele (situação absurda!) mas rumo a outro “Deus” que gravitaria inevitavelmente o nosso poder de amar.

 

Desde Aristóteles, não se parou mais de construir “modelos” de Deus sobre o tipo de um Primeiro Motor extrínseco, agindo a retro. A partir da emergência, em nossa consciência, do “sentido evolutivo”, não nos é mais fisicamente possível conceber, nem adotar outra coisa senão um Deus Primeiro Motor ab ante.

 

            A preocupação antropológico-filosófica com o problema da evolução nada possui de novo. Só para demonstrar-se a amplitude científico-filosófica do pensamento de Teilhard de Chardin (1881-1955), apesar de comprometido, em parte, com uma dimensão teológica específica do fenômeno evolutivo, observe-se o que escreve Wildier (apud NOGARE,1994, p.168):

 

A obra de Teilhard de Chardin apresenta, à primeira vista, uma enorme   diversidade; mais ainda, quase nos dá uma impressão caótica. Basta-nos percorrer a sua bibliografia para constatarmos como foi grande o domínio do seu interesse espiritual... Mas se a encararmos com maior atenção, logo descobriremos que esta atividade eclética e aparentemente confusa apresenta, na verdade, uma grande unidade interna e orgânica, podendo ser reduzida a algumas idéias mestras, ou então a um único problema fundamental... Este núcleo de vida espiritual reside nestes dois conceitos: “Deus e Universo”.

 

            Desse modo, o neocriacionismo de Iso Jorge Teixeira, em uma aproximação balizada por alguns conceitos espíritas, não ultrapassa os limites da releitura de avoengo problema, cansativamente examinado por outros autores. Eis a tese, posta como original pelo psiquiatra. Outras considerações poderiam ser aqui implementadas, mas não valem agora nem a pena nem a tinta. Quem sabe se a tese do nobre médico não se aproxima daquela chamada desenho inteligente. Nessa esteira, continua o médico pontificando:

 

As pesquisas da Física moderna em relação à estruturação dos corpos do Universo. Não somos “experts” em Física e muitos menos na Física moderna e, neste sentido, talvez, o amigo prof. CARLOS DE BRITO IMBASSAHY deveria ter sido a pessoa convidada para tratar deste assunto na Sala Filosofia Espírita. Como ele não estava presente nesta nossa Palestra, por motivos que não convém aqui declinar, gostaríamos de citar o seu pensamento sobre o assunto... (caixa alta original)

 

            Antes de mais nada, seria interessante anotar uma curiosidade do examinado artigo do médico. Ele insere, nessa altura do artigo, três fotografias: uma de Imbassahy, uma de Luís de Almeida e outra de Hernani Guimarães Andrade. Em relação a Imbassahy, ele sotopõe as seguintes referências: “Físico, espírita, com uma cultura extraordinária, merecedor de todo nosso respeito”. Em relação a Luís de Almeida, cujos artigos, publicados na RIE (Revista Internacional de Espiritismo), são realmente interessantes e oportunos, o médico registra: “Astrofísico, espírita, um dos expoentes do Espiritismo de Portugal e de sua divulgação”. Já relativamente a Hernani, ele considera: “Pesquisador, espírita, já desencarnado; trouxe algumas contribuições da Física para a busca do entendimento dos fenômenos espirituais”. Outra coisa não se lhe poderia esperar: o psiquiatra mantém o hábito de pretender diminuir aqueles de cujas idéias ele diverge.  Trata-se do caso, pois, no artigo sob exame, o psiquiatra tenciona demonstrar a presumida insubsistência do Modelo Organizador Biológico (MOB), para cuja teorização muito contribuiu o Hernani.

 

            Ora, não me comprazo em recorrer, como o facultativo, ao argumento da autoridade, mas, diante de uma injustiça dolosa, não me poderia calar. Não conheço o Dr. Carlos de Brito Imbassahy, mas, pelas suas interessantes teorizações, parece ter realmente grande cultura e merece, como qualquer outro, toda a deferência.

 

Com o Hernani, porém, mantive contatos mais próximos. Recordo-me de quando conversávamos longamente por telefone acerca de assuntos diversos. De conhecimento invulgar e de cultura polifásica, Hernani era capaz de raciocinar com elegância e com linguagem correta, sem abdicar da precisão lógica e do rigor conceitual. Desse modo, Hernani não era figura menor, tal qual insinua o articulista, e desenvolveu importantíssimas pesquisas de campo em Parapsicologia, para conferir suporte científico e metodológico à Ciência Espírita.

 

Outrossim, Dro Osmard Andrade Faria, médico broncoesofagologista da Marinha do Brasil, capitão-de-fragata reformado, notável hipnólogo e eminente parapsicólogo, com quem também mantive contato, apesar de materialista e de formação reflexológica, conhecia profundamente o Hernani, em cujas pesquisas sempre se louvou. O eminente parapsicólogo, autor de inúmeras obras como o Curso de Parapsicologia (as funções PSI): o fato, a pesquisa, a teoria e o Manual de Hipnose Médica e Odontológica, constitui prova cabal de que, para respeitar uma pessoa, não se faz necessário concordar com ela.

 

Osmard Andrade Faria (mais alto)

(1923)

médico broncoesofagologista carioca,

hipnólogo e parapsicólogo,

radicado em Florianópolis - SC

 

Ademais, também Imbassahy (2002, p.61), no livro Arquitetos do Universo: O Outro Lado da Física à Luz da Ciência Espírita, rende a Hernani Guimarães Andrade a justa e merecida homenagem, in verbis:

 

Pois também nossa alma é também responsável por inúmeros campos de energia, ditas (sic) psíquicas, ou campos psi. A esse respeito, Drº Hernani Guimarães Andrade possui a mais seleta coleção de publicações, a partir de seus livros e de artigos editados, mesmo, fora do meio espírita. Foi, sem dúvida, até o presente momento, o principal escritor – fora do Brasil, inclusive – que dedicou sua literatura ao assunto. Os demais literatos nunca souberam se posicionar dentro dele. (grifos nossos em negrito e sublinhado)

 

       Hernani Guimarães Andrade

           (1914-2003)

                                            engenheiro eletrotécnico, parapsicólogo e espírita

 

Outrossim, a razão por que o Drº Imbassahy não apareceu na Sala Filosofia Espírita, segundo me comentaram, deve ter sido a balbúrdia de que participara o médico psiquiatra, quando este envolveu as mães dos demais participantes no debate. Depois desta explicação, deixo o médico seguir o seu artigo:

 

Assim, escrevemos um artigo, publica em nossa Coluna (SAÚDE) no JORNAL DE ESPIRITISMO (JDE), de Portugal, intitulado “Obsessão e Doenças Físicas” (JDE, setembro/outubro/2005, p.4-5), e ali dissemos:

 

“2- (...) Na época de HIPÓCRATES (século IV antes de Cristo) é que se conceituava doença como “desequilíbrio de fluidos”, mas, contemporaneamente, não! Até porque, (sic) temos repetido: não conhecemos a estrutura íntima dos ‘fluidos’, aos quais CARLOS DE BRITO IMBASSAHY prefere denominar ‘campos’ de energia...

 

3 – Não temos experiência nesta área de exames complementares (detecção da ação de espíritos em aparelhos) com meu pacientes. Talvez, o nosso confrade, LUÍS DE ALMEIDA, possa acrescentar algo, pois é um “expert” em Ciências Físicas e, através da Física Moderna é possível que possa explicar para os leitores deste Jornal como se processa a captação, por aparelhos, não tradicionais, a ação dos obsessores ou como ocorrem os sintomas dos obsidiados (...)”.

 

            As patogenias podem até não ser contemporaneamente devidas à influência e ao desequilíbrio dos fluidos, haja vista não se poder relegar a segundo plano a importância de variados agentes, bacterianos, virais, fúngicos etc. De mais a mais, será interessante considerar a diferença, averiguada no âmbito da pesquisa antropológica, entre doença e enfermidade e a hipótese de que a natureza hígida ou enferma do campo fluídico possa ocasionar a proliferação de microorganismos, sob certos fatores. Não obstante não ser a teoria fluídica examinada e acolhida pelo modelo científico vigente, existe, sobre essa participação fluídica nos estados patológicos, uma dissertação específica de Kardec (2005, pp.364-365), no cap. XIV, item 18, de A Gênese:

 

Sendo o perispírito dos encarnados de natureza idêntica à dos fluidos espirituais, ele os assimila com facilidade, como uma esponja se embebe de um líqüido. Esses fluidos exercem sobre o perispírito uma ação tanto mais direta, quanto, por sua expansão e sua irradiação, o perispírito com eles se confunde.

 

Atuando esses fluidos sobre o perispírito, este, a seu turno, reage sobre o organismo material com que se acha em contato molecular. Se os eflúvios são de boa natureza, o corpo ressente uma impressão salutar. Se são permanentes e enérgicos, os eflúvios maus podem ocasionar desordens físicas; não é outra a causa de certas enfermidades. (grifos nossos em negrito e sublinhado)

 

            Outrossim, vale aqui invocar o bom agouro de Kardec (2005, p.86), em O Livro dos Médiuns, ao ter-se referido ao argumento de que “no conhecimento do perispírito está a chave de inúmeros problemas até hoje insolúveis”.

 

No concernente a denominar campos os fluidos espiríticos, não parece incorreto ou inapropriado o uso da terminologia pelo físico espírita ou pelo espírita físico, visto já haverem outros pesquisadores e estudiosos usado a mesma expressão para designar campos suscetíveis de produzir a morfogênese e a própria vida biológica. Aliás, o próprio Kardec (2005, p.362), em A Gênese, cap. XIV, item 4, sinalizou rapidamente a associação, havendo nomeado fluido o campo magnético do imã

 

 

Mas, entre tais fluidos, há os tão intimamente ligados à vida corporal, que, de certa forma, pertencem ao meio terreno. Em falta de observação direta, seus efeitos podem observar-se, como se observam os do fluido do imã, fluido que jamais se viu, podendo-se adquirir sobre a natureza deles conhecimentos de alguma precisão. (grifo nosso em negrito)

 

            Ainda assim, prossegue o facultativo cosendo a sua colcha de retalhos para autojustificar-se e para granjear o apoio de autoridades diversas à tese do neocriacionismo, sob ângulo – é claro! – do seu único e singular purismo doutrinário:

 

Dito isto, logo abaixo do nosso artigo foi escrita matéria intitulada “Detectar o espírito com aparelhagens”, com textos dos confrades LUÍS DE ALMEIDA e CARLOS DE BRITO IMBASSAHY. Disse o amigo, Dr. em Astrofísica, LUÍS DE ALMEIDA:

 

“Face à proposta colocada pelo psiquiatra Dr. Iso Jorge Teixeira, relativamente à questão colocada pelo leitor José Galvão, da cidade de Vila Nova de Gaia, atrevo-me a citar um amigo comum e investigador de renome também destes fenômenos, o engenheiro e professor de física, Carlos de Brito Imbassahy, que pessoalmente nos transmitiu do Rio de Janeiro:

 

‘Novos aparelhos, como os espectrógrafos osciloscópios que o Dr. Harolde Saxton Burr, emérito professor da Faculdade de Medicina de Yale, EUA, usou para dar prosseguimento aos estudos da pesagem da alma (21 grama) feitos pelos suecos – e que lhe deram o direito de dizer que ávida é comandada por um campo, LIFE’S FIELD, que nada mais seria do que perispírito de Allan Kardec – estão aí para nos permitir uma pesquisa mais segura, que a fraude não terá vez porque pode ser detectada por eles’”.

 

É indubitável o conhecimento do prof. IMBASSAHY, com o qual temos mantido contato freqüente, por exemplo, disse-me ele no 07 de agosto, em relação ao nosso artigo, acima aludido sobre a origem dos corpos humanos:

‘Li com bastante calma seu arrazoado, sempre prudente, caro Dr. Iso.

Mas, há algo que, embora Kardec jamais pudesse supor em sua época, porque é um estudo que se iniciou em 1975 com Murray Gell Mann, dar-lhe-ia enorme subsídio para sua tese e deixaria o Emmanuel em palpos de aranha para se justificar.

 

É a tese dos ‘agentes estruturadores’ ou frameworkers como alguns preferem definir. Ela viria corroborar a hipótese de que cada raça advenha de uma forma estrutural distinta, como ocorre em tudo mais, a começar pela química: no caso dos álcoois, haveria um estruturador para os metílicos, outro para os etílicos, os propírlicos e etc (sic)., que seria agentes distintos, embora de mesma família orgânica (os álcoois), mas que, pela sua natureza, estruturariam substâncias cuja divergência, apenas, seria a de um grupo CH2 (sic) a mais em cada tipo.

 

Ora, portanto, o que se pode ter em mente é que as raças escolheram os climas propícios para darem origem às espécies humanas distintas, o que contraria a Igreja e Emmanuel, posto que esta obra seria (sic) a obra prima (sic) de Deus, enquanto que (sic), pela Ciência moderna, a obra da Criação seria a Espiritualidade (em nossa linguagem) a que a Ciência como domínio dos estruturadores e do qual têm origem os aludidos agentes para atuarem em nosso cosmo, modulando sua energia (dita material), dando-lhe forma e vida’. (grifo nosso em negrito e sublinhado)

 

            De substancial há coisa pouca nesse quase acaciano intercâmbio de mesuras, a não ser a referência à teoria dos agentes estruturadores (frameworkers), às pesquisas de Harold Saxton Burr e à associação dos campos da vida (life’s fields) do assinalado pesquisador ao conceito de perispírito de Allan Kardec, já realizada por tanta gente, como Tinôco (1982, pp.147-161), em O Modelo Organizador Biológico, e Andrade (1986, pp.111-124), em Psi Quântico: Uma Extensão dos Conceitos Quânticos e Atômicos à Idéia do Espírito,

 

Harold Saxton Burr, PhD

 

            Eis o método científico e experimental do psiquiatra comentado: elogiar enxundiosamente o amigo professor Carlos de Brito Imbassahy, para, ao ser elogiado pelo derradeiro, conferir veracidade aos artigos de própria lavra, expediente comum a quem se compraz em recorrer ao argumento da autoridade.

 

Por outro lado, não se compreende por que a teoria dos agentes estruturadores, retrodefendida, poria em “palpos de aranha (sic) o Emmanuel”, salvo se relativamente à idéia do universo como Obra Divina. Aqui, todavia, nos mesmos palpos-de-aranha, sob captura das mesmas filandras, também se incluiriam, de lambuja, o próprio Kardec (2005, pp.37-38) e os Espíritos, haja vista profusa alusão da Doutrina Espírita à criação do universo por Deus, mormente em O Livro dos Espíritos:

 

O Universo abrange a infinidade dos mundos que vemos e dos que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço, assim como os fluidos que o enchem.

 

37. O Universo foi criado, ou existe de toda a eternidade, como Deus?

 

“É fora de dúvida que ele não pode ter-se feito a si mesmo. Se existisse, como Deus, de toda a eternidade, não seria obra de Deus”.

 

Diz-nos a razão não ser possível que o Universo se tenha feito a si mesmo e que, não podendo também ser obra do acaso, há de ser obra de Deus.

 

            Não constitui novidade nenhuma, no contexto espírita, a idéia de ser o universo material criação da espiritualidade, ou seja, criação posterior à do universo espiritual e dele proveniente, pois, não interferindo a Divindade, de maneira direta, no universo material, os Espíritos se dignaram de tratar dessa questão no mesmo O Livro dos Espíritos (2005, p.112):

 

85. Qual dos dois, o mundo espírita ou o mundo corpóreo, é o principal, na ordem das coisas?

 

“O mundo espírita, que preexiste e sobrevive a tudo”.

 

86. O mundo corporal poderia deixar de existir, ou nunca ter existido, sem que isso alterasse a essência do mundo espírita?

 

“Decerto. Eles são independentes; contudo, é incessante a correlação entre ambos, porquanto um sobre o outro incessantemente reagem”.

 

           

EXAME DA 3º PARTE DO ARTIGO PERÍSPÍRITO E MODELO ORGANIZADOR BIOLÓGICO

ADAPTAÇÃO DA PALESTRA PROFERIDA NA SALA FILOSOFIA ESPÍRITA (PALTALK)

ORIGEM ESTRUTURAL DO CORPO HUMANO

           

            Nessa terceira parte, o psiquiatra alcança o clímax dos paralogismos, na tentativa pouquíssimo exitosa de sustentar o insustentável. Desse modo, o facultativo mantém-se a pespontar os andrajos das suas idéias contradoutrinárias:

 

QUE SERIA O MODELO ORGANIZADOR BIOLÓGICO (MOB). SERIA O PERISPÍRITO O “ORGANIZADOR BIOLÓGICO”?

 

Enfim, não há dúvida de que o corpo humano obedece a uma diretriz, mas discordamos da tese fatalista defendida por alguns, inspirados nos trabalhos de HERNANI GUIMARÃES ANDRADE, ou seja, de que haveria um Modelo Organizador Biológico na formação do nosso corpo, isto é, como se fosse uma fôrma (sic), preenchida por material orgânico em toda a embriogênese até o nascimento e desenvolvimento do corpo humano... Em vez de MOB, preferimos a expressão DOB, isto é, Diretriz Organizadora Biológica, isto é, a Providência Divina e não o perispírito daria a DIRETRIZ, da formação do nosso corpo, isto ficaria mais de acordo com os atuais avanços das pesquisas físico-químicas e com uma visai não-fatalista. Mas, que seria o Modelo Organizador Biológico (MOB)? (grifo nosso em negrito)

 

            Essa hipótese da Providência Divina como Diretriz Organizadora Biológica (DOB) só pode ser eutrapelia ou panacéia – eutrapelia, porque essa hipótese graciosa nada explica; panacéia, porque tenta resolver, de uma penada só, um problema eminentemente complexo. Em sentido amplo, tudo quanto no universo existe adveio de Plano Divino.

 

Primeiramente, o sentido de uma “idéia diretriz“ não integra o mérito inventivo do médico, por haver sido proposta por Claude Bernard (apud LEX, 2003, pp.49-50, apud TINÔCO, 1982, p.160, apud ZIMMERMANN, 2000, p.61, apud DELANNE, 1992, 60), possivelmente com uma acepção platônica. Ademais, como adiante se demonstra, uma diretriz mística e mágica (para o ilustrado facultativo, autoproclamado genitor do neocriacionismo, os místicos são os outros) não se aduna nem se coaduna com os textos da Codificação. Kardec (2005, p.269), em A Gênese, cap. XI, já se entretivera a comentar sobre o tema, em específico:

 

11. Para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio Espírito que modela o seu envoltório e o apropria às suas novas necessidades; aperfeiçoa-o e lhe desenvolve e completa o organismo, à medida que experimenta a necessidade de manifestar novas faculdades; numa palavra, talha-o de acordo com a inteligência. Deus lhe fornece os materiais; cabe-lhe a ele empregá-los. É assim que as raças adiantadas têm um organismo ou, se quiserem, um aparelhamento cerebral mais aperfeiçoado do que as raças primitivas. Desse modo igualmente se explica o cunho especial que o Espírito imprime aos traços da fisionomia e às linhas do corpo. (cap VIII, nº 7: Alma da Terra.)

 

Desde que o Espírito nasce para a vida espiritual, tem, por adiantar-se, que fazer uso de suas faculdades, rudimentares a princípio. Por isso é que reveste um envoltório adequado ao seu estado de infância intelectual, envoltório que ele abandona para tomar outro, à proporção que se lhe aumentam as forças. Ora como em todos os tempos houve mundos e esses mundos deram nascimento a corpos organizados próprios a receber Espíritos, em todos os tempos os Espíritos, qualquer que fosse o grau de adiantamento que houvessem alcançado, encontraram os elementos necessários à sua vida carnal. (grifo nosso em negrito e sublinhado)

 

Claude Bernard

(1813-1878)

fisiologista francês

 

            No excerto supra-assinalado, Kardec referiu-se nitidamente ao desenvolvimento do organismo pelo Espírito, no decurso da filogênese (evolução histórico-biológica de um grupo taxonômico, de uma espécie), ou seja, endossou a hipótese de que o princípio inteligente individualizado desenvolvera a pouco e pouco o organismo de que se devera utilizar. Em direção a tal inferência, já vinha Kardec (2005, p.224) em A Gênese, cap. VIII:

 

O desenvolvimento orgânico está sempre em relação com o desenvolvimento do princípio intelectual. O organismo se completa à medida que se multiplicam as faculdades da alma. A escala orgânica acompanha constantemente em todos os seres, progressão da inteligência, desde o pólipo até o homem, e não podia ser de outro modo, pois a alma precisa de um instrumento apropriado à importância das funções que lhe compete desempenhar. De que serviria à ostra possuir a inteligência do macaco, sem os órgãos necessários à sua manifestação? (...) (grifo nosso em negrito e sublinhado)

.......................................................................................................................................

Por alma da Terra, pode entender-se, mais racionalmente, a coletividade dos Espíritos incumbidos da elaboração e da direção de seus elementos constitutivos, o que já supõe certo grau de desenvolvimento intelectual; ou, melhor ainda: o Espírito a quem está confiada a alta direção dos destinos morais e do progresso de seus habitantes, missão que somente pode ser atribuída a um ser eminentemente superior em saber e em sabedoria. (grifo nosso em negrito e sublinhado).

 

            Sendo o próprio Espírito que modela o seu envoltório (organismo físico), não se deve admitir poder o Espírito atuar diretamente sobre a matéria grosseira sem o concurso do envoltório fluídico (perispírito), sob pena de se ferir princípio fundamental do Espiritismo. Ora, não pode o Espírito modelar o corpo orgânico, material, no processo filogenético, sem preordenar o envoltório fluídico (perispírito) a ser intermediário da forma por transmitir ao corpo em evolução. Em outras palavras, não logra o Espírito modelar o seu corpo orgânico sem antes modelar o perispírito. Sob ângulo antropológico, as características de uma espécie não podem manter-se como aquisições específicas acaso não se mantenham registradas em um arquétipo capaz de funcionar de modo autônomo. Nesse diapasão, o ilustrado Imbassahy (2002, p.72), em Arquitetos do Universo: O Outro Lado da Física à Luz da Ciência Espírita, perfila, mutatis mutandis, coerentíssimo argumento sobre a natureza organizatória do princípio espiritual:

 

A física nos garante que existe, em verdade, um domínio, no caso, o espiritual, no qual seus agentes têm capacidade de atuar sobre a energia cósmica, esta que antigamente era chamada de FCU (fluido cós,iço universal) em expansão e modulá-la dando-lhe formas ditas materiais. Isto se dá através de um processo energético, emanada, segundo nós, espíritas, do campo espiritual – que, no caso, do homem, compõe seu perispírito – capaz de modular e organizar as formas, tal como o campo magnético de um imã o faz com as limalhas de ferro e níquel. (grifo do autor em negrito e nosso em sublinhado)

 

            O psiquiatra reporta-se à idéia de que a sua DOB estaria mais conforme aos “atuais avanços das pesquisas físicas e físico-químicas e com uma visão não-fatalista”. Como de regra, o médico afirma idéias, mas não as demonstra, baseado certamente em uma autoridade fatalista. Certo da ensimesmada autoridade, o facultativo não se digna de evidenciar o porquê de uma tal conformidade teorética. Além do mais, se fatalismo aí equivale a determinismo, não há dúvida nenhuma de que o desenvolvimento embrionário tem natureza fatalista, visto ser predeterminada a forma humana (biótipo anatômico). Assim, filhote de tartaruga será tartaruga e filhote de homem será homem, a não ser que o médico logre provar o nascimento de um ornitorrinco no ventre de uma baleia (aí somente se a baleia engolir o ornitorrinco fêmeo). Aqui já se pode, respeitosamente, diagnosticar a gênese da divergência do médico: parece ele não haver compreendido a teoria do Modelo Organizador Biológico (MOB), a qual tenta ele explicar, no artigo, através da analogia do campo magnético do imã.

 

            Primo loco, vale assinalar não ter o vocábulo modelo, a priori, na terminologia MOB, a acepção de molde ou forma (fôrma), como normalmente se cogita. Aí se tem modelo com significado próximo ao de paradigma, como teoriza Kuhn (2003, p.13):

 

(...) Considero “paradigmas” as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência. (...).

 

            Por aproximação gerada pela coincidência de sentido entre o intuído para a idéia de perispírito e o proposto pelo MOB, acabou-se naturalmente conferindo ao modelo o sentido de molde ou de forma (fôrma). Desse modo, o físico Tinôco (1982, pp.108-109) estabelece interessante conceito-definição de MOB:

 

A nossa sugestão, a nossa alternativa, é que os seres vivos são organizados, mantidos em estado de elevada ordem e baixa entropia, em virtude da atuação de dois fatores: 1 – ação plasmadora de um Modelo Organizador Biológica; 2 – ação físico-química de DNA. O Modelo Organizador Biológico, designado abreviadamente por MOB, seria uma estrutura situada em um espaço real de quatro dimensões. O MOB agiria de fora para dentro do nosso espaço tridimensional. Ele portaria o CBM, e este, interagindo com o campo eletromagnético da matéria, provocaria a ontogênese, organizando o ser vivo, molécula a molécula. Estas estariam situadas dentro do nosso espaço tridimensional, enquanto o MOB estaria situado num espaço de quatro dimensões (hiperespaço). Nestas condições, ele poderia atuar no nosso espaço, gerando a ontogênese, Apports, Poltergeists ou qualquer e fenômeno paranormal objetivo ou subjetivo. (grifo nosso em negrito e sublinhado)

 

            Não há fatalismo nenhum no conceito-definição do MOB. No concernente à verdadeira natureza do Modelo Organizador Biológico (MOB), também aí leu o articulista o que lhe ditaram o interesse e a vontade, no intuito cristalino de opor uma teoria à outra, o MOB ao perispírito, e de então poder evidenciar uma suposta contradição dos teóricos do referido modelo com o conceito espírita. O purismo, a contrario sensu, trai muitas vezes o purista, deixando-o em péssimos lençóis, mormente quando repete dizeres presumivelmente encontráveis na Codificação. Em toda a Codificação, existem passagens em que os Espíritos atestaram a forma humana do perispírito, segundo as anotou Kardec (2005), em O Livro dos Médiu