Podemos questionar as escrituras?
“Examinem
tudo e fiquem com o que é bom”. (1Ts
5,21)
Introdução
É comum
que apontem a nós, os
espíritas, como sendo
um bando de heréticos,
por causa do questionamento
que sempre fazemos de
todo e qualquer escrito,
não excluindo nem mesmo
a Bíblia, o que, para
eles, é a razão de nossa
heresia.
Dizem que
somos os responsáveis pelo desvirtuamento
da fé, quando, na verdade,
estamos justamente querendo que
as pessoas tenham mais
fé, embora isso
possa parecer, à primeira vista,
contraditório. O que
percebemos é que, por
tantas coisas absurdas, incoerentes,
inconsistentes, lendárias e mitológicas contidas na Bíblia,
- e não podemos nos esquecer
que nela Deus é um
carrasco que vinga a culpa
dos pais nos filhos,
como também nos
imputa pecado que não
comentemos – muitas pessoas tem deixado desfalecer
a sua fé. Um
Deus que manda
para o castigo eterno
as pobres almas que
erram apenas por ignorância,
porquanto o amor ainda
não ter lhes
florescido em seus corações,
causa mais temor
do que respeito e devoção.
Coisas incompatíveis com
a justiça humana são
atribuídas a esse deus
bíblico, muito diferente
daquele que Jesus nos
apresentou como sendo o nosso
Pai.
Jesus, em
certa oportunidade,
disse: “conhecereis a verdade que a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Ora, não
há como conhecer a verdade
sem que façamos um
questionamento amplo
e irrestrito em tudo
quanto aprendemos pelo ensinamento
de culturas religiosas dogmáticas, extremamente
presas à letra, que
proíbem tudo que não
leva o seu selo.
Se acontecer
mesmo que “... onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2Cor
3,17), concluímos que, conseqüentemente,
onde não existe a liberdade
o Espírito do Senhor não
se acha presente. Essa é uma verdade
que deveria merecer, por
parte desses líderes religiosos
atuais, que vivem a proibir
seus fiéis disso ou
daquilo, uma profunda reflexão.
Ler livros de outros
autores que não
os deles? Nem pensar... excomunhão
na certa! Com o tempo
passamos a acreditar que quem
proíbe alguma coisa é porque está
com medo de que
a verdade seja descoberta fora
daquilo em que foi
induzido a crer, daí a razão óbvia
da proibição.
O que
é interessante nisso tudo é a falta
de senso crítico
e de uma análise mais
profunda dos ensinamentos
de Jesus. Aliás, não
fosse ele um HERÉTICO,
não teríamos a Boa Nova.
Jesus contestou, o tempo todo,
tanto as tradições quanto
algumas práticas religiosas de seu
tempo, indo muito mais
além, pois até
mesmo determinados ensinamentos
contidos nas Escrituras foram, de sua
parte, objeto de reformulações.
Por
outro lado, existe um
detalhe que faz uma enorme
diferença; é que a liderança
das instituições religiosas não
se preocupa em ensinar a seus
fiéis a devida diferenciação
entre o que é história,
o que é cultura e o que
é realmente de origem
divina. Por não
ter esse conhecimento
os fiéis, como se diz popularmente,
“embolam o meio de campo”
por não ter
as mínimas condições
de separar o joio do trigo
aceitam pacificamente tudo quanto
contém a Bíblia como
proveniente da vontade de Deus.
É daí também que
nasce o preconceito e o sectarismo
religioso, uma vez que
passam a acreditar que eles
são os “eleitos de Deus”.
Mas
vejamos o que Jesus reformulou.
As
heresias de Jesus
As escrituras
não permitiam que se
trabalhasse no sábado (Ex 20,8-11); inclusive,
os que ousassem desrespeitar eram
punidos com a morte (Ex 31,15). Jesus
foi insistentemente questionado
sobre esse ponto;
porém, sempre dizia a
seus opositores: "O sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para servir ao sábado” (Mc 2,27).
O adultério
também era punido com
a morte dos infratores, segundo
a Lei mosaica (Lv
20,10); entretanto, Jesus disse à mulher
surpreendida em adultério:
“... Eu também não a
condeno. Pode ir, e não peques mais” (Jo 8,11).
Havia
uma tradição, entre
os fariseus e doutores
da Lei, que não
era permitido comer
pão sem lavar as
mãos. A isso responde
Jesus: “Não é o que entra pela boca que contamina
o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem" (Mt 15,11).
Em
relação ao divórcio,
a lei estabelecida por
Moisés, permitia ao homem dar carta
de divórcio (Dt 24,1), embora
Jesus até tenha justificado Moisés, dizendo que
ele havia feito isso
por conta da dureza
dos corações dos homens
(Mc 10,5), não recomendou o divórcio.
Disse: “o que Deus uniu o homem não separe”
(Mc 10,9), acrescentando que o homem
que se divorciar de sua
mulher e casar com
outra cometerá adultério
contra a primeira (Mc
10,10).
A lei
em vigor naquele tempo
era o “olho por olho e dente por dente” (Ex 21,24), ao passo
que Jesus nos manda:
“... não se vinguem de quem fez o mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda!”
(Mt 5,38).
Contrariamente
à lei anterior, que
permitia odiar os inimigos (Lv
26,52), orientava que “amem os seus inimigos, e rezem
por aqueles que perseguem vocês”
(Mt 5,44).
Conclusão
A lavagem
cerebral feita e o terrorismo
religioso implantado na seqüência
fazem com que os
fiéis não tenham a mínima
coragem de questionar qualquer
coisa. Seguem seus líderes,
sem ao menos se darem
conta de que esses
líderes fazem parte
daqueles a quem Jesus denominou de “cegos,
guiando cegos”. O objetivo
deles é tão bem atingindo, que
os fiéis morrem de raiva quando
encontram alguém que
questiona a Bíblia, dizendo não
ser ela inerrante ou
que não seja a palavra
de Deus. Acham, acreditamos, que
é uma ofensa a Deus tais
coisas; entretanto, ofensa
maior é não usar
a inteligência que Deus
nos deu, pois estaremos agindo como
irracionais.
A verdade
prevalecerá de alguma forma aos que
buscam ampliar seus conhecimentos,
mas para isso
é necessário ler muito
e de tudo, até mesmo
o que for contra.
Essa é a única forma de se fazer
um perfeito juízo
das coisas. Mas como
fazer isso, se não
há incentivo? Ao contrário,
há inúmeras proibições! Essas proibições
são o maior atestado
de que aquilo que
falam, pregam ou seguem não
é verdadeiro, pois quem
está com a verdade não
teme absolutamente nada.
Como
provamos acima, aquele
a quem seguimos (Jesus) foi um
exímio contestador. Pena
é que os fiéis amedrontados não
vejam isso. Falando à maneira
dos fundamentalistas: mas
no dia do juízo, coitados
deles...
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Out/2005.