REFUTAÇÃO AO TEXTO

Porque o espiritismo não é espiritologia

 

 

Dileto srº. Adílson,

 

    Venho recepcionando, desde certo momento, pelo GAE, as mensagens de V.Sa., nas quais existe uma propensão a distinguir Espiritismo e Psicosofia, Espiritismo e Espiritologia, Espiritismo e isto, Espiritismo e aquilo etc. Já deparei com posicionamentos de comunicações obtidas na ONG Círculo de São Francisco (?), nas quais há referências a elementos doutrinários do Espiritismo sob um certo ângulo de interpretação, assim como já vislumbrei idéias atribuídas a Kardec e não ditas por ele no sentido em que as mensagens as utilizam.

 

    Em mensagem anterior, recepcionada por um canalizador e atribuída a um Ser anônimo, não identificável sob o argumento de que não se pode nem se deve valorizar o ego, por ser este uma ilusão (maya) etc., afirmou-se haver Kardec posto o Espiritualismo acima do Espiritismo. Primeiramente, assiste infirmar a idéia contida na referida mensagem de que Allan Kardec reconhecera maior amplitude ao Espiritualismo, considerando-o superior ao Espiritismo. O Codificador, na introdução de O Livro dos Espíritos, expendera a tese de que o Epsiritualismo, por admitir a sobrevivência da alma à morte e, portanto, uma sobreexistência, contém o Espiritismo, em uma relação do gênero com a espécie. Daí provém a idéia de o Espiritismo poder ser considerado filosofia espiritualista. Aliás, o lionês cunhara o vocábulo Spiritism para diferenciá-lo de Spiritualism, no intuito de trazer especificidade à Doutrina então nascitura. Outrossim, Allan Kardec não pusera o Espiritismo abaixo do Espiritualismo, sob o ponto de vista ontológico. Desse modo, o Ser anônimo equivocou-se ao atribuir ao lionês o que ele nem escrevera nem afirmara. Causa-me espécie obter comunicação de um Ser anônimo, na qual ele incorrera em um erro comezinho de leitura, ainda mais ao pretexto de que ele se está livrando do ego. Apesar de estar livrando-se do ego, ele está comunicando-se e, para ser respeitoso àqueles a quem ele dirige as mensagens, necessita manifestar uma certa precisão. De outra sorte, não se utilize o raciocínio falacioso do totus pro parte.

 

    Outrossim, não se me afigura verdadeira a asserção de que "podemos ler em vários livros espíritas, sejam eles escritos por encarnado ou por desencarnados, um grande apego ao ego". Que é o ego? O ego seria a personalidade manifestada como extensão da encarnação de um Espírito, com determinadas características assumidas na vida material? O fato de um Espírito apresentar-se como fulano, sicrano ou beltrano não significa que ele esteja apegado ao ego, à matéria ou às características mundanas. Aliás, Allan Kardec tratou dessa questão, até relativamente à desimportância da identificação em certos casos, como, por exemplo, o dos Espíritos Puros, que se confundem na afinidade das próprias virtudes. Tal análise pode encontrar-se no capítulo XXIV de O Livro dos Médiuns, muito detalhadamente. Quando um Espírito se apresenta como um ex-presidente, não está ele sendo o que fora, porém somente identificando-se. A ausência de identificação também não garante a libertação do ego, porquanto se podem obter, sob esse argumento, comunicações as mais apócrifas.

 

    O conceito de mundo material como ilusão faz parte do paradigma niilista das religiões orientais, não significando uma verdade em si, mas apenas um modo de ver do universo físico, o qual, malgrado ser uma ilusão (?), constitui manifestação. A libertação do ego não significa, ademais, uma incursão no não-ser, pois o ser deve constituir algo em si. Se utilizado aqui um argumento kantiano, a inalcançabilidade do nôumeno não o transforma em um nihil, mas demonstra apenas a apreensão do fenômeno, isto é, como o mundo se mostra. No atinente ao Espiritismo, Kardec servira-se de um conceito para inseri-lo em um modelo metodológico, pois não tivera a intenção de construir mais uma fé igrejeira, antes o objetivo de conferir bases à experimentação e à crença em um mundo preexistente ao físico. Desse modo, se a aventada Espiritologia procura diferenciar-se do Espiritismo nesse ponto, deveria abster-se de recorrer a meios físicos, materiais, palpáveis, como o de usar mecanismos psíquicos para a libertação do ego, pois, em se manifestando o psiquismo no mundo mateerial, por meio do cérebro, ele acaba fazendo parte da própria ilusão de que tenciona desvencilhar-se.

 

    Agora, só não entendo por que V. Sa., não se afeiçoando ao Espiritismo e procurando separá-lo como joio em meio ao trigo, continua enviando mensagens a um grupo cujo objetivo seria, a priori, defender a Doutrina Espírita. Desse modo, encontrei erros de referência doutrinária e coisas especiosas nas mensagens anônimas da ONG do Círculo São Francisco, como a que atribuiu a Kardec a idéia de ser o Espiritualismo superior ao Espiritismo. Onde está essa afirmativa em toda a Codificação? Não me adentro aqui no mérito da idéia de subordinação de um a outro, mas tão somente no aspecto de erroneidade da referência. E, se o Ser anônimo incorre em tal equívoco de leitura, é que ele não se libertou ainda do próprio ego e procura agir à maneira de Procusto, apertando aqui e esticando ali, para acomodar a própria ideologia no espaço egóico do qual dispõe. Por fim, vale interrogar: onde V. Sa. pôde ler na Codificação essa natureza de religião como a põe na mensagem infra-referida? Seria interessante compulsar a opinião de Kardec na edição de dezembro da Revista Espírita de 1868, intitulada Discurso de abertura pelo Srº. Allan Kardec: Espiritismo é uma religião? Note-se também ser inaudita essa acepção do vocábulo Espiritologia, pois ele já existe de há muitíssimos anos, a constar, por exemplo, da Enciclopédia de Parapsicologia, Metapsíquica e Espiritismo, de João Teixeira de Paula, edição de 1972, como ciência ou tratado de Espiritismo. Perdoe-me a divergência, mas não roboro nem corroboro essas interpretações da Doutrina Espírita. Amplexos fraternais,

 

    Ricardo

 

 

 

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