PORQUE O ESPIRITISMO
INCOMODA
Este artigo foi escrito logo depois de um
debate na televisão, entre o autor e um sacerdote católico, no dia 18 de
dezembro de 2003
A
mediunidade é conhecida e registrada desde tempos remotíssimos. Conheceram-na
os egípcios, os gregos e os hebreus. Os registros mais acessíveis
encontramo-los no Judaísmo, no assim chamado profetismo. Todos os reis de
Israel eram aconselhados por profetas, quando eles próprios não o eram. Os
profetas, além de anunciarem, por séculos seguidos, a vinda de Jesus, tiveram
presença marcante nas cortes de Israel, cujos reis recebiam, através deles,
orientações e até severas admoestações do mundo espiritual. Os reis, que
não raro eram prepotentes, por não gostarem das advertências recebidas, às
vezes ordenavam severos castigos aos profetas, conforme registra Paulo: “Foram
apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de
pele de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados.” (Heb, 11:
37).
O
Velho Testamento registra inúmeros fenômenos mediúnicos, como o da mão que
surge diante da corte do rei Baltazar e escreve na parede uma mensagem em
língua desconhecida e que foi decifrada pelo profeta Daniel, quando bem jovem,
conforme relato no capítulo 5 do Livro de Daniel. No capítulo 3 do Primeiro
livro de Samuel, este, pela sua mediunidade nascente, informa ao sacerdote Eli
que ele havia caído em desgraça diante de Deus por não educar
convenientemente seus filhos. Nesse
mesmo livro, no capítulo 28, há o registro da visita que o rei Saul fez à
pitonisa de Endor, conforme título dado pelo tradutor João Ferreira de Almeida.
Há traduções mais modernas em que a palavra pitonisa
foi substituída por médium e, há uma
que diz médium espírita. A
impropriedade da expressão é flagrante, pois se existem médiuns desde todo o
sempre, Espiritismo só existe a partir de 1857, quando Kardec cunhou os
vocábulos Espiritismo, espiritista e espírita. Foi ele quem tomou ao latim a palavra medium, na sua forma original, para
designar o intermediário, o profeta, em linguagem própria do Espiritismo. Por
aí pode-se avaliar o grau de desconhecimento, ou o desejo de confundir... Na
citada passagem, fica patenteada a conversa do rei Saul com o espírito Samuel,
através daquela mulher. Nessa oportunidade, o rei foi advertido que, se
entrasse na batalha, morreria ele e morreriam seus filhos. Ele, que era
prepotente, como estava a buscar apoio e não conselho, entrou em luta com os
Filisteus e morreu, juntamente com os filhos, como fora previsto pelo Espírito.
Há, ainda, os que invocam a proibição de se consultarem os mortos, contida no livro Deuteronômio, capítulo 18, a ela referindo-se como lei de Deus. Como se sabe, as Leis de Deus são as dos Dez Mandamentos. Essa proibição faz parte dos regulamentos disciplinares de Moisés, que pretendeu, com essa medida, coibir os abusos do intercâmbio mediúnico, com o que o Espiritismo concorda plenamente, com a única diferença de não proibir, mas apenas desaconselhar, vez que o Espiritismo não proíbe nada... A mediunidade, segundo se aprende no Espiritismo, deve ser usada para fins nobres, de interesse geral, e não para conversa miúda.
Deve-se
ressaltar, entretanto, que a própria proibição de Moisés constitui prova
concludente a respeito da existência do fenômeno mediúnico, pois ninguém proíbe
o que não existe. As leis são sempre feitas a
posteriori, isto é, para proibir ou regulamentar uma atividade já
existente. Por que não há lei que proíba alguém voar sobre o quintal do seu
vizinho? Simplesmente porque o homem não voa. Mas, no momento em que se
inventar um aparelho que possibilite o vôo individual ao homem, haverá
certamente leis que irão resguardar a privacidade das pessoas, prevendo punição
àqueles que as transgredirem. A própria existência da lei constituirá prova cabal
de que, a partir de determinada época, o homem começou a voar...
Quem
pode negar a condição de médium aos
profetas bíblicos? A palavra profeta,
na sua origem, já indica a condição de medianeiro, de intermediário. A
edição da Bíblia Sagrada da Editora das Américas (vol. 15), na sua Introdução
Geral dos Livros do Antigo e Novo Testamentos, diz que os homens que recebiam
as manifestações divinas eram conhecidos por nebi-in (plural de nabi), que significa “aquele que fala em
nome de alguém”. Quando os textos bíblicos começaram a ser traduzidos em Grego,
a palavra nabi foi traduzida pelo
termo prophetes.
O
termo grego é formado pelo prefixo pro, que
significa em lugar de e phetes, que quer dizer locutor, logo aquele que fala em lugar
de alguém, por alguém.
A
Enciclopédia Britânica diz que a origem da palavra nabi é obscura, mas que suas derivações significam “intensa
excitação”, reportando-se a uma palavra assíria que significa cair
em transe.
Algumas
enciclopédias, como a Britânica e a Americana mostram o verdadeiro significado
da palavra: A Britânica diz que profeta em Grego clássico quer dizer “aquele
que, ao falar, não o faz pelos seus pensamentos, mas por uma revelação de fora”. Cita Platão: “Não devem ser
chamados profetas aqueles que simplesmente interpretam
oráculos, mas aqueles que falam em
transe.”
No
dicionário de Funk & Wagnalls, lê-se: “no contexto bíblico, profetizar é pronunciar verdades religiosas sob
inspiração divina, não necessariamente predizer acontecimentos futuros, mas
admoestar, exortar, confortar”. Exatamente como entende o Espiritismo: os
profetas bíblicos eram médiuns! E existiram profetas maiores, que se
notabilizaram, deixando seus nomes na história, e outros de menor expressão,
que passaram anônimos. O mesmo ocorre na atualidade com os médiuns, sejam eles
espíritas ou não.
É
relevante que se diga que o Dicionário da Bíblia, de John D. Davis, em seu
verbete Espírito Familiar diz:
“Espírito de uma pessoa falecida que os médiuns invocavam para consultas, que
parecem falar desde a terra, ou encarnar-se (sic) no médium, homem ou mulher”.
No Novo Testamento encontramos provas de que o profetismo teve
a sua atividade estimulada. No Cristianismo nascente, a presença da mediunidade
foi marcante. É digna de nota a naturalidade com que são relatados os
fenômenos mediúnicos no Novo Testamento. O Apóstolo Paulo, seguramente a maior
autoridade em assuntos mediúnicos do seu tempo, escreveu o primeiro livro dos médiuns de que se tem notícia.
O Apóstolo revela profundo conhecimento do fenômeno em sua Primeira Carta aos
Coríntios, nos capítulos 12 e 14. Paulo, não só reconhece o exercício mediúnico
como atividade útil, como recomenda o seu desenvolvimento, conforme se lê no
primeiro versículo do capítulo 14: “Segui a caridade, e procurai com zelo os
dons espirituais, mas principalmente o de profetizar.”
No
capítulo 12, Paulo assim se refere à mediunidade: “Mas a manifestação do
Espírito é dada a cada um, para o que for útil." E passa, a seguir, a
enumerar os vários tipos de mediunidade, que João Ferreira de Almeida, na sua
tradução da Vulgata Latina para o Português, intitula Acerca da diversidade dos dons espirituais:
“Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo
Espírito, a palavra da ciência.”
Paulo
continua enumerando os dons, falando
da mediunidade de cura, de efeitos físicos, a que ele chama operação de maravilhas. (A
Parapsicologia diz ectoplasmia).
Chega a dizer do dom de discernir
espíritos, que pode ser interpretado como a mediunidade intuitiva que deve
ter aquele que dirige uma reunião mediúnica, a fim de saber com que espírito
dialoga através de um médium.
Refere-se
também à capacidade de falar línguas,
mediunidade que o Espiritismo cataloga como xenoglossia.
Mas, com o bom senso que lhe conhecemos, adverte judiciosamente, numa demonstração
de que entendia a mediunidade como prática útil, construtiva, edificante: “Mas,
se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo e com
Deus.”
Paulo
entendia o exercício mediúnico como atividade eminentemente prática, não se
perdendo ele em encantamentos místicos. É dentro dessa perspectiva que ele
recomenda: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.” Essa passagem
está inserida num trecho a que João Ferreira de Almeida, em sua tradução,
intitulou: A necessidade de ordem no
culto. O que demonstra ter também o tradutor entendido que a prática
mediúnica requer controle e avaliação.
Essa
necessidade de análise das comunicações é enfatizada também por João (I Jo, 4:
1), quando diz: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os
espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no
mundo.
Essas
duas passagens, primeiro a de Paulo, recomendando seja feito um julgamento após
duas ou três comunicações e a de João, no sentido de se verificar a índole do
espírito que se comunica, servem de resposta aos que dizem que é o Demônio que sempre se comunica. Ora, se
se comunicassem apenas espíritos voltados ao mal, nem um nem outro teria feito
recomendações no sentido de serem feitas as verificações e avaliadas as
comunicações. Teriam, simplesmente, dito que todas as comunicações deveriam ser
recusadas por serem produzidas por espíritos malignos, como querem aqueles que,
teimosamente, negam a mediunidade.
Como é
que hoje, o Padre Juarez, seguindo o mesmo equívoco do Padre Quevedo, diz que a
mediunidade não existe, que se trata unicamente de alucinações, pretendendo
“provar” a inexistência do fenômeno através de espetáculos de palco em que
empregam o hipnotismo? Nisso ambos se revelam bons discípulos do Frei
Boaventura, que subestimava a inteligência dos leitores do jornal Lar Católico, onde publicou
“experiência” feita com um senhor, o qual diz ter levado ao sono letárgico pelo
hipnotismo e o sugestionado, dizendo-lhe que ele era Olavo Bilac, e que ele
imediatamente escreveu um irretocável poema. Ao ser despertado, leu-o e o
identificou como sendo de Bilac.
Entretanto,
se isso fosse verdade, a Ciência poderia avançar mais rapidamente no mundo,
pois poder-se-ia usar jovens com certa vocação para a Física e chamar o Frei
Boaventura a fim de hipnotizá-los e eles, em transe, dariam aulas como se
fossem César Lates ou Einstein. O mesmo se diria de iniciantes no piano que
fossem induzidos a escrever peças de Chopin, Beethoven, Mozart e outros. Ou,
até mesmo, artistas medíocres serem levados pelas artes hipnóticas dos
referidos sacerdotes a pintar ou esculpir como Da Vinci, Michelangelo!
Impressionante é a capacidade desses homens de subestimar a inteligência dos
seus próprios fiéis, usando de afirmativas gratuitas, pois o Frei não publicou,
como seria de se esperar, o dito “poema mediúnico”. (Lar Católico, nº 47, de 18 de novembro de 1956, reportagem
intitulada “Ali mesmo escreveu versos de Olavo Bilac”).
E são
essas pessoas que vêm acusar os espíritas de charlatanismo! Charlatães existem
em todos os lugares do mundo. É muito diferente a situação de uma pessoa que se
diz espírita e frauda, enganando o próximo, daquela que, sob a égide de sua
organização religiosa, se arroga em fazer “ciência” (a inicial minúscula é
intencional), apresentando-se em espetáculos circenses. Há muitas pessoas que
agem por conta própria e não é possível ao Espiritismo controlá-las, vez que
não detém nenhum poder hierárquico sobre ninguém. O Espiritismo não pode
proibir alguém de se dizer espírita e produzir fraudes, o mesmo não acontecendo
com outras religiões, que bem poderiam coibir seus representantes dessas
manifestações, de triste memória no passado, mas que infelizmente estão sendo
ressuscitadas por alguns sacerdotes.
O alvo principal é Chico Xavier. Esse homem ainda incomoda, pois dedicou
toda a sua vida ao bem do próximo, sem nunca postular nada. Sua vida lembra-nos
os cristãos do Cristianismo nascente que, sem serem profissionais, dedicavam todos
os seus momentos de lazer em favor da felicidade do próximo. Falsos doutores,
do alto da cátedra da arrogância, como se viu no programa “Tribuna de Debates”
da TVE, Juiz de Fora, de 18 de dezembro de 2002, sem poderem atacá-lo com
fatos, procuram atribuir sua obra a alucinações, ao inconsciente, como se ele
fosse um alucinado. O inconsciente, segundo esses senhores, é tão poderoso que
produziu mais de 400 obras, que incluem literatura, em verso e prosa, exegese
evangélica, Ciência, Filosofia, dentre outros assuntos.
Por que será que o
Espiritismo incomoda tanto? Será que é porque esclareceu os “mistérios” da vida
e da morte, até então decifráveis apenas pelos teólogos? Será porque apresentou
provas concludentes (para aqueles que têm “olhos de ver e ouvidos de ouvir”) da
imortalidade dos Espíritos? Imortalidade essa baseada na identificação feita à
saciedade por aqueles que não se rendem ao negativismo a priori. Os que a negam, apenas apresentam teorias. Teorias
baseadas em opiniões de teólogos e parapsicólogos de geração espontânea, que
mais se aproximam do materialismo do que do espiritualismo. Complicam o assunto
de tal forma, que o Espírito, segundo eles é algo inacessível à inteligência comum.
Só aos doutos e sábios é lícito perquirir sobre o assunto. E falam em nome de
uma religião que prega a imortalidade da alma!
Por
que será que o Espiritismo incomoda tanto? Será que é porque segue à risca o
“daí de graça o que de graça recebestes”? Os espíritas não promovem pregações
nem espetáculos que objetivem atacar outras religiões. Mas, segundo o Padre
Juarez, ele promove essa campanha para livrar pessoas de psicopatologias
originadas pelo Espiritismo. Será que ele, nos seus estudos “científicos” e
“teológicos”, já fez alguma pesquisa em hospitais psiquiátricos a fim de
levantar estatísticas, procurando saber a origem religiosa e as causas que
levaram os pacientes àquela situação? Quantos hospitais espíritas, dedicados à
cura de males da alma existem? Quantos de outras religiões? Se o referido
sacerdote se entregasse ao trabalho evangélico, simples e humilde como pregou e
exemplificou Nosso Senhor Jesus Cristo, não estaria servindo melhor a religião
que o mantém?
Portador
de séria psicopatologia parece-nos o citado sacerdote, pois na ânsia doentia de
combater o Espiritismo, perde os limites da finura e da humildade que devem ser
observados por aqueles que falam em nome de uma religião. Pregador religioso,
principalmente cristão, não pode ser arrogante, pois a criatura mais humilde,
simples e respeitosa que o mundo conheceu foi exatamente Aquele em cujo nome o
ilustre doutor em teologia disse falar.
Juiz de Fora
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