Procurando compreender I Samuel 28
Introdução
O objetivo deste trabalho é analisar o texto produzido pelo Instituto de Pesquisas Teológicas (IPET), constante no endereço seguinte:
http://www.ipet.hpg.ig.com.br/espiritismo/esp_001.html
Julgo ser esse texto um dos melhores, senão o melhor, dos que tem sido usados como resposta aos espíritas para negar a comunicação com os mortos, tal como se encontra no texto bíblico de I Samuel. O tema de nosso estudo tem preocupado muito alguns teólogos, pois oferece sérias dificuldades aos opositores que, no afã de negar a todo custo a comunicabilidade com os espíritos, embora claramente narrada em I Samuel 28, fazem disso uma negação que atropela, inelutavelmente, a tese de inerrância bíblica, que com tanto zelo defendem.
Em linhas gerais, conforme narrado neste livro e capítulo, nos versículo de 7 a 17, vemos Saul em casa da pitonisa de Endor conversando com o espírito de Samuel que, como sabemos, já se encontrava no mundo espiritual. Isto ocorre mesmo depois da proibição da Lei de Moisés e do próprio Saul, como rei de Israel, ter expulsado os necromantes e adivinhos do país. Este episódio é muito interessante, porque semelhantemente ao que aconteceu com o Cristo, que conversou com Moisés e Elias no monte Tabor (Mateus 17:1-13), ocorre também um diálogo entre o rei Saul (vivo) e o profeta Samuel (morto).
É importante, ainda, registrar que no episódio narrado tudo que o espírito de Samuel disse e predisse ocorreu, bem como a seriedade e elevação de sua linguagem, as quais atestam inapelavelmente em prol da legitimidade do fenômeno mediúnico ocorrido. É isso o que, infelizmente, os opositores ou críticos deste fenômeno não percebem, se esforçam por não perceber e buscam fazer com que outras pessoas também não percebam.
Naturalmente poderíamos questionar quanto ao motivo que levou Saul a buscar orientações com o espírito Samuel, já que este não deveria ser o objetivo de intercâmbio com os espíritos, como bem recomenda Kardec. Mas isso será ventilado mais abaixo, no momento oportuno.
Análise do Texto
Deixarei na íntegra o texto de Carlos Bernardo, intercalado por meus comentários, na medida em que isso se fizer necessário. Os destaques são nossos.
Procurando compreender I Samuel 28
Por Carlos Eduardo Bernardo
do IPET - Instituto de Pesquisas Teológicas
Porque este texto?
Provavelmente este é um dos textos mais usados pelos ocultistas - espíritas, esotéricos, etc. – podem usar no diálogo com os cristãos, com o intuito de afirmar a possibilidade e uma suposta aprovação de Deus - mediante as Escrituras - à comunicação entre vivos e mortos. Afirmam eles que, a clareza e ao mesmo tempo a literalidade da narrativa demonstram, de forma inequívoca, que era realmente o espírito de Samuel quem comunicara-se com Saul através da médium (usando em especial os versículos 12, 15 e 16 e eles desconsideram por absoluto a hipótese de manobra fraudulenta da mulher ou intervenção diabólica.
Sem dúvida, “este é um dos textos mais usados” pelos que crêem na comunicabilidade, sejam estes espíritas, ocultistas, esotéricos, etc, pois tanto a clareza quanto a “literalidade da narrativa”, além de outros fatores, nos levam a desconsiderar, em absoluto, a ”hipótese de manobra fraudulenta da mulher ou intervenção diabólica”. Até aqui o autor está corretíssimo, não temos nada a discordar. Os versos citados mais alguns não citados relativos ao episódio, conforme veremos abaixo, não dão mesmo qualquer margem a estas hipóteses, além de revelar uma nuance pouco percebida da proibição mosaica, pois ela não visava proibir a comunicação em si, pois que esta era possível, mas sim a forma com que ela se processava bem como o uso que dela faziam, o que discutiremos em momento oportuno. Mas voltemos aos passos e vejamos o que nos dizem os textos sobre QUEM, DE FATO, se manifestou neste polêmico episódio:
I Samuel 28
12 Vendo, pois, a mulher a Samuel, gritou em alta voz, e falou a Saul, dizendo: Por que me enganaste? pois tu mesmo és Saul.
15 Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então disse Saul: Estou muito angustiado, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim, e já não me responde, nem por intermédio dos profetas nem por sonhos; por isso te chamei, para que me faças saber o que hei de fazer.
16 Então disse Samuel: Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito teu inimigo?
17 O Senhor te fez como por meu intermédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi.
18 Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor, e não executaste e furor da sua ira contra Amaleque, por isso o Senhor te fez hoje isto.
20 Imediatamente Saul caiu estendido por terra, tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e não houve força nele, porque nada havia comido todo aquele dia e toda aquela noite.
Eclesiástico 46:13-20 - Samuel foi amado pelo seu Senhor, do qual era profeta. Ele instituiu a monarquia e consagrou chefes do seu povo. Governou a comunidade conforme a Lei do Senhor, e o Senhor visitou Jacó. Por sua fidelidade, mostrou que era profeta, e por suas palavras foi reconhecido como verdadeiro vidente. Quando os inimigos o comprimiam de todos os lados, ele invocou o Senhor Todo-poderoso, oferecendo um cordeiro recém-nascido. Então, do céu o Senhor trovejou e, com forte estrondo, fez ouvir a sua voz, aniquilando os chefes do inimigo e todos os príncipes dos filisteus. Antes da hora de repousar para sempre, deu testemunho diante do Senhor e do seu ungido: "Nem dinheiro, nem sandálias eu tomei de quem quer que seja". E ninguém ousou acusá-lo. Mesmo depois de sua morte, ele profetizou, predizendo ao rei o seu fim. Mesmo do sepulcro, ele levantou a voz, numa profecia, para apagar a injustiça do povo.
Conforme exposto, atribuir o episódio à mistificação ou a demônios, quando o próprio enunciado bíblico é tão claro e taxativo, é evidente contra-senso. Daí termos por certo que, excepcionalmente ou não, foi o próprio Samuel espírito quem se manifestou a Saul. E se ocorreu naquela ocasião, por que não pode ocorrer em outras?
A opinião acima expressa nada mais é que o pensamento de eminentes teólogos católicos, entretanto, muitos teólogos evangélicos conceituados concordam esta posição dentre os quais Josh Mc Dowell, Mark Albrecht e Brooks Alexander - todos apologétas cristãos notórios e altamente capacitados - entretanto, apesar de respeitarmos e amarmos esses irmãos em CRISTO JESUS, não podemos concordar com tal compreensão daquela passagem bíblica, e, não estamos sozinhos em nossa atitude, antes, outros teólogos cristãos renomados têm compreendido de modo semelhante a nós o capítulo vinte oito (28) do Primeiro Livro de Samuel, dentre os quais citamos, o Pr. e Heresiólogo Raimundo de Oliveira, os apologetas Miguel Albanez e Pr. Natanael Rinaldi e a equipe de teólogos comentaristas da Bíblia Vida Nova na sua maioria cristãos de confissão batista.
Primeiramente, opinião de teólogo não deixa de ser apenas mais uma opinião, e isso, por si só, não prova absolutamente nada, pois eles podem ser tanto mais suspeitos quanto compromissados estiverem com os dogmas de suas igrejas. Além disso, tem sido comum o uso de argumentos de apelo à autoridade, recorrendo-se para isso à opinião de pessoas respeitáveis quando se pretende reforçar uma tese. Em relação a isso, seria recomendável e o bom senso exige que, antes de nos curvarmos a títulos de fama, procuremos saber primeiramente que argumentos estão sendo usados e se estes realmente merecem nosso crédito. Neste aspecto, penso que o articulista foi muito breve ao expressar a opinião contrária, pois acho que seus defensores teriam muito mais a dizer sobre importante tema. Mesmo assim, a questão de concordar ou não é um direito que todos temos, e ela pode estar perfeitamente em consonância com os que defendem a opinião contrária do autor, tais como os espíritas, ocultistas, esotéricos, etc, posição esta ironicamente compartilhada pelo “pensamento de eminentes teólogos católicos”, e defendida por “teólogos evangélicos conceituados concordam esta posição dentre os quais Josh Mc Dowell, Mark Albrecht e Brooks Alexander - todos apologétas cristãos notórios e altamente capacitados”, conforme o próprio autor reconhece. Mas, por outro lado, a concordância também pode estar em aceitar a opinião de uns pouco conhecidos “teólogos cristãos renomados”, todos estes por incrível coincidência heresiólogos e apologetas, o que nos deixa com suspeitas e nos leva a crer que estejam bem compromissados com os dogmas de suas igrejas. Em contrapartida, já que houve a citação dos teólogos, convém notar que esta posição dos teólogos primeiros, ao contrário dos últimos, segue em estrita coerência com a tese da inerrância bíblica, da qual um de seus mais ardorosos defensores é justamente o Sr. Josh Mc Dowell, autor daquele famoso clássico intitulado “Evidência que exige um veredicto”, do qual eu fui um dos leitores. Mas estranho é constatar que um teólogo dessa envergadura (já que falamos da opinião de autoridades), defenda justamente uma idéia combatida como ocultista, espírita, esotérica, etc, conforme nos diz autor do texto em análise. Creio seja este um fato digno de nota.
Procuraremos por meio deste orientar os irmãos e a todos os demais interessados, numa apreciação cristã-ortodoxa do texto em epígrafe, procurando sempre ser fiéis ao ensino escriturístico sobre o assunto em pauta e apelando às evidências internas, que cremos serem suficientes para elucidar qualquer dúvida, que porventura venha a perturbar os vossos corações.
É o que veremos no desenrolar do texto. Nesta análise criteriosa, testaremos as teses defendidas pelo autor, usando os mesmos critérios invocados por ele:
1. “sempre ser fiéis ao ensino escriturístico”
2. “apelando às evidências internas”
Também penso que o resultado dessa análise será mais do que suficiente “para elucidar qualquer dúvida, que porventura venha a perturbar” os corações daqueles que primam pela busca da verdade, ainda que esta não seja aquilo que esperavam ou desejavam para si.
Observações introdutórias
Bem, primeiramente devemos perguntar, quem forneceu as informações - ou mesmo escreveu - que compõem este capítulo?
A própria Bíblia nos informa que o nome do profeta Samuel, deve ser descartado, pois: “Já Samuel era morto, ...” I Sm.28:3 9
As Escrituras, não nos indicam ter sido Saul, e, é improvável que o tenha sido, pois este estava desesperado ante o avanço dos filisteus, de tal modo que não se daria ao luxo de ocupar-se numa atividade literária de tamanha monta.
Oras, pela minúcia com qual os acontecimentos são descritos, podemos concluir que somente uma - ou mais - testemunha(s) ocular(es) poderiam ter fornecido ao escritor sacro todas as informações contidas no capítulo.
Bom, se alguém forneceu a informação, creio ser isto fato secundário se partirmos do princípio de que o que ali se encontra é infalível, portanto, não sujeito a erros, pois se tem que tudo quanto consta da Bíblia é de inspiração divina. E de acordo com a famosa “Declaração de Chicago sobre a Inerrância das Escrituras”:
Afirmamos que a inspiração, embora não outorgando onisciência, garantiu uma expressão verdadeira e fidedigna em todas as questões sobre as quais os autores bíblicos foram levados a falar e a escrever.
Negamos que a finitude ou a condição caída desses escritores tenha, direta ou indiretamente, introduzido distorção ou falsidade na Palavra de Deus.
Negamos que se possa reduzir a inspiração à capacidade intuitiva do homem, ou a qualquer tipo de níveis superiores de consciência.
(Artigos VI e VII, de Afirmação e Negação)
Em vista disso, para o articulista e os teólogos que advogam suas idéias, os quais presumo partidários da inerrância, creio estarem diante de pelo menos duas possibilidades, onde ambas os colocam em posição assaz embaraçosa:
- Na primeira, a de Samuel haver de fato se comunicado, necessário é admitir a possibilidade e autenticidade de uma comunicação com os mortos, embora a forma com que faziam isso seja fato proibido pela lei mosaica.
- Na segunda, a de Samuel não ter falado, a coisa então fica pior, pois terão que admitir que a Infalível Bíblia veio a falir justamente neste ponto, tendo reduzido ao pó sua tão propalada inerrância.
Portanto, temos aí uma flagrante violação do primeiro critério. Prossigamos para ver o que segue adiante.
Não cremos ter sido a médium, posto que, se assim fosse, a descrição da visualização do espírito, seria mais precisa e de uma ótica diferente - note-se que a narrativa começa com acontecimentos que precederam em muito o aparecimento da médium em cena e são tão acurados quanto ao restante do capítulo. Deduzimos então, que provavelmente todas a informações deste capítulo procedem do testemunho de ao menos um dos servos de Saul. Isso é muito provável, pois foi a eles que Saul pediu que encontrassem uma médium e os mesmos demonstraram conhecê-la de antemão, posto que sabiam exatamente onde havia uma (v.7), a despeito da proibição real (vs.3, 9). Habitualmente esses servos eram estrangeiros (cf. I Sm.21:7; 26:6: II Sm.23:25 à 39), e, pagãos, que provavelmente criam nos poderes mediúnicos daquela mulher - caso contrário não haveria sentido em indicá-la ao rei - obviamente, estes fatores justificam, o estilo tão convincente da narrativa.
Deixando um pouco de lado as hipóteses e probabilidades sobre quem teria sido o narrador, posto que foi demonstrado em segmento anterior a importância secundária disso. O simples fato de alguém saber que em algum lugar existe uma pessoa que faz alguma coisa, não significa, necessariamente, que este alguém a conheça pessoalmente e menos ainda que compartilhe de suas práticas e idéias. Pois de acordo com o relato do capítulo em análise, versículo 7, encontramos:
Então disse Saul aos seus servos: Buscai-me uma necromante, para que eu vá a ela e a consulte. Disseram-lhe os seus servos: Eis que em En-Dor há uma mulher que é necromante.
Por força de “evidência interna”, enquanto os servos de Saul demonstraram saber de antemão onde encontrariam uma necromante, Saul não ignorava esse fato. Se existia uma proibição real à necromancia, evocação dos mortos para fins de adivinhação, é porque ela existia e era praticada na época, mas é importante deduzir desses relatos que se é provável que seus servos acreditavam nos “poderes mediúnicos daquela mulher”, é fato positivo e inconstestável que eles a indicaram não por acreditarem em seus poderes, mas por determinação do rei, pois este sim demonstrou acreditar, sem qualquer sombra de dúvida, em suas faculdades mediúnicas. Até aqui, nada há que invalide a identidade do espírito comunicante.
Tudo isso significa que o escritor sacro, narrou os acontecimentos do ponto de vista do(s) servo(s) de Saul - da mesma forma que os escritores sacros, em outras partes da Bíblia, falam do ponto de vista humano (cf. Ec.3:19; 5:18; 9:7, 9,10) - entretanto, não significa que devamos interpretá-los sob o mesmo ponto de vista, ou pressupor que tal análise está perfeitamente correta para o povo de DEUS ou ainda como sendo um exemplo de prática a ser seguido e autorizado por DEUS em Suas Escrituras, como o que infelizmente muitos vêem fazendo.
Se o ponto de vista dos narradores está errado, então errado fica o texto bíblico, reputado Infalível. De acordo com a famosa “Declaração de Chicago sobre a Inerrância das Escrituras”:
4. Tendo sido na sua totalidade e verbalmente dadas por Deus, as Escrituras não possuem erro ou falha em tudo o que ensinam..."
"5. A autoridade das Escrituras fica inevitavelmente prejudicada, caso essa inerrância divina absoluta seja de alguma forma limitada ou desconsiderada, ou caso dependa de um ponto de vista acerca da verdade que seja contrário ao próprio ponto de vista da Bíblia; e tais desvios provocam sérias perdas tanto para o indivíduo quanto para a Igreja. "
(Uma Breve Declaração, quesitos 4 e 5)
Deste modo, não há como aceitar possível falha de seus autores, sem limitar ou desconsiderar de alguma forma a autoridade das Escrituras. Ou aceitamos essa limitação do texto bíblico à opinião errônea de seus autores, e então seremos livres e coerentes para aceitar ou rejeitar a identidade do espírito comunicante, ou então acreditamos nessa Infalibilidade, da forma como foi descrita, sem poder negar, em prejuízo do bom senso, que o espírito comunicante foi Samuel, de fato. Não há como fugir a este impasse.
Podemos acrescentar ainda a opinião dos tradutores da Bíblia Vozes que, rompendo os dogmas de sua Igreja, diz sobre o episódio:
“O narrador, embora não aprove o proceder de Saul e da mulher (v.15), acredita que Samuel de fato apareceu e falou com Saul: isto Deus podia permitir. Logo, não é preciso pensar em manobra fraudulenta da mulher ou em intervensão diabólica. Toda a cena pinta ao viso o abandono e desespero de Saul que est5á prestes a alcançar o ponto mais baixo da rejeição de Deus (15,23-30.35; 16,1; 31). (grifo nosso).
Cremos que Deus permitiu ao escritor de I Samuel, agir desta forma, primeiro para que fosse demonstrada a fidelidade das Escrituras ao narrarem acontecimentos históricos e segundo porque Ele sabia que o texto considerado em seu contexto tornaria possível saber que aquele espírito não era de Samuel.
O autor se mostra deveras criativo, por saber o pensamento de Deus(!), e assim, com o mesmo direito dele, posso de igual modo dizer que Deus permitiu ao escritor de Samuel agir desta forma, pelos seguintes motivos:
Para mostrar que embora a necromancia fosse fato proibido, essa proibição não era fator impeditivo a uma comunicação verdadeira,
Porque ele sabia que devidamente analisado em seu contexto, pelo teor da linguagem e cumprimento de tudo que o espírito Samuel disse e predisse, seria possível dar legitimidade a essa comunicação,
E porque se Deus permitiu a Samuel manifestar-se foi para mostrar que o foco da proibição não era a comunicação em si, mas o modo como ela se processava, daí o porquê da concessão.
É notório que o Espírito de Deus não agiu - no exercício de composição das Escrituras - desta forma apenas nessa passagem, um dentre vários outros exemplos encontram-se no livro de Jó, onde vemos a seguinte afirmação depois de um ato miraculoso:
“Falava este ainda quando veio outro, e disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas ...” Jó 1:16
O contexto indica claramente que não foi Deus quem enviou fogo do céu, para aumentar a desgraça de Jó, porém no entender daquele servo - ou seja do seu ponto de vista - aquilo era um ato de Deus, o escritor sacro, não alterou a sua narrativa para adaptá-la aos fatos, antes, manteve-a cônscio de que o contexto seria o suficiente para demonstrar o erro de tal ponto de vista.
O contexto é sempre importante para entendermos não somente o pensamento do autor, mas também para indicar corretamente quando a opinião expressa é do autor da narrativa e quando pertence a terceiros. No caso do polêmico texto, a opinião é do autor da narrativa, e partindo do princípio de que ele foi inspirado, de que segundo a Declaração de Inerrância, suas opiniões expressas foram todas “verbalmente dadas por Deus” e que nesse aspecto “não possuem erro ou falha”, não se pode admitir erros em sua opinião. Tal similitude não é encontrada no caso citado do livro de Jó, pois neste o narrador expressa a opinião de um terceiro, e não a sua.
Não questionamos, a sinceridade da médium na sua crença de uma real manifestação do espírito de Samuel, já que uma crença sincera não implica necessariamente em que o objeto da crença seja uma verdade, ela poderia estar sinceramente enganada, e, é exatamente isso que procuraremos demonstrar na argumentação à seguir, passemos então à apreciação mais detalhada desta passagem enigmática, tendo em mente tudo o que foi dito até o presente momento.
A crença de uma pessoa é sempre de fórum íntimo. Seja ela racional ou irracional, seja num inferno eterno, ou num céu contemplativo, ou em diabos e demônios como seres incapazes de se arrepender, ou mesmo em fadas, duendes, papai-noel, etc. Seja esta crença sincera ou insincera, e desde que não fira a liberdade de outrem se tornando elemento de perseguição, não nos compete julgar nem adentrar esse terreno. Daí todos são livres para aceitar e acreditar no que queiram. Por conseguinte, não podemos deixar de observar que o simples fato de alguém crer em alguma coisa e praticá-la não a torna certa, se ela for errada. A recíproca também vale. Por isso, a parte que nos cabe é apenas mostrar aquilo que reputamos por verdadeiro, trazendo à baila nossos argumentos, para juízo daqueles que se interessam seriamente em conhecer os dois lados da questão. E dentro desse objetivo prosseguiremos no mesmo ritmo do autor, a uma “apreciação mais detalhada desta passagem” que ao contrário dele, para nós nada tem de enigmática, e sem perder de vista “tudo o que foi dito até o presente momento”, como bem já disse o dedicado missivista.
Razões para não crer que era realmente o espírito de Samuel
A Bíblia informa-nos de modo categórico que Deus não respondeu de forma alguma ao rei Saul:
“Consultou Saul o Senhor, porém este não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.” I Sm.28:6
No hebraico o verbo deixa claro que Deus, não respondeu, não responde e não responderá nunca, e isso é facilmente explicado, pelo fato que tentar consultar a Deus por meio de práticas ocultistas - divinatórias, espíritas ... – constitui-se em não consultar ao Senhor, mas sujeitar-se à forças alheias a Ele e por Ele condenadas (cf. Dt.18:9 à 14),
Prefiro ficar com a clareza cristalina do texto, o qual especifica de que modo Deus não lhe respondeu, ou seja, "nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas". Importa ressaltar que o fato principal não é tocado, ou seja, por qual motivo Saul queria consultar a Deus. Era porque os filisteus estavam prestes a invadir Israel e Saul queria saber o que lhe aconteceria. Para entendermos a causa do desvio de Saul, precisamos recorrer ao histórico do ocorrido, no capítulo 15, onde encontramos:
2 Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito.
3 Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos.
Porém, ao invés de cumprir rigorosamente esta "ordem divina", Saul fez o seguinte:
8 E tomou vivo a Agague, rei dos amalequitas; porém a todo o povo destruiu ao fio da espada.
9 E Saul e o povo pouparam a Agague, e ao melhor das ovelhas e das vacas, e as da segunda ordem, e aos cordeiros e ao melhor que havia, e não os quiseram destruir totalmente; porém a toda a coisa vil e desprezível destruíram totalmente.
Nos versos seguintes é relatada a indignação divina:
10 Então veio a palavra do SENHOR a Samuel, dizendo:
11 Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras. Então Samuel se contristou, e toda a noite clamou ao SENHOR.
Vejam a que ponto chega a ingenuidade humana, em admitir que Deus tenha mandado matar além dos soldados, as mulheres, os meninos e crianças de peito até mesmo os animais. Esqueceram que um dos dez mandamentos é justamente o "Não Matarás". Mais ainda, por que matar os inocentes, como as mulheres, crianças e animais? A atitude divina é vingativa, pois manda matar a um povo (Amalec) só porque ele tinha barrado o caminho do povo hebreu quando estava saindo do Egito. Onde fica, então, o “perdoar setenta vezes sete”? Mais ainda, sabemos ser Deus infinito em todos os seus atributos: é perfeito, é imutável, é imaterial, é único, é onipotente, é onisciente, é onipresente, é soberanamente justo e bom. E se Deus é perfeito, por que aparece se arrependendo de algo que tenha feito?
Saul, preocupado com a situação em que se encontrava diante do exército dos filisteus, queria a qualquer custo saber o que lhe aconteceria naquela guerra. Entretanto, antes de ir consultar a pitonisa de En-dor, fez o que era costume da época: consultou ao Senhor.
por esse motivo o cronista pode dizer que:
“... Saul ... interrogara e consultara uma necromante e não ao Senhor ...” I Cr.10:13 à 14.
Se Saul apelou à necromante, é porque sabia perfeitamente ser possível obter as informações que precisava, e isso é uma prova bíblica que os mortos se comunicam. Mas o cronista apelou feio, pois ao contrário do texto de I Samuel 28:6, Saul foi procurar a necromante justamente por haver antes interrogado e consultado ao Senhor, do qual não obteve a mínima resposta. Enfim, pergunto qual das narrações inspiradas e Infalíveis está com a razão? Deste modo, com efeito, vale lembrar aquela famosa frase de Jerônimo: "A verdade não pode existir em coisas que divergem". Um dos narradores está com a razão, e forçosamente o outro está sem ela. Eis aí mais um dilema a que chegam os defensores da inerrância bíblica.
Os versículos em lume falam de modo totalmente concorde com o contexto escriturístico que haviam basicamente três formas pelas quais Deus revelava sua vontade aos homens em casos específicos, são elas:
Três formas eram permitidas e uma era proibida, a de consultar os necromantes. Todas tratavam da forma com que buscavam orientações espirituais. Mas nenhuma delas constituiu-se em fator impeditivo para uma legítima manifestação mediúnica, tal como encontramos no relato de Saul com a pitonisa e no relato da transfiguração de Jesus (Mateus 17:1-13). Mas que tal fazermos agora um exame crítico nas formas permitidas? É o que faremos agora.
1) Revelação sacerdotal: "nem por Urim";
Vamos recorrer ao Dicionário Bíblico Universal, pois lá encontramos as palavras urim e tumim, cujo significado é:
"Palavras de sentido incerto: designam uma técnica divinatória que consiste em tirar a sorte várias vezes, usando duas pedrinhas ou bastõezinhos ou algum objeto semelhante. Um dos objetos trazia a primeira letra do alfabeto, o alef, inicial de urim, e o outro a última letra, o tau (cf. Ez 9,4), inicial de tumim? Pode-se imaginar isso. O modo como funcionava aparece em 1 Sm 13, 41-42, corrigido segundo o grego: “Saul disse: ‘Se a culpa está em mim... o Senhor... faça dar urim; se a culpa está em Israel, que dê tumim!’ Saul... foi designado. Saul disse: ‘Lançai a sorte sobre mim e meu filho Jônatas!’, e a sorte caiu em Jônatas”. Trata-se portanto de uma resposta por sim ou não, que vai progredindo por precisões sucessivas (cf. 1 Sm 23, 9-12) A operação poderia durar muito tempo (1 Sm 14, 18-19, corrigido segundo o grego). Acontecia às vezes que o oráculo se recusava a responder (1 Sm 14, 37, 28, 6). Sem dúvida, quando não saía nada ou quando os dois resultados saíam ao mesmo tempo. A manipulação das sortes era confiada ao sacerdote Eleazar (Nm 27, 21) ou à tribo de Levi (Dt 33, 8). Depois do reinado de Davi só se encontra uma menção (Esd 2, 63 = Ne 7, 65)."
Para que isso fique ainda mais claro, vejamos o que consta na nota de rodapé de Eclesiastes 45:10:
"O peitoral do julgamento era uma espécie de bolsa onde se guardavam os reveladores da verdade (urim e tumim), espécie de dados coloridos, pelos quais o sacerdote dava as respostas oraculares aos fiéis, em nome de Deus”.
Eis aí, prezado leitor, uma das maneiras PERMITIDAS pela qual consultavam a Deus. Era jogando uma "espécie de dados coloridos", o que hoje está mais para um cara ou coroa. Com efeito, era através da sorte que Deus respondia às consultas. E se, não raro, a consulta a Deus era feita deste modo, por que então não poderiam consultar a um morto? Quem sabe se a resposta não seria diferente da que foi obtida por pura sorte?
2) Revelação pessoal: "nem por sonhos";
Este é um tipo de revelação usado nos dias de hoje por alguns "iluminados" que conseguem falar diretamente com Deus, é como se diz popularmente: "nem por sonhos". Isso porque qualquer coisa que sonhassem poderia servir para dizerem que era de Deus, e ao atribuírem isso a uma revelação divina, quem ousaria contestar?
3) Revelação inspiracional divina: "nem por profetas"
Por falar em profeta, há uma passagem interessante em I Samuel 9:9,19, de onde tiramos:
9 (Antigamente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia assim: Vinde, e vamos ao vidente; porque ao profeta de hoje, antigamente se chamava vidente).
19 E Samuel respondeu a Saul, e disse: Eu sou o vidente; sobe diante de mim ao alto, e comei hoje comigo; e pela manhã te despedirei, e tudo quanto está no teu coração, to declararei.
Assim, segundo o texto, o profeta Samuel era um vidente, em outras palavras, um médium que o povo consultava para saber as respostas de Deus. Não importava sobre quais coisas iam consultar, pois neste relato Saul foi a Samuel para que ele indicasse onde se encontravam as jumentas desaparecidas de seu pai.
Esta terceira é a que nos deteremos à analisar sucintamente; o verso nos informa que Deus não respondeu sequer por meio de revelação inspiracional - ou seja de profetas - oras, Samuel era um profeta e não poderia falar, senão por inspiração divina, se realmente fora Samuel que comunicara-se com Saul, suas palavras só poderiam provir de inspiração divina portanto seria o próprio Deus respondendo, mas, as Escrituras nos dizem que Deus não respondeu, logo não foi Samuel quem realmente transmitiu a suposta profecia.
Em relação a essa terceira forma, já verificamos que Deus não respondeu a Saul pelos três meios especificados em I Samuel 28:6, logo isso não descarta a possibilidade de lhe responder por outras vias, e foi o que fez através de Samuel (morto) por meio de tudo que ele disse e predisse, conforme todos os textos que tratam do assunto, os quais nem ao menos apresentam divergências entre si, no que tange a quem, de fato, se manifestou. Mas revisemos novamente o trecho introdutório da comunicação, que corrobora nossa análise:
I Samuel 28
16 Então disse Samuel: Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito teu inimigo?
17 O Senhor te fez como por meu intermédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi.
18 Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor, e não executaste e furor da sua ira contra Amaleque, por isso o Senhor te fez hoje isto.
20 Imediatamente Saul caiu estendido por terra, tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e não houve força nele, porque nada havia comido todo aquele dia e toda aquela noite.
De fato, Samuel era profeta e como tal, não poderia falar senão por inspiração divina, e nada encontramos no trecho citado que desabone isso. Aliás, é bom repetirmos que na própria Bíblia está a confirmação de que Samuel “mesmo depois de sua morte, ele profetizou, predizendo ao rei o seu fim. Mesmo do sepulcro, ele levantou a voz, numa profecia, para apagar a injustiça do povo“ (Eclesiástico 46:13-20).
Segundo, diz-nos o narrador “Saul disfarçou-se” e foi ter com a médium (v.8), mas, ponderemos não estaríamos sendo ingênuos ao acreditar que tal disfarce tenha convencido a médium. Por que dizemos isso?
Bem, a própria Escritura nos diz que Saul “desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo” (cf. I Sm.9:2). Isso significa que em Israel não havia homem mais alto que Saul, portanto cremos que seria difícil a ele disfarçar-se de forma que alguém não o reconhecesse.
Segundo o texto, verso 8, "Saul se disfarçou, e vestiu outras roupas", o que por si já denuncia a fragilidade de argumentos do crítico, pois se ele vestiu outras roupas é porque lhe serviam, o que demonstra que ele não era assim tão alto como supõe o autor. Oportuno agora é conferir o texto que contém o isolado e minguado trecho, invocado por ele para dar suporte ao argumento:
I Samuel 9
2 Este tinha um filho, cujo nome era Saul, moço, e tão belo que entre os filhos de Israel não havia outro homem mais belo do que ele; desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo.
Observem que o texto ressalta a beleza de Saul e não sua altura, daí porque "desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo". Além disso, para uma pessoa reconhecer outra disfarçada, ela terá que conhecer muito bem essa pessoa. Será que essa mulher de Endor conhecia o rei a ponto de reconhecê-lo disfarçado mesmo à noite? Voltaremos a este caso mais adiante.
Também quando o “forasteiro” disse à mulher que queria que ela lhe fizesse uma consulta mediúnica, ela replicou-lhe, lembrando-lhe o que o rei havia feito aos médiuns e adivinhos - insinuando até que sua vinda à sua casa poderia ser uma cilada - (v.9). Em resposta o “forasteiro”, garantiu-lhe - sob juramento - que nenhum castigo sobreviria à mulher se ela lhe fizesse o que ele lhe pedia (v.10).
Mas, arrazoemos, de que valeria a palavra de um “forasteiro” - mesmo que sob juramento - diante da palavra do rei, poderia ele garantir que a mulher não sofreria nenhum castigo, enquanto o edito do rei dizia o contrário? É óbvio que um “forasteiro” disfarçado jamais poderia garantir tal coisa, à menos que fosse o próprio rei.
As considerações são importantes, mas o texto nada revela sobre Saul ter sido reconhecido pela necromante, isso ocorre somente depois. O que podemos dele deduzir é tão somente que Saul não estava com intenção de armar uma cilada, daí o juramento, e por isso ela não precisava se preocupar, coisa que qualquer um faria naquelas circunstâncias, se lhe interessasse sobremodo uma consulta com a necromante. E muito provavelmente, o motivo da desconfiança até justificável se deve a outras ciladas armadas a outras necromantes por “forasteiros”, conforme depreendemos das palavras da médium: “Tu bem sabes o que Saul fez, como exterminou da terra os necromantes e os adivinhos; por que, então, me armas um laço à minha vida, para me fazeres morrer?” (v. 9).
Embora de fato um necromante seja um médium, percebemos aqui a intenção do autor nesse relacionamento, talvez num sentido propositalmente negativo. Ora, qualquer estudioso sério sabe que a faculdade mediúnica é uma faculdade humana, todos nós a possuímos, variando apenas quanto ao grau, mas não podemos ser responsabilizados pelo uso indevido dessa faculdade da parte dos adeptos do Espiritismo e que dirá dos que não o são.
E também um outro fator relevante é que a médium provavelmente só atendeu ao “forasteiro” porque ele fora levado à ela por alguém de confiança da mesma - visto que tais consultas poderiam custar-lhe a vida - , sabemos que quem levou Saul até à médium foram seus servos (vs. 7,8), e, com isso deduzimos que os mesmos eram pessoas de confiança da médium - e possivelmente
É notório observar como busca o expositor de toda forma se livrar do embaraço, causado pela clareza meridiana da narrativa, apelando para isso a meras conjecturas, das quais faz emergir suas conclusões, fazendo com que assim as escrituras digam algo que absolutamente não foi dito, apenas para justificar seu pensamento. Por evidência dos próprios versículos em análise, a própria desconfiança da médium ao "forasteiro" vem a ser o maior obstáculo à tese defendida pelo autor, de que Saul teria sido levado a ela por "alguém de confiança". Portanto, dentre as duas possibilidades, que se auto excluem, preferimos ficar com a que consta narrada no passo em estudo, ao invés de acatar a conclusão gratuita e infundada do autor, que se recusa a aceitar a verdade clara e incontestável da comunicação entre vivos e mortos.
consulentes constantes de suas “habilidades mediúnicas”- portanto ela certamente sabia que eles eram servos de Saul, e, em suma, tudo indica que a médium no mínimo desconfiava que o “forasteiro” era o rei Saul e se esse foi o caso, sua desconfiança foi confirmada quando o “forasteiro” revelou-lhe a quem ele queria que ela lhe fizesse subir: “Faze-me subir Samuel.” I Sm.28:11
Já foi demonstrado que ela desconfiava que poderiam estar lhe aramando uma cilada, porém, não "sabia" que os forasteiros eram servos de Saul. Há uma clara diferença entre "saber" e "desconfiar". Para reforçar isso, logo no começo do capítulo 28, versículo 3, ficamos cientes de que "Samuel já estava morto, e todo o Israel o tinha chorado, e o tinha sepultado em Ramá, que era a sua cidade; e Saul tinha desterrado os adivinhos e os encantadores." Isso nos indica que pouco tempo havia se passado desde esta ocorrência e a do versículo subseqüente que nos leva ao encontro de Saul com a necromante. Portanto, ela tinha razões de sobra para desconfiar, o que não seria o caso se esses "forasteiros" fossem mesmo de sua confiança. E se Saul pediu a ela para evocar Samuel e ele já estava morto, a conclusão inelutável a que chegamos é que ele intencionava, de fato, comunicar-se com o espírito Samuel, e desta forma fica evidente que Saul acreditava nesta possibilidade, tanto é verdade que ainda disse à mulher com qual espírito queria falar (v.11).
Por isso, deduzimos que é provável que a médium já soubesse - através dos servos do rei - que Saul viria consultá-la, e, levou-o a jurar-lhe pela segurança de sua vida (v.10) e ainda aguardou o momento propício para “desmascarar-lhe” (v.12). Tal momento é descrito assim:
“Vendo a mulher a Samuel, gritou em alta voz; e a mulher disse a Saul: Por que me enganaste? Pois tu mesmo és Saul.” I Sm.28:12
Novamente, aqui nos deparamos com meras deduções do articulista. Expressões como "deduzimos", "é provável", "possivelmente" e outras, apenas revelam uma tentativa desesperada de escapar pela tangente, desviando-se, por meio de conjecturas, do foco principal de nosso estudo, que se centra na real identidade do espírito comunicante. Observe-se ainda que, segundo o texto acima, o momento em que ela deixa de "desconfiar" para "saber" que era Saul, é somente quando Samuel se manifesta. Foi somente após ela ver o espírito de Samuel, e não antes, que ela se deu conta de que estava ali diante dela ninguém mais do que o próprio rei Saul. Tal é a conclusão a que racionalmente conduz o episódio, para todo aquele que conserva o espírito livre do nevoeiro dos preconceitos e do misoneísmo que caracteriza e predispõe principalmente nossos críticos, levando-os a acolherem sempre qualquer hipótese que possa se harmonizar com seus preconceitos e assim levá-los a repudiarem um fato manifesto e incontestável quando em contraste com aqueles mesmos preconceitos inveterados.
Aqueles que crêem ter sido realmente o espírito de Samuel, apegam-se firmemente a esse verso, alegando que as Escrituras , dizem nele que a “mulher vira a Samuel”, é nesse momento que as “observações introdutórias” ser-nos-ão úteis, pois recorrendo à elas pedimos ao leitor que lembre-se que os acontecimentos foram narrados do ponto de vista do observador - no caso um dos servos de Saul – e este acreditava que a médium estava vendo a Samuel, mas consideremos que, ninguém estaria mais habilitado para dizer o que a médium estava vendo, do que ela mesma, mas após a mulher gritar Saul falou-lhe:
“Não temas; que vês?...” (v.13)
Todas as evidências textuais, citadas ao longo deste estudo em relação a este evento não deixam margem a dúvidas sobre a verdadeira identidade do espírito comunicante, e nisto todas estão de acordo, tanto na Bíblia Protestante quanto a Bíblia Católica. Isso significa que não é somente neste versículo que se apegam firmemente os que cremos “ter sido realmente o espírito de Samuel”. Pois se o ponto de vista do narrador (Inspirado por Deus) está errado, então a Infalível Bíblia vem a falir justamente neste ponto. Mas vejamos agora mais de perto o versículo 13, para sabermos se apenas o narrador se enganou e se, de fato, como pretende o missivista, o depoimento da mulher veio contradizer não só a ele, mas a todas as evidências textuais que apontam em contrário.
A médium, porventura disse que via a Samuel? Não, antes ela respondeu-lhe:
“Vejo um deus que sobe da terra.” (v.13)
De acordo com o versículo 12, temos a afirmativa categórica de que a médium viu Samuel. Porém, tem alguém objetando que esta afirmação está errada, incorreta, embora seja inspirada. E para isso se recorre ao versículo 13, que não traz a descrição completa do que ela viu. Mas no v. 14, encontramos a informação que nos faltava:
14 Perguntou-lhe ele: Como é a sua figura? E disse ela: Vem subindo um ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e lhe fez reverência.
I Samuel 15:27 - E, virando-se Samuel para se ir, Saul pegou-lhe pela orla da capa, a qual se rasgou.
A descrição acima bate com as características do profeta, quando vivo. O verso 13 identifica e o 14 descreve. “Um ancião” significa um homem velho na descrição de uma não israelita, agora quanto à capa, também sabemos que o profeta usava, conforme o verso último.
Oras, ela não disse que via a Samuel, mas sim “um deus” - ou como encontra-se na ARC: “deuses que sobem da terra” - as diferentes traduções da palavra eloim = `elõhïm, ocorrem porque diferentes contextos regem sobre a tradução da mesma habitualmente quando aplicada ao Deus Eterno o contexto indica que a mesma deve ser traduzida por “Deus”, mas, como o nosso vocábulo português - Deus - ele pode ser aplicado a falsos deuses e normalmente usamos essa mesma palavra com “d” minúsculo, da mesma forma quando o contexto indica que o objeto a qual se aplica a expressão eloim não é o Deus Eterno traduz-se por “deus” ou o mais correto “deuses” ou "espíritos" e ainda é possível aplicá-la também a "anjos".
A expressão empregada pela mulher se justifica, pois consideravam “deus” qualquer coisa que saísse de nossa dimensão física, daí a razão da proibição de Moisés em praticar necromancia. Ele, Moisés, queria implantar a idéia de um Deus Único. Entretanto, em consonância com os dados trazidos pelo autor, dos quais não discordamos, não são todas as traduções que trazem “um deus”, pois há algumas que trazem tradução mais fidedigna ao contexto, ou seja, “um espírito”. Dentre elas podemos ainda citar a Edição Pastoral, Vozes e Peregrino. E tem que ser realmente um espírito, pois está dito “vendo a Samuel” e na descrição é “um ancião”, não há como ser de outra forma.
Essas considerações são necessárias, para que entendamos que a mulher não respondeu que via a Samuel, mas sim alguma(s) falsa(s) divindade(s), que o escritor sacro sabiamente denotou eloim - nesse contexto uma “divindade” qualquer. A descrição que a mulher fornece a Saul, desse eloim, é óbvia demais, vejamos:
“...um ancião, e está envolto em capa...” (v.14)
A descrição corresponde à idéia de um homem, portanto, o contexto sugere que o termo correto deveria ser espírito. Mesmo assim, se entendermos “um deus” como “um espírito” dá no mesmo.
Bem, Samuel era conhecidíssimo em Israel,
Só porque alguém é conhecido, isso não implica que todos o conheçam pessoalmente.
não seria difícil, à médium passado o susto inicial atribuir à sua visão uma descrição que encaixe-se a pessoa de Samuel, ou mesmo à esse espírito - eloim, falsa divindade - assumir aparência de Samuel.
Até aqui são novamente levantadas hipóteses para fugir à clareza do texto. E se tivermos que escolher entre as hipóteses e as afirmações positivas contidas no texto, sem titubear ficaremos com estas últimas.
Consideremos que, a descrição é imprecisa e suscetível de diversas interpretações, naquela época quase todas as pessoas usavam capa, essa era uma peça comum no vestuário do povos do Oriente Médio (cf. Gn.9:23; 39:12; Js.7:21; Rt.3:15; I Sm.15:27; 18:4; 19:13; I Rs.11:29; 19:13; 19:19), todo o povo de Israel sabia que Samuel era velho (cf. I Sm.8:5) e o próprio Samuel antes de sua morte confirmara tal fato (cf. I Sm.12:2), logo não seria difícil levar o Saul a acreditar que a mulher via a Samuel, e realmente foi isso que aconteceu, pois o texto nos informa:
“Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou.” (v.14)
Muito ao contrário disso, não vemos qualquer imprecisão ou contradição na descrição, da parte da mulher ou do narrador. Vemos sim, que são complementares. Por outro lado, se isso fosse verdade, então foi feito algo extraordinário, pois a mulher também enganou o “Espírito Santo” que inspirou o narrador, e com efeito, enganou a todo mundo, com exceção é claro, de alguns "iluminados" teólogos. É claro que Saul não era o médium, e não há nenhuma informação de que ele fosse vidente, médium vidente era a mulher que viu Samuel. Daí porque ele “entendeu que era Samuel”, pelas descrições que ela passou.
O negrito deixa claro que, Saul apenas “entendeu que era Samuel” - novamente vigora o ponto de vista do observador - nem os servos de Saul ou o próprio poderiam ter certeza de que era Samuel quem manifestara-se à médium, e como a única pessoa que poderia dizer-nos se era ou não Samuel não nos disse - antes, afirmara ver “um deus/espírito” - somos levados a crer que não era Samuel, mas sim, um espírito - ou diga-se uma falsa divindade (eloim) - que enganou aos presentes na sessão, quem sabe até mesmo a própria médium.
Já está parecendo um discípulo do Quevedo, com suas acusações apriorísticas de fraude. Porém, vale lembrar que o livro de Eclesiástico, já citado no início deste estudo, afirma que era mesmo o profeta Samuel que, depois de morto, profetizou. Um ponto importante nisso tudo é que há uma convergência de vários pormenores que se complementam e não se contradizem, apontando todos para a identidade do profeta morto. Se houvesse somente um único indício, tal como “entendeu que era Samuel”, e nada mais além disso, então concordaríamos com o autor. Doravante, além da convergência de vários indícios, temos ainda várias afirmações positivas e categóricas que não nos deixam margem a uma fraude ou manifestação demoníaca. Em contrapartida, em relação a estas últimas não há qualquer indício que as ampare, senão meras hipóteses levantadas pelo autor da crítica em análise.
Mas faltou, sobretudo, ao autor ler com mais cuidado a passagem pois no v. 17 está confirmação que era mesmo o espírito Samuel ali presente conversando com Saul, como está dito: “O Senhor te fez como por meu intermédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi”, o que de fato é uma verdade, pois Samuel quando vivo havia dito exatamente isso a Saul,(1Samuel 15,28), fato desconhecido da médium. Isso sem falar na passagem Eclesiástico 46,13-20, que afirma de modo positivo e categórico que Samuel, mesmo depois de morto, profetizou.
Seria estranho, que Samuel após a morte, tivesse atendido ao apelo de Saul, quando em vida o mesmo não o fez (cf. I Sm.15:35; 19:24), ainda mais porque o método usado é totalmente contrário ao que Samuel pregara em vida (cf. I Sm.15:23), o profeta morrera cônscio de ser propriedade do Senhor, e sendo fiel a Deus em vida (cf. I Sm.12:3,4) tornar-se-ia infiel após a morte? Paulo deixa claro que a morte não anula o senhorio de Deus sobre a vida de seus servos:
“Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor.” Rm.14:8
Portanto, temos plena confiança de que Samuel manteve-se fiel a Deus, mesmo após sua morte e que Deus de maneira nenhuma contradisse à sua Palavra permitindo que Samuel falasse através da médium.
Respeitamos essa “plena confiança” embora não a aceitemos, por absoluta falta de prova ou indício em apoio desse crasso erro do “espírito santo”, por ter sido escandalosamente enganado por uma simples necromante ou por não ter avisado (ou se lembrado de avisar) seu inspirado do ledo engano em que incorria. Porém, só lamentamos que nessa ótica, Jesus também não tenha se mantido fiel em (vida), e muito menos Moisés e Elias na (morte), quando daquele diálogo ocorrido no Tabor pouco antes da crucificação, episódio conhecido como Transfiguração (Mateus 17:1-13). Mas não há motivo para preocupações, pois nem Jesus, nem Moisés, nem Elias e nem mesmo Samuel foram infiéis ao se comunicarem. Infiel foi Saul por ter consultado a necromante. Nos versículos 17 e 18, encontramos a confirmação de que era mesmo Samuel, senão vejamos:
“Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito teu inimigo?” - VERDADEIRO
“O Senhor te fez como por meu intermédio te disse” – VERDADEIRO
“o Senhor rasgou o reino da tua mão” - VERDADEIRO
“e o deu ao teu próximo, a Davi” – VERDADEIRO
“Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor” – VERDADEIRO
“e não executaste e furor da sua ira contra Amaleque” - VERDADEIRO
Como vemos, não há nada que Samuel tenha dito que não havia ocorrido. Há ainda outros fatos verdadeiros que analisaremos mais adiante.
Se realmente fosse Samuel quem tivesse falado por meio daquela mulher, todos nós teríamos que aceitar como fato, que Deus use pessoas ímpias - espíritas, pajés, bruxos ... - para transmitir suas profecias aos homens, logo perdemos a base para considerar os ensinos dessas pessoas como anti-bíblicos - por mais anti-bíblicos que sejam - e teremos por exemplo que aceitar a afirmação kardecista que essa modalidade de espiritismo é a “Quarta revelação de Deus”, mesmo sabendo que ela nega todas as verdades fundamentais da fé cristã.
É uma pena que nos rotulem de ímpios, quando o que fazemos é apenas seguir os ensinos do Cristo, cujo ápice reside no amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, aqui incluído o respeito à opinião alheia. É uma pena dizer que o Espiritismo nega “todas as verdades fundamentais da fé cristã”, enquanto ao mesmo tempo nos proclama um Deus único, soberanamente justo e bom, enquanto ao mesmo tempo nos proclama que o homem é livre e responsável por seus atos, enquanto ao mesmo tempo nos proclama que o homem é recompensado ou castigado segundo o bem ou o mal que houver praticado, enquanto ao mesmo tempo nos proclama que acima de todas as virtudes está a caridade evangélica, enquanto ao mesmo tempo nos proclama esta regra sublime ensinada pelo Cristo: “Fazer ao próximo aquilo que quiséramos fizessem a nós mesmos”. E se não me falha a memória, Kardec identifica o Espiritismo como “Terceira" e não uma “Quarta revelação de Deus”. Mas no momento, parece não ser este o foco principal da discussão, voltemos ao assunto de Saul e a necromante.
Entretanto, além das evidências apontadas acima - contrárias ao argumento de que era Samuel - temos que levar em conta que, se foi realmente Samuel quem falou, ele o fez sob inspiração divina, então sua profecia tem o peso da Palavra de Deus, e, não pode falhar, pois Deus não falha e não há precedentes nas Escrituras que indiquem sequer uma possibilidade de falha - ou erro - numa profecia proveniente de Deus.
Há quem discorde disso. A título de exemplo, em Mateus 1:23 há uma profecia atribuída a Jesus, segundo a qual o nome dele seria Emanuel, que quer dizer “Deus conosco”. Se usarmos o critério acima, em todo seu rigor, seremos levados inelutavelmente a concluir que a profecia de Isaías não é de Deus, pois ela não se cumpriu. O menino nasceu e não lhe deram o nome de Emanuel. Mesmo assim ela é citada em Mateus como profecia cumprida. Um pouco mais adiante, chegando no capítulo e versículo 2:23, encontramos:
e foi habitar numa cidade chamada Nazaré; para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado nazareno.
Com base nisso e seguindo o mesmo rigor que veremos abaixo, perguntamos: se o cânon bíblico está completo e ali se encerram todas as revelações de Deus à humanidade, qual dos profetas é o autor da profecia e onde ela se localiza? Fica claro que se a profecia não for encontrada é porque não está na Bíblia, logo, por não estar na Bíblia e sim provavelmente num livro apócrifo (não inspirado), então podemos concluir que ela não foi inspirada por Deus. Ficamos por aqui, com essa breve amostra, embora existam muitas outras que deixaremos de tratar para não nos desviarmos do enfoque principal desse estudo. E agora, voltando ao foco, vejamos se de fato as profecias de Samuel (morto) realmente falharam, tão ao gosto de nosso ilustre antagonista: “totalmente no seu cumprimento”.
Mas, a profecia, dita por “Samuel”, através da médium além de imprecisa falhou totalmente no seu cumprimento:
1) Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (v.19), antes suicidou-se (cf. I Sm.31:4), e foi parar nas mãos dos homens de Jabes-Gileade (cf. I Sm.31:11 à 13), Saul apenas passou pelas mãos dos filisteus.
Israel , como povo, foi derrotado, caindo nas mãos dos filisteus e nesse sentido Saul também caiu, somente não se deixou apanhar vivo, ato covarde para um guerreiro. Mas há divergências sobre isso. Existe uma segunda versão, segundo a qual, ele teria sido morto por um amalequita. Vejamos abaixo:
II Samuel 1
6 Então disse o mancebo que lhe dava a notícia: Achava-me por acaso no monte Gilboa, e eis que Saul se encostava sobre a sua lança; os carros e os cavaleiros apertavam com ele.
7 Nisso, olhando ele para trás, viu-me e me chamou; e eu disse: Eis-me aqui.
8 Ao que ele me perguntou: Quem és tu? E eu lhe respondi: Sou amalequita.
9 Então ele me disse: Chega-te a mim, e mata-me, porque uma vertigem se apoderou de mim, e toda a minha vida está ainda em mim.
10 Cheguei-me, pois, a ele, e o matei, porque bem sabia eu que ele não viveria depois de ter caído; e tomei a coroa que ele tinha na cabeça, e o bracelete que trazia no braço, e os trouxe aqui a meu senhor.
Não bastassem essas duas, temos ainda uma terceira versão da morte de Saul, narrada nos versos abaixo:
II Samuel 21:12 - Então Davi foi pedir os ossos de Saul e de seu filho Jônatas aos cidadãos de Jabes de Galaad, que os tinham levado da praça de Betsã, onde os filisteus os haviam enforcado, quando venceram Saul em Gelboé.
E assim ficamos na dúvida sobre qual das três seria a versão correta. Poderíamos descartar a segunda, por ter sido dita por um amalequita, mas as outras foram relatadas por escritores supostamente inspirados. Temos aí, pelo menos duas opiniões que se contradizem, de um livro reputado Infalível.
2) O espírito que falou a Saul, insinuou que todos os seus filhos morreriam junto com o rei (v.19), porém, somente três filhos de Saul morreram (cf. I Sm.31:2, 6 e I Cr.10:2, 6) pelo menos três filhos de Saul ficaram vivos Is-Bosete (cf. II Sm.2:8 à 10), Armoni e Mefibosete (cf. II Sm.21:8).
O texto não diz que seriam todos os filhos de Saul, que morreriam. Isso corre por conta e risco do crítico. Digo conta e risco porque já demos algumas amostras do nível de dificuldades em que ele pode se esbarrar, caso pretenda tratar das profecias com todo este rigor. E se agirmos assim, podemos então dizer que até Jesus falhou em profecias, como podemos conferir em Mateus 24:34:
34 Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas se cumpram.
Um pouco antes desse momento, após descrita a futura queda de Jerusalém, cumprida no ano 70 da Era Cristã, ele prosseguia dizendo:
29 Logo depois da tribulação daqueles dias (se referia a Jerusalém), escurecerá o sol, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados.
30 Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória.
31 E ele enviará os seus anjos com grande clangor de trombeta, os quais lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus.
Tomando esse texto com todo o rigor da palavra, será mesmo que aquela geração que presenciou o cerco e tomada de Jerusalém sobreviveu até hoje e ainda aguarda o cumprimento disso tudo?
Voltando à profecia de Samuel, um pouco mais a frente do capítulo 28, encontraremos o cumprimento cabal da profecia:
I Samuel 31:2 - E os filisteus apertaram com Saul e seus filhos, e mataram a Jônatas, a Abinadabe e a Malquisua, filhos de Saul.
Consultando a Bíblia Anotada, encontramos uma nota de rodapé, com os dizeres:
Esta verdadeira “batalha de Waterloo” de Saul e seus filhos cumpriu a profecia de Samuel (28, 19)
Atentemos bem ao fato de que nela consta que se cumpriu a profecia de Samuel, e não de um pseudo-Samuel, citando justamente o trecho que discutimos. E esta é uma Bíblia usada pela maioria dos protestantes. Mas vejamos agora um outro relato que nos leva ao cumprimento da profecia:
I Crônicas 10
6 Assim morreram Saul e seus três filhos; morreu toda a sua casa juntamente.
8 No dia seguinte, quando os filisteus vieram para despojar os mortos acharam Saul e seus filhos estirados no monte Gilboa.
12 todos os homens valentes se levantaram e, tomando o corpo de Saul e os corpos de seus filhos, trouxeram-nos: a Jabes; e sepultaram os seus ossos debaixo o terebinto em Jabes, e jejuaram sete dias.
Lembrando que a profecia de Samuel diz “seus filhos”, expressão análoga encontramos nos versos acima, atestando o inapelável cumprimento da profecia. mas por outro lado, tem algo estranho nisso tudo, pois em 1Samuel 14:49, lemos que “os filhos de Saul eram Jônatas, Jesui e Melquisua. Tinha também duas filhas: a mais velha se chamava Merob, e a caçula era Micol, o que nos coloca em contradição com esses outros três filhos. Aliás em nenhuma passagem encontramos quem era a mãe desses outros filhos de Saul, o que nos leva à possibilidade de serem filhos bastardos, já que também podemos conjecturar.
3) “...amanhã tu ... estarás comigo..” (v.19), este parte da “profecia” também não teve cumprimento, pois Saul veio a morrer somente cerca de dezoito dias depois - o que pode-se deduzir calculando os números de dias mencionados em I Sm.30:1, 10, 13, 17; II Sm.1:3.
Do Dicionário Aurélio, encontramos:
Adv. 1. No dia seguinte àquele em que estamos: 2.Mais tarde; para o futuro; S. m. 3. O dia seguinte: 4. A época vindoura; o futuro.
A palavra amanhã tem um sentido mais amplo do que alguns pretendem, e pode ser usada não só no sentido do dia seguinte mas também de um tempo futuro. Além disso, a profecia diz que Saul e o povo israelense seriam entregues aos filisteus, fato confirmado. Quando diz amanhã, conforme demonstrado, isso não implica necessariamente que se referia ao dia seguinte, pois a palavra também pode ser empregada para um tempo futuro, podendo ser próximo ou não, e dentro dessa perspectiva o fato também foi consumado. Por outro lado, sabemos que os relatos bíblicos não obedecem necessariamente a uma ordem cronológica, e se bem atentarmos às citações mencionadas, veremos que tais passagens se referem a acontecimentos provavelmente paralelos, ocorridos com Davi (1Samuel 30), que foi expulso do acampamento dos filisteus, prestes a combater Israel, por ser ele israelense. Terminados os relatos, volta o texto à questão dos filisteus contra Israel, agora já no capítulo 31, versículo 1 em diante, onde retoma a seqüência dos fatos narrados, quando os filisteus subiram a Jezreel, local do acampamento de Israel, cujo desfecho já conhecemos, a morte dos filhos de Saul e seu provável suicídio. Essa versão dos fatos é apoiada com as notas de rodapé, constantes da Bíblia Editora Vozes, conforme abaixo:
29:1 – O c. 29 é a continuação de 28,2. Davi está numa situação extremamente crítica e penosa: ou atraiçoar os patrícios ou desenganar a confiança do ingênuo rei Aquis.
30:1 – O c. 30 forma a continuação do c. 29, sendo também uma espécie de relato paralelo a 27, 8-12.
31:1 – Depois do parêntese de 1 Sm 29-30 aqui continua o texto de 28, 4s. O interesse do relato se concentra na morte trágica de Saul e dos seus filhos, morte esta que representa o ponto mais baixo da solidão de Saul.
E assim, fica confirmado o cumprimento de mais esta profecia.
Na compreensão dos judeus vetero-testamentários, todos os que morriam iam para um lugar chamado Sheol = gr. Hades - termo que equivale a expressão “habitação dos mortos” - e conforme Cristo nos ensinou tal lugar era dividido em duas repartições: o paraíso, chamado “seio de Abraão” (cf. Lc.16:22) para onde iam as almas daqueles que morriam justificados perante Deus, e, o lugar de tormentos chamado "inferno” (cf. Lc.16:23) para onde iam as almas dos que morriam não-justificadas perante Deus.
Consultemos o Dicionário Bíblico para ver se encontramos a localização desse sheol, segundo o entendimento da época:
XEOL (SHEOL) – É, como o céu e a terra (Ex 20, 4), uma das três partes do mundo. São as profundezas da terra (Is 14, 9; Sl 63, 10), para onde descem todos os mortos (Gn 37, 35; 1 Sm 2, 6; Sl 89,49); ninguém poderia subir daí (Jó 7, 9). Bons e maus estão misturados ali (1 Sm 28, 19), no meio de trevas densas (Jó 10, 21); com um campo de ação reduzido (Eclo 19, 10), incapazes de louvar a Deus (Is 38, 18; Sl 6, 6).
Se lembrarmos que aquele povo era altamente supersticioso, que quase nada compreendia da vida além-túmulo, que tudo que se manifestasse do plano espiritual era, para eles, “um deus que sobe”, então fica fácil de entender que essa era, muito provavelmente, uma expressão comum usada, quando na ocorrência destes eventos começava a aparecer uma entidade. Sobre a parábola do rico e Lázaro, os pormenores dela são extraídos das crenças judaicas, e embora fossem idéias populares nos dias de Jesus, ele as usou apenas como recursos didáticos para chegar a conclusões corretas, mas isso não implica que ele aceitasse e acreditasse na literalidade da narrativa. Vejamos qual seria o ensino central de Jesus, na parábola do rico e Lázaro. Dissemos ensino e não doutrina ou dogma. Em primeiro lugar, a narrativa é endereçada aos “fariseus, que eram gananciosos” (Lucas 16:14). Os fariseus consideravam a riqueza um favor de Deus, e a pobreza um desfavor divino. Cristo quis desfazer esse conceito errôneo, e contou a parábola. Os fariseus se jactavam de excessivo orgulho nacional, e julgavam-se sob favor divino, através da indisputável fórmula "filhos de Abraão." O Mestre quis ensinar que a aplicação dessa fórmula não funciona na vida do por vir. É este o ensino central e bem contextualizado da parábola. Tomar literalmente estes conceitos judaicos só para embasar as teses do autor, é um erro crasso. E isso nos conduz a uma quantidade razoável de indagações que com certeza (pelo menos algumas) irão de encontro às suas teses. Pois, se de fato, Cristo quis com isso ensinar a situação exata das "almas" no além, mesmo na hipótese de haver Céu e Inferno consoante a mofada teologia popular, teria ele o cuidado de ser exato no enredo, no ambiente e nos pormenores da narrativa. Por exemplo, o Céu não seria apresentado como lugar onde não se nota a presença de Deus, nem de Jesus; não seria lugar encostado ao inferno, que permitisse conversação entre seus habitantes; que permitisse verem-se e penalizarem-se (imaginem uma piedosa mãe, no lado de cá, vendo seu filho querido mas não salvo, convulsionando-se eternamente em dores lancinantes nas chamas, no lado de lá!); vemos ali o Lázaro nas bem-aventuranças pelo simples mérito da pobreza, e não pelo critério estabelecido pelo Cristo: “a cada um segundo as suas obras”. Se o rico pediu a intercessão do Abraão da parábola, justificaria a doutrina católica da "intercessão dos santos". Além disso, Abraão deveria ter um seio descomunal para abrigar todos os salvos, haja visto que ele próprio como salvo, para onde iria? Seria ele o monitor do Céu? E os justos que morreram antes dele (Abel, e Enoque, por exemplo) em que "seio" estariam? E assim se desfaz mais um malabarismo exegético.
Conhecendo a história das vidas de Saul e Samuel, percebemos claramente que Saul após a morte não poderia ir para o mesmo lugar em estava Samuel, pois este fora um homem totalmente fiel a Deus durante sua vida enquanto que Saul desviara-se dos caminhos do Senhor e fora rejeitado por Deus, portanto como ele poderia “estar com Samuel” após sua morte com profetizara o suposto Samuel. Uma leitura de Lucas 16:19 à 31, também é muito útil para auxiliar no entendimento do texto em estudo, pois nele está claro que Deus não permite a comunicação entre mortos e vivos, já que tudo o que é necessário para a salvação do homem está revelado nas Escrituras (cf. Lc.16:29 à 31).
Já vimos que as profecias de Samuel (morto) foram todas cumpridas, o que nos leva a crer que a proibição da necromancia não tinha como causa a impossibilidade dessa comunicação, mas sim a forma com que isso era realizado, tendo ela se tornado objeto de exploração e vergonhoso tráfico. Além disso, a expressão “tu e teus filhos estareis comigo” é apenas uma expressão idiomática que indica que estariam mortos, ou seja, “do lado de lá”. Há expressões similares, tais como “dormiu com seus pais” e “se reuniu ao seu povo”, que também significam o mesmo. Na parábola do rico e Lázaro, quando o rico pede a Abraão para mandar este alertar a seus irmãos, só o fez porque acreditava ser isso possível. A resposta de Abraão não diz ser isso impossível, mas que era completamente inútil, pois se não escutaram a Moisés e aos profetas, nem aos mortos dariam ouvidos, e não é exatamente isso que está acontecendo nos dias de hoje? Mas alguém poderá objetar dizendo que esse texto indica uma necessidade de ressurreição corpórea para que ocorra a comunicação. Isto é um subterfúgio, pois na própria Bíblia encontramos indícios de que a palavra ressurreição também era usada para indicar a influência dos mortos sobre os vivos, conforme podemos depreender do passo seguinte: “Alguns diziam: ‘João Batista ressuscitou dos mortos. É por isso que os poderes agem nesse homem’”. (Mateus 14:2, Marcos 6:14).
Não podemos esquecer que, Deus não contradisse-se mas, se Ele realmente permitiu ao espírito de Samuel comunicasse-se com Saul através da médium, teremos que admitir que Deus agiu no mínimo contraditoriamente, pois mais à frente nas Escrituras é dito que Saul morreu porque dentre outras coisas:
“...também interrogara e consultara uma necromante.” I Cr. 10:13.
Deus não se contradiz, quem se contradiz é o próprio homem. Já foi mostrado mais acima a existência de pelo menos três versões diferentes para a morte de Saul. Uma delas decorre de opinião pessoal de um personagem da narração, no caso um amalequita. Até aqui, podemos cogitar que essa versão pode ser inverídica, mas e as outras duas constantes, uma no primeiro livro de Samuel, outra no segundo livro? Supondo que Deus tenha inspirado estes autores, forçoso é concluir que ele falhou, ou então um deles não foi inspirado. Neste caso, preferimos ficar com a segunda opção. Semelhantemente, foi dito que se Deus permitiu a um morto comunicar-se, é porque “agiu no mínimo contraditoriamente”. Sendo assim teremos que admitir que esta não foi a única vez que ele fez isso. No monte Tabor ele também permitiu uma comunicação de Jesus (vivo) com Moisés e Elias (mortos). Desta forma somos conduzidos a pelo menos uma de duas alternativas:
Analisemos agora, comparativamente ao relato já citado, o texto trazido pelo autor, desta vez trazendo outra versão para a causa da morte de Saul:
I Crônicas 10
13 Assim morreu Saul por causa da sua infidelidade para com o Senhor, porque não havia guardado a palavra do Senhor; e também porque buscou a adivinhadora para a consultar,
14 e não buscou ao Senhor; pelo que ele o matou, e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé.
Aqui nos deparamos com uma causa mortis adicional trazida pelo autor de Crônicas. Convém notar que em nenhum momento aprovamos ou justificamos a atitude de Saul. O que estamos a dizer é que todos os pormenores do relato convergem para a manifestação legítima de Samuel. Pois a reprovação divina imputada a Saul já era fato líquido e certo, e assim permaneceu mesmo após a manifestação de Samuel, sendo inclusive lembrada e reforçada por este. Esse episódio é muito importante e útil a nosso aprendizado, pois revela uma nuance pouco percebida, qual seja a de que a razão da proibição não tinha nada a ver com a impossibilidade de comunicação com os mortos, e sim com a forma com que isso ocorria, mais abaixo falaremos mais sobre isso. No entanto, como não bastasse isso, há no versículo último citado, um trecho no mínimo contraditório: “e não buscou ao Senhor, pelo que ele o matou”. Temos aí pelo menos duas clamorosas inverdades, se comparadas com os versos de I Samuel. No primeiro caso sabemos que ele o buscou, mas não foi atendido, no segundo encontramos mais uma versão para a morte de Saul. Afinal, quem matou Saul foi ele mesmo, foi Deus, foram os filisteus ou foi o amalequita?
Uma possível explicação ao que realmente ocorreu naquele episódio tenebroso da vida de Saul é sugerida pelos comentaristas da Bíblia Vida Nova, cremos que embora concisa ela é uma das mais bem elaboradas explicações já dadas ao ocorrido e parece harmonizar-se bem ao contexto doutrinário das Escrituras Sagradas, portanto encerramos nosso comentário citando-a na íntegra:
“A Bíblia fala de certos "espíritos", sua natureza e poder (Êx.7:11,22;8:7; At.16:16-18; 2 Co.11:14-15; Ef.6:12). São os anjos maus. Do mesmo modo fala de anjos que acampam ao nosso redor e nos guardam (Sl 34:7; Mt.18:10; Lc.15:10 etc.). São os anjos bons. São dois, os "secretários" (senão mais) que nos acompanham durante a vida toda; um bom e outro mau. Anotam tudo e sabem tudo a nosso respeito. Depois da morte, o anjo bom leva o nosso relatório-livro, diante de Deus, pelo qual seremos julgados (Ap.20:12). Por sua vez, o anjo mau assume a nossa identidade e representa-nos no mundo, através dos médiuns, onde revela nosso relatório com acerto e "autoridade" É por isso que Paulo fala da luta que temos contra "as forças espirituais do mal" (Ef.6:12).
Partiremos dessa premissa, na qual estamos de acordo, de que existem “espíritos” e estes podem ser bons ou maus. E neste caso perguntaríamos: Deus é ou não é mais poderoso do que os maus espíritos? Afirmar que só os maus se comunicam é dizer que os bons não o podem fazer. Sendo assim, de duas uma: ou isto se dá pela vontade de Deus, ou é contra a vontade dele. Se é contra a Sua vontade, então por que, em Sua bondade, não permitiria Ele que os bons fizessem o mesmo, para contrabalançar a influência dos outros? Que provas podem ser apresentadas da impossibilidade de que os bons espíritos, não podem se comunicar? E por fim, se só o demônio se comunica, sendo ele o inimigo de Deus e dos homens, por que recomenda que se ore a Deus, que nos submetamos à vontade de Deus, que suportemos sem queixas as tribulações da vida, que não ambicionemos as honras, nem as riquezas, que pratiquemos a caridade e todas as máximas do Cristo, numa palavra: que façamos tudo o que é preciso para destruir seu próprio império? Se tais conselhos é o demônio quem os dá, forçoso será convir em que, por muito manhoso que seja, bastante inábil é ele, fornecendo armas contra si mesmo. Pois se os Espíritos se comunicam, é porque que Deus o permite. E já vimos que, segundo o texto bíblico, não foi uma só vez que o permitiu.
E é pela mesma razão que Deus proíbe consultas aos "mortos" (Is 8:19,20), porque estes são falsos (Dt 18:10-14). Caso fosse espíritos humanos provavelmente, Deus não proibiria a sua consulta, apenas regulamentaria o assunto para evitar abusos. Deus, porém, proíbe o que é dissimulação e falsidade.”
É possível que alguns não aceitem esta explicação, ou concordem com ela parcialmente - é o caso dos pesquisadores do IPET - porém citamo-la apenas para demonstrar que a posição ocultista não é a única possível - e sequer é a mais coerente - existem outras formas de abordagem do capítulo em foco e não devemos apreciar este de modo unilateral.
A tradução, como sempre, varia de um tradutor para outro, e às ve