Allan Kardec,
no livro O Céu e o Inferno, cap. XI
Capitulo II do livro
Porque Sou Espirita,
de Américo Domingos Nunes Filho
1. - A Igreja de modo algum nega a realidade das manifestações. Ao contrário, como vimos nas citações precedentes, admite-as totalmente, atribuindo-as à exclusiva intervenção dos demônios. É debalde invocar os Evangelhos como fazem alguns para justificar a sua interdição, visto que os Evangelhos nada dizem a esse respeito. O supremo argumento que prevalece é a proibição de Moisés. A seguir damos os termos nos quais se refere ao assunto a mesma pastoral que citamos nos capítulos precedentes: "Não é permitido entreter relações com eles (os Espíritos), seja imediatamente, seja por intermédio dos que os evocam e interrogam. A lei mosaica punia os gentios. «Não procureis os mágicos», diz o Levítico, «nem procureis saber coisa alguma dos adivinhos, de maneira a vos contaminardes por meio deles». (Cap. XIX, v. 31) «Morra de morte o homem ou a mulher em quem houver Espírito pitônico; sejam apedrejados e sobre eles recaia seu sangue». (Cap. XX, v. 27) O Deuteronômio diz: «Nunca exista entre vós quem consulte adivinhos, quem observe sonhos e agouros, quem use de malefícios, sortilégios, encantamentos, ou consultem os que têm o Espírito pitônico e se dão a práticas de adivinhação interrogando os mortos. O Senhor abomina todas essas coisas e destruirá, à vossa entrada, as nações que cometem tais crimes.» (Cap. XVIII, vv. 10, 11 e 12)
2. - É útil, para melhor compreensão do verdadeiro sentido das palavras de Moisés, reproduzir por completo o texto um tanto abreviado na citação antecedente. Ei-lo: "Não vos desvieis do vosso Deus para procurar mágicos; não consulteis os adivinhos, e receai que vos contamineis dirigindo-vos a eles. Eu sou o Senhor vosso Deus." (Levítico, cap. XIX, v. 31) “O homem ou a mulher que tiver Espírito pitônico, ou de adivinho, morra de morte. Serão apedrejados, e o seu sangue recairá sobre eles.” (Idem, cap. XX, v. 27) Quando houverdes entrado na terra que o Senhor vosso Deus vos há de dar, guardai-vos; tomai cuidado em não imitar as abominações de tais povos; – e entre vós ninguém haja que pretenda purificar filho ou filha passando-os pelo fogo; que use de malefícios, sortilégios e encantamentos: que consulte os que têm o Espírito de Píton e se propõem adivinhar, interrogando os mortos para saber a verdade. O Senhor abomina todas essas coisas e exterminará todos esses povos, à vossa entrada, por causa dos crimes que têm cometido.” (Deuteronômio, cap. XVIII, vv. 9, 10, 11 e 12)
3. - Se a lei de Moisés deve ser tão rigorosamente observada neste ponto, força é que o seja igualmente em todos os outros. Por que seria ela boa no tocante às evocações e má em outras de suas partes? É preciso ser conseqüente. Desde que se reconhece que a lei mosaica não está mais de acordo com a nossa época e costumes em dados casos, a mesma razão procede para a proibição de que tratamos. Demais, é preciso expender os motivos que justificavam essa proibição e que hoje se anularam completamente. O legislador hebreu queria que o seu povo abandonasse todos os costumes adquiridos no Egito, onde as evocações estavam em uso e facilitavam abusos, como se infere destas palavras de Isaías: "O Espírito do Egito se aniquilará de si mesmo e eu precipitarei seu conselho; eles consultarão seus ídolos, seus adivinhos, seus pítons e seus mágicos." (Isaías, Cap. XIX, v. 3.)
Os israelitas não deviam contratar alianças com as nações estrangeiras, e sabido era que naquelas nações que iam combater encontrariam as mesmas práticas. Moisés devia pois, por política, inspirar aos hebreus aversão a todos os costumes que pudessem ter semelhanças e pontos de contato com o inimigo. Para justificar essa aversão, preciso era que apresentasse tais práticas como reprovadas pelo próprio Deus, e dai estas palavras: – "O Senhor abomina todas essas coisas e destruirá, à vossa chegada, as nações que cometem tais crimes."
4. - A proibição de Moisés era assaz justa, porque a evocação dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito, afeição ou piedade para com eles, sendo antes um recurso para adivinhações, tal como nos augúrios e presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Essas práticas, ao que parece, também eram objeto de negócio, e Moisés, por mais que fizesse, não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares. As seguintes palavras do profeta justificam o asserto: – "Quando vos disserem: Consultai os mágicos e adivinhos que balbuciam encantamentos, respondei: - Não consulta cada povo ao seu Deus? E aos mortos se fala do que compete aos vivos?" (Isaías, cap. VIII, v. 19.) "Sou eu quem aponta a falsidade dos prodígios mágicos; quem enlouquece os que se propõem adivinhar, quem transtorna o espírito dos sábios e confunde a sua ciência vã." (Isaías, Cap. XLIV, v. 25.)
“Que esses adivinhos, que estudam o céu, contemplam os astros e contam os meses para fazer predições, dizendo revelar-vos o futuro, venham agora salvar-vos. – Eles tornaram-se como a palha, e o fogo os devorou; não poderão livrar suas almas do fogo ardente; não restarão das chamas que despedirem, nem carvões que possam aquecer, nem fogo ao qual se possam sentar. – Eis ao que ficarão reduzidas todas essas coisas das quais vos tendes ocupado com tanto afinco: os traficantes que convosco traficam desde a infância foram-se, cada qual para seu lado, sem que um só deles se encontre que vos tire os vossos males.” (Isaías, Cap. XLVII, vv. 13, 14 e 15.) Neste capítulo Isaías dirige-se aos babilônios sob a figura alegórica "da virgem filha de Babilônia, filha de caldeus". (Isaías, XLVII, v. 1.) Diz ele que os adivinhos não impedirão a ruína da monarquia. No seguinte capítulo dirige-se diretamente aos israelitas. “Vinde aqui vós outros, filhos de uma agoureira, raça dum homem adúltero e de uma mulher prostituída. - De quem vos rides vós? Contra quem abristes a boca e mostrastes ferinas línguas? Não sois vós filhos perversos de bastarda raça - vós que procurais conforto em vossos deuses debaixo de todas as frontes, sacrificando-lhes os tenros filhinhos nas torrentes, sob os rochedos sobranceiros? Depositastes a vossa confiança nas pedras da torrente, espalhastes e bebestes licores em sua honra, oferecestes sacrifícios.” Depois disso como não se acender a minha indignação? (Isaías, Cap. LVII, vv. 3, 4, 5 e 6.)
Estas palavras são inequívocas e provam claramente que nesse tempo as evocações tinham por fim a adivinhação, ao mesmo tempo que constituíam comércio, associadas às práticas da magia e do sortilégio, acompanhadas até de sacrifícios humanos. Moisés tinha razão, portanto, proibindo tais coisas e afirmando que Deus as abominava. Essas práticas supersticiosas perpetuaram-se até à Idade Média, mas hoje a razão predomina, ao mesmo tempo que o Espiritismo veio mostrar o fim exclusivamente moral, consolador e religioso das relações de além-túmulo. Uma vez, porém, que os espíritas não sacrificam criancinhas nem fazem libações para honrar deuses; uma vez que não interrogam astros, mortos e áugures para adivinhar a verdade sabiamente velada aos homens; uma vez que repudiam traficar com a faculdade de comunicar com os Espíritos; uma vez que os não move a curiosidade nem a cupidez, mas um sentimento de piedade, um desejo de instruir-se e melhorar-se, aliviando as almas sofredoras; uma vez que assim é, porque o é – a proibição de Moisés não lhes pode ser extensiva. Se os que clamam injustamente contra os espíritas se aprofundassem mais no sentido das palavras bíblicas, reconheceriam que nada existe de análogo, nos princípios do Espiritismo, com o que se passava entre os hebreus. A verdade é que o Espiritismo condena tudo que motivou a interdição de Moisés; mas os seus adversários, no afã de encontrar argumentos com que rebatam as novas idéias, nem se apercebem que tais argumentos são negativos, por serem completamente falsos. A lei civil contemporânea pune todos os abusos que Moisés tinha em vista reprimir. Contudo, se ele pronunciou a pena última contra os delinqüentes, é porque lhe faleciam meios brandos para governar um povo tão indisciplinado. Esta pena, ao demais, era muito prodigalizada na legislação mosaica, pois não havia muito onde escolher nos meios de repressão. Sem prisões nem casas de correção no deserto, Moisés não podia graduar a penalidade como se faz em nossos dias, além de que o seu povo não era de natureza a atemorizar-se com penas puramente disciplinares. Carecem portanto de razão os que se apoiam na severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. Conviria, por consideração à lei de Moisés, manter a pena capital em todos os casos nos quais ele a prescrevia? Por que, então, reviver com tanta insistência este artigo, silenciando ao mesmo tempo o principio do capítulo que proíbe aos sacerdotes a posse de bens terrenos e partilhar de qualquer herança, porque o Senhor é a sua própria herança? (Deuteronômio, cap. XXVIII, vv. 1 e 2.)
5. - Há duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente dita, promulgada sobre o Sinal, e a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes e caráter do povo. Uma dessas leis é invariável, ao passo que a outra se modifica com o tempo, e a ninguém ocorre que possamos ser governados pelos mesmos meios por que o eram os judeus no deserto e tampouco que os capitulares de Carlos Magno se moldem à França do século XIX. Quem pensaria hoje, por exemplo, em reviver este artigo da lei mosaica: "Se um boi escornar um homem ou mulher, que disso morram, seja o boi apedrejado e ninguém coma de sua carne; mas o dono do boi será julgado inocente"? (Êxodo, cap. XXI, vv. 28 e seguintes.) Este artigo, que nos parece tão absurdo, não tinha, no entanto, outro objetivo que o de punir o boi e inocentar o dono, eqüivalendo simplesmente à confiscação do animal, causa do acidente, para obrigar o proprietário a maior vigilância. A perda do boi era a punição que devia ser bem sensível para um povo de pastores, a ponto de dispensar outra qualquer; entretanto, essa perda a ninguém aproveitava, por ser proibido comer a carne. Outros artigos prescrevem o caso em que o proprietário é responsável. Tudo tinha sua razão de ser na legislação de Moisés, uma vez que tudo ela prevê em seus mínimos detalhes, mas a forma, bem como o fundo, adaptavam-se às circunstâncias ocasionais. Se Moisés voltasse em nossos dias para legislar sobre uma nação civilizada, decerto não lhe daria um código igual ao dos hebreus.
6. - A esta objeção opõem a afirmativa de que todas as leis de Moisés foram ditadas em nome de Deus, assim como as do Sinal. Mas julgando-as todas de fonte divina, por que ao decálogo limitam os mandamentos? Qual a razão de ser da diferença? Pois não é certo que se todas essas leis emanam de Deus devem todas ser igualmente obrigatórias? E por que não conservaram a circuncisão, à qual Jesus se submeteu e não aboliu? Ah! esquecem que, para dar autoridade às suas leis, todos os legisladores antigos lhes atribuíam uma origem divina. Pois bem: Moisés, mais que nenhum outro, tinha necessidade desse recurso, atento o caráter do seu povo; e se, a despeito disso, ele teve dificuldade em se fazer obedecer, que não sucederia se as leis fossem promulgadas em seu próprio nome! Não veio Jesus modificar a lei mosaica, fazendo da sua lei o código dos cristãos? Não disse ele: – "Vós sabeis o que foi dito aos antigos, tal e tal coisa, e eu vos digo tal outra coisa?" Entretanto Jesus não proscreveu, antes sancionou a lei do Sinai, da qual toda a sua doutrina moral é um desdobramento. Ora, Jesus nunca aludiu em parte alguma à proibição de evocar os mortos, quando este era um assunto bastante grave para ser omitido nas suas prédicas, mormente tendo ele tratado de outros assuntos secundários.
7. - Finalmente convém saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima da evangélica, ou por outra, se é mais judia que cristã. Convém também notar que, de todas as religiões, precisamente a judia é que faz menos oposição ao Espiritismo, porquanto não invoca a lei de Moisés contrária às relações com os mortos, como fazem as seitas cristãs.
8. - Mas temos ainda outra contradição: – Se Moisés proibiu evocar os mortos, é que estes podiam vir, pois do contrário inútil fora a proibição. Ora, se os mortos podiam vir naqueles tempos, também o podem hoje; e se são Espíritos de mortos os que vêm, não são exclusivamente demônios. Demais, Moisés de modo algum fala nesses últimos. É duplo, portanto, o motivo pelo qual não se pode aceitar logicamente a autoridade de Moisés na espécie, a saber: – primeiro, porque a sua lei não rege o Cristianismo; e, segundo, porque é imprópria aos costumes da nossa época. Mas, suponhamos que essa lei tem a plenitude da autoridade por alguns outorgada, e ainda assim ela não poderá, como vimos, aplicar-se ao Espiritismo. É verdade que a proibição de Moisés abrange a interrogação dos mortos, porém de modo secundário, como acessória às práticas da feitiçaria.. O próprio vocábulo interrogação, junto aos de adivinho e agoureiro, prova que entre os hebreus as evocações eram um meio de adivinhar; entretanto, os espíritas só evocam mortos para receber sábios conselhos e obter alivio em favor dos que sofrem, nunca para conseguir revelações ilícitas. Certo, se os hebreus usassem das comunicações como fazem os espíritas, longe de as proibir, Moisés acoroçoá-las-ia, porque o seu povo só teria que lucrar.
9. - É certo que alguns críticos jucundos ou mal-intencionados têm descrito as reuniões espíritas como assembléias de nigromantes ou feiticeiros, e os médiuns como astrólogos e ciganos, isto porque talvez quaisquer charlatães tenham afeiçoado tais nomes às suas práticas, que o Espiritismo não pode, aliás, aprovar. Em compensação, há também muita gente que faz justiça e testemunha o caráter essencialmente moral e grave das reuniões sérias. Além disso, a Doutrina, em livros ao alcance de todo o mundo, protesta bem alto contra os abusos, para que a calúnia recaia sobre quem merece.
10. - A evocação, dizem, é uma falta de consideração para com os mortos, cujas cinzas devem ser respeitadas. Mas quem é que diz tal? São os antagonistas de dois campos opostos, isto é, os incrédulos que nas almas não crêem, e os crédulos que pretendem que só os demônios, e não as almas, podem vir. Quando a evocação é feita com recolhimento e religiosamente; quando os Espíritos são chamados, não por curiosidade, mas por um sentimento de afeição e simpatia, com desejo sincero de instrução e progresso, não vemos nada de irreverente em apelar-se para as pessoas mortas, como se fizera com os vivos. Há, contudo, uma outra resposta peremptória a essa objeção, e é que os Espíritos se apresentam espontaneamente, sem constrangimento, muitas vezes mesmo sem que sejam chamados. Eles também dão testemunho da satisfação que experimentam por comunicar-se com os homens, e queixam-se às vezes do esquecimento em que os deixam. Se os Espíritos se perturbassem ou se agastassem com os nossos chamados, certo o diriam e não retornariam; porém, nessas evocações, livres como são, se se manifestam, é porque lhes convém.
11. - Ainda uma outra razão é alegada: – As almas permanecem na morada que a justiça divina lhes designa – o que eqüivale dizer no céu ou no inferno. Assim, as que estão no inferno, de lá não podem sair, posto que para tanto a mais ampla liberdade seja outorgada aos demônios. As do céu, inteiramente entregues à sua beatitude, estão muito superiores aos mortais para deles se ocuparem, e são bastantemente felizes para não voltarem a esta terra de misérias, no interesse de parentes e amigos que aqui deixassem. Então essas almas podem ser comparadas aos nababos que dos pobres desviam a vista com receio de perturbar a digestão? Mas se assim fora essas almas se mostrariam pouco dignas da suprema bem-aventurança, transformando-se em padrão de egoísmo! Restam ainda as almas do purgatório, porém, estas, sofredoras como devem ser, antes que doutra coisa, devem cuidar da sua salvação. Deste modo, não podendo nem umas nem outras almas corresponder ao nosso apelo, somente o demônio se apresenta em seu lugar. Então é o caso de dizer: se as almas não podem vir, não há de que recear pela perturbação do seu repouso.
12. - Mas aqui reponta uma outra dificuldade. Se as almas bem-aventuradas não podem deixar a mansão gloriosa para socorrer os mortais, por que invoca a Igreja a assistência dos santos que devem fruir ainda maior soma de beatitude? Por que aconselha invocá-los em casos de moléstia, de aflição, de flagelos? Por que razão e segundo essa mesma Igreja os santos e a própria Virgem aparecem aos homens e fazem milagres? Estes deixam o céu para baixar à Terra; entretanto os que estão menos elevados não o podem fazer!
13. - Que os cépticos neguem a manifestação das almas, vá, visto que nelas não acreditam; mas o que se torna estranhável é ver encarniçar-se contra os meios de provar a sua existência, esforçando-se por demonstrar a impossibilidade desses meios, aqueles mesmos cujas crenças repousam na existência e no futuro das almas! Parece que seria mais natural acolherem como benefício da Providência os meios de confundir os cépticos com provas irrecusáveis, pois que são os negadores da própria religião. Os que têm interesse na existência da alma deploram constantemente a avalancha da incredulidade que invade, dizimando-o, o rebanho de fiéis: entretanto, quando se lhes apresenta o meio mais poderoso de combatê-la, recusam-no com tanta ou mais obstinação que os próprios incrédulos. Depois, quando as provas avultam de modo a não deixar dúvidas, eis que procuram como recurso de supremo argumento a interdição do assunto, buscando, para justificá-la, um artigo da lei mosaica do qual ninguém cogitara, emprestando-lhe, à força, um sentido e aplicação inexistentes. E tão felizes se julgam com a descoberta, que não percebem que esse artigo é ainda uma justificativa da Doutrina Espírita.
14. - Todas as razões alegadas para condenar as relações com os Espíritos não resistem a um exame sério. Pelo ardor com que se combate nesse sentido é fácil deduzir o grande interesse ligado ao assunto. Daí a insistência. Em vendo esta cruzada de todos os cultos contra as manifestações, dir-se-ia que delas se atemorizam. O verdadeiro motivo poderia bem ser o receio de que os Espíritos muito esclarecidos viessem instruir os homens sobre pontos que se pretende obscurecer, dando-lhes conhecimento, ao mesmo tempo, da certeza de um outro mundo, a par das verdadeiras condições para nele serem felizes ou desgraçados. A razão deve ser a mesma por que se diz à criança: – "Não vá lá, que há lobisomens." Ao homem dizem: – "Não chameis os Espíritos: – São o diabo." – Não importa, porém: – impedem os homens de os evocar, mas não poderão impedi-los de vir aos homens para levantar a lâmpada de sob o alqueire. O culto que estiver com a verdade absoluta nada terá que temer da luz, pois a luz faz brilhar a verdade e o demônio nada pode contra esta.
15. - Repelir as comunicações de além-túmulo é repudiar o meio mais poderoso de instruir-se, já pela iniciação nos conhecimentos da vida futura, já pelos exemplos que tais comunicações nos fornecem. A experiência nos ensina, além disso, o bem que podemos fazer, desviando do mal os Espíritos imperfeitos, ajudando os que sofrem a desprenderem-se da matéria e a se aperfeiçoarem. Interdizer as comunicações é, portanto, privar as almas sofredoras da assistência que lhes podemos e devemos dispensar. As seguintes palavras de um Espírito resumem admiravelmente as conseqüências da evocação, quando praticada com fim caritativo: "Todo Espírito sofredor e desolado vos contará a causa da sua queda, os desvarios que o perderam. Esperanças, combates e terrores; remorsos, desesperos e dores, tudo vos dirá, mostrando Deus justamente irritado a punir o culpado com toda a severidade. Ao ouvi-lo, dois sentimentos vos acometerão: o da compaixão e o do temor! compaixão por ele, temor por vós mesmos. E se o seguirdes nos seus queixumes, vereis então que Deus jamais o perde de vista, esperando o pecador arrependido e estendendo-lhe os braços logo que procure regenerar-se. Do culpado vereis, enfim, os progressos benéficos para os quais tereis a felicidade e a glória de contribuir, com a solicitude e o carinho do cirurgião acompanhando a cicatrização da ferida que pensa diariamente." (Bordéus, 1861.)
Capitulo II do livro Porque Sou Espirita, onde Américo Domingos Nunes Filho refuta as acusações de Dom Estevão Bittencourt a Doutrina Espirita:
Para a devida refutação das agressões do autor à Doutrina Espírita, comentarei de parágrafo em parágrafo as suas assertivas. Diz o religioso “Um dos fatores mais atraentes do Espiritismo é a aparente comunicação com 'os espíritos desencarnados', estes parecem acompanhar os vivos, consolando-os e orientando-os; é o que ocorre nos casos do copo falante, da psicografia, das casas mal-assombradas, etc.” O clérigo enquadra a comunicação espírita como “aparente”. Afirma que os espíritos desencarnados “parecem” acompanhar os vivos. Com essa afirmação gratuita, o prelado está negando os inúmeros fenômenos que aconteceram nos ambientes ligados à sua crença, como também os que se verificaram em terras do Oriente, segundo o relato do Antigo e Novo Testamentos. Desde os tempos primitivos o homem pode ver e ouvir os Espíritos. Os fenômenos de vidência e audiência atestam a presença de seres espirituais, confirmando a imortalidade.
No Antigo Testamento, o sacerdote Eli é observador de um fato mediúnico de grande significância. O profeta Samuel, ainda jovem, na sua primeira experiência paranormal, ouvia uma voz que pensava ser a de Eli, deitado próximo a ele. O sacerdote percebeu que Samuel estava sendo utilizado, como intermediário, captando mensagens do Plano Superior (Primeiro Livro de Samuel 3:1-14). Enquanto o exemplo anterior retrata um caso marcante de audiência, trago agora outros tipos de mediunidade, onde a vidência também é relacionada.
O protagonista foi Daniel, célebre profeta judaico da corte da Babilônia. Enquanto presenciava uma visão com “a aparência de um homem” (Daniel 8:15), ouviu a voz de um varão que estava as margens do rio Ulai, a qual gritou: “Gabriel, dá a entender a este a visão” (Daniel 8:16). Gabriel quer dizer “Homem da Luz”. Um Espírito situado em alto grau de evolução, apareceu a Daniel tão nitidamente que o deixou amedrontado (Daniel 8:17). O valoroso profeta, em outra circunstância, viu uma entidade de grande expressão, totalmente iluminada. Os homens que estavam com Daniel nada viram. Ouvindo a voz estrondosa, caiu sem sentidos, rosto em terra. (Daniel 10:5-9) Contestando, a priori, a ação inteligente dos habitantes do Mundo Espiritual junto aos seres terrenos, o padre vibra em consonância com as correntes espirituais inferiores que recusam a revelação divina, transmitida a Humanidade por Benfeitores Espirituais, através de inúmeros intermediários (médiuns ou profetas). No livro de Jó, há o relato de uma passagem bem significativa, provando, o que o eclesiástico nega, a presença insofismável da individualidade espiritual. Declara Jó: “Então, um espírito passou por diante de mim; fez me arrepiar os cabelos do meu corpo; parou ele, mas não lhe discerni a aparência; um vulto estava diante de meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz” (Livro de Jó 4:15-16). Afirmando que a comunicação mediúnica não é real, o catolicismo, representado por um de seus sacerdotes, está anatematizando a própria Bíblia, denominada de “Sagrada” pela Igreja. Em Atos dos Apóstolos, um discípulo chamado Ananias, em Damasco, vê o Mestre Jesus e dialoga com ele. O Cristo lhe outorga a missão de procurar por Paulo, dizendo-lhe: “Vai, porque esta é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios...” (Capítulo 9, versículos 10 a 16). Conforme se observa, Ananias era um exímio médium vidente e audiente. Através de suas faculdades medianímicas, foi incumbido por Jesus para uma tarefa grandiosa. Entrando na casa onde se encontrava Saulo, apelidado de Tarso, impôs sobre ele as suas mãos e o “convertido de Damasco” tornou a ver. É possível constatar, também, em Ananias, a mediunidade de cura, retirando a cegueira de Saulo, através da aplicação de passes. Lendo a Bíblia, utilizando a ótica do bom senso, os textos passam a ser bem entendidos e a lógica aparece aos olhos do observador. O texto citado acima, parece até uma descrição dos fatos que acontecem dentro dos trabalhos práticos espíritas, onde a mediunidade recebe a devida atenção, já que seu exercício é, segundo relato religioso, “um dos fatores mais atraentes do Espiritismo”.
(...)
O Evangelho de Lucas revela a visão presenciada por Zacarias, no interior do santuário do templo, quando um Mensageiro Espiritual, chamado Gabriel, aparece ao ancião, comunicando-lhe a notícia alvissareira da encarnação de um grande missionário em seu lar, um filho, a quem seria chamado de João. A entidade relata a Zacarias a respeito da elevada posição hierárquica do Espírito a encarnar (Lucas 1:14-15), revelando-o como o profeta Elias que teria de voltar, segundo uma profecia de Malaquias. Inclusive, Gabriel repete a mesma frase, dita por Malaquias, quando alude à reencarnação de Elias: “E irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos” (Lucas 1:17 e Malaquias 4:5-6) O arauto angelical Gabriel, descrito como “homem” por Daniel (Daniel 9:12), é o mesmo ser desencarnado que aparece depois a Maria, anunciando-lhe o nascimento de Jesus. Mais uma vez, o fenômeno mediúnico se destaca nessas passagens evangélicas. Ignorá-lo, é desconhecer a verdade absoluta que emerge dos textos bíblicos. Não reconhecê-lo, corresponde a não aceitar como verdadeiro O Livro dos Espíritos. O reverendo Bittencourt, na trevosa ação de inútil ceifador do Espiritismo, está também demolindo os alicerces de sua própria crença, negando a própria “palavra de Deus”, a Bíblia, o “livro sagrado” do Clero. (...) Na Primeira Epístola de Pedro, Capítulo um, versículo onze, está inserida a comprovação de que os profetas serviram de intérpretes da Espiritualidade Superior: “O Espírito Jesus estava com os profetas”, como também a afirmação do Livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo sete, versículo cinqüenta e três: “Os profetas receberam a lei por ministério dos anjos” , ou seja, através de mensageiros espirituais. Os profetas eram, portanto, médiuns, dotados, principalmente, da mediunidade da Psicofonia ou Incorporação. (...) Quanto ao fato de espíritos inferiores, ainda não esclarecidos, poderem-se comunicar, é preciso esclarecer que nem sempre mediunismo é Doutrina Espírita. Os profitentes da 'Terceira Revelação Divina' seguem, com muita vigilância e atenção, o ensinamento de João: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito: antes, provai os espíritos se procedem de Deus” (1a Epístola 4:1) Um único texto do Novo Testamento põe por terra a afirmação do clérigo de que não há comunicação de Espíritos. O ensinamento de João é bem claro: existem seres esclarecidos (provêm de Deus) e Seres Inferiores (não dêem crédito) (...)
Na realidade, o prelado, afirmando a heresia de que os desencarnados parecem acompanhar os vivos, está fornecendo um atestado de repúdio às letras bíblicas. Afinal, que estavam fazendo, em alto monte, os espíritos desencarnados, Elias e Moisés, materializados, acompanhando os 'vivos' que lá estavam, representados por Jesus, Pedro, Tiago e João?
(...)
A propósito, tenho ainda outras abordagens bíblicas, a serem digeridas por todos aqueles que negam a presença dos desencarnados, acompanhando os “vivos”:
1 - Após a transfiguração de Jesus e já aparecendo, materializados, dois grandes vultos do Antigo Testamento, Moisés e Elias, deveriam estar os apóstolos Pedro, Tiago e João bem acordados, e, sem dúvidas, tensos, devido a grande quantidade de adrenalina circulante em seus corpos. Contudo, para tristeza dos que negam o fenômeno mediúnico e para gáudio dos espíritas, o evangelista Lucas diz que “Pedro e seus companheiros achavam-se premidos de sono” (Lucas 9:32). Por que estavam adormecidos?
2 - No primeiro livro de Reis, há também uma descrição bem expressiva, em relação ao tema. O profeta Elias achava-se em fuga, porquanto estava jurado de morte pelo assassínio dos profetas de Baal. Depois de uma longa caminhada pelo deserto, assentou-se debaixo de um arbusto. “Deitou-se, e DORMIU debaixo do zimbro” (I Reis 19:5). Um mensageiro espiritual, materializado, toca-o e lhe diz: “Levanta-te e coma”. A sua frente, se encontravam, materializados, um pão cozido sobre pedras e uma botija de água. Após ter comido e bebido, voltou a dormir. Após algum tempo, ressurge novamente, materializado, o ser espiritual, tocando outra vez em Elias, mandando-lhe comer e beber. A seguir, ordenou-lhe a partida (I Reis 19:6-8)
Por que
dou tanta importância ao fato de Elias estar adormecido, antes da chegada do
espírito materializado?
3 - No livro dos Atos dos Apóstolos, encontra-se a informação de que Pedro se achava aprisionado à mando de Herodes, DORMINDO na prisão, entre dois soldados, acorrentado com duas candeias. Eis, porém, que surge uma entidade espiritual, materializada, e a cela apresenta-se totalmente iluminada. O ser extrafísico, tocando o lado de Pedro; o desperta e lhe diz: “Levanta-te depressa. Cinge-te, a calça as tuas sandálias. Põe a tua capa, e segue-me” (Atos 12:5-8). A seguir o Evangelista Lucas cita duas referências a Pedro que, “para os que não tem ouvidos para ouvir”, parecem ser enigmáticas: “Pedro não sabia o que era real, o que se fazia por meio do anjo ou mensageiro espiritual; parecia-lhe uma visão” (Atos 12:9). “Então, Pedro, caindo em si...” (Atos 12:11) Por que grifei Pedro dormindo no cárcere? Qual a explicação para as impressões vivenciadas pelo apóstolo já fora da cela?
4 - O fato a seguir ocorreu com Paulo e Silas, açoitados e presos. Os valorosos discípulos de Jesus se encontravam no cárcere, com os pés presos a um tronco. “Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus... de repente sobreveio tamanho terremoto, que sacudiu os alicerces da prisão; abriram-se todas as portas, soltaram-se as cadeias de todos” (Atos 16:23-26) No outro versículo, está uma afirmação assaz claríssima para o entendimento espírita: “O Carcereiro despertou do SONO” (Atos 16:27).
Por que mais uma vez foi ressaltado o
fato de alguém estar dormindo? Por que os textos ressaltam alguém estar
adormecido, num momento tão importante como o da materialização de
Espíritos? Sem dúvida, a palavra autorizada do Consolador surge à nossa
frente. O Mestre não nos deixou órfãos, já que a Revelação Espírita, com o
beneplácito da ciência, vem esclarecer a todos a respeito da Ectoplasmia e
responder as questões por mim formuladas. O Espiritismo ensina que tanto no
fenômeno da Materialização, como no de Efeitos Físicos, há o aproveitamento
de uma substância, eliminada por um médium, adormecido, denominada
ectoplasma. Na materialização, o ser desencarnado se apresenta visível e
tangível, devido a impregnação de sua vestimenta espiritual pelo ectoplasma,
cedido por um sensitivo, acrescido dos que se formam dos participantes da
reunião ou, até mesmo, da natureza. A produção de efeitos físicos é
realizada, graças a uma condensação de ectoplasma, dando ensejo à produção
de pancadas, ruídos, voz direta e sematologia. Tanto nos fenômenos de
efeitos físicos, quanto na Materialização, há necessidade da presença de um
médium que tenha a faculdade de liberar substância essencial à realização do
fenômeno da ectoplasmia. O sensitivo recolhe-se a uma cabine escura onde se
deita e, profundamente adormecido, exterioriza-se o ectoplasma por diversos
orifícios do seu corpo, principalmente da boca e das narinas. (...) No “Monte da Transfiguração”, os
apóstolos Pedro, Tiago e João serviram-se de médiuns, cedendo ectoplasma
para a materialização de Moisés e Elias. Daí o fato de estarem “premidos de sono”. O fato
acontecido com Pedro foi semelhante ao acontecido com Elias. Estava
dormindo, em transe profundo, cedendo ectoplasma, proporcionando a aparição
tangível de um Arauto Espiritual que, inclusive, toca em Pedro, acordando-o.
Ao sair da prisão, o discípulo acompanhava o Espírito, pensando ter uma
visão, isto é, acreditando-se fora do corpo físico, em desdobramento ou
projeção da consciência. Estava realmente confuso, o que vem confirmar que
estava acordando de um transe profundo. Essa hipótese é real, porquanto o
apóstolo já sozinho, “caiu em
si”, isto é, estava compreendendo o que se
passava, achando-se “inteiramente
lúcido” (Atos
12:11). Em relação a Paulo e Silas, curiosamente,
era o carcereiro, o médium de ectoplasma. Daí o texto ser bem claro: “O carcereiro despertou do sono”. Para os que já
têm 'OLHOS DE VER' e 'OUVIDOS DE
OUVIR' é perfeitamente entendida a mensagem, um
tanto enigmática da Bíblia, em que nos
fenômenos de materialização e de efeitos físicos descreve-se sempre alguém
adormecido. (...) O prelado cita os 'aparentes' fenômenos do
'copo falante',
da psicografia e das casas mal-assombradas. A sematologia resume-se na
movimentação de objetos mediante a ação dos espíritos sobre a matéria
inerte. Talvez o padre desconheça que, na Bíblia, existe uma referência à
prática da mediunidade do copo. É encontrada, no Livro de
Gênesis, capítulo 44, versículo 5: o undécimo
filho de Jacó e o mais velho de Raquel, José, personagem ilustre do Antigo
Testamento, utilizou 'o copo, em que bebia,
para fazer adivinhações'. Na Sociedade Pró-Livro Espírita
em Braille
(SPLEB), tive a oportunidade de presenciar várias reuniões de Sematologia.
Alguns parapsicólogos relatam que o fenômeno é causado pela ação do
'inconsciente dos sensitivos'. Pois bem, os médiuns que estavam em ação,
movendo o copo, eram todos cegos, botando por terra as razões materialistas
para o processo da Sematologia. Quanto a psicografia, há relatos e
comprovações científicas abundantes dos trabalhos desempenhados por
Francisco Cândido Xavier, Divaldo Pereira Franco, Mirabelli e muitos outros.
Inclusive, mensagens celeremente escritas, no papel, em idioma estrangeiro
não conhecido pelo médium. Algumas comunicações apresentando-se com as
palavras dispostas de trás pra frente, podendo somente ser lidas ao espelho.
Outras, sendo encerradas com a mesma assinatura que o 'morto' tinha em vida. Em
relação ao fenômeno de 'Poltergeist', existem,
amiúde, pesquisas científicas atestando a presença de espíritos do além
agindo no ambiente, utilizando a energia ectoplasmática de um médium."
Capítulo VIII do mesmo livro:
"Agora, o sacerdote utiliza-se das armas das chamadas Escrituras Sagradas e da munição das leis mosaicas, para combater a Doutrina dos Espíritos, relatando o seguinte:
Para quem é cristão, o texto bíblico tem valor de guia fundamental. Ora, a Bíblia condena eloqüentemente a evocação dos mortos:
Lv 19, 31: “Não vos voltareis para os necromantes nem consultareis
os adivinhos, pois eles vos contaminariam”
Lv 20, 6: “Aquele que recorrer aos necromantes e aos adivinhos para se prostituir com eles, voltar-me-ei contra esse homem e o exterminarei do meio do seu povo”.
Lv 20,27: “O homem ou a mulher que, entre vós, for necromante ou adivinho, será morto, será apedrejado, e o seu sangue cairá sobre ele ou ela.”
Dt 18,10-14: “Que em teu meio não se encontre alguém que queime seu filho ou sua filha, nem que faça presságio, oráculo, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos, que interrogue espíritos ou adivinhos, ou ainda que evoque os mortos; pois quem pratica essas coisas e abominável a Javé... Eis que as nações que vais conquistar, ouvem oráculos e adivinhos. Quanto a ti, isso não te é permitido por Jave teu Deus”. (Ver ainda II Rs 17, 17; Is 8,19s)
Antes de abordar o assunto da suposta condenação da mediunidade, fico surpreso que de toda a Bíblia, contendo, em especial, os dignificantes ensinamentos do Novo Testamento, o sacerdote se socorra de alguns textos de Moisés, esquecendo-se ou ignorando os demais do Antigo Testamento.
Trago, então, algumas considerações, com exemplos, para meditação e esclarecimento de todos os irmãos, retirados do livro Razão e Dogma, de minha autoria:
'...6) As pernas de diversos crimes:
'Deus dita leis absurdas a Moisés que, na época em que vivemos, contradizem o caráter divino da Bíblia.
'O livro de Levítico corresponde a um tempo de grande atraso, onde as pessoas viviam em tribos hostis e sanguinárias. Estranhas leis eram sancionadas, tão humanas e tolas quanto o modo de pensar da Humanidade de então. É incrível que ainda se pense numa ordenança divina, quando é fácil constatarmos a presença da frágil ignorância humana.
'A pena capital é outorgada aos homossexuais, aos adúlteros, aos idolatras e aos feiticeiros. É surpreendente a menção da expulsão do seio do povo daqueles que praticaram um relacionamento sexual durante a época da menstruação (Levítico 20:18)
'Se a filha de um sacerdote se desonra, profana o seu pai, com fogo será queimada' (Levítico 21:9)
'Os deficientes físicos, descendentes dos sacerdotes, são proibidos de penetrar no altar, ou mesmo de 'oferecer o pão do seu Deus'. Um intenso e desumano preconceito é observado na leitura atenta dos textos de Levítico 21:16-24;
'7) 'Deus' faz exigências quanto a oferenda: É incrível que alguns religiosos exaltem tanto todos os textos bíblicos, quando utilizando a lógica e a razão, verificamos um sem-número de absurdos. O 'Deus', ao qual se refere o livro de Levítico 22:17-18, marcadamente bem humano e impertinente, ordena que a oferta, a ser oferecida no altar, seja de animais sem defeitos. Mais exigente, ainda, quando determina que não devem ser ofertados animais que tiverem os testículos machucados, ou moídos, ou arrancados, ou cortados (Levítico 22:24). Finalizando o lamentável capitulo, 'Deus' se identifica como o 'SENHOR' e diz: 'Não profanareis o meu santo nome, mas serei santificado no meio dos filhos de Israel: Eu sou o SENHOR que vos santifico'. '...que vos tirei da Terra do Egito, para ser o vosso Deus: Eu sou o SENHOR' (Levítico 22:32-33) Tudo isto não é muito triste, caro leitor?
'8) A recompensa dada por 'Deus' aos seus obedientes seguidores:
No mesmo livro em tela, o 'SENHOR' afirma que, para todos que guardarem e cumprirem os mandamentos, dará chuvas ao seu tempo; a terra dará sua messe, e a árvore do campo o seu fruto (Levítico 26-3-4). 'Mais adiante, 'Deus' diz o seguinte: 'Perseguirei os vossos inimigos, e cairão a espada diante de vós. Cinco de vós perseguirão a cem, e cem dentre vós perseguirão a dez mil...' (Levítico 26:7-8) 'Não é a toa que esse mesmo 'Deus' se denomine o 'SENHOR DOS EXERCITOS'. É incrível, fantástico e extraordinário que o próprio 'Deus' desrespeite o seu mandamento - 'NAO MATARÁS' (Êxodo 20:13);
'9) Os castigos da desobediência:
''Deus' ameaça a todos que rejeitarem os mandamentos e estatutos com as seguintes penas:
'a) ‘Porei sobre vós terror, a tísica e a febre ardente que fazem desaparecer o lustre dos olhos e definhar a vida...’ (Levítico 26:16).
'b) 'Voltar-me-ei contra vós outros, e sereis feridos diante de vossos inimígos...' (Levítico 26:17);
'c)‘Trarei sobre vós a espada vingadora de minha aliança...enviarei a peste para o meio de vós e sereis entregues na mão do inimigo’ (Levítico 26:25).
'd) 'Com furor serei contrário a vós outros, e vos castigarei sete vezes mais por causa dos vossos pecados' (Levítico 26:28).
'e) Destruirei os vossos altos...' (Levítico 26:30).
'f) Reduzirei as vossas cidades a deserto e assolarei os vossos santuários...' (Levítico 26:31)
g) 'Assolarei a terra...' (Levítico 26:32).
'Um 'Deus' vingativo e mau, totalmente em desacordo com a primeira epístola de João, que nos consola, afirmando-nos: 'DEUS É AMOR' (I João 4-8) (Retirado do capitulo XII do livro Razão e Dogma, Editora O Clarim, do mesmo autor/Américo D. Nunes Filho)
Quanto ao tema em tela, o padre comete um erro de interpretação. Nem a Bíblia, e muito menos Moisés, 'condena eloqüentemente a evocação dos mortos'. Os textos são perfeitamente elucidativos, a respeito da mediunidade praticada por seres humanos bem inferiores, em intercâmbio com espíritos atrasados, principalmente para fins divinatórios, porquanto necromância é a invocação dos mortos para adivinhações.
Não se deve esquecer, por exemplo, dos idólatras que, nos cultos aos deuses de Baal, praticavam a magia negra, utilizando-se de sacrifícios humanos. A pratica da mediunidade foi proibida, pelo legislador hebreu Moisés, de ser exercida pelos politeístas, exatamente os que adoravam espíritos inferiores que se apresentavam ou eram identificados como deuses. O intercâmbio mediúnico, praticado pelos sinceros adeptos do monoteísmo, não era condenado. Algumas passagens nas escrituras, claramente, confirmam o fenômeno da mediunidade:
'...Manasses, após seu cativeiro em Babilônia, voltou-se, arrependido, para Deus, abandonando a seita idólatra de Baal, após o que ele, angustiado, suplicou deveras ao Senhor seu Deus, e muito se humilhou perante o Deus de seus pais' (II Cr 33:12). Consequentemente ouviu '... as palavras dos videntes que lhe falaram em nome do Senhor, Deus de Israel...' (II Cr 33:18).
A exclamação de Moisés ('Oxalá todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espirito) Livro de Números, Cap. 11, vers. 29, ressalta que as evocações dos mortos não eram proibidas para os que seguiam verdadeiramente os passos do legislador hebreu. É necessário esclarecer que, para o povo hebreu, os fenômenos mediúnicos eram permitidos e louvados, já que os seus medianeiros não obtinham vantagem financeira, nem eram associados a magia negra e a necromancia. Mesmo que a condenação mosaica fosse para todos, sabe-se que o Mestre Jesus não ratificou tudo quanto disse Moisés, provando que nem tudo o que veio do legislador judeu é divino (ver Mateus 5:38-48; João 8:1-11). ‘Aliás, se há no Velho Testamento uma proibição que foi claramente contestada pelo Mestre, essa proibição é, nada mais, nada menos, a que impede o intercâmbio com o plano invisível. Jesus, tomando consigo a Pedro, Tiago e João, levou-os a um alto monte e se transfigurou diante deles (Mt 17:2). Ali apareceram gloriosamente materializados, Moisés e Elias, que conversaram com o Cristo a respeito de sua futura crucificação. Diga-se de passagem que os apóstolos, presentes a reunião, cooperaram ativamente para a produção do fenômeno, uma vez que estavam tomados de sono’ (Lc 9:32). Ora, só sentiria sono em tais circunstâncias quem estivesse cedendo ectoplasma, porquanto não se compreende que alguém possa ficar sonolento diante de fatos tão espantosos, como os que se deram no 'monte da transfiguração'. Apesar da presença de Jesus, que por si só dispensaria todo e qualquer concurso alheio para a manifestação do Plano Superior, os apóstolos forneciam ectoplasma, o que explica não estarem em plena posse de sua consciência vigil.
'E IMPORTANTISSIMO RESSALTAR QUE O PROPRIO MOISÉS, 'MORTO' há tanto tempo e AGORA MATERIALIZADO no monte, FOI JUSTAMENTE QUEM PROIBIU O CONTATO COM OS 'MORTOS'...
'A proibição de Moisés é inteiramente ratificada pela Doutrina Espirita, que igualmente condena a evocação de espíritos atrasados, com o fim de sortilégios e adivinhações.
'O que se vê, em tudo isto, o que ai se proíbe, não é propriamente o contato com os espíritos, e sim, a utilização desse contato para fins divinatórios. Não era, porém, esse o único motivo para que Moisés proibisse o intercâmbio com o invisível. É necessário atentar para a missão histórica do povo judeu. Ele tinha que transmitir a Humanidade e de maneira insofismável a noção monoteísta. A crença num único Deus era outrora propriedade de iniciados e só a conheciam os que pertenciam a escolas secretas. Os judeus tinham que vulgariza-la; era necessário, portanto, que sua atenção não se desviasse do Deus Supremo, o que fatalmente aconteceria caso o contato com os espíritos lhe fosse franqueado. Convém não esquecer que foi graças ao monoteísmo, que de Israel, 'encruzilhada do mundo', ponto de encontro entre várias culturas, surgiu o Cristianismo'. (Trechos retirados do Capítulo A Suposta Proibição Mosaica do Exercício Mediúnico, do livro Razão e Dogma, Editora O Clarim). A seguir, o escritor clerical afirma: 'A proibição se deve não a suposição de que os mortos sejam incomodados pelos vivos, mas ao fato de que não há receita que garanta a comunicação entre vivos e mortos. A necromância é superstição. A oração que os cristãos dirigem aos santos, não se baseia em formulas ou receitas mágicas, mas unicamente na convicção de que Deus quer conservar a comunhão entre os membros do Corpo Místico de Cristo; por isto Ele faz que os justos no céu tomem conhecimento das preces despretensiosas que lhes dirigimos na Terra e, em conseqüência, intercedam por nós'.
Nada se pode aprender de importante para refutação, nessa maçante ou arrazoadora declaração.
"Depois, o religioso dá o seu ultimo grito de guerra, ja sem munição: Quanto ao caso de Saul, que evocou Samuel mediante a pitonisa de Endor e foi atendido (Cf. 1 Sm 28, 5-15), não é paradigma, pois diz a própria Bíblia que Saul foi condenado por causa disso (cf. 1 Cr 10:3). Deus permitiu que Saul recebesse de Samuel, naquele momento, a advertência de que estava no fim sua vida terrestre e no dia seguinte ia morrer; foi por causa da importância solene daquela hora que Deus permitiu a resposta de Samuel; ela não foi provocada pela arte da adivinhação; esta apenas forneceu a ocasião ou as circunstâncias da manifestação de Samuel.
De inicio, parabenizo o sacerdote por não se referir ao “diabo”, como sendo Samuel, teoria de muitos exegetas protestantes, tentando negar o aparecimento de um espirito, ao qual, pela sua crença, deveria estar dormindo, aguardando a absurda e anticientífica “ressurreição dos corpos”. Quanto a passagem, em que o rei Saul procura a pitonisa de Endor, é preciso que se faça algumas reflexões:
1 - O monarca, preocupado que estava com os filisteus, solicitou uma comunicação do Espirito Samuel; portanto, para fins divinatórios, desejava o intercâmbio mediúnico;
2 - Não recebeu o que ansiava, através dos profetas ou médiuns de Israel, nem pela mediunidade de efeitos físicos (Urim), nem pelo desdobramento do corpo espiritual (sonhos), (I Samuel 28:6);
3 - Foi ao encontro de uma pitonisa, disfarçado, porquanto o rei tinha desterrado todos os que praticavam a mediunidade de forma inferior para adivinhações e magia negra (I Samuel 28:3);
4 - Através das faculdades paranormais da inferior medianeira, o Espirito Samuel diz a Saul que ele e seus filhos, no dia seguinte, seriam mortos, na peleja contra os filisteus (I Samuel 28:19).
5 - O motivo da condenação de Saul está bem claro nos versículos 18 e 19. Disse Samuel: “Como não deste ouvidos a voz do Senhor, e não executaste o que ele no furor de sua ira ordenou contra Amaleque, por isso o Senhor te fez isto (não receber a mensagem mediúnica dos médiuns hebreus)... e amanhã tu e teus filhos estarão comigo...”
Para os leitores desatentos ou que desconheçam estes versículos, o padre parece passar o ensinamento falso, o de Saul ter sido punido por Deus pelo motivo de ter consultado um “morto”.
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