Qual Deus é mesmo cruel?

Chega-nos a notícia de que um determinado líder religioso, querendo justificar que sua religião é boa, disse que o Deus dele é bom, mas que no Espiritismo isso não acontece, pois nosso Deus é cruel, já que faz com que as pessoas renasçam aleijadas e com muito sofrimento. Estaria ele admitindo a existência de mais de um Deus?

Certas pessoas agem como um verdureiro que, querendo provar que seu tomate é bom, usa do argumento de que o do seu concorrente é que é ruim, enquanto que deveria demonstrar que seu produto é bom, por razões de qualidade, sabor, visual, etc.

Gostaríamos de saber como essas pessoas conseguem explicar que Deus, sendo bom, faça nascer criaturas aleijadas, cegas, surdas, mudas, paralíticas, sem usar como argumento o princípio da reencarnação. Se vivermos, conforme pregam, uma só vida, que nos apresentem seus argumentos para estabelecer essa bondade do Deus que seguem, já que as pessoas nascem dessa forma, independente de acreditarem ou não na reencarnação. Por outro lado, como conciliar isso com Deus não faz acepção de pessoas (At 10,34). Porventura não mais prevalece o “...vós que sois maus sabeis dar boas coisas a seus filhos, quanto mais o Pai Celestial...” (Mt 7,11)?

Aliás, parece-nos muito contraditório, pois se na Bíblia é afirmado que “os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa de seu próprio crime (Dt 24,16), como nos pode ser imputado o “pecado” de Adão e Eva? Preferimos pagar pelo que fizermos, mesmo sem nos lembrarmos disso, a termos que pagar pelo que os outros fizeram, já que isso, além de ser completamente injusto, ainda fere o princípio basilar da justiça: “a cada um segundo suas obras(Mt 16,27).

Há outra coisa para a qual também não conseguimos encontrar uma explicação: considerando que, ao instituir os Dez Mandamentos, Deus não estabelece a pena de castigo eterno no inferno para os infratores da lei, como, então, Ele manda pessoas para lá? A legislação humana, por questão de justiça, só condena alguém com pena estabelecida em Lei, mas a divina parece nem ligar para isso, segundo certos princípios teológicos!

Por outro lado, não há como harmonizar essa absurda idéia de penas eternas diante da afirmativa de que “O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades (Sl 103,8-10). Entretanto, isso cabe perfeitamente na questão da reencarnação, já que Deus repreende mesmo é temporariamente.

Erram os que pensam ser a reencarnação uma punição ao indivíduo, pois essa lei é antes de tudo uma necessidade para a evolução da criatura, caminho pelo qual todos nós chegaremos a Deus. E sem ela, como explicar esse sofrimento à nossa volta? Haverá algum sentido de vida para uma criança que nasce deficiente mental? Quando morrer irá para o céu ou para o inferno, já que pelas suas condições não tem como fazer nada para merecer nem um nem o outro?

As desigualdades das condições sócio-econômicas das pessoas teriam qual explicação diante de uma justiça infinita? Não se encontrará outra senão quando se utilizar da justiça que somente se realiza através da reencarnação.

Afirmamos que, para nós os Espíritas, Deus não é cruel, pois, ao invés de nos mandar para o fogo eterno, nos dá outra oportunidade para viver novamente e tantas quantas forem necessárias até nos tornarmos anjos (espíritos puros), aproveitando o ensejo da reencarnação para que possamos também reparar o mal que praticarmos. Todos os nossos sofrimentos, quando não for uma prova, são frutos de nossas próprias ações, se não dessa vida, certamente de uma anterior, não tendo Deus nada a ver com isso, pois apenas está funcionando Sua Lei de causa e efeito.

O velho e surrado argumento de que Jesus não pregou reencarnação e sim ressurreição, deve ser revisto pelos que dele fazem uso. A questão é: como entendiam essa palavra? Será que ela também poderia significar voltar a viver em outro corpo? Se não, como Jesus afirmou que João Batista era Elias? A Nicodemos Ele disse que, para entrar no reino dos céus, “é necessário que nasça de novo (Jo 3,3). O que não deveria ser confundido com o batismo, já que a prática ritualística de iniciação entre os judeus era a circuncisão e não o batismo. O povo pensava que Jesus poderia ser algum dos antigos profetas ressuscitado (Lc 9,8), é óbvio que o sentido aqui é reencarnatório, uma vez que conheciam sua origem. E como Jesus não disse que isso não poderia ocorrer, podemos daí concluir que, tacitamente, confirma tal pensamento, uma vez que, sempre corrigia os que pensavam equivocadamente.

Mas é fácil entender o porquê do combate à reencarnação, pois, por ela, a “salvação’” fica nas mãos da própria pessoa, enquanto que, de outra maneira, a que defende – ressurreição da carne e castigo eterno -, estará nas mãos do líder religioso; que dessa forma mantém a posição de privilégio, poder e cofre cheio, via dízimo arrecadado como “doação” dos seus “pobres” fiéis, que nem desconfiam disso!

         Por derradeiro: “Só se jogam pedras em árvores que dão frutos”.

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Dez/2005.

 

[Ir para a página inicial - se estiver DENTRO DO SITE]

[Ir para a página inicial - se estiver FORA DO SITE]