É interessante observar que sempre nos aparece um fanático religioso, querendo "ser mais realista do que o rei" conhecer mais de Espiritismo do que seus profitentes, e assim, defender seus dogmas dizendo que a reencarnação não fazia parte dos ensinos de Jesus, nem do cristianismo primitivo.
A pessoas assim, recomendamos que leiam alguns de nossos textos sobre reencarnação, que podem ser acessados pelos links:
1. http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/reencarnacao_na_biblia.htm
2. http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/ressurreicao_significado_biblico.htm
3. http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/ressurreicao_ou_reencarnacao.htm
4. http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/reencarnacao_no_contexto_historico.htm
Neles, abordamos a questão bíblica; daí, só iremos nos preocupar, aqui, com relação ao cristianismo primitivo, especificamente quanto a Orígenes, considerado um dos pais da Igreja, e sempre citado pelos anti-reencarnacionistas como alguém que não aceitava a idéia da reencarnação. A nossa proposta é ver até onde isso é verdade.
Iremos apresentar vários autores que falaram sobre o assunto, inclusive, vários deles fora do meio Espírita, para não se colocar sob suspeita essas opiniões, alegando estarmos advogando em causa própria. Como se diz na música: “E o que tiver de ser será” (Marjorie Estiano).
A preexistência do espírito é uma teoria que prega a
existência do espírito, antes da existência do corpo. Foi – como veremos em
outro capítulo – uma das teses defendidas pelo grande sábio Orígenes, e que foi condenada pelo
polêmico V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (553).
[...]
A preexistência do espírito com relação ao corpo vivificado
por ele, é a base fundamental para a Teoria da Reencarnação, pois que, ao
admitirmos o reencarne de um espírito, automaticamente estamos admitindo que
ele já encarnou antes, pelo menos uma vez que seja.
Seria por isso que ela foi condenada pelo V Concílio
Ecumênico de Constantinopla II, em 553? É possível, pois as pressões do
imperador Justiniano e de sua mulher Teodora,
como veremos num outro capítulo, foram muito sérias, para não dizer um caso de
polícia, como se diz hoje. Aliás, veremos que, na realidade, ela nem foi
condenada por esse tal concílio. (CHAVES, 2002, p. 139-140).
Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios do
cristianismo de todos os tempos. Foi praticamente o criador da nossa teologia
cristã.
[...]
Porém, perante Deus, a História do cristianismo e mesmo
perante a Igreja de hoje, Orígenes é admirado e citado freqüentemente por
estudiosos e pesquisadores da Bíblia, da Filosofia e da Teologia.
Embora ele tenha tido algumas de suas idéias condenadas pela
Igreja, duas delas continuam sendo atacadas normalmente, e não só por
católicos, mas por protestantes também.
E foi o
polêmico V Concílio Ecumênico de Constantinopla II, de 553, que condenou suas
doutrinas célebres: a Preexistência do Espírito e a Apocatástase (restauração
de todas as coisas), as quais a humanidade, hoje, está amadurecida para
entendê-las, julgá-las e aceitá-las. (CHAVES, 2002, p. 162-163).
O V Concílio Ecumênico de
Constantinopla II (553)
A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o
V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e
mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Vigílio, papa da época.
O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter
construído, em 552, a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina,
hoje uma mesquita muçulmana.
Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o
papa. Sua mulher, a imperatriz Teodora,
foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos
de teologia.
Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta,
isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por
sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando
tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.
Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as
prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.
Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de
ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que
deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma
por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.
O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da
reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido,
resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra
o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo
de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três
séculos antes.
Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência
do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da
preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da
reencarnação.
Em 543,
Justiniano publicou um édito, em que expunha e condenava as principais idéias
de Orígenes, sendo uma delas a da preexistência. (CHAVES, 2002, p. 185-186).
Convém ressaltar que o autor ainda era
católico, inclusive, é um ex-seminarista, desde quando publicou esse livro até
a 5ª edição (2002), ainda constava do texto o catolicismo como sendo esse o seu
credo religioso.
Embora se esteja quebrando o tabu e o público cada vez mais
se interesse pela reencarnação – como qualquer livraria ou jornaleiro o
demonstram – os líderes cristãos, com algumas exceções notáveis, ainda
consideram o assunto de grande importância potencial, mas inadequado para
discussões.
Tudo isso é mais estranho ainda porque a reencarnação é
realmente implícita no cristianismo. Porque os cristãos acreditavam que Cristo
existiu, como o Filho de Deus, antes
de se encarnar na forma humana. Acreditam que sua finalidade era levar os
homens a se conduzirem como Ele; e que o seu poder permite que o consiga. Os
homens, todavia, dificilmente poderiam fazer isto se as suas naturezas e
origens fossem completamente diferentes. E se isto acontecesse, certamente
Cristo iria mencioná-lo e não iria esperar que fossem como Ele.
Por uma das ironias mais divertidas da História, esta atitude
estranha do clero do século vinte é parcialmente o resultado das intrigas
desapiedadas de uma cortesã superlibidinosa do Oriente Médio, que viveu acerca
de 1400 anos atrás. Trata-se de Teodora, filha de um guardião de ursos, que se
tornou amante e mais tarde a esposa do Imperador bizantino Justiniano.
Naquele tempo, muitos cristãos aceitavam a reencarnação como
uma parte essencial do cristianismo. Seguiam os ensinamentos de Orígenes, um
dos sábios mais brilhantes das Igrejas Cristãs primitivas, que uns 250 anos
antes escreveu no seu Princípios:
“cada alma... vem a este mundo fortificada pelas fraquezas ou vitórias da vida
anterior. Seu lugar neste mundo, como um vaso escolhido para honrar ou
desonrar, é determinado pelos seus méritos ou deméritos. Seu trabalho neste
mundo determina a sua vida num mundo futuro”.
Esta filosofia enraiveceu Teodora, que queria acreditar – e
que o público acreditasse – que sua atividade neste mundo lhe daria a certeza
de uma posição, mais eminente no outro. Esperava, em outras palavras, um “céu”
imediato, e naturalmente encarou com desagrado qualquer sugestão de que ela só
obteria o “céu” em encarnações sucessivas nas quais expiaria seus crimes. Então
esforçou-se por tirar tais noções do cristianismo.
Há suspeitas de que tenha sido a responsável pelo
assassinato de dois Papas que a ela se opuseram, segundo o estudo fascinante de
suas conspirações desonestas pelo romancista e teatrólogo Noel Langley. E,
depois de sua morte, Justiniano, que também esperava um “céu” imediato, encerrou
a discussão sobre a reencarnação convocando no ano de 553 o Quinto Concílio
Ecumênico da Igreja que – em termos modernos – foi cuidadosamente organizado
para declarar que a reencarnação era anátema.
Sem dúvida o Imperador e seus bobocas eclesiásticos ordenaram
a destruição de qualquer escrito que desenvolvesse idéias sobre a reencarnação
porque pretendiam liquidar as últimas reminiscências do ensino sobre esta
matéria. E estes escritos poderiam conter algumas das “pérolas” sobre as quais
Cristo admoestou seus discípulos que não as jogassem aos porcos – um caminho
para segurança, de passagem, que suscitaria uma revolta épica sobre o direito
do público de se manter informado se houvesse jornais naqueles tempos. Mas
Justiniano e seus colaboradores não fizeram um serviço completo de censura e há
ainda algumas referências na bíblia e Apócrifos que, pelo menos, sugerem que a
reencarnação foi aceita naturalmente.
À primeira vista, é difícil entender por que as Igrejas
Cristãs não questionaram a teologia do Imperador e da Imperatriz dissoluta e do
falso concílio. Mas, provavelmente, há duas razões para isto:
Por muitos séculos a autoridade e os dogmas das Igrejas
raramente foram contestados, em parte porque todos os que o tentaram receberam
certamente um tratamento doloroso e pouco cristão. Mais importante, os líderes
cristãos primitivos, que lutaram para aumentar o poder da Igreja, provavelmente
julgaram as idéias de Teodora e Justiniano mais eficazes politicamente que o
ensinamento da doutrina da reencarnação, porque prometer um “céu” e um
“inferno” imediatos dava-lhes mais poder e autoridade que ensinar a doutrina da
reencarnação, que promete não somente uma segunda chance mas também muitas
outras.
Torna-se difícil rejeitar ou modificar um dogma uma vez
cristalizado, como poderemos ver pelas angustiantes discussões teológicas de
nossa época atual. Assim, devemos compreender nosso clero moderno que sem culpa
própria está preso numa gaiola teológica fabricada - bastante estranhamente –
pela filha do alimentador de ursos enjaulados, de 1400 anos atrás. (RUSSEL,
1972, p. 128-130).
Preexistência, reencarnação ou
ambos?
Uma vez que muitos dos textos de Orígenes foram destruídos,
e o restante profundamente alterado, os estudiosos discutem se ele realmente
ensinou a reencarnação. Alguns afirmam que ele apenas fala sobre a
preexistência: a existência da alma antes do corpo. Mas, no tempo de Orígenes,
a preexistência e a reencarnação eram inseparáveis.
Algumas vezes Orígenes parece confirmar a reencarnação, em
outras foge ao assunto e, numa certa ocasião, ele a nega. Para descobrirmos a
verdadeira crença de Orígenes, precisamos avaliar essa sua única negação no
contexto dos seus outros escritos, do tempo em que viveu e da sua prática
deliberada do sigilo. Depois de examinarmos todos esses elementos, ficará claro
que ele ensinou a reencarnação secretamente. Para Orígenes, a reencarnação
fazia parte de um sistema de salvação – uma salvação baseada no esforço individual
e no relacionamento da alma com o Deus interior que acabaria conduzindo à união
com Deus.
Nos séculos II
e III muitas pessoas cultas aceitavam a reencarnação. Sabemos que pelo menos
cinco fontes que afirmavam a reencarnação eram familiares a Orígenes:
1. As
Escrituras cristãs e judaicas – Orígenes conhecia bem as tradições judaicas
sobre a reencarnação e a divinização e, às vezes, parecia fazer eco às palavras
de Filon, que escreveu sobre a reencarnação. Orígenes acreditava que os judeus
ensinavam a reencarnação.[15]
2. Os clássicos
gregos – Os textos de Platão e Pitágoras fizeram parte da educação de Orígenes.
3. O
Gnosticismo – Orígenes absorveu este conceito através de um professor chamado
Paulo de Antioquia.
4. O
neoplatonismo – Orígenes estudou-o com o seu fundador, Amônio Sacas.
5. Clemente de
Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de
Orígenes. – Diz-se que ele ensinava a reencarnação.[16]
Existe ainda uma possível sexta fonte para a crença de
Orígenes na reencarnação. Ele pode tê-la aceito por ter-se convencido – através
do estudo do Gnosticismo, dos escritos de Clemente ou de outras escrituras que
se perderam – de que a reencarnação fazia parte dos ensinamentos secretos de
Jesus.
Se Orígenes tivesse rejeitado a reencarnação, teria que ter
sido coerente e defendido a sua posição diante das pessoas cultas da sua
audiência, porque muitas, sendo neoplatônicas e gnósticas, acreditavam na
reencarnação. Mas não existe qualquer registro disto. Ao contrário, perguntava
constantemente se os atos das vidas anteriores não seriam a causa dos problemas
que as pessoas enfrentavam.
Em sua obra Sobre os
Primeiros Princípios Orígenes explica que as almas são enviadas para o seu
“lugar, região ou condição” de acordo com os atos realizados “antes da vida
atual”. Deus “organizou o universo de acordo com o princípio de uma retribuição
totalmente imparcial”, diz ele[17]. Deus não criou “com favoritismos” mas deu
corpos às almas “de acordo com os pecados de cada uma”. Orígenes pergunta: “Se
as almas não existiam previamente, por que encontramos cegos de nascença que
nunca pecaram, enquanto outros nascem sãos?”[18] Ele responde à sua própria
pergunta: “É claro que alguns pecados existem [isto é, foram cometidos] antes
das almas [terem corpos] e, como resultado, cada alma recebe a recompensa de
acordo com o seu mérito”.[19] Em outras palavras, o destino das pessoas é
determinado por suas ações anteriores.
Estas passagens demonstram que Orígenes ensinou a
preexistência da alma. E, certamente, trazem implícito o conceito da
reencarnação. Como observou o teólogo do século XII, Tomás de Aquino, quem quer
que tenha afirmado a preexistência da alma afirmou implicitamente a
reencarnação[20].
Ao dizer que o nosso destino resulta de nossas ações passadas,
Orígenes dá a entender que tivemos alguma forma de existência anterior que
precedeu o nosso corpo atual. Para Orígenes a conclusão óbvia é que esta
existência anterior também foi vivida sob a forma humana.
Um mar tempestuoso
A falta de referências explícitas sobre a reencarnação nos
textos de Orígenes deve-se ao fato dele ter ocultado sua crença, por temer
represálias de seus superiores, que já a haviam excluído de sua teologia.
Quando escreveu Sobre os Primeiros
Princípios, pretendia reservá-lo aos seus discípulos mais avançados. Mas
cópias deste trabalho acabaram vindo a público e envolvendo-o em controvérsias.
Mais tarde, comparou as atribulações causadas pela sua doutrina a um mar
tempestuoso e passou a ser mais cauteloso com os seus escritos.
Demétrio, bispo de Orígenes, invejava seu crescente
prestígio e irritava-se com as suas especulações filosóficas. Em 215, quando
Orígenes já dirigia a escola de catequese há mais de 10 anos, Demétrio
proibiu-o de pregar na igreja por nunca ter sido ordenado padre. Mas ele era
muito requisitado em outros locais. Numa visita a Cesaréia, na Palestina,
Orígenes pregou a pedido do bispo local. Enfurecido, Demétrio exigiu que ele
retornasse a Alexandria. Mas sua fama continuou a se espalhar pelo império,
inclusive na Corte. Julia Mamea, mãe do Imperador Alexandre Severo e eminência
parda do trono, convocou Orígenes para que lhe explicasse o Cristianismo.
No ano de 231, Orígenes deixou Alexandria e retornou a
Cesaréia, onde o bispo local o ordenou à revelia de Demétrio. Utilizando como
pretexto a ordenação não autorizada de Orígenes e suas opiniões controversas,
Demétrio iniciou então uma campanha contra ele. Acusando-o de dizer que o
Demônio seria salvo, obteve o apoio dos outros bispos do Egito, que anularam a
ordenação de Orígenes e o excomungaram.
Ele defendeu-se dizendo que somente havia afirmado que o
Demônio poderia ser salvo. Como
veremos, este argumento sobre o Demônio é muito importante nas doutrinas de
Orígenes sobre o livre-arbítrio e a justiça divina que incluem a preexistência
da alma.
Depois da morte de Demétrio, Orígenes teve um período de
trégua. Estabeleceu-se em Cesaréia, que se tornara a cidade mais importante da
Palestina depois da destruição de Jerusalém nos anos 70. Sob a proteção dos
bispos da Palestina, recebeu finalmente o respeito que merecia.
O conflito entre Orígenes e seu bispo, Demétrio, representa
em menor escala os futuros conflitos entre a Igreja e os “hereges”. Orígenes,
que estudara a filosofia grega, assim como as Escrituras judaicas e cristãs,
seguiu a tradição dos sábios gregos e judeus – instrutores inspirados e
solitários que buscavam a verdade onde pudessem encontrá-la. Ao tentar
estruturar-se e consolidar sua autoridade, a Igreja não poderia permitir que
tais instrutores se mantivessem independentes. Nos séculos seguintes, como
veremos, a Igreja restringiu severamente a sua liberdade ao codificar a
doutrina e definir as escrituras, substituindo a iluminação pela ordem.
Os ataques de Demétrio e de outros bispos reduziram o
impacto das últimas obras de Orígenes. Como refugiado da Alexandria, sabia que
a sua situação na Cesaréia era precária. Em seu Comentário sobre João, trata da questão da reencarnação, mas não
chega a oferecer uma resposta dizendo: “O assunto da alma é muito amplo e difícil
de ser esclarecido... Exige, por isso, tratamento diferenciado”.[21].
Embora Orígenes tenha argumentado contra a reencarnação no Comentário sobre Mateus que escreveu
quando já estava com mais de 60 anos (por volta dos anos 246-48), o seu
contexto leva-nos a questionar se não a estaria negando como uma tentativa de
despistar seus inimigos[22]. Pois Orígenes, assim como todos os iniciados nos
mistérios gregos e gnósticos, praticava o sigilo.
O ensinamento secreto de Orígenes
Clemente, precursor de Orígenes na escola de catequese de
Alexandria, dizia possuir uma tradição secreta, reservada aos poucos que a
podiam compreender, que lhe havia sido passada por Pedro, Tiago, João e Paulo.
Clemente afirmava que os mistérios ocultos que Cristo revelara aos apóstolos
eram diferentes dos ensinamentos dados aos cristãos comuns.
Orígenes também tinha um ensinamento secreto. Ao contrário
de Clemente, não dizia tê-lo recebido dos apóstolos mas tê-lo encontrado nas
próprias Escrituras. Afirmava possuir a inspiração, o conhecimento e a graça
necessários para descobri-lo.
Isto não quer dizer que os revelasse a todos. Orígenes diz
que o homem que encontrar o significado oculto das Escrituras, deve escondê-lo:
“Um homem vem ao campo... e encontra um tesouro oculto de sabedoria... E, ao
encontrá-lo, esconde-o, pois pensa ser perigoso revelar a todos o significado
oculto das Escrituras, ou os tesouros de sabedoria e de conhecimento em
Cristo”.[23]
Qual seria o conteúdo deste seu ensinamento secreto? Nos Primeiros
Princípios Orígenes dá-nos uma
pista. Numa lista das doutrinas mais importantes aponta a “questão das
diferenças entre as almas e de como elas surgiram”.[24] O estudioso R.P.C.
Hanson conclui que esta lista de doutrinas representa claramente “os pontos do
ensinamento secreto de Orígenes”.[25] Se o ensinamento secreto de Orígenes
inclui as razões pelas quais as almas são diferentes no nascimento, seria
lógico que ele incluísse também a preexistência e a reencarnação.
Se ainda restam dúvidas sobre o fato de Orígenes ter se referido
ou não à reencarnação, podemos confiar no Patriarca da Igreja do século IV,
Jerônimo, que o acusou de fazê-lo. Jerônimo teve acesso aos seus textos
originais em grego, e disse que uma das passagens de Primeiros Princípios prova
que Orígenes “acreditava na transmigração das almas”.[26].
_______
[15]
Veja Gerald Bostock, “The Sources of Origen's Doctrine of Pre-Existence”
(A Origem da Doutrina de Orígenes Sobre a Preexistência) em Lothar Lies, ed., Origeniana
Quarta (Innsbruck: Tyrolia-Verlag, 1987), p. 259-64.
Orígenes
pode ter tido algo a acrescentar sobre a questão de se os judeus acreditavam ou
não na reencarnação. Em seu comentário sobre as passagens João/Elias em seu Commentary
on John (Comentário Sobre João), ele afirma que a pergunta dos judeus a
João: “És tu Elias?” sugere “que eles acreditavam na metensomatose
[transmigração], como uma doutrina herdada de seus ancestrais e que, por isso,
não se chocava com o ensinamento secreto de seus mestres”. Ele afirma também
que uma tradição judaica diz que Finéias, filho de Eleazar, “foi Elias”. Talvez
Orígenes tenha tido acesso a ensinamentos secretos judaicos além dos
Evangelhos. O Commentary on John (Comentário Sobre João) 6.7, citado por
Jean Daniélou em Gospel Message and Hellenistic Culture (A Mensagem do
Evangelho e a Cultura Helênica), trad. John Austin Balier, vol. 2 de A
History of Early Christian Doctrine before the Council of Nicaea (A
História da Doutrina do Cristianismo Primitivo antes do Concílio de Nicéia)
(Londres: Darton, Longman and Todd, 1973), p. 493-94.
[16]
Clemente não questiona a preexistência da alma, que é a base da reencarnação.
Ele confirma o conceito da preexistência do Cristo e do homem em sua obra Exhortation
to the Greeks (Exortação aos Gregos). Em Stromateis, aborda a reencarnação,
mas não faz nenhuma declaração explícita a seu Favor. Entretanto, o estudioso
da Igreja do século IX, Photius, diz que Clemente ensinou sobre a reencarnação.
Veja Henry Chadwick, Early
Christian Thought: Studies in Justin, Clemene, and Origen (O Pensamento
Cristão
Primitivo: Estudos
Sobre
Justino, Clemente e Orígenes),
(Oxford: Clarendon Press, 1966), p. 48-49. Veja também
a introdução de Origen: On First Principles (Orígenes: Sobre os
Primeiros Princípios) de Henri de Lubac, p. xxxi.
[17]
Orígenes, On First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 2.9.8,
Butterworth, p. 137, 136.
[18]
Orígenes, On First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1,
citado em Gospel Message and Hellenistic Culture (A Mensagem dos
Evangelhos e a Cultura Helênica) de Daniélou, p. 418-19.
[19]
Orígenes, On First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1,
Butterworth, p. 67.
[20]
Tomás de Aquino, On the Power of Cod (Quaestiones Disputatae De Potentia
Dei) (Sobre o Poder de Deus/Quaestiones Disputatae De Potentia Dei), trad.
Padres Dominicanos Ingleses (Londres: Burns, Oates and Washbourne, 1932),
1:165.
[21]
Orígenes, Commentary on John (Comentário Sobre João) 6.7, em The
Ante-Nicene Fathers, (Os Patriarcas Ante Nicéia) 10:358.
[22]
Orígenes nega a reencarnação quando se discute se João Batista era ou não Elias
que voltara. Nessa discussão dirige-se claramente aos bispos. Eis a sua
negação: “Aqui não me parece que por Elias se expressa a alma, ou cairei no
dogma da transmigração, que é contrário à Igreja de Deus, que não foi
transmitido pelos apóstolos nem é encontrado nas Escrituras” (ênfase do autor).
Aqui,
Orígenes rejeita a reencarnação porque ela não se coaduna com a idéia cristã do
julgamento final. Como poderia haver um fim, ele pergunta, se as almas estão
continuamente cometendo atos que as obrigarão a retornar à terra para
redimi-los? Ele conclui que o conceito de um final deveria “abolir a doutrina
da transmigração”. Commentary on Matthew (Comentário Sobre Mateus) 13.1,
em The Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Nicéia) 10:474, 475.
Orígenes,
entretanto, procurou conciliar a idéia de um final com a idéia de oportunidade
contínua através da reencarnação. Mesmo afirmando que haveria um final quando o
mundo for “tudo em todos” (1 Cor. 15:28), ele também previu que “depois da
dissolução deste mundo haveria um outro”. On First Principles (Sobre
Primeiros Princípios) 3.5.3, Butterworth, p. 239.
Depois
de ler a pouco firme refutação de Orígenes sobre a reencarnação começamos a
pensar se ele não estaria usando uma mensagem de sentido duplo com o intuito de
se esquivar de seus inimigos. No mesmo comentário ele prossegue sugerindo novamente
a preexistência como uma forma de defender a justiça divina. Ao comentar sobre
a parábola da vinha em Mateus 20, na qual os trabalhadores contratados ao final
do dia recebem o mesmo pagamento daqueles que trabalharam durante o dia
inteiro, Orígenes sugere que a preexistência explicaria a aparente injustiça
cometida por Deus. Os trabalhadores contratados ao final do dia podem ter
merecido o seu salário numa vida anterior. Veja Commentary on Matthew
(Comentário Sobre Mateus) 15:35, citado em Trigg, Origen, p. 213. A
conclusão mais lógica que podemos tirar da negação feita por Orígenes da
reencarnação, contraditório à preexistência, é que a sua negação foi uma
tentativa deliberada de enganar seus inimigos e que ele continuou a ensinar a
reencarnação secretamente.
[23]
Orígenes, Commentary on Matthew (Comentário Sobre Mateus) 10.6, em The
Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Nicéia) 10:416.
[24]
Orígenes, On First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 4.2.7,
Butterworth, p. 283.
[25]
R. P. C. Hanson, Origen’s Doctrine of Tradition (A Doutrina da Tradição
de Orígenes) (Londres: SPCK, 1954), p.79.
[26]
Jerônimo, Ep. ad Avitum 14, citado em Origen: On First Principles
(Orígenes: Sobre os Primeiros Princípios), p. 325 n° 1.
(PROPHET,
1999, p. 174-178).
Jogo de Poder Bizantino
(...)
Justiniano, que reinou de 527 a 565, foi o imperador mais
hábil depois de Constantino – e o que mais ativamente interferiu na teologia
cristã. Emitiu éditos, que esperava que a Igreja endossasse sem questionar,
nomeou bispos e mandou até mesmo prender o Papa. Sua esposa Teodora, antiga cortesã, manipulava
os assuntos da Igreja nos bastidores.
Depois da queda do Império Romano no final do século V,
Constantinopla permaneceu como capital do Império Oriental ou Bizantino. A
história da rejeição ao origenismo inclui os jogos de poder que tornaram famosa
a corte imperial.
Por volta de
543, Justiniano parecia ter tomado o partido dos antiorigenistas, porque
promulgou um édito condenando dez princípios do origenismo, inclusive a
preexistência. Decretou um “anátema para Orígenes... e para todos os que assim
pensarem”.[12] Em outras palavras, Orígenes e qualquer um que acreditasse
nestas idéias estaria eternamente condenado. O édito, que todos os bispos
tiveram que assinar, foi ratificado por um concílio em Constantinopla.
_______
[12]
“The Anathematisms of the Emperor Justinian against Origen” (Os Anátemas do Imperador
Justiniano contra Orígenes) em Nicene and Post-Nicene Fathes
(Patricarcas de Nicéia e pós-Nicéia), 2ª série, 14:320.
(PROPHET, 1999, p. 211).
As igrejas protestantes também rejeitam a preexistência e a
reencarnação. Baseando-se, em primeiro lugar, nos anátemas de Justiniano.
Martinho Lutero não aceitava Orígenes, em parte porque não gostava da prática
de Orígenes de procurar alegorias nas Escrituras. Lutero escreveu: “Na obra de
Orígenes não existe uma só palavra sobre Cristo”.[17]
_______
[17]
Martinho Lutero,Table Talk (Conversa na Mesa), vol. 54 das Luther's
Works (Obras de Lutero), ed. e trad. Theodore G. Tappert (Philadelphia:
Fortress Press, 1967), p. 47.
(PROPHET,
1999, p. 213).
Dentro dos moldes deste ideal budista, no seio dos
incontáveis ciclos de reencarnação, o que importa é aperfeiçoar constantemente
o Carma através de ações corretas, para que, finalmente, se possa atingir o
plano divino. Quando abordei o tema da “Reencarnação no Novo Testamento” (pág.
128) tentei demonstrar que Jesus – e depois dele todas as comunidades cristãs
primitivas – aceitavam sem problemas a idéia de metempsicose, tal como exposta
pelas crenças orientais da reencarnação. Aqui é interessante esclarecer como
foi que o princípio da reencarnação se converteu em um tremendo erro histórico
em algum momento do século 4.
Até agora, quase todos os historiadores da Igreja
acreditaram que a doutrina da reencarnação foi declarada herética durante o
Concílio de Constantinopla em 553. No entanto, a condenação da doutrina se deve
a uma ferrenha oposição pessoal do imperador Justiniano, que nunca esteve
ligado aos protocolos do Concílio. Segundo Procópio, a ambiciosa esposa de Justiniano, que, na realidade, era quem manejava o poder, era filha de
um guardador de ursos do anfiteatro de Bizâncio. Ela iniciou sua rápida
ascensão ao poder como cortesã. Para se libertar de um passado que a
envergonhava, ordenou, mais tarde, a morte de quinhentas antigas “colegas” e,
para não sofrer as conseqüências dessa ordem cruel em uma outra vida como
preconizava a lei do Carma, empenhou-se em abolir toda a magnífica doutrina da
reencarnação. Estava confiante no sucesso dessa anulação, decretada por “ordem
divina”!
Em 543 d.C. o imperador Justiniano, sem levar em conta o
ponto de vista papal, declarou guerra frontal aos ensinamentos de Orígenes, condenando-os através de um
sínodo especial. Em suas obras De
Principiis e Contra Celsum, Orígenes (185-235 d.C.), o grande Padre da
Igreja, tinha reconhecido, abertamente, a existência da alma antes do
nascimento e sua dependência de ações passadas. Ele pensava que certas
passagens do Novo Testamento poderiam ser explicadas somente à luz da
reencarnação.
Do Concílio convocado pelo imperador Justiniano só
participaram bispos do Oriente (ortodoxos). Nenhum de Roma. E o próprio Papa,
que estava em Constantinopla naquela ocasião, deixou isso bem claro.
O Concílio de Constantinopla, o quinto dos Concílios, não
passou de um encontro, mais ou menos em caráter privado, organizado por
Justiniano, que, mancomunado com alguns vassalos, excomungou e maldisse a
doutrina da preexistência da alma, apesar dos protestos do Papa Vigílio, com a
publicação de seus Anathemata.
A conclusão oficial que o Concílio chegou após uma discussão
de quatro semanas teve que ser submetida ao Papa para ratificação. Na verdade,
os documentos que lhe foram apresentados (os assim chamados “Três Capítulos”)
versavam apenas sobre a disputa a respeito de três eruditos que Justiniano, há
quatro anos, havia por um edito declarado heréticos. Nada continham sobre
Orígenes. Os Papas seguintes, Pelágio I (556-561), Pelágio II (579-590) e
Gregório (590-604), quando se referiram ao quinto Concílio, nunca tocaram no
nome de Orígenes.
A Igreja aceitou o edito do Justiniano – “Todo aquele que
ensinar esta fantástica preexistência da alma e sua monstruosa renovação será
condenado” – como parte das conclusões do Concílio. Portanto, a proibição da
doutrina da reencarnação não passa de um erro histórico, sem qualquer validade
eclesiástica. (KERSTEN, 1988, p. 239-241).
Atualmente, qualquer pessoa que saiba acessar a Internet,
poderá obter informações, inclusive, de documentários históricos sobre diversos
assuntos, até há pouco, interditados à análise devido à sua antigüidade e
raridade com obras ou registros dos mesmos. Por exemplo: O Quinto Concílio Ecumênico Constantinopla II, 553 da nossa era; este
Concílio é muito importante, porque foi nele que se lançaram os fundamentos do
dogma anti-reencarnacionista que
predomina nas religiões judaico-cristãs do Ocidente.
Por esse documentário, acessível a qualquer pessoa, fica-se
sabendo que tal Concílio não deveria ter validade universal, pois não foi
convocado pelo Papa Virgilius que, na
ocasião, achava-se prisioneiro do Imperador Justiniano I.
Vamos, por
curiosidade, transcrever o início da introdução histórica desse célebre
Concílio, contida na obra “Hefele, History of the Councils, Vol. IV, p. 289”:
“In accordance
with the imperial command but without the assent of the Pope, the synod was
opened on the 5th of May A.D. 553, in the Secretarium of the Cathedral Church
at Constantinople. Among those present were the Patriarchs, Eutychius of
Constantinople, who presided, Apollinaris of Alexandria, Domninus of Antioch,
three bishops as representatives of Patriarch Eustochius of Jesuralem, and 145
other metropolitans and bishops, of whom many came also in the place of a sent
colleagues”.
(De acordo com ordens do Imperador mas sem o
consentimento do Papa, o Sínodo
foi aberto em 5 de maio de 553 da nossa era cristã, na Secretaria da Igreja
Catedral em Constantinopla. Entre os presentes achavam-se os Patriarcas
Eutichis de Constantinopla, quem presidiu, Apollinaris de Alexandria, Domninus
de Antioquia, três bispos como representantes do Patriarca Eustochius de
Jerusalém, e 145 outros bispos metropolitanos e bispos, dos quais vários vieram
também em lugar de colegas ausentes.)
Um dos objetivos desse Concílio foi a condenação da heresia
de Orígenes, entre cujas afirmativas encontra-se a asserção da preexistência das almas.
Devido à extensão das atas que compõem o documento em
questão, permitimo-nos ficar nesse ponto, sugerindo aos demais interessados uma
consulta ao site da Encyclopaedia
Britânica. É importante que se diga ainda que a Encyclopaedia Britânica define Orígenes como “o mais distinto e
ilustre entre todos os teólogos da antiga Igreja”. Orígenes ensinava a preexistência
da alma, segundo a idéia Platônica. Os outros que tiveram a mesma idéia (de
Platão e Hermes Trismegisto) foram Agostinho e Clemente, também Pais da Igreja.
Resumindo: no Século VI, o Imperador Justiniano I, chefe do
Império do Oriente declarou guerra aos discípulos de Orígenes. No Sínodo de
553, em Constantinopla, os seus ensinos foram condenados. Em 553, foram também
publicados os anátemas contra Orígenes e sua doutrina da preexistência da alma.
Ficou claro que o V Concílio Ecumênico: Constantinopla II, 553 foi promovido
pelo Imperador Justiniano e conduzido por bispos orientais manobrados pelo
próprio Imperador Justiniano, sem nenhum representante de Roma.
É estranho que a Igreja católica e, mais tarde, a
protestante hajam adotado as mesmas idéias, ao que parece, sem razões fortes
para semelhante adoção.(ANDRADE, 2002, p. 221-223). (negrito nosso).
De outra
estatura e robustez é o pensamento de Orígenes, que representa a primeira e
grandiosa tentativa de síntese entre filosofia e fé cristã: nele, as doutrinas
dos gregos (particularmente dos platônicos, mas também de outros filósofos,
como, por exemplo, os estóicos) são utilizadas como instrumentos conceituais
aptos a expressar e interpretar racionalmente as verdades reveladas na
Escritura. Orígenes nasceu por volta de 185, em Alexandria. Seu pai Leonídio
morreu mártir, testemunhando a fé de
Cristo. O patrimônio da família foi seqüestrado e Orígenes passou a ganhar a
vida ensinando. Ainda jovem, a partir de 203, assumiu a direção da escola
catequética, tornando-se verdadeiro modelo, pela doutrina e pelas virtudes. Em
231, forçado a abandonar Alexandria pela aversão que lhe devotava o bispo
Demétrio, Orígenes prosseguiu sua atividade em Cesaréia, na Palestina, com
grande sucesso. Atingido pela perseguição aos cristãos ordenada por Décio, foi
preso e torturado. Morreu em 253[1]
devido às conseqüências dessas torturas. O pensamento de Orígenes foi
durante longo tempo objeto de debates e acesas polêmicas, que envenenaram os
ânimos e alcançaram sua fase culminante no início do século VI, a ponto de
provocarem a condenação de algumas teses de Orígenes até pelo imperador
Justiniano, em 543, e depois por um concílio, em 553. Provocadas em larga
medida pelos excessos a que haviam sido levados os origenistas, essas
condenações causaram a perda de grande parte da enorme produção de Orígenes.
Dentre as obras que nos chegaram, interessam à filosofia: Os princípios, que é a sua obra-prima doutrinária (infelizmente,
porém, não nos chegou em sua redação original), Contra Celso e Comentários a
João. (REALE, e ANTISERI, 1990, p. 412-413). (negrito nosso).
A doutrina da criação de Orígenes é bastante complexa.
Primeiro, Deus criou os seres racionais, livres, todos iguais entre si – e os
criou à própria imagem (enquanto racionais). A natureza finita das criaturas e
sua liberdade deram origem a uma diversidade no seu comportamento:
algumas permaneceram unidas a Deus, outras se afastaram, pecando, por causa de
um esfriamento do amor a Deus. E assim nasceu a distinção entre anjos, homens e
demônios, conforme tenham permanecido fiéis a Deus, se afastado em certa medida
ou se afastado muito de Deus. O corpo e o mundo corpóreo em geral nasceram como
conseqüência do pecado. Deus revestiu de corpos as almas que se afastaram
parcialmente dele. Mas o corpo não é algo negativo (como para os platônicos e,
sobretudo, para os gnósticos): é o instrumento e o meio de expiação e
purificação. A alma, portanto, preexistia ao corpo, ainda que não de modo
platônico, porque criada do nada. E a diversidade dos homens e de suas
condições remonta à diversidade de comportamento na vida anterior (maior ou
menor afastamento de Deus).
Uma doutrina típica de Orígenes (derivada dos gregos, embora
com notáveis correções) é aquela segundo a qual o "mundo" deve ser
entendido como uma série de mundos,
não contemporâneos, mas subseqüentes
um ao outro: "Deus não começou a agir pela primeira vez quando criou este
mundo visível. Acreditamos que, como depois do fim deste mundo haverá outro, da
mesma forma, antes deste houve outros". Essa visão relaciona-se
estreitamente com a concepção origeniana segundo a qual, no fim, todos os
espíritos se purificarão, resgatando as suas culpas, mas para purificarem-se inteiramente é necessário que sofram
longa, gradual e progressiva expiação e correção, passando, portanto, por
muitas reencarnações em mundos sucessivos.
Portanto, para Orígenes, o fim será exatamente igual ao
princípio, isto é, tudo deverá tornar a ser como Deus criou. Essa é a
célebre doutrina origeniana da apocatástase, ou seja, a reconstituição
de todos os seres no estado original. Eis como o nosso filósofo se expressa a
esse respeito:
“Consideramos (...) que a bondade de Deus, por obra de
Cristo, chamará todas as criaturas a um único fim, depois de ter vencido e
submetido também os adversários. (...) Observando tal fim, no qual todos os
inimigos estarão sujeitos a Cristo e será destruído inclusive o último
inimigo, a morte, e quando Cristo, ao qual tudo estará sujeitado, entregará o
reino a Deus Pai, podemos por esse fim conhecer o início das coisas. Com
efeito, o fim é sempre semelhante ao início. E como um só é o fim de tudo,
assim também devemos entender como um só o início de tudo. E como um só é o fim
de múltiplas coisas, assim também de um só início derivaram coisas muito variadas
e diferentes, que novamente, pela bondade de Deus, a sujeição de Cristo e a
unidade do Espírito Santo, são remetidas a um só fim, que é semelhante ao
início”.
Então, se isso
é verdade, diz Orígenes,
“devemos crer
que toda esta nossa substância corpórea será retirada a tal condição quando toda
coisa for reintegrada para ser uma coisa só e Deus for tudo em todos.
Isso, porém, não acontecerá em um só momento, mas lenta e gradualmente, através
de infinitos séculos, já que a correção e a purificação advirão pouco a pouco e
singularmente: enquanto alguns com ritmo mais veloz se apressarão como
primeiros na meta, outros os seguirão de perto e outros ainda ficarão muito
para trás. E assim, através de inumeráveis ordens constituídas por aqueles que
progridem e, de inimigos que eram, se reconciliam com Deus, chega-se ao último
inimigo, a morte, para que também ela seja destruída e não haja mais inimigo”.
Nesse processo, porém, deve-se destacar que, para as
criaturas, individualmente, pode-se verificar tanto o progresso como retrocesso,
ou seja, tanto uma passagem de demônio a homem ou a anjo como, ao
contrário, a passagem inversa, antes que tudo retorne ao estado original.
Cristo se encarnou uma só vez neste mundo. Sua
encarnação está destinada a permanecer evento único e irrepetível.
Orígenes exaltou ao máximo o livre-arbítrio das criaturas,
em todos os níveis de sua existência. No próprio estágio final, será o
livre-arbítrio de cada uma e de todas as criaturas que, vencido pelo amor de
Deus, continuará a aderir a Ele, agora, porém, sem mais recaídas. (REALE e
ANTISERI, 1990, p. 415-416).
Dados
dos autores:
Giovanni Reale
- É doutor em filosofia pela Universidade Católica de Milão, onde leciona, com
aperfeiçoamento em universidades alemãs. É autor de vasta obra filosófica.
Dario Antiseri
- É doutor pela Universidade de Perúgia, com aperfeiçoamento em filosofia nas
universidades de Viena, Münster e Oxford. É professor de filosofia da linguagem
e filosofia da ciência na Universidade de Pádua. Autor de vasta bibliografia
filosófica.
Ao
tempo de sua controvérsia com Celso, Orígenes defendeu energicamente o
Cristianismo. Em sua vigorosa apologia, fala muitas vezes dos ensinos secretos
da nova religião. Tendo-a Celso argüido de possuir um cunho misterioso, refuta
Orígenes essas críticas, provando que, se em certos assuntos especiais só os
iniciados recebiam um ensino completo, a doutrina cristã, por outro lado, em
seu sentido geral era acessível a todos. E a prova — disse ele — é que o mundo
inteiro (ou pouco falta) está mais familiarizado com essa doutrina que com as
opiniões prediletas dos filósofos.
Esse
duplo método de ensino — prossegue ele, em síntese — é, ao demais, adotado em
todas as escolas. Por que fazer por isso uma censura unicamente à doutrina
cristã? Os numerosos Mistérios, por toda parte celebrados na Grécia e noutros
países, não são por todos geralmente admitidos?
O fundador do Cristianismo não separava a idéia religiosa da
sua aplicação social. O “reino dos céus” era, para ele, essa perfeita sociedade
dos espíritos, cuja imagem desejaria realizar na Terra. Mas ele devia ir de
encontro aos interesses estabelecidos e suscitar em torno de si mil obstáculos,
mil perigos. Daí, um motivo para ocultar no mito, no milagre, na parábola o que
em sua doutrina ia ferir as idéias dominantes e ameaçar as instituições
políticas ou religiosas. (DENIS, 1987, p. 39).
Dentre os padres da Igreja, Orígenes é um dos que mais
eloqüentemente se pronunciaram a favor da pluralidade das existências.
Respeitável a sua autoridade. São Jerônimo o considera, “depois dos apóstolos,
o grande mestre da Igreja, verdade, diz ele, que só a ignorância poderia
negar”. São Jerônimo vota tal admiração a Orígenes que assumiria, escreve,
todas as calúnias de que ele foi alvo, uma vez que, por esse preço, ele,
Jerônimo, pudesse ter a sua profunda ciência das Escrituras.
Em seu livro célebre, “Dos Princípios”, Orígenes desenvolve
os mais vigorosos argumentos que mostraram, na preexistência e sobrevivência
das almas noutros corpos, em uma palavra, na sucessão das vidas, o corretivo
necessário à aparente desigualdade das condições humanas, uma compensação ao
mal físico, como ao sofrimento moral que parece reinarem no mundo, se não se
admite mais que uma única existência terrestre para cada alma. Orígenes erra,
todavia, num ponto. É quando supõe que a união do espírito ao corpo é sempre
uma punição. Ele perde de vista a necessidade da educação das almas e a
laboriosa realização do progresso.
Errônea opinião se introduziu em muitos centros, a respeito
das doutrinas de Orígenes, em geral, e da pluralidade das existências em
particular, que pretendem ter sido condenadas, primeiro pelo concílio de
Constantinopla. Ora, se remontarmos às fontes [Ver Pezzani, A pluralidade das
Existências, páginas 187 e 190], reconheceremos que esses concílios repeliram,
não a crença na pluralidade das existências, mas simplesmente a preexistência
da alma, tal como a ensinava Orígenes, sob esta feição particular: que os
homens eram anjos decaídos e que o ponto de partida tinha sido para todos a
natureza Angélica.
Na realidade, a
questão da pluralidade das existências da alma jamais foi resolvida pelos
concílios. Permaneceu aberta às resoluções da Igreja no futuro, e é esse um
ponto que se faz preciso estabelecer. (DENIS, 1987, p. 50-51).
De todos os
padres da Igreja, foi Orígenes quem afirmou, do modo mais positivo, em
numerosas passagens dos seus Princípios
(livro 1º), a reencarnação ou renascimento das almas. É esta a sua tese: “A
justiça do Criador deve patentear-se em todas as coisas.” Eis em que termos o
abade Bérault-Bercastel resume a sua opinião:
“Segundo este doutor da Igreja, a desigualdade das criaturas
humanas não representa senão o efeito do seu próprio merecimento, porque todas
as almas foram criadas simples, livres, ingênuas e inocentes por sua própria
ignorância, e todas, também por isso, absolutamente iguais. O maior número
incorreu em pecado e, na conformidade de suas faltas, foram elas encerradas em
corpos mais ou menos grosseiros, expressamente criados para lhes servir de
prisão. Daí os procedimentos diversos da família humana. Por mais grave, porém,
que seja a queda, jamais acarreta para o Espírito culpado a retrocessão à
condição de bruto; apenas o obriga a recomeçar novas existências, quer neste,
quer em outros mundos, até que, exausto de sofrer, se submeta à lei do
progresso e se modifique para melhor. Todos os Espíritos estão sujeitos a
passar do bem ao mal e do mal ao bem. Os sofrimentos impostos pelo Bom Deus são
apenas medicinais, e ‘os próprios demônios cessarão um dia de ser os inimigos
do bem e o objeto dos rigores do Eterno’”. (História da Igreja, pelo
abade Bérault-Bercastel).
(DENIS,
1987, p. 275).
O Cristianismo primitivo possuía, pois, o verdadeiro sentido
do destino. Mas, com as sutilezas da teologia bizantina, o sentido oculto
desapareceu pouco a pouco; a virtude secreta dos ritos iniciáticos
desvaneceu-se como um perfume sutil. A escolástica abafou a primeira revelação
com o peso dos silogismos ou arruinou-a com sua argumentação especiosa.
Entretanto, os primeiros padres da Igreja e, entre todos,
Orígenes e S. Clemente de Alexandria, pronunciaram-se em favor da transmigração
das almas. S. Jerônimo e Ruffinus (“Carta a Anastácio”) afirmam que ela era
ensinada como verdade tradicional a um certo número de iniciados.
Em sua obra capital, “Dos Princípios”, livro I, Orígenes
passa em revista os numerosos argumentos que mostram, na preexistência e
sobrevivência das almas em outros corpos, o corretivo necessário à desigualdade
das condições humanas. De si mesmo inquire qual é a totalidade dos ciclos
percorridos por sua alma em suas peregrinações através do Infinito, quais os
progressos feitos em cada uma de suas estações, as circunstâncias da imensa
viagem e a natureza particular de suas residências.
S. Gregório de Nysse diz “que há necessidade natural para a
alma imortal de ser curada e purificada e que, se ela não o foi em sua vida
terrestre, a cura se opera pelas vidas futuras e subseqüentes”.
Todavia, esta alta doutrina, não podia conciliar-se com
certos dogmas e artigos de fé, armas poderosas para a Igreja, tais como a
predestinação, as penas eternas e o juízo final. Com ela, o Catolicismo teria
dado lugar mais largo à liberdade do espírito humano, chamado em suas vidas
sucessivas a elevar-se por seus próprios esforços e não somente por graça do
alto.
Por isso, foi um ato fecundo de conseqüência funesta a
condenação das opiniões de Orígenes e das teorias gnósticas pelo Concílio de
Constantinopla em 553. Ela trouxe consigo o descrédito e a repulsa do princípio
das reencarnações. Então, em vez de uma concepção simples e clara do destino,
compreensível para as mais humildes inteligências, conciliando a Justiça Divina
com a desigualdade das condições e do sofrimento humanos, vimos edificar-se
todo um conjunto de dogmas, que lançaram a obscuridade no problema da vida,
revoltaram a razão e, finalmente, afastaram o homem de Deus. (DENIS, 1989, p.
273-274).
É,
porém, em Orígenes que iremos encontrar, sobretudo, o ensinamento
palingenésico.
Para atenuar a importância de sua palavra e desembaraçar a
doutrina do Cristo de toda a relação com a doutrina dos Renascimentos, os
escritores ortodoxos disseram que este grande Pai tirara os seus erros de
Platão. Não é assim. Orígenes tinha essa doutrina de Clemente de Alexandria,
que a recebeu de S. Pantène, discípulo dos primeiros cristãos. — (S. Pantène,
foi o primeiro mestre da Escola de Alexandria, dito catequista. Morreu no ano
202 depois de Cristo. Desde 181, encontraram-no expondo e explicando o
Cristianismo em Alexandria. Em 190, mais ou menos, fez, no interesse do
Cristianismo, uma viagem à Índia, isto é, ao Sul da Arábia. O seu mais ilustre
discípulo foi Clemente de Alexandria. Dos seus numerosos escritos não subsistem
senão dois pequenos fragmentos) — (Encyc. de Berthelot, pág. 956, t. XXV). Ele
protesta, com efeito, mais de uma vez, contra a concepção platônica da
doutrina. Ouçamo-lo:
“Celso ignora completamente o objetivo de nossos escritos; a
interpretação dada por ele é que os leva ao descrédito e não a sua verdadeira
significação. Se ele houvesse refletido sobre o que é necessário a uma alma
destinada à vida eterna, se ele houvesse pensado na natureza da sua essência e do
seu princípio, não teria tornado ridícula a entrada do que é imortal em um
corpo mortal, entrada que se efetua, não segundo o ensinamento platônico da
metempsicose, mas segundo uma visão mais elevada deste fato”. (“Cont. Celso”,
liv. IV, C. XVIII).
O
ensinamento de Orígenes é difícil de ser apresentado com clareza, porque ele o
envolveu em reticências e o expôs em uma língua cuja chave a filosofia atual
nem sempre conhece; mas ele parece completo. Abarca a preexistência e a
reencarnação, e mesmo estas associações particulares de certas almas humanas
com almas animais, associações já anteriormente assinaladas e que, no dizer de
Pascal, são fatos capitais na misteriosa metempsicose.
Ei-lo aqui explicando a preexistência das almas nos
universos anteriores:
“A alma não tem
começo nem fim (“De Principiis” — liv. III, C. V).
As criaturas
razoáveis existiam desde o começo destes séculos que nós não vemos e que são
eternos. Houve aí a descida de uma condição superior a uma condição inferior,
não somente entre as almas que mereceram esta mudança por suas ações, mas
também entre as que, para servirem o mundo, deixaram as altas esferas pela
nossa...
O Sol, a Lua, as estrelas e os anjos servem o mundo, servem
as almas cujos defeitos mentais as condenaram a encarnar-se em corpos
grosseiros, e é, por interesse das almas que têm necessidade de corpos densos
que o mundo foi criado... A variedade deste arranjo foi obra de Deus, que a
estabeleceu segundo as causas que o livre arbítrio das almas criaram no
passado.” (Ibidem, liv. III, C. V.)
Todas
as almas atingirão o mesmo fim. (Ibid., liv. I, c. VI); as almas engrandecem-se
pouco a pouco, atingem a Terra e aprendem as lições que ela lhes pode dar,
depois sobem a um lugar melhor e chegam, finalmente, ao estado de perfeição (“De
Principiis”, liv. I, c. VI). A vontade das almas faz delas anjos, homens ou
demônios, e a queda pode ser de tal forma, que elas podem ser cativas em corpos
de animais (“De Principiis”, liv. III, c. V); mediante vidas repetidas em
diversas esferas onde elas tomam corpos em relação com o mundo que habitam,
estas almas caídas reconquistarão a pureza e a bondade (“Cont. Celso”, C. IV e
VIII). Certas almas chegadas ao repouso completo voltam em novos corpos, em
mundos novos; umas conservam-se fiéis, as outras degeneram de tal forma, que se
tornam demônios (“De Principiis”, liv. IV, c. IV).
E
alhures:
“A alma sendo imaterial e invisível não pode existir em
nenhum lugar material, sem revestir corpos apropriados a este lugar; ela
rejeita, num dado momento, um corpo que era necessário até aí, mas do qual não
tem mais necessidade, e ela o troca por um outro”. (“Cont. Celso” — liv. VII,
c. XXXII).
Orígenes serviu-se muito da doutrina dos renascimentos para
criticar e justificar os livros sagrados cristãos. Fazendo alusão a certas
passagens da Bíblia, ele disse:
“Se
o nosso destino atual não era determinado pelas obras de nossas existências
passadas, como poderia Deus ser justo permitindo que o primogênito servisse ao
mais jovem e fosse odiado, antes de haver cometido atos merecendo a servidão e
o ódio?...
Só as vidas anteriores podem explicar a luta de Jacó e Esaú
antes de seu nascimento, a eleição de Jeremias durante o tempo em que estava
ainda no seio de sua mãe..., e tantos outros fatos que atirarão o descrédito
sobre a justiça divina, se não forem justificados por atos bons ou maus,
cometidos ou praticados em existência passadas”. (“Cont. Celso” —, I, III).
Bem
que a “Metempsomatose”, isto é, a verdadeira doutrina de Orígenes, não fosse
apresentada sob uma forma clara, a palingenesia não é motivo de dúvida para
ele, que influenciou consideravelmente os filósofos cristãos dos primeiros
séculos e foi acolhido com simpatia até a sua condenação pelo Sínodo de
Constantinopla. As seitas da época, no dizer de Pascal, e as dos séculos
consecutivos — simonistas, basilistas, valencianistas, marcionistas, gnósticos,
maniqueus, priscilianos, cátaros, pátaros, albigenses, bogomilenses, etc. —
eram todas reencarnacionistas.
E
aí está às vistas do eminente teólogo e medíocre professor de História, tudo o
que, por ora, podemos dizer da palingenesia na antiga Igreja. (MELLO, 1958, p.
151-153).
PODERÁ VOCÊ SER CRISTÃO
E
AINDA ACREDITAR
NA
REENCARNAÇÃO?
Poderá
você ser cristão e ainda acreditar na Reencarnação?
Sim!
Se
você acredita na Reencarnação, considera também o Homem como um eu espiritual
imortal, nascido numerosas vezes em corpos físicos no decorrer de uma longa
jornada evolutiva para a perfeição.
Não
há aí, na realidade, conflito com os ensinamentos originais da Igreja!
O que devemos levar em conta neste po