É interessante observar que sempre nos aparece um fanático religioso, querendo "ser mais realista do que o rei" conhecer mais de Espiritismo do que seus profitentes, e assim, defender seus dogmas dizendo que a reencarnação não fazia parte dos ensinos de Jesus, nem do cristianismo primitivo.
A pessoas assim, recomendamos que leiam alguns de nossos textos sobre reencarnação, que podem ser acessados pelos links:
1. http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/reencarnacao_na_biblia.htm
2. http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/ressurreicao_significado_biblico.htm
3. http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/ressurreicao_ou_reencarnacao.htm
4. http://www.apologiaespirita.org/assuntos_biblicos/reencarnacao_no_contexto_historico.htm
Neles, abordamos a questão bíblica; daí, só iremos nos preocupar, aqui, com relação ao cristianismo primitivo, especificamente quanto a Orígenes, considerado um dos pais da Igreja, e sempre citado pelos anti-reencarnacionistas como alguém que não aceitava a idéia da reencarnação. A nossa proposta é ver até onde isso é verdade.
Iremos apresentar vários autores que falaram sobre o assunto, inclusive, vários deles fora do meio Espírita, para não se colocar sob suspeita essas opiniões, alegando estarmos advogando em causa própria. Como se diz na música: “E o que tiver de ser será” (Marjorie Estiano).
A preexistência do espírito é uma teoria que prega a
existência do espírito, antes da existência do corpo. Foi – como veremos em
outro capítulo – uma das teses defendidas pelo grande sábio Orígenes, e que foi condenada pelo
polêmico V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (553).
[...]
A preexistência do espírito com relação ao corpo vivificado
por ele, é a base fundamental para a Teoria da Reencarnação, pois que, ao
admitirmos o reencarne de um espírito, automaticamente estamos admitindo que
ele já encarnou antes, pelo menos uma vez que seja.
Seria por isso que ela foi condenada pelo V Concílio
Ecumênico de Constantinopla II, em 553? É possível, pois as pressões do
imperador Justiniano e de sua mulher Teodora,
como veremos num outro capítulo, foram muito sérias, para não dizer um caso de
polícia, como se diz hoje. Aliás, veremos que, na realidade, ela nem foi
condenada por esse tal concílio. (CHAVES, 2002, p. 139-140).
Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios do
cristianismo de todos os tempos. Foi praticamente o criador da nossa teologia
cristã.
[...]
Porém, perante Deus, a História do cristianismo e mesmo
perante a Igreja de hoje, Orígenes é admirado e citado freqüentemente por
estudiosos e pesquisadores da Bíblia, da Filosofia e da Teologia.
Embora ele tenha tido algumas de suas idéias condenadas pela
Igreja, duas delas continuam sendo atacadas normalmente, e não só por
católicos, mas por protestantes também.
E foi o
polêmico V Concílio Ecumênico de Constantinopla II, de 553, que condenou suas
doutrinas célebres: a Preexistência do Espírito e a Apocatástase (restauração
de todas as coisas), as quais a humanidade, hoje, está amadurecida para
entendê-las, julgá-las e aceitá-las. (CHAVES, 2002, p. 162-163).
O V Concílio Ecumênico de
Constantinopla II (553)
A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o
V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e
mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Vigílio, papa da época.
O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter
construído, em 552, a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina,
hoje uma mesquita muçulmana.
Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o
papa. Sua mulher, a imperatriz Teodora,
foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos
de teologia.
Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta,
isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por
sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando
tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.
Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as
prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.
Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de
ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que
deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma
por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.
O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da
reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido,
resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra
o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo
de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três
séculos antes.
Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência
do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da
preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da
reencarnação.
Em 543,
Justiniano publicou um édito, em que expunha e condenava as principais idéias
de Orígenes, sendo uma delas a da preexistência. (CHAVES, 2002, p. 185-186).
Convém ressaltar que o autor ainda era
católico, inclusive, é um ex-seminarista, desde quando publicou esse livro até
a 5ª edição (2002), ainda constava do texto o catolicismo como sendo esse o seu
credo religioso.
Embora se esteja quebrando o tabu e o público cada vez mais
se interesse pela reencarnação – como qualquer livraria ou jornaleiro o
demonstram – os líderes cristãos, com algumas exceções notáveis, ainda
consideram o assunto de grande importância potencial, mas inadequado para
discussões.
Tudo isso é mais estranho ainda porque a reencarnação é
realmente implícita no cristianismo. Porque os cristãos acreditavam que Cristo
existiu, como o Filho de Deus, antes
de se encarnar na forma humana. Acreditam que sua finalidade era levar os
homens a se conduzirem como Ele; e que o seu poder permite que o consiga. Os
homens, todavia, dificilmente poderiam fazer isto se as suas naturezas e
origens fossem completamente diferentes. E se isto acontecesse, certamente
Cristo iria mencioná-lo e não iria esperar que fossem como Ele.
Por uma das ironias mais divertidas da História, esta atitude
estranha do clero do século vinte é parcialmente o resultado das intrigas
desapiedadas de uma cortesã superlibidinosa do Oriente Médio, que viveu acerca
de 1400 anos atrás. Trata-se de Teodora, filha de um guardião de ursos, que se
tornou amante e mais tarde a esposa do Imperador bizantino Justiniano.
Naquele tempo, muitos cristãos aceitavam a reencarnação como
uma parte essencial do cristianismo. Seguiam os ensinamentos de Orígenes, um
dos sábios mais brilhantes das Igrejas Cristãs primitivas, que uns 250 anos
antes escreveu no seu Princípios:
“cada alma... vem a este mundo fortificada pelas fraquezas ou vitórias da vida
anterior. Seu lugar neste mundo, como um vaso escolhido para honrar ou
desonrar, é determinado pelos seus méritos ou deméritos. Seu trabalho neste
mundo determina a sua vida num mundo futuro”.
Esta filosofia enraiveceu Teodora, que queria acreditar – e
que o público acreditasse – que sua atividade neste mundo lhe daria a certeza
de uma posição, mais eminente no outro. Esperava, em outras palavras, um “céu”
imediato, e naturalmente encarou com desagrado qualquer sugestão de que ela só
obteria o “céu” em encarnações sucessivas nas quais expiaria seus crimes. Então
esforçou-se por tirar tais noções do cristianismo.
Há suspeitas de que tenha sido a responsável pelo
assassinato de dois Papas que a ela se opuseram, segundo o estudo fascinante de
suas conspirações desonestas pelo romancista e teatrólogo Noel Langley. E,
depois de sua morte, Justiniano, que também esperava um “céu” imediato, encerrou
a discussão sobre a reencarnação convocando no ano de 553 o Quinto Concílio
Ecumênico da Igreja que – em termos modernos – foi cuidadosamente organizado
para declarar que a reencarnação era anátema.
Sem dúvida o Imperador e seus bobocas eclesiásticos ordenaram
a destruição de qualquer escrito que desenvolvesse idéias sobre a reencarnação
porque pretendiam liquidar as últimas reminiscências do ensino sobre esta
matéria. E estes escritos poderiam conter algumas das “pérolas” sobre as quais
Cristo admoestou seus discípulos que não as jogassem aos porcos – um caminho
para segurança, de passagem, que suscitaria uma revolta épica sobre o direito
do público de se manter informado se houvesse jornais naqueles tempos. Mas
Justiniano e seus colaboradores não fizeram um serviço completo de censura e há
ainda algumas referências na bíblia e Apócrifos que, pelo menos, sugerem que a
reencarnação foi aceita naturalmente.
À primeira vista, é difícil entender por que as Igrejas
Cristãs não questionaram a teologia do Imperador e da Imperatriz dissoluta e do
falso concílio. Mas, provavelmente, há duas razões para isto:
Por muitos séculos a autoridade e os dogmas das Igrejas
raramente foram contestados, em parte porque todos os que o tentaram receberam
certamente um tratamento doloroso e pouco cristão. Mais importante, os líderes
cristãos primitivos, que lutaram para aumentar o poder da Igreja, provavelmente
julgaram as idéias de Teodora e Justiniano mais eficazes politicamente que o
ensinamento da doutrina da reencarnação, porque prometer um “céu” e um
“inferno” imediatos dava-lhes mais poder e autoridade que ensinar a doutrina da
reencarnação, que promete não somente uma segunda chance mas também muitas
outras.
Torna-se difícil rejeitar ou modificar um dogma uma vez
cristalizado, como poderemos ver pelas angustiantes discussões teológicas de
nossa época atual. Assim, devemos compreender nosso clero moderno que sem culpa
própria está preso numa gaiola teológica fabricada - bastante estranhamente –
pela filha do alimentador de ursos enjaulados, de 1400 anos atrás. (RUSSEL,
1972, p. 128-130).
Preexistência, reencarnação ou
ambos?
Uma vez que muitos dos textos de Orígenes foram destruídos,
e o restante profundamente alterado, os estudiosos discutem se ele realmente
ensinou a reencarnação. Alguns afirmam que ele apenas fala sobre a
preexistência: a existência da alma antes do corpo. Mas, no tempo de Orígenes,
a preexistência e a reencarnação eram inseparáveis.
Algumas vezes Orígenes parece confirmar a reencarnação, em
outras foge ao assunto e, numa certa ocasião, ele a nega. Para descobrirmos a
verdadeira crença de Orígenes, precisamos avaliar essa sua única negação no
contexto dos seus outros escritos, do tempo em que viveu e da sua prática
deliberada do sigilo. Depois de examinarmos todos esses elementos, ficará claro
que ele ensinou a reencarnação secretamente. Para Orígenes, a reencarnação
fazia parte de um sistema de salvação – uma salvação baseada no esforço individual
e no relacionamento da alma com o Deus interior que acabaria conduzindo à união
com Deus.
Nos séculos II
e III muitas pessoas cultas aceitavam a reencarnação. Sabemos que pelo menos
cinco fontes que afirmavam a reencarnação eram familiares a Orígenes:
1. As
Escrituras cristãs e judaicas – Orígenes conhecia bem as tradições judaicas
sobre a reencarnação e a divinização e, às vezes, parecia fazer eco às palavras
de Filon, que escreveu sobre a reencarnação. Orígenes acreditava que os judeus
ensinavam a reencarnação.[15]
2. Os clássicos
gregos – Os textos de Platão e Pitágoras fizeram parte da educação de Orígenes.
3. O
Gnosticismo – Orígenes absorveu este conceito através de um professor chamado
Paulo de Antioquia.
4. O
neoplatonismo – Orígenes estudou-o com o seu fundador, Amônio Sacas.
5. Clemente de
Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de
Orígenes. – Diz-se que ele ensinava a reencarnação.[16]
Existe ainda uma possível sexta fonte para a crença de
Orígenes na reencarnação. Ele pode tê-la aceito por ter-se convencido – através
do estudo do Gnosticismo, dos escritos de Clemente ou de outras escrituras que
se perderam – de que a reencarnação fazia parte dos ensinamentos secretos de
Jesus.
Se Orígenes tivesse rejeitado a reencarnação, teria que ter
sido coerente e defendido a sua posição diante das pessoas cultas da sua
audiência, porque muitas, sendo neoplatônicas e gnósticas, acreditavam na
reencarnação. Mas não existe qualquer registro disto. Ao contrário, perguntava
constantemente se os atos das vidas anteriores não seriam a causa dos problemas
que as pessoas enfrentavam.
Em sua obra Sobre os
Primeiros Princípios Orígenes explica que as almas são enviadas para o seu
“lugar, região ou condição” de acordo com os atos realizados “antes da vida
atual”. Deus “organizou o universo de acordo com o princípio de uma retribuição
totalmente imparcial”, diz ele[17]. Deus não criou “com favoritismos” mas deu
corpos às almas “de acordo com os pecados de cada uma”. Orígenes pergunta: “Se
as almas não existiam previamente, por que encontramos cegos de nascença que
nunca pecaram, enquanto outros nascem sãos?”[18] Ele responde à sua própria
pergunta: “É claro que alguns pecados existem [isto é, foram cometidos] antes
das almas [terem corpos] e, como resultado, cada alma recebe a recompensa de
acordo com o seu mérito”.[19] Em outras palavras, o destino das pessoas é
determinado por suas ações anteriores.
Estas passagens demonstram que Orígenes ensinou a
preexistência da alma. E, certamente, trazem implícito o conceito da
reencarnação. Como observou o teólogo do século XII, Tomás de Aquino, quem quer
que tenha afirmado a preexistência da alma afirmou implicitamente a
reencarnação[20].
Ao dizer que o nosso destino resulta de nossas ações passadas,
Orígenes dá a entender que tivemos alguma forma de existência anterior que
precedeu o nosso corpo atual. Para Orígenes a conclusão óbvia é que esta
existência anterior também foi vivida sob a forma humana.
Um mar tempestuoso
A falta de referências explícitas sobre a reencarnação nos
textos de Orígenes deve-se ao fato dele ter ocultado sua crença, por temer
represálias de seus superiores, que já a haviam excluído de sua teologia.
Quando escreveu Sobre os Primeiros
Princípios, pretendia reservá-lo aos seus discípulos mais avançados. Mas
cópias deste trabalho acabaram vindo a público e envolvendo-o em controvérsias.
Mais tarde, comparou as atribulações causadas pela sua doutrina a um mar
tempestuoso e passou a ser mais cauteloso com os seus escritos.
Demétrio, bispo de Orígenes, invejava seu crescente
prestígio e irritava-se com as suas especulações filosóficas. Em 215, quando
Orígenes já dirigia a escola de catequese há mais de 10 anos, Demétrio
proibiu-o de pregar na igreja por nunca ter sido ordenado padre. Mas ele era
muito requisitado em outros locais. Numa visita a Cesaréia, na Palestina,
Orígenes pregou a pedido do bispo local. Enfurecido, Demétrio exigiu que ele
retornasse a Alexandria. Mas sua fama continuou a se espalhar pelo império,
inclusive na Corte. Julia Mamea, mãe do Imperador Alexandre Severo e eminência
parda do trono, convocou Orígenes para que lhe explicasse o Cristianismo.
No ano de 231, Orígenes deixou Alexandria e retornou a
Cesaréia, onde o bispo local o ordenou à revelia de Demétrio. Utilizando como
pretexto a ordenação não autorizada de Orígenes e suas opiniões controversas,
Demétrio iniciou então uma campanha contra ele. Acusando-o de dizer que o
Demônio seria salvo, obteve o apoio dos outros bispos do Egito, que anularam a
ordenação de Orígenes e o excomungaram.
Ele defendeu-se dizendo que somente havia afirmado que o
Demônio poderia ser salvo. Como
veremos, este argumento sobre o Demônio é muito importante nas doutrinas de
Orígenes sobre o livre-arbítrio e a justiça divina que incluem a preexistência
da alma.
Depois da morte de Demétrio, Orígenes teve um período de
trégua. Estabeleceu-se em Cesaréia, que se tornara a cidade mais importante da
Palestina depois da destruição de Jerusalém nos anos 70. Sob a proteção dos
bispos da Palestina, recebeu finalmente o respeito que merecia.
O conflito entre Orígenes e seu bispo, Demétrio, representa
em menor escala os futuros conflitos entre a Igreja e os “hereges”. Orígenes,
que estudara a filosofia grega, assim como as Escrituras judaicas e cristãs,
seguiu a tradição dos sábios gregos e judeus – instrutores inspirados e
solitários que buscavam a verdade onde pudessem encontrá-la. Ao tentar
estruturar-se e consolidar sua autoridade, a Igreja não poderia permitir que
tais instrutores se mantivessem independentes. Nos séculos seguintes, como
veremos, a Igreja restringiu severamente a sua liberdade ao codificar a
doutrina e definir as escrituras, substituindo a iluminação pela ordem.
Os ataques de Demétrio e de outros bispos reduziram o
impacto das últimas obras de Orígenes. Como refugiado da Alexandria, sabia que
a sua situação na Cesaréia era precária. Em seu Comentário sobre João, trata da questão da reencarnação, mas não
chega a oferecer uma resposta dizendo: “O assunto da alma é muito amplo e difícil
de ser esclarecido... Exige, por isso, tratamento diferenciado”.[21].
Embora Orígenes tenha argumentado contra a reencarnação no Comentário sobre Mateus que escreveu
quando já estava com mais de 60 anos (por volta dos anos 246-48), o seu
contexto leva-nos a questionar se não a estaria negando como uma tentativa de
despistar seus inimigos[22]. Pois Orígenes, assim como todos os iniciados nos
mistérios gregos e gnósticos, praticava o sigilo.
O ensinamento secreto de Orígenes
Clemente, precursor de Orígenes na escola de catequese de
Alexandria, dizia possuir uma tradição secreta, reservada aos poucos que a
podiam compreender, que lhe havia sido passada por Pedro, Tiago, João e Paulo.
Clemente afirmava que os mistérios ocultos que Cristo revelara aos apóstolos
eram diferentes dos ensinamentos dados aos cristãos comuns.
Orígenes também tinha um ensinamento secreto. Ao contrário
de Clemente, não dizia tê-lo recebido dos apóstolos mas tê-lo encontrado nas
próprias Escrituras. Afirmava possuir a inspiração, o conhecimento e a graça
necessários para descobri-lo.
Isto não quer dizer que os revelasse a todos. Orígenes diz
que o homem que encontrar o significado oculto das Escrituras, deve escondê-lo:
“Um homem vem ao campo... e encontra um tesouro oculto de sabedoria... E, ao
encontrá-lo, esconde-o, pois pensa ser perigoso revelar a todos o significado
oculto das Escrituras, ou os tesouros de sabedoria e de conhecimento em
Cristo”.[23]
Qual seria o conteúdo deste seu ensinamento secreto? Nos Primeiros
Princípios Orígenes dá-nos uma
pista. Numa lista das doutrinas mais importantes aponta a “questão das
diferenças entre as almas e de como elas surgiram”.[24] O estudioso R.P.C.
Hanson conclui que esta lista de doutrinas representa claramente “os pontos do
ensinamento secreto de Orígenes”.[25] Se o ensinamento secreto de Orígenes
inclui as razões pelas quais as almas são diferentes no nascimento, seria
lógico que ele incluísse também a preexistência e a reencarnação.
Se ainda restam dúvidas sobre o fato de Orígenes ter se referido
ou não à reencarnação, podemos confiar no Patriarca da Igreja do século IV,
Jerônimo, que o acusou de fazê-lo. Jerônimo teve acesso aos seus textos
originais em grego, e disse que uma das passagens de Primeiros Princípios prova
que Orígenes “acreditava na transmigração das almas”.[26].
_______
[15]
Veja Gerald Bostock, “The Sources of Origen's Doctrine of Pre-Existence”
(A Origem da Doutrina de Orígenes Sobre a Preexistência) em Lothar Lies, ed., Origeniana
Quarta (Innsbruck: Tyrolia-Verlag, 1987), p. 259-64.
Orígenes
pode ter tido algo a acrescentar sobre a questão de se os judeus acreditavam ou
não na reencarnação. Em seu comentário sobre as passagens João/Elias em seu Commentary
on John (Comentário Sobre João), ele afirma que a pergunta dos judeus a
João: “És tu Elias?” sugere “que eles acreditavam na metensomatose
[transmigração], como uma doutrina herdada de seus ancestrais e que, por isso,
não se chocava com o ensinamento secreto de seus mestres”. Ele afirma também
que uma tradição judaica diz que Finéias, filho de Eleazar, “foi Elias”. Talvez
Orígenes tenha tido acesso a ensinamentos secretos judaicos além dos
Evangelhos. O Commentary on John (Comentário Sobre João) 6.7, citado por
Jean Daniélou em Gospel Message and Hellenistic Culture (A Mensagem do
Evangelho e a Cultura Helênica), trad. John Austin Balier, vol. 2 de A
History of Early Christian Doctrine before the Council of Nicaea (A
História da Doutrina do Cristianismo Primitivo antes do Concílio de Nicéia)
(Londres: Darton, Longman and Todd, 1973), p. 493-94.
[16]
Clemente não questiona a preexistência da alma, que é a base da reencarnação.
Ele confirma o conceito da preexistência do Cristo e do homem em sua obra Exhortation
to the Greeks (Exortação aos Gregos). Em Stromateis, aborda a reencarnação,
mas não faz nenhuma declaração explícita a seu Favor. Entretanto, o estudioso
da Igreja do século IX, Photius, diz que Clemente ensinou sobre a reencarnação.
Veja Henry Chadwick, Early
Christian Thought: Studies in Justin, Clemene, and Origen (O Pensamento
Cristão
Primitivo: Estudos
Sobre
Justino, Clemente e Orígenes),
(Oxford: Clarendon Press, 1966), p. 48-49. Veja também
a introdução de Origen: On First Principles (Orígenes: Sobre os
Primeiros Princípios) de Henri de Lubac, p. xxxi.
[17]
Orígenes, On First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 2.9.8,
Butterworth, p. 137, 136.
[18]
Orígenes, On First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1,
citado em Gospel Message and Hellenistic Culture (A Mensagem dos
Evangelhos e a Cultura Helênica) de Daniélou, p. 418-19.
[19]
Orígenes, On First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1,
Butterworth, p. 67.
[20]
Tomás de Aquino, On the Power of Cod (Quaestiones Disputatae De Potentia
Dei) (Sobre o Poder de Deus/Quaestiones Disputatae De Potentia Dei), trad.
Padres Dominicanos Ingleses (Londres: Burns, Oates and Washbourne, 1932),
1:165.
[21]
Orígenes, Commentary on John (Comentário Sobre João) 6.7, em The
Ante-Nicene Fathers, (Os Patriarcas Ante Nicéia) 10:358.
[22]
Orígenes nega a reencarnação quando se discute se João Batista era ou não Elias
que voltara. Nessa discussão dirige-se claramente aos bispos. Eis a sua
negação: “Aqui não me parece que por Elias se expressa a alma, ou cairei no
dogma da transmigração, que é contrário à Igreja de Deus, que não foi
transmitido pelos apóstolos nem é encontrado nas Escrituras” (ênfase do autor).
Aqui,
Orígenes rejeita a reencarnação porque ela não se coaduna com a idéia cristã do
julgamento final. Como poderia haver um fim, ele pergunta, se as almas estão
continuamente cometendo atos que as obrigarão a retornar à terra para
redimi-los? Ele conclui que o conceito de um final deveria “abolir a doutrina
da transmigração”. Commentary on Matthew (Comentário Sobre Mateus) 13.1,
em The Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Nicéia) 10:474, 475.
Orígenes,
entretanto, procurou conciliar a idéia de um final com a idéia de oportunidade
contínua através da reencarnação. Mesmo afirmando que haveria um final quando o
mundo for “tudo em todos” (1 Cor. 15:28), ele também previu que “depois da
dissolução deste mundo haveria um outro”. On First Principles (Sobre
Primeiros Princípios) 3.5.3, Butterworth, p. 239.
Depois
de ler a pouco firme refutação de Orígenes sobre a reencarnação começamos a
pensar se ele não estaria usando uma mensagem de sentido duplo com o intuito de
se esquivar de seus inimigos. No mesmo comentário ele prossegue sugerindo novamente
a preexistência como uma forma de defender a justiça divina. Ao comentar sobre
a parábola da vinha em Mateus 20, na qual os trabalhadores contratados ao final
do dia recebem o mesmo pagamento daqueles que trabalharam durante o dia
inteiro, Orígenes sugere que a preexistência explicaria a aparente injustiça
cometida por Deus. Os trabalhadores contratados ao final do dia podem ter
merecido o seu salário numa vida anterior. Veja Commentary on Matthew
(Comentário Sobre Mateus) 15:35, citado em Trigg, Origen, p. 213. A
conclusão mais lógica que podemos tirar da negação feita por Orígenes da
reencarnação, contraditório à preexistência, é que a sua negação foi uma
tentativa deliberada de enganar seus inimigos e que ele continuou a ensinar a
reencarnação secretamente.
[23]
Orígenes, Commentary on Matthew (Comentário Sobre Mateus) 10.6, em The
Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Nicéia) 10:416.
[24]
Orígenes, On First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 4.2.7,
Butterworth, p. 283.
[25]
R. P. C. Hanson, Origen’s Doctrine of Tradition (A Doutrina da Tradição
de Orígenes) (Londres: SPCK, 1954), p.79.
[26]
Jerônimo, Ep. ad Avitum 14, citado em Origen: On First Principles
(Orígenes: Sobre os Primeiros Princípios), p. 325 n° 1.
(PROPHET,
1999, p. 174-178).
Jogo de Poder Bizantino
(...)
Justiniano, que reinou de 527 a 565, foi o imperador mais
hábil depois de Constantino – e o que mais ativamente interferiu na teologia
cristã. Emitiu éditos, que esperava que a Igreja endossasse sem questionar,
nomeou bispos e mandou até mesmo prender o Papa. Sua esposa Teodora, antiga cortesã, manipulava
os assuntos da Igreja nos bastidores.
Depois da queda do Império Romano no final do século V,
Constantinopla permaneceu como capital do Império Oriental ou Bizantino. A
história da rejeição ao origenismo inclui os jogos de poder que tornaram famosa
a corte imperial.
Por volta de
543, Justiniano parecia ter tomado o partido dos antiorigenistas, porque
promulgou um édito condenando dez princípios do origenismo, inclusive a
preexistência. Decretou um “anátema para Orígenes... e para todos os que assim
pensarem”.[12] Em outras palavras, Orígenes e qualquer um que acreditasse
nestas idéias estaria eternamente condenado. O édito, que todos os bispos
tiveram que assinar, foi ratificado por um concílio em Constantinopla.
_______
[12]
“The Anathematisms of the Emperor Justinian against Origen” (Os Anátemas do Imperador
Justiniano contra Orígenes) em Nicene and Post-Nicene Fathes
(Patricarcas de Nicéia e pós-Nicéia), 2ª série, 14:320.
(PROPHET, 1999, p. 211).
As igrejas protestantes também rejeitam a preexistência e a
reencarnação. Baseando-se, em primeiro lugar, nos anátemas de Justiniano.
Martinho Lutero não aceitava Orígenes, em parte porque não gostava da prática
de Orígenes de procurar alegorias nas Escrituras. Lutero escreveu: “Na obra de
Orígenes não existe uma só palavra sobre Cristo”.[17]
_______
[17]
Martinho Lutero,Table Talk (Conversa na Mesa), vol. 54 das Luther's
Works (Obras de Lutero), ed. e trad. Theodore G. Tappert (Philadelphia:
Fortress Press, 1967), p. 47.
(PROPHET,
1999, p. 213).
Dentro dos moldes deste ideal budista, no seio dos
incontáveis ciclos de reencarnação, o que importa é aperfeiçoar constantemente
o Carma através de ações corretas, para que, finalmente, se possa atingir o
plano divino. Quando abordei o tema da “Reencarnação no Novo Testamento” (pág.
128) tentei demonstrar que Jesus – e depois dele todas as comunidades cristãs
primitivas – aceitavam sem problemas a idéia de metempsicose, tal como exposta
pelas crenças orientais da reencarnação. Aqui é interessante esclarecer como
foi que o princípio da reencarnação se converteu em um tremendo erro histórico
em algum momento do século 4.
Até agora, quase todos os historiadores da Igreja
acreditaram que a doutrina da reencarnação foi declarada herética durante o
Concílio de Constantinopla em 553. No entanto, a condenação da doutrina se deve
a uma ferrenha oposição pessoal do imperador Justiniano, que nunca esteve
ligado aos protocolos do Concílio. Segundo Procópio, a ambiciosa esposa de Justiniano, que, na realidade, era quem manejava o poder, era filha de
um guardador de ursos do anfiteatro de Bizâncio. Ela iniciou sua rápida
ascensão ao poder como cortesã. Para se libertar de um passado que a
envergonhava, ordenou, mais tarde, a morte de quinhentas antigas “colegas” e,
para não sofrer as conseqüências dessa ordem cruel em uma outra vida como
preconizava a lei do Carma, empenhou-se em abolir toda a magnífica doutrina da
reencarnação. Estava confiante no sucesso dessa anulação, decretada por “ordem
divina”!
Em 543 d.C. o imperador Justiniano, sem levar em conta o
ponto de vista papal, declarou guerra frontal aos ensinamentos de Orígenes, condenando-os através de um
sínodo especial. Em suas obras De
Principiis e Contra Celsum, Orígenes (185-235 d.C.), o grande Padre da
Igreja, tinha reconhecido, abertamente, a existência da alma antes do
nascimento e sua dependência de ações passadas. Ele pensava que certas
passagens do Novo Testamento poderiam ser explicadas somente à luz da
reencarnação.
Do Concílio convocado pelo imperador Justiniano só
participaram bispos do Oriente (ortodoxos). Nenhum de Roma. E o próprio Papa,
que estava em Constantinopla naquela ocasião, deixou isso bem claro.
O Concílio de Constantinopla, o quinto dos Concílios, não
passou de um encontro, mais ou menos em caráter privado, organizado por
Justiniano, que, mancomunado com alguns vassalos, excomungou e maldisse a
doutrina da preexistência da alma, apesar dos protestos do Papa Vigílio, com a
publicação de seus Anathemata.
A conclusão oficial que o Concílio chegou após uma discussão
de quatro semanas teve que ser submetida ao Papa para ratificação. Na verdade,
os documentos que lhe foram apresentados (os assim chamados “Três Capítulos”)
versavam apenas sobre a disputa a respeito de três eruditos que Justiniano, há
quatro anos, havia por um edito declarado heréticos. Nada continham sobre
Orígenes. Os Papas seguintes, Pelágio I (556-561), Pelágio II (579-590) e
Gregório (590-604), quando se referiram ao quinto Concílio, nunca tocaram no
nome de Orígenes.
A Igreja aceitou o edito do Justiniano – “Todo aquele que
ensinar esta fantástica preexistência da alma e sua monstruosa renovação será
condenado” – como parte das conclusões do Concílio. Portanto, a proibição da
doutrina da reencarnação não passa de um erro histórico, sem qualquer validade
eclesiástica. (KERSTEN, 1988, p. 239-241).
Atualmente, qualquer pessoa que saiba acessar a Internet,
poderá obter informações, inclusive, de documentários históricos sobre diversos
assuntos, até há pouco, interditados à análise devido à sua antigüidade e
raridade com obras ou registros dos mesmos. Por exemplo: O Quinto Concílio Ecumênico Constantinopla II, 553 da nossa era; este
Concílio é muito importante, porque foi nele que se lançaram os fundamentos do
dogma anti-reencarnacionista que
predomina nas religiões judaico-cristãs do Ocidente.
Por esse documentário, acessível a qualquer pessoa, fica-se
sabendo que tal Concílio não deveria ter validade universal, pois não foi
convocado pelo Papa Virgilius que, na
ocasião, achava-se prisioneiro do Imperador Justiniano I.
Vamos, por
curiosidade, transcrever o início da introdução histórica desse célebre
Concílio, contida na obra “Hefele, History of the Councils, Vol. IV, p. 289”:
“In accordance
with the imperial command but without the assent of the Pope, the synod was
opened on the 5th of May A.D. 553, in the Secretarium of the Cathedral Church
at Constantinople. Among those present were the Patriarchs, Eutychius of
Constantinople, who presided, Apollinaris of Alexandria, Domninus of Antioch,
three bishops as representatives of Patriarch Eustochius of Jesuralem, and 145
other metropolitans and bishops, of whom many came also in the place of a sent
colleagues”.
(De acordo com ordens do Imperador mas sem o
consentimento do Papa, o Sínodo
foi aberto em 5 de maio de 553 da nossa era cristã, na Secretaria da Igreja
Catedral em Constantinopla. Entre os presentes achavam-se os Patriarcas
Eutichis de Constantinopla, quem presidiu, Apollinaris de Alexandria, Domninus
de Antioquia, três bispos como representantes do Patriarca Eustochius de
Jerusalém, e 145 outros bispos metropolitanos e bispos, dos quais vários vieram
também em lugar de colegas ausentes.)
Um dos objetivos desse Concílio foi a condenação da heresia
de Orígenes, entre cujas afirmativas encontra-se a asserção da preexistência das almas.
Devido à extensão das atas que compõem o documento em
questão, permitimo-nos ficar nesse ponto, sugerindo aos demais interessados uma
consulta ao site da Encyclopaedia
Britânica. É importante que se diga ainda que a Encyclopaedia Britânica define Orígenes como “o mais distinto e
ilustre entre todos os teólogos da antiga Igreja”. Orígenes ensinava a preexistência
da alma, segundo a idéia Platônica. Os outros que tiveram a mesma idéia (de
Platão e Hermes Trismegisto) foram Agostinho e Clemente, também Pais da Igreja.
Resumindo: no Século VI, o Imperador Justiniano I, chefe do
Império do Oriente declarou guerra aos discípulos de Orígenes. No Sínodo de
553, em Constantinopla, os seus ensinos foram condenados. Em 553, foram também
publicados os anátemas contra Orígenes e sua doutrina da preexistência da alma.
Ficou claro que o V Concílio Ecumênico: Constantinopla II, 553 foi promovido
pelo Imperador Justiniano e conduzido por bispos orientais manobrados pelo
próprio Imperador Justiniano, sem nenhum representante de Roma.
É estranho que a Igreja católica e, mais tarde, a
protestante hajam adotado as mesmas idéias, ao que parece, sem razões fortes
para semelhante adoção.(ANDRADE, 2002, p. 221-223). (negrito nosso).
De outra
estatura e robustez é o pensamento de Orígenes, que representa a primeira e
grandiosa tentativa de síntese entre filosofia e fé cristã: nele, as doutrinas
dos gregos (particularmente dos platônicos, mas também de outros filósofos,
como, por exemplo, os estóicos) são utilizadas como instrumentos conceituais
aptos a expressar e interpretar racionalmente as verdades reveladas na
Escritura. Orígenes nasceu por volta de 185, em Alexandria. Seu pai Leonídio
morreu mártir, testemunhando a fé de
Cristo. O patrimônio da família foi seqüestrado e Orígenes passou a ganhar a
vida ensinando. Ainda jovem, a partir de 203, assumiu a direção da escola
catequética, tornando-se verdadeiro modelo, pela doutrina e pelas virtudes. Em
231, forçado a abandonar Alexandria pela aversão que lhe devotava o bispo
Demétrio, Orígenes prosseguiu sua atividade em Cesaréia, na Palestina, com
grande sucesso. Atingido pela perseguição aos cristãos ordenada por Décio, foi
preso e torturado. Morreu em 253[1]
devido às conseqüências dessas torturas. O pensamento de Orígenes foi
durante longo tempo objeto de debates e acesas polêmicas, que envenenaram os
ânimos e alcançaram sua fase culminante no início do século VI, a ponto de
provocarem a condenação de algumas teses de Orígenes até pelo imperador
Justiniano, em 543, e depois por um concílio, em 553. Provocadas em larga
medida pelos excessos a que haviam sido levados os origenistas, essas
condenações causaram a perda de grande parte da enorme produção de Orígenes.
Dentre as obras que nos chegaram, interessam à filosofia: Os princípios, que é a sua obra-prima doutrinária (infelizmente,
porém, não nos chegou em sua redação original), Contra Celso e Comentários a
João. (REALE, e ANTISERI, 1990, p. 412-413). (negrito nosso).
A doutrina da criação de Orígenes é bastante complexa.
Primeiro, Deus criou os seres racionais, livres, todos iguais entre si – e os
criou à própria imagem (enquanto racionais). A natureza finita das criaturas e
sua liberdade deram origem a uma diversidade no seu comportamento:
algumas permaneceram unidas a Deus, outras se afastaram, pecando, por causa de
um esfriamento do amor a Deus. E assim nasceu a distinção entre anjos, homens e
demônios, conforme tenham permanecido fiéis a Deus, se afastado em certa medida
ou se afastado muito de Deus. O corpo e o mundo corpóreo em geral nasceram como
conseqüência do pecado. Deus revestiu de corpos as almas que se afastaram
parcialmente dele. Mas o corpo não é algo negativo (como para os platônicos e,
sobretudo, para os gnósticos): é o instrumento e o meio de expiação e
purificação. A alma, portanto, preexistia ao corpo, ainda que não de modo
platônico, porque criada do nada. E a diversidade dos homens e de suas
condições remonta à diversidade de comportamento na vida anterior (maior ou
menor afastamento de Deus).
Uma doutrina típica de Orígenes (derivada dos gregos, embora
com notáveis correções) é aquela segundo a qual o "mundo" deve ser
entendido como uma série de mundos,
não contemporâneos, mas subseqüentes
um ao outro: "Deus não começou a agir pela primeira vez quando criou este
mundo visível. Acreditamos que, como depois do fim deste mundo haverá outro, da
mesma forma, antes deste houve outros". Essa visão relaciona-se
estreitamente com a concepção origeniana segundo a qual, no fim, todos os
espíritos se purificarão, resgatando as suas culpas, mas para purificarem-se inteiramente é necessário que sofram
longa, gradual e progressiva expiação e correção, passando, portanto, por
muitas reencarnações em mundos sucessivos.
Portanto, para Orígenes, o fim será exatamente igual ao
princípio, isto é, tudo deverá tornar a ser como Deus criou. Essa é a
célebre doutrina origeniana da apocatástase, ou seja, a reconstituição
de todos os seres no estado original. Eis como o nosso filósofo se expressa a
esse respeito:
“Consideramos (...) que a bondade de Deus, por obra de
Cristo, chamará todas as criaturas a um único fim, depois de ter vencido e
submetido também os adversários. (...) Observando tal fim, no qual todos os
inimigos estarão sujeitos a Cristo e será destruído inclusive o último
inimigo, a morte, e quando Cristo, ao qual tudo estará sujeitado, entregará o
reino a Deus Pai, podemos por esse fim conhecer o início das coisas. Com
efeito, o fim é sempre semelhante ao início. E como um só é o fim de tudo,
assim também devemos entender como um só o início de tudo. E como um só é o fim
de múltiplas coisas, assim também de um só início derivaram coisas muito variadas
e diferentes, que novamente, pela bondade de Deus, a sujeição de Cristo e a
unidade do Espírito Santo, são remetidas a um só fim, que é semelhante ao
início”.
Então, se isso
é verdade, diz Orígenes,
“devemos crer
que toda esta nossa substância corpórea será retirada a tal condição quando toda
coisa for reintegrada para ser uma coisa só e Deus for tudo em todos.
Isso, porém, não acontecerá em um só momento, mas lenta e gradualmente, através
de infinitos séculos, já que a correção e a purificação advirão pouco a pouco e
singularmente: enquanto alguns com ritmo mais veloz se apressarão como
primeiros na meta, outros os seguirão de perto e outros ainda ficarão muito
para trás. E assim, através de inumeráveis ordens constituídas por aqueles que
progridem e, de inimigos que eram, se reconciliam com Deus, chega-se ao último
inimigo, a morte, para que também ela seja destruída e não haja mais inimigo”.
Nesse processo, porém, deve-se destacar que, para as
criaturas, individualmente, pode-se verificar tanto o progresso como retrocesso,
ou seja, tanto uma passagem de demônio a homem ou a anjo como, ao
contrário, a passagem inversa, antes que tudo retorne ao estado original.
Cristo se encarnou uma só vez neste mundo. Sua
encarnação está destinada a permanecer evento único e irrepetível.
Orígenes exaltou ao máximo o livre-arbítrio das criaturas,
em todos os níveis de sua existência. No próprio estágio final, será o
livre-arbítrio de cada uma e de todas as criaturas que, vencido pelo amor de
Deus, continuará a aderir a Ele, agora, porém, sem mais recaídas. (REALE e
ANTISERI, 1990, p. 415-416).
Dados
dos autores:
Giovanni Reale
- É doutor em filosofia pela Universidade Católica de Milão, onde leciona, com
aperfeiçoamento em universidades alemãs. É autor de vasta obra filosófica.
Dario Antiseri
- É doutor pela Universidade de Perúgia, com aperfeiçoamento em filosofia nas
universidades de Viena, Münster e Oxford. É professor de filosofia da linguagem
e filosofia da ciência na Universidade de Pádua. Autor de vasta bibliografia
filosófica.
Ao
tempo de sua controvérsia com Celso, Orígenes defendeu energicamente o
Cristianismo. Em sua vigorosa apologia, fala muitas vezes dos ensinos secretos
da nova religião. Tendo-a Celso argüido de possuir um cunho misterioso, refuta
Orígenes essas críticas, provando que, se em certos assuntos especiais só os
iniciados recebiam um ensino completo, a doutrina cristã, por outro lado, em
seu sentido geral era acessível a todos. E a prova — disse ele — é que o mundo
inteiro (ou pouco falta) está mais familiarizado com essa doutrina que com as
opiniões prediletas dos filósofos.
Esse
duplo método de ensino — prossegue ele, em síntese — é, ao demais, adotado em
todas as escolas. Por que fazer por isso uma censura unicamente à doutrina
cristã? Os numerosos Mistérios, por toda parte celebrados na Grécia e noutros
países, não são por todos geralmente admitidos?
O fundador do Cristianismo não separava a idéia religiosa da
sua aplicação social. O “reino dos céus” era, para ele, essa perfeita sociedade
dos espíritos, cuja imagem desejaria realizar na Terra. Mas ele devia ir de
encontro aos interesses estabelecidos e suscitar em torno de si mil obstáculos,
mil perigos. Daí, um motivo para ocultar no mito, no milagre, na parábola o que
em sua doutrina ia ferir as idéias dominantes e ameaçar as instituições
políticas ou religiosas. (DENIS, 1987, p. 39).
Dentre os padres da Igreja, Orígenes é um dos que mais
eloqüentemente se pronunciaram a favor da pluralidade das existências.
Respeitável a sua autoridade. São Jerônimo o considera, “depois dos apóstolos,
o grande mestre da Igreja, verdade, diz ele, que só a ignorância poderia
negar”. São Jerônimo vota tal admiração a Orígenes que assumiria, escreve,
todas as calúnias de que ele foi alvo, uma vez que, por esse preço, ele,
Jerônimo, pudesse ter a sua profunda ciência das Escrituras.
Em seu livro célebre, “Dos Princípios”, Orígenes desenvolve
os mais vigorosos argumentos que mostraram, na preexistência e sobrevivência
das almas noutros corpos, em uma palavra, na sucessão das vidas, o corretivo
necessário à aparente desigualdade das condições humanas, uma compensação ao
mal físico, como ao sofrimento moral que parece reinarem no mundo, se não se
admite mais que uma única existência terrestre para cada alma. Orígenes erra,
todavia, num ponto. É quando supõe que a união do espírito ao corpo é sempre
uma punição. Ele perde de vista a necessidade da educação das almas e a
laboriosa realização do progresso.
Errônea opinião se introduziu em muitos centros, a respeito
das doutrinas de Orígenes, em geral, e da pluralidade das existências em
particular, que pretendem ter sido condenadas, primeiro pelo concílio de
Constantinopla. Ora, se remontarmos às fontes [Ver Pezzani, A pluralidade das
Existências, páginas 187 e 190], reconheceremos que esses concílios repeliram,
não a crença na pluralidade das existências, mas simplesmente a preexistência
da alma, tal como a ensinava Orígenes, sob esta feição particular: que os
homens eram anjos decaídos e que o ponto de partida tinha sido para todos a
natureza Angélica.
Na realidade, a
questão da pluralidade das existências da alma jamais foi resolvida pelos
concílios. Permaneceu aberta às resoluções da Igreja no futuro, e é esse um
ponto que se faz preciso estabelecer. (DENIS, 1987, p. 50-51).
De todos os
padres da Igreja, foi Orígenes quem afirmou, do modo mais positivo, em
numerosas passagens dos seus Princípios
(livro 1º), a reencarnação ou renascimento das almas. É esta a sua tese: “A
justiça do Criador deve patentear-se em todas as coisas.” Eis em que termos o
abade Bérault-Bercastel resume a sua opinião:
“Segundo este doutor da Igreja, a desigualdade das criaturas
humanas não representa senão o efeito do seu próprio merecimento, porque todas
as almas foram criadas simples, livres, ingênuas e inocentes por sua própria
ignorância, e todas, também por isso, absolutamente iguais. O maior número
incorreu em pecado e, na conformidade de suas faltas, foram elas encerradas em
corpos mais ou menos grosseiros, expressamente criados para lhes servir de
prisão. Daí os procedimentos diversos da família humana. Por mais grave, porém,
que seja a queda, jamais acarreta para o Espírito culpado a retrocessão à
condição de bruto; apenas o obriga a recomeçar novas existências, quer neste,
quer em outros mundos, até que, exausto de sofrer, se submeta à lei do
progresso e se modifique para melhor. Todos os Espíritos estão sujeitos a
passar do bem ao mal e do mal ao bem. Os sofrimentos impostos pelo Bom Deus são
apenas medicinais, e ‘os próprios demônios cessarão um dia de ser os inimigos
do bem e o objeto dos rigores do Eterno’”. (História da Igreja, pelo
abade Bérault-Bercastel).
(DENIS,
1987, p. 275).
O Cristianismo primitivo possuía, pois, o verdadeiro sentido
do destino. Mas, com as sutilezas da teologia bizantina, o sentido oculto
desapareceu pouco a pouco; a virtude secreta dos ritos iniciáticos
desvaneceu-se como um perfume sutil. A escolástica abafou a primeira revelação
com o peso dos silogismos ou arruinou-a com sua argumentação especiosa.
Entretanto, os primeiros padres da Igreja e, entre todos,
Orígenes e S. Clemente de Alexandria, pronunciaram-se em favor da transmigração
das almas. S. Jerônimo e Ruffinus (“Carta a Anastácio”) afirmam que ela era
ensinada como verdade tradicional a um certo número de iniciados.
Em sua obra capital, “Dos Princípios”, livro I, Orígenes
passa em revista os numerosos argumentos que mostram, na preexistência e
sobrevivência das almas em outros corpos, o corretivo necessário à desigualdade
das condições humanas. De si mesmo inquire qual é a totalidade dos ciclos
percorridos por sua alma em suas peregrinações através do Infinito, quais os
progressos feitos em cada uma de suas estações, as circunstâncias da imensa
viagem e a natureza particular de suas residências.
S. Gregório de Nysse diz “que há necessidade natural para a
alma imortal de ser curada e purificada e que, se ela não o foi em sua vida
terrestre, a cura se opera pelas vidas futuras e subseqüentes”.
Todavia, esta alta doutrina, não podia conciliar-se com
certos dogmas e artigos de fé, armas poderosas para a Igreja, tais como a
predestinação, as penas eternas e o juízo final. Com ela, o Catolicismo teria
dado lugar mais largo à liberdade do espírito humano, chamado em suas vidas
sucessivas a elevar-se por seus próprios esforços e não somente por graça do
alto.
Por isso, foi um ato fecundo de conseqüência funesta a
condenação das opiniões de Orígenes e das teorias gnósticas pelo Concílio de
Constantinopla em 553. Ela trouxe consigo o descrédito e a repulsa do princípio
das reencarnações. Então, em vez de uma concepção simples e clara do destino,
compreensível para as mais humildes inteligências, conciliando a Justiça Divina
com a desigualdade das condições e do sofrimento humanos, vimos edificar-se
todo um conjunto de dogmas, que lançaram a obscuridade no problema da vida,
revoltaram a razão e, finalmente, afastaram o homem de Deus. (DENIS, 1989, p.
273-274).
É,
porém, em Orígenes que iremos encontrar, sobretudo, o ensinamento
palingenésico.
Para atenuar a importância de sua palavra e desembaraçar a
doutrina do Cristo de toda a relação com a doutrina dos Renascimentos, os
escritores ortodoxos disseram que este grande Pai tirara os seus erros de
Platão. Não é assim. Orígenes tinha essa doutrina de Clemente de Alexandria,
que a recebeu de S. Pantène, discípulo dos primeiros cristãos. — (S. Pantène,
foi o primeiro mestre da Escola de Alexandria, dito catequista. Morreu no ano
202 depois de Cristo. Desde 181, encontraram-no expondo e explicando o
Cristianismo em Alexandria. Em 190, mais ou menos, fez, no interesse do
Cristianismo, uma viagem à Índia, isto é, ao Sul da Arábia. O seu mais ilustre
discípulo foi Clemente de Alexandria. Dos seus numerosos escritos não subsistem
senão dois pequenos fragmentos) — (Encyc. de Berthelot, pág. 956, t. XXV). Ele
protesta, com efeito, mais de uma vez, contra a concepção platônica da
doutrina. Ouçamo-lo:
“Celso ignora completamente o objetivo de nossos escritos; a
interpretação dada por ele é que os leva ao descrédito e não a sua verdadeira
significação. Se ele houvesse refletido sobre o que é necessário a uma alma
destinada à vida eterna, se ele houvesse pensado na natureza da sua essência e do
seu princípio, não teria tornado ridícula a entrada do que é imortal em um
corpo mortal, entrada que se efetua, não segundo o ensinamento platônico da
metempsicose, mas segundo uma visão mais elevada deste fato”. (“Cont. Celso”,
liv. IV, C. XVIII).
O
ensinamento de Orígenes é difícil de ser apresentado com clareza, porque ele o
envolveu em reticências e o expôs em uma língua cuja chave a filosofia atual
nem sempre conhece; mas ele parece completo. Abarca a preexistência e a
reencarnação, e mesmo estas associações particulares de certas almas humanas
com almas animais, associações já anteriormente assinaladas e que, no dizer de
Pascal, são fatos capitais na misteriosa metempsicose.
Ei-lo aqui explicando a preexistência das almas nos
universos anteriores:
“A alma não tem
começo nem fim (“De Principiis” — liv. III, C. V).
As criaturas
razoáveis existiam desde o começo destes séculos que nós não vemos e que são
eternos. Houve aí a descida de uma condição superior a uma condição inferior,
não somente entre as almas que mereceram esta mudança por suas ações, mas
também entre as que, para servirem o mundo, deixaram as altas esferas pela
nossa...
O Sol, a Lua, as estrelas e os anjos servem o mundo, servem
as almas cujos defeitos mentais as condenaram a encarnar-se em corpos
grosseiros, e é, por interesse das almas que têm necessidade de corpos densos
que o mundo foi criado... A variedade deste arranjo foi obra de Deus, que a
estabeleceu segundo as causas que o livre arbítrio das almas criaram no
passado.” (Ibidem, liv. III, C. V.)
Todas
as almas atingirão o mesmo fim. (Ibid., liv. I, c. VI); as almas engrandecem-se
pouco a pouco, atingem a Terra e aprendem as lições que ela lhes pode dar,
depois sobem a um lugar melhor e chegam, finalmente, ao estado de perfeição (“De
Principiis”, liv. I, c. VI). A vontade das almas faz delas anjos, homens ou
demônios, e a queda pode ser de tal forma, que elas podem ser cativas em corpos
de animais (“De Principiis”, liv. III, c. V); mediante vidas repetidas em
diversas esferas onde elas tomam corpos em relação com o mundo que habitam,
estas almas caídas reconquistarão a pureza e a bondade (“Cont. Celso”, C. IV e
VIII). Certas almas chegadas ao repouso completo voltam em novos corpos, em
mundos novos; umas conservam-se fiéis, as outras degeneram de tal forma, que se
tornam demônios (“De Principiis”, liv. IV, c. IV).
E
alhures:
“A alma sendo imaterial e invisível não pode existir em
nenhum lugar material, sem revestir corpos apropriados a este lugar; ela
rejeita, num dado momento, um corpo que era necessário até aí, mas do qual não
tem mais necessidade, e ela o troca por um outro”. (“Cont. Celso” — liv. VII,
c. XXXII).
Orígenes serviu-se muito da doutrina dos renascimentos para
criticar e justificar os livros sagrados cristãos. Fazendo alusão a certas
passagens da Bíblia, ele disse:
“Se
o nosso destino atual não era determinado pelas obras de nossas existências
passadas, como poderia Deus ser justo permitindo que o primogênito servisse ao
mais jovem e fosse odiado, antes de haver cometido atos merecendo a servidão e
o ódio?...
Só as vidas anteriores podem explicar a luta de Jacó e Esaú
antes de seu nascimento, a eleição de Jeremias durante o tempo em que estava
ainda no seio de sua mãe..., e tantos outros fatos que atirarão o descrédito
sobre a justiça divina, se não forem justificados por atos bons ou maus,
cometidos ou praticados em existência passadas”. (“Cont. Celso” —, I, III).
Bem
que a “Metempsomatose”, isto é, a verdadeira doutrina de Orígenes, não fosse
apresentada sob uma forma clara, a palingenesia não é motivo de dúvida para
ele, que influenciou consideravelmente os filósofos cristãos dos primeiros
séculos e foi acolhido com simpatia até a sua condenação pelo Sínodo de
Constantinopla. As seitas da época, no dizer de Pascal, e as dos séculos
consecutivos — simonistas, basilistas, valencianistas, marcionistas, gnósticos,
maniqueus, priscilianos, cátaros, pátaros, albigenses, bogomilenses, etc. —
eram todas reencarnacionistas.
E
aí está às vistas do eminente teólogo e medíocre professor de História, tudo o
que, por ora, podemos dizer da palingenesia na antiga Igreja. (MELLO, 1958, p.
151-153).
PODERÁ VOCÊ SER CRISTÃO
E
AINDA ACREDITAR
NA
REENCARNAÇÃO?
Poderá
você ser cristão e ainda acreditar na Reencarnação?
Sim!
Se
você acredita na Reencarnação, considera também o Homem como um eu espiritual
imortal, nascido numerosas vezes em corpos físicos no decorrer de uma longa
jornada evolutiva para a perfeição.
Não
há aí, na realidade, conflito com os ensinamentos originais da Igreja!
O
que devemos levar em conta neste ponto é que os Evangelhos que conhecemos não
são os mesmos que os Santos Padres da Igreja conheceram e ensinaram e que
estiveram prontos a defender com sacrifício da própria vida. Nossas versões
“ortodoxas” do Velho e Novo Testamentos, ignorando no momento os erros e
omissões (para não mencionar pecados e omissões) de “autoridades” ainda
posteriores, retroagem a não mais do que o século VI, ou ao V Concílio Ecumênico
de Constantinopla. A exclusão da fé cristã dos ensinamentos sobre a
preexistência da alma e, por implicação, da Reencarnação, data desse Concílio.
Os séculos seguintes praticamente santificaram como dogma irrefutável as
decisões, puramente políticas, de Justiniano e do Concílio. Quando, por
conseguinte, um autor popular nesse campo diz que “todas as suas inclinações
intelectuais, emocionais e religiosas são contra a reencarnação”, isto é
compreensível porque nossos tempos não exigem conhecimento do passado. Já é
difícil demais conhecer o presente.
Não há,
contudo, conflito algum a respeito do assunto. Os Santos Padres da Igreja,
antes de Justiniano e mesmo antes de Constantino, aceitavam a reencarnação e
nela acreditavam. Na verdade, os próprios apóstolos se referiram numerosas
vezes ao conceito da preexistência como quando São Paulo citou Deus como tendo
dito a Rebeca sobre as crianças por nascerem: “Amei a Jacó, porém me aborreci
de Esaú” (Romanos, 9:13), ou quando São João disse no Apocalipse (3:12): “Ao
vencedor, fa-lo-ei coluna do santuário de meu Deus e daí jamais sairá.”
Encontra-se aí um conceito antiqüíssimo, comum na época do judaísmo helenizado,
bem como aos membros do novo movimento dentro do judaísmo, do exílio ordenado à
alma e da necessidade de ela purificar-se antes de ser admitida como “coluna no
santuário de Deus”. (SANTESSON, 1969, p. 120-121).
Temos,
assim, testemunho dos Apóstolos, de Santo Agostinho, São Gregório, São Clemente
de Alexandria e de incontáveis outros da aceitação geral pelos primeiros Santos
Padres da Igreja da doutrina da preexistência da alma. Isto se deveu
principalmente à influência dos ensinamentos de Orígenes (185-254) que São
Jerônimo chamou certa vez de “o maior mestre da Igreja depois dos apóstolos”.
Orígenes procurava correlacionar os ensinamentos cristãos tradicionais da época
(cumpre recordar que isto ocorreu muito antes da tentativa de reconciliar as
facções rivais no Concilio de Nicéia) com os dogmas quase cristãos de Platão,
Aristóteles, Numênio e Corruto. (Fatos mais estranhos do que estes aconteceriam
com seus ensinamentos nos séculos seguintes.) Cristo era para Orígenes o Logos,
ou o Pai, desde a eternidade, a quem, apenas, o cristão instruído dirigia seus
pensamentos, precisando para isso apenas de um mestre divino. Orígenes
explicava o estado de pecado atual dos homens com a hipótese teológica da
preexistência e queda pré-mundana de todas as almas.
No seu De Principiis,
escrevera:
“Todas as almas... chegam a este mundo fortalecidas pelas
vitórias ou debilitadas pelas derrotas de sua vida pregressa. O seu lugar neste
mundo, com um vaso destinado a honrar ou desonrar, é determinado pelos seus
méritos ou deméritos prévios. O trabalho neste mundo determina seu lugar no
mundo que se seguirá a este.”
No Contra Celsum, escrevera também:
“Não está mais de conformidade com a razão que todas as
almas, por algumas razões misteriosas (falo agora de acordo com as opiniões de
Pitágoras, Platão e Empédocles, que Celso freqüentemente menciona), sejam
introduzidas num corpo de acordo com seus méritos e antigos atos? Não é
racional que as almas que usaram seus corpos para fazer o maior bem possível
tenham direito a corpos dotados de qualidades superiores aos corpos dos demais?
[Contra Celso, livro I, 32].
A alma, cuja natureza é imaterial e invisível, não existe em
local material sem ter um corpo apropriado à natureza do lugar;
conseqüentemente, deixa um corpo que lhe era necessário antes, mas que não é
mais adequado ao seu status modificado e troca-o por outro.” [ib, livro VII,
32]
Consideravam-se os ensinamentos de Orígenes como solidamente
alicerçados no que, naquela época, fora aceito como os verdadeiros Evangelhos.
O próprio São Jerônimo, que ocasionalmente discordava dele (como, aliás, da
maioria dos homens), concordava com a interpretação da frase “Quem nos escolheu
antes da fundação do mundo?” (São Paulo, Efésios, 1:4), e declarou:
“Uma habitação divina, um verdadeiro repouso no alto,
segundo penso, deve ser entendido como local onde criaturas racionais habitaram
e onde, antes de sua descida a uma posição inferior e transferência do
invisível para o visível, da queda à terra e da necessidade de corpos
grosseiros, desfrutaram da antiga bem-aventurança, onde Deus, o Criador, para
elas fez corpos apropriados às suas humildes posições, criou este mundo visível
e enviou aqui ministros para sua salvação.”
O
anátema pronunciado por este V Concílio, ou Sínodo, contra o que se chamou de
origenismo, representou uma tentativa politicamente inspirada, e quase bem
sucedida, de expungir das páginas da história, de fato e canonicamente,
ensinamentos que gozavam de grande voga no Ocidente. Constituiu vitória do
dogma monofisista ao qual o Imperador Justiniano e, mais importante, a
Imperatriz Teodora se haviam convertido. Os monofisistas alegavam que o corpo
físico de Jesus era totalmente divino e que nunca e em qualquer tempo havia
combinado atributos divinos e humanos. Isto representava uma total rejeição dos
ensinamentos de Orígenes, que não apenas acreditava na predestinação, mas ensinava
também que Cristo, o Logos, ou o Verbo, habitara o corpo humano de Jesus, desta
forma santificando-o. Os monofisistas continuaram a provocar conflitos e
discórdias até o ano 451, quando um Concílio da Igreja, especialmente
convocado, esmagadoramente leal como a maioria no Ocidente aos ensinamentos de
Orígenes, dividiu, em certo sentido, Cristo em duas diferentes naturezas,
humana e divina. Um dos primeiros atos públicos de Justiniano — isto antes de
cair sob a influência de Teodora — foi fazer o Patriarca de Constantinopla
proclamar inteira concordância com as decisões do Concilio, conhecidas como
Decreto Calcedoniano. Apesar disso, alguns anos depois, permitiria que um
sínodo local de bispos rejeitasse e condenasse oficialmente os escritos de
Orígenes, seguindo-se, dez anos depois, as conclusões extremamente
controvertidas do V Concilio, formalmente convocado não para tratar desse
assunto, mas de outros.
Vale
lembrar que não apenas uma série infindável de cismas abalavam a
“solidariedade” da Igreja Cristã, mas que ela ainda enfrentava ativa
resistência e forte concorrência de religiões pagãs, que nunca substituiu
inteiramente. Os ramos Oriental e Ocidental da Igreja, cindidos pelo problema
fundamental da divindade de Cristo, foram ainda mais dilacerados por pressões e
problemas regionais, de natureza decididamente não teológica e que tornaram
importante, do ponto de vista de Constantinopla, pelo menos em princípio,
firmar a sua supremacia política sobre Roma. Justiniano, teólogo no fundo,
dedicava seu tempo livre a questões religiosas por amor à controvérsia e ao
puro prazer de dogmatizar. A mais cosmopolita Teodora consciente dos
profundos problemas políticos subjacentes às variáveis
e mutáveis discussões dos teólogos, persistiu firme no seu caminho, desafiando ousadamente o Papado e levando atrelado
a ela o indeciso Justiniano —
mesmo após a sua morte. Foi devido
à sua proteção que o “herético” Egito gozou de numerosos anos de tolerância, e
foi por causa dela que a “herética” Síria pôde colocar sua perseguida igreja
nacional sobre firmes alicerces. Ela sempre sentira simpatia pelos monges da
Síria e do Egito, como Zooras e Jacobo Baradeu, recebendo-os em palácio e
suplicando-lhes orações. Foi ela quem tornou possível aos dissidentes voltar ao
favor e continuar livremente a propagar suas doutrinas e foi a ela, mais do que
a Justiniano, que as missões monofisistas à Arábia, Núbia e Abissínia deveram
seu sucesso. Antiga atriz, antiga amante de um governador provinciano (ela e
Eutíquio, mais tarde Patriarca de Constantinopla, formaram uma relação prática
nesses dias), Teodora interessava-se
apenas por uma coisa — o fortalecimento
do Estado. Coisa alguma podia opor-se aos seus planos, nem Deus, nem homem. A
pequenina, bonita e extraordinariamente graciosa mulher — contemporâneos falam
de seu rosto alvo e pálido, iluminado por olhos grandes, vivos e brilhantes —
indubitavelmente nascera mil anos antes de sua época. Era uma personalidade da
Renascença com a perícia propagandística de Madison Avenue.
O
V Concilio foi realizado com a assembléia à cunha. Entre os cento e sessenta e
cinco bispos presentes à reunião final no dia 2 de junho do ano 553, somente
seis se podiam, com alguma fidelidade aos fatos, descrever como pertencentes à
Igreja do Ocidente ― as linhas de
separação estavam bem nítidas por essa ocasião — e suas dioceses se localizavam
na África. O Papa Vigílio, embora tivesse sido originariamente um homem de
Justiniano, se é que podemos usar tal expressão, permaneceu em Constantinopla
durante todo o período, mas, resolutamente, recusou-se a comparecer às sessões.
Na verdade, foi informado, em termos iniludíveis, de que sua presença não era
bem-vinda.
Sabe-se agora
que antes da abertura do Concilio, feita com atraso em virtude
da resistência do Papa, os bispos que já se
encontravam em Constantinopla foram
solicitados a estudar, por ordem
do Imperador, uma série de acusações contra o origenismo que coisa alguma tinham em comum com os ensinamentos originais
de seu autor, mas que eram sustentados por uma das denominadas facções
origenistas da Palestina. Nenhuma dúvida
há de que os bispos presentes nessa sessão ex-conciliar subscreveram os quinze anátemas propostos pelo Imperador, o
primeiro dos quais era Se alguém afirmar a fabulosa preexistência das almas e a
monstruosa restauração que dela se segue, que seja anatematizado! Nenhuma prova há de que tenha sido pedida a
aprovação do Papa. É, por conseguinte, discutível, para dizer o mínimo, que os
anátemas tenham sido formalmente adotados pelo V Concílio Ecumênico, mas é
inegável que, num exercício muito bem feito de relações públicas bem modernas,
o mundo em geral e a Igreja de Roma foram levados a crer que os ensinamentos de
Orígenes haviam sido condenados. O próprio Papa Vigílio, Pelágio I (556-61),
Pelágio II (579-90) e Gregório, o Grande (590-604), ao se referirem ao V
Concílio, nenhuma menção fizeram ao origenismo e dele falaram como se lhe
desconhecessem a condenação.
Os anátemas, que é preciso dizer não visavam exclusivamente
ao origenismo, mas também outros cismas perigosos e essencialmente
antimonofisistas (e potencialmente perigosos para os poderes constituídos)
existentes na Igreja do Oriente, eram, contudo, um fait accompli.
(SANTESSON, 1969, p. 125-130).
Nesse clima de prepotência só Alexandria continuava a
resistir. Para tentar submetê-la, Justiniano convoca o II Concílio de
Constantinopla (545-553). De todos os concílios, foi o mais longo e estranho.
Durou quase 9 anos. Para garantir a sua realização, o papa Vigílio foi virtualmente
seqüestrado em Roma e levado para Constantinopla.
A pretexto de
sanar brechas produzidas pela heresia monofisista, o imperador preparou um
“pacote” a ser aprovado pelos bispos e que incluía dois pontos principais:
l A
condenação dos chamados “Três Capítulos” de autores nestorianos há muito
falecidos. Tratava-se de uma manobra política para livrar os
adversários dos alexandrinos da acusação de nestorianismo.
l A
condenação da obra de Orígenes. Orígenes que,
segundo Jerônimo, escreveu mais de 600 tratados, jamais foi condenado no seu
tempo. Pelo contrário, foi considerado o maior teólogo da cristandade até o
advento de Santo Agostinho. Acabou condenado, assim, 300 anos depois de sua
morte.
O propósito político do conclave era mais do que evidente.
Suas decisões visavam atingir a tradição neoplatônica, representada pela Escola
de Alexandria. O racionalismo grego, que já opunha o divino e o humano, agora
opõe a graça ao livre-arbítrio. Para os donos do poder as teses neoplatônicas
colocavam uma ênfase insuportável no livre-arbítrio (vale dizer na consciência
de cada um) para a salvação da alma, o que os orientais conheciam pelo nome de
Lei do Karma (ver texto de Orígenes que citamos no título A Escola de
Alexandria). Tais teses eram consideradas espiritualmente permissivas e
politicamente subversivas. Na medida em que estimulavam a liberdade individual,
poderiam causar embaraços ao exercício do poder e à manutenção da ordem
pública, segundo o imperador. Assim pensando, proclamou-se a doutrina do céu ou
inferno, após a morte; da salvação ou perdição definitiva da alma, ao cabo de
uma só vida e que deveria ser vivida sob o olhar vigilante da Santa Madre
Igreja, detentora dos canais da graça sobre a Terra... Um instrumento perfeito
de controle social!
[...]
Em 553, o “pacote” imperial foi finalmente votado e aprovado
pela assembléia dos bispos. O papa resistiu em aprovar a decisão e foi mantido
prisioneiro por seis meses. Vencido pela idade – estava com 80 anos – e pela
longa ausência de Roma, Vigílio capitulou e assinou a resolução contra a sua
vontade. Pôde assim retornar à sua diocese, da qual estivera afastado por quase
dez anos. A resolução ficou conhecida por “Edito de Justiniano” e reza:
Todo
aquele que ensinar esta fantástica preexistência da alma e sua monstruosa
renovação será condenado.
É
nessas circunstâncias que a doutrina da reencarnação entrou para o rol das
heresias, depois de mais de 500 anos de história da Igreja. O episódio lembra a
resolução da câmara de vereadores daquela cidade do interior que revogou a Lei
da Gravidade para levar água às partes mais altas da cidade. Para desespero do
engenheiro da prefeitura que tentava mostrar a impossibilidade técnica do
projeto, o presidente da câmara insistia: “Mas se num é lei federar nem
estaduar, nóis revoga ela, uai!”. Da mesma forma, o II Concílio de
Constantinopla revogou a Lei do Karma. (MELLO, 1997, p. 134-135).
O CRISTIANISMO, A
TRADIÇÃO-SABEDORIA E A REENCARNAÇÃO
O teólogo e estudioso
Geddes MacGregor argumentou que a reencarnação não é
de modo algum incompatível com o Cristianismo. Segundo diz,
ela oferece uma interpretação razoável da vida
póstuma cristã
e do conceito de purgatório - doutrina que diz que devemos, em
algum mundo,
nos libertar dos efeitos de nossos
erros. Ele argumenta ainda
que a reencarnação fazia parte da crença informal,
não doutrinária de alguns cristãos
do passado, e que não entra em choque com o cerne
da doutrina cristã.
Os primeiros cristãos
estavam preocupados com a necessidade de
divulgar o Evangelho antes do fim do mundo, que eles
esperavam a qualquer momento. Conseqüentemente, tinham pouco tempo para especular sobre a vida futura. No
entanto, uma vez esclarecido que Cristo não voltaria
durante a primeira geração dos cristãos,
começaram a pensar no que poderia lhes reservar o futuro. O
conhecimento sobre a reencarnação foi disseminado por todo o mundo
mediterrâneo da época, de modo que
os primeiros cristãos não
podiam ignorá-lo. Essas idéias foram
ensinadas por Pitágoras e Platão e
defendidas por muitos filósofos gregos e
romanos.
Os próprios Evangelhos
evidenciam que a reencarnação era aceita
como, no mínimo, uma possibilidade pelos primeiros
cristãos. Uma das histórias narra a preocupação dos
discípulos em saber se era justo um homem ter nascido cego. Perguntaram ao Cristo: “Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que ele nascesse
cego?” Essa pergunta não faria sentido se
os discípulos pensassem que cada alma humana havia sido
criada com seu corpo terreno. Só faria sentido
se eles julgassem
possível ao homem viver uma vida
anterior a
esta, uma vida num mundo como este, onde
podemos pecar e assim estabelecer
as conseqüências que deveremos
encontrar em uma próxima existência.
Um dos gigantes
intelectuais dentre os
Patriarcas da Igreja, Orígenes,
do Século III d.C., certamente
ensinava que as almas existem
antes de nascer nesta vida, e é muito provável
que tenha ensinado uma forma de reencarnação.
Não estamos certos sobre a forma
exata deste
ensinamento, porque suas obras foram
censuradas e expurgadas por seus inimigos e pelos
amigos (que
desejavam protegê-lo da perseguição).
Os ensinamentos de Orígenes, que
era um
homem gentil
e santo, foram alvo do rancor da política
eclesiástica, tanto que, cento e cinqüenta
anos após a sua morte, a
maioria de seus trabalhos receberam a
condenação de um conselho católico. Os
primitivos conselhos da Igreja e as
maquinações políticas que os cercavam
eram tão confusos que, não
se sabe ao certo, entretanto, se a
doutrina da reencarnação foi
alguma vez declarada imprópria
para os
cristãos.
Alguns cristãos,
ainda que perseguidos, certamente continuaram adeptos da
crença na reencarnação. Os
mais famosos foram os albigenses ou cátaros,
um grupo do século XI
estabelecido no sul da França e ao norte da
Itália que também eram
vegetarianos e se opunham à
dominação dos leigos pela hierarquia
eclesiástica. A devoção albigense à
não-violência, ao pacifismo, à pureza e
à libertação da tirania clerical conquistou-lhes a admiração das massas e a eterna
inimizade do clero. Quando as tentativas de
convencê-los de seus erros não foram bem
sucedidas pela Igreja, esta começou a persegui-los por meio da Inquisição
e, ao final do século XIV, eles
haviam sido praticamente exterminados.
A comunidade albigense
expressava a Tradição-Sabedoria, cujos
primórdios se perdem nas brumas da
época pré-histórica e que continuou sendo incorporada em outras formas através
dos tempos. Os ensinamentos albigenses, incluindo a reencarnação, não se originaram nesse grupo nem
tiveram fim com ele. Na
verdade, doutrinas semelhantes são encontradas
tanto no Judaísmo quanto no Islamismo
religiões ocidentais também conhecidas como “Religiões
do Livro”.
No Judaísmo, a reencarnação se apresenta como um ensinamento
dentro da tradição cabalista,
em uma de suas expressões modernas,
o Hasidismo. Nestas tradições judaicas,
a reencarnação é expressa pelo
termo hebraico gilgul. No Islã a reencarnação
é ensinada para os sufis que afirmam conhecer o
significado esotérico do Alcorão
Embora a reencarnação
seja tipicamente defendida pelas correntes místicas
e esotéricas das maiores religiões ocidentais
— os albigenses, os cabalistas e os sufis
- nem todos os clérigos a rejeitaram.
Maud Gonne foi uma ativista da política
irlandesa e serviu de inspiração
para alguns
dos melhores poemas de William
Butler Yeats. Em sua autobiografia, ela relata
que um padre
francês certa
vez lhe
perguntou por que não era católica. Ela
respondera: “Porque acredito na reencarnação; acredito que já vivi antes
neste belo mundo. Algumas das pessoas que
conheço, eu já conhecia tão
bem que
posso até adivinhar o que irão dizer.” O padre, que era
um homem
sábio e
compreensivo, disse então: “A alma vem
de Deus e retornará para
Deus depois
de purificar-se, quando todas as coisas serão
esclarecidas; e quem poderá saber quais as etapas de sua purificação? É possível que
certas almas
realizem sua purificação neste mundo”.
Quincy Howe Jr. também escreveu
um estudo profundo -
Reincarnation for the Christian - no qual examina
as noções sobre o assunto a partir
das tradições hindu e platônica,
defendendo-as à luz das concepções
teológicas e metafísicas do Cristianismo ortodoxo.
Sua obra e a de Geddes MacGregor, mencionada anteriormente, são
provas de
que alguns teólogos cristãos
contemporâneos consideram com simpatia
a idéia da
reencarnação. (ALGEO, 1995, p. 27-30). (grifo nosso).
A idéia da reencarnação, dissemos antes, integrava os
princípios aceitos pelos protocristãos ou, pelo menos, por aqueles que o
conseguiam entender. Dentre os chamados “Pais da Igreja”, muitos foram
os que aceitaram ou, pelo menos, conjecturaram acerca desta questão, como Santo
Agostinho, Clemente de Alexandria e Justino, o Mártir.
Mas, indubitavelmente, foi Orígenes, que viveu em
Alexandria, considerado um dos maiores pensadores cristãos do seu tempo e
também um dos maiores de todos os tempos, autor de cerca de dois mil livros
doutrinários, aquele que mais defendeu e propagou o fenômeno da reencarnação.
Com ele surge uma corrente no seio da Igreja, que recebeu o
nome de Origenismo, que defendia os
seguintes princípios.
ORIGENISMO
a)
Todos
somos filhos de Deus e, dessa forma, somos iguais diante dEle.
b)
Deus
não usa de favoritismos com ninguém, mas trata a todos os Seus filhos de
maneira semelhante.
c) Os Espíritos foram criados por
Deus em condições de felicidade, mas em função de sua rebeldia, caíram e
passaram a depender de um desenvolvimento no corpo de carne.[65]
d)
Todos
somos dotados de livre-arbítrio e, em assim sendo, somos responsáveis por nossa
felicidade e nosso sofrimento.
e)
Os
Espíritos preexistem aos corpos.
f)
A
alma, com a ajuda de Deus, é responsável por sua própria salvação.
g) Os demônios são os Espíritos que
mais se rebelaram, por isso, tiveram maior queda. No entanto, todos voltarão ao seio do Criador. (grifo
do autor)
Nesse tempo, havia várias polêmicas,
todas resultantes das diferentes maneiras de interpretar (ou mesmo de acomodar)
os ensinamentos de Jesus.
Um dos temas mais discutidos era a divindade de Jesus. Uma ala afirmava ser Jesus um Espírito criado
por Deus, a despeito de se haver tornado perfeito e, assim, uno com o Criador.
Outros, não aceitavam esta teoria, elevando o Cristo à condição de Deus.
Constantino resolveu interferir e convocar um concílio para a discussão do
caso.
Destarte, em 325 d.C., realizou-se o Concílio de Nicéia,
onde se tratou principalmente sobre a Divindade de Jesus, criando-se a idéia da
trindade (um só deus mas três pessoas distintas – Pai, Filho e Espírito
Santo), importada, em verdade, da Índia e do Egito. A discussão, no entanto,
persistiu por longo tempo.
Já no sexto século da nossa Era, Roma era governada por
Justiniano e, como o Cristianismo havia sido declarado por Teodósio I (Edito de
Constantinopla) a religião oficial do Estado, no ano de 391 d.C., o imperador
afirmava-se cristão.
Conta-se que influenciado por sua esposa Teodora e
aproveitando ainda a polêmica que se mantinha, a despeito do Concílio de
Nicéia, sobre a divindade crística, o imperador convocou um concílio a se
realizar em Constantinopla, então capital do Império.
Dez anos antes, porém, preciso é saber, havia convocado um
sínodo[66] para discutir (!?) sobre a questão das vidas sucessivas que tanto
lhe incomodava, mas especialmente à sua esposa, haja vista não admitirem
retornar a um corpo em condição social inferior, pois, assim, de deuses, como
eram considerados seus antecessores, desceriam, conduzido por esta doutrina, à
condição de simples Espíritos, podendo mesmo renascerem na condição de plebeus,
por exemplo...
[...]
O resultado deste sínodo foi apresentado no Concílio de
Constantinopla, como matéria secundária, de vez que o principal assunto a ser
tratado dizia respeito, ainda, á discutida questão da divindade de Jesus.
Ao quinto concílio ecumênico – o II Concílio de
Constantinopla [68] – realizado no ano de 553 d.C., compareceram praticamente
membros da Igreja do Oriente, pois até mesmo o Papa Vigílio, de Roma, em
decorrência de desentendimentos com o Imperador, foi impedido de comparecer,
sendo mesmo mantido prisioneiro por sua ordem, quando viajava para
Constantinopla.
[...]
Foi, portanto,
desde este concílio que, aos poucos se foi deixando de aceitar a reencarnação
no Movimento Cristão, portanto, a partir da anatematização do Origenismo, como
se pode depreender dos anátemas que ali se fizeram, como reproduzido abaixo
parcialmente[71]:
“Contra todo aquele
que assevere a fábula da preexistência das almas e afirme que se segue
monstruosa reconstrução: anátema seja”.
“Contra todo aquele
que diga que, após a ressurreição, o corpo do Senhor era etéreo, e em forma de
esfera, e que assim serão os corpos de todos depois da ressurreição; e que
depois que o próprio Senhor tenha jogado seu corpo e os outros que surgem
tenham jogado os seus, a natureza de seus corpos será destruída: anátema seja”.
Além
destes, havia um anátema do próprio imperador[72]:
“Contra todo aquele que declare ou pense que a alma humana
preexistia, ou seja, que foram primeiro espírito e sagrados poderes (...):
anátema seja”.
_______
[65] Os Espíritos Reveladores não concordam com esta idéia
específica de Orígenes, de que os Espíritos reencarnam porque faliram, mas que
Deus determinou a todos os Espíritos sem exceção passem pela fieira
reencarnatória nas primeiras fases do seu desenvolvimento, até que atinjam a
condição de Espíritos Puros. Ver as questões 132, 133 e 134 de “O Livro dos
Espíritos”.
[66] Assembléia dos principais membros do clero de uma
diocese para discutir assuntos necessários e de seu interesse. Presidida por um
bispo, o único com poderes para legislar.
[68] Passaram-se vários anos até que a maioria dos
dirigentes da Igreja viessem a aceitar as determinações do II Concílio de
Constantinopla. Primeiro, porque não havia representatividade da Igreja,
posto que nem mesmo o Papa pôde se fazer presente, impedido que fora pelo
Imperador; depois, porque a questão indiscutivelmente dividia os cristãos.
Aliás, até hoje há que rejeite as decisões tomadas naquele concílio, em
decorrência das clamorosas irregularidades nele existentes.
[71] Apud POMPAS, Manuela. - “Reencarnação (A descoberta
das Vidas Passadas)”. Trad. De Wally Constantino. Pág. 68, 69. Ed. Maltese,
Ltda. São Paulo-SP: 1991).
[72]
idem, ibidem.
(CAJAZEIRAS,
2002, p. 55-59). (grifos do próprio autor)
Parece certo que na primitiva Igreja Cristã havia uma
Doutrina Esotérica, e que uma parte desta doutrina consistia no ensino da
Preexistência da Alma; e parece que alguma forma de Renascimento ou
Reencarnação era reconhecida como um dogma esotérico dos primeiros cristãos,
como afirmam os que estudaram este assunto. Acha-se uma constante referência
aos “Mistérios” e “Ensinos Íntimos” através das epístolas, principalmente nas
de S. Paulo, e os escritos dos primitivos padres cristãos estão cheios de
referências às Doutrinas Secretas. Nos primeiros séculos da Era Cristã
falava-se freqüentemente dos “Mistérios de Jesus”, e sabe-se que um Círculo
Esotérico de Cristãos adiantados que se dedicavam ao misticismo e a doutrinas
pouco conhecidas. Celso atacou a Igreja Cristã primitiva, alegando que era uma
organização secreta, que ensinava a Verdade aos poucos eleitos, dando à
multidão apenas as migalhas de meias-verdades, e que os ensinos populares velavam
a Verdade. Orígenes, um discípulo de S. Clemente, respondeu a Celso,
confirmando que era verdade que existia na Igreja Cristã uma Doutrina
Esotérica, que não era revelada às massas do povo, mas defende a Igreja dizendo
que ela seguia, neste método, o costume estabelecido de todas as filosofias e
religiões, que davam as verdades esotéricas somente aos que estavam preparados
para recebê-las, e ao mesmo tempo apresentavam às multidões comuns de seus
adeptos as doutrinas exotéricas ou exteriores que todos podiam compreender ou
assimilar. Entre outras coisas, diz Orígenes nesta réplica:
“Que existem certas doutrinas, que não se explicam à
multidão e só se divulgam depois de terem sido ensinadas as exotéricas, não é
uma peculiaridade, própria só do Cristianismo, mas é também o costume dos
sistemas filosóficos onde certas verdades são exotéricas (i. é, para todos), e
outras esotéricas (i. é, para os escolhidos.) Alguns dos adeptos de Pitágoras
contentavam-se com a expressão “Ipse dixit” (“Ele o disse”), ao passo que
outros eram instruídos secretamente naquelas doutrinas que não eram julgadas
comunicáveis aos profanos e aos ouvidos insuficientemente preparados.
Além disso, todos os mistérios que se celebram em todas as
partes da Grécia e em terras bárbaras (i. é, estrangeiras), embora conservados
em segredo, não foram desacreditados; e assim, em vão ele (Celso) se esforça
por caluniar as doutrinas secretas do Cristianismo, visto que não compreende
corretamente a sua natureza.”
Nesta
citação se vê que Orígenes não só admite positivamente a existência dos Ensinos
Esotéricos, como também menciona Pitágoras e sua escola, e os outros mistérios
da Grécia, dando a compreender que tinha conhecimento deles, e compara-os com
os Mistérios Cristãos, o que não teria feito certamente, se os ensinos daqueles
Mistérios estivessem em desacordo com os da Igreja. No mesmo escrito diz
Orígenes: “Porém, sobre estes assuntos pode-se dizer muito bem, como sobre os
que são de natureza mística, que — convém guardar cuidadosamente o segredo dum
rei” —, e, portanto, não se deve falar da entrada das almas nos corpos diante
dum intelecto comum.” Poderíamos apresentar dezenas de citações semelhantes.
Os
escritos dos primeiros padres da Igreja Cristã estão repletos de muitas alusões
à corrente doutrina esotérica da preexistência e do renascimento das almas.
Orígenes principalmente escreveu muito sobre estas coisas. João Batista era
geralmente reconhecido como a reencarnação de Elias, até pela massa popular que
considerava isso como uma ocorrência milagrosa, ao passo que os eleitos o
consideravam apenas como um exemplo de renascimento ocorrido conforme a lei. Os
gnósticos, que constituíam uma ordem e escola na Igreja primitiva, ensinavam a
Reencarnação clara e abertamente, sendo, por isso, muito perseguidos pelos mais
conservadores. Outros aceitavam alguma forma da doutrina, disputando entre si
sobre vários pontos e detalhes, mas admitindo a maior parte dos respectivos
ensinos. Orígenes ensinou que as almas encarnadas haviam caído dum alto estado
e estavam elaborando o seu caminho de regresso, para voltarem ao seu estado
anterior e à glória perdida, servindo-se para este fim de repetidas
reencarnações. Justino, o mártir, fala da alma que habita corpos sucessivos,
perdendo a memória das vidas passadas. Durante alguns séculos a Igreja
primitiva teve no seu seio muitos adeptos sérios da Reencarnação e esta
doutrina era reconhecida como florescente até pelos que a combatiam.
Latino,
pelo fim do terceiro século, opinava que a idéia da imortalidade da alma implicava
sua preexistência. S. Agostinho, em suas “Confissões”, usa as seguintes
notáveis palavras: “Não vivi eu em outro corpo antes de entrar no ventre da
minha mãe?” Esta expressão é tanto mais notável, porque Agostinho se opunha a
Orígenes em muitos pontos da doutrina, e porque foram escritas no ano de 415.
Os vários Concílios Eclesiásticos, porém, pronunciaram-se contra a doutrina da
Reencarnação, e a influência dos que atingiram o poder na Igreja se dirigiu
contra ela, declarando-a uma “heresia.” Os ensinos foram censurados e
condenados em diversos Concílios, até que finalmente no ano de 538, Justiniano
publicou uma lei que declarava: “Quem sustentar a mítica crença na
preexistência da alma e a opinião conseqüentemente estranha, de sua volta, seja
anátema.” Falando dos cabalistas judaicos, diz um autor: “Como Orígenes e
outros padres da Igreja, os cabalistas apresentavam como o maior argumento a
favor da doutrina da Metempsicose, a justiça de Deus.”
Mas a doutrina da Reencarnação não morreu, entre os povos cristãos,
às ordens dos Concílios da Igreja Cristã. Abafada debaixo da coberta da
oposição e perseguição, conservou-se viva até poder novamente levantar sua
chama ao céu. E até no tempo em que era suprimida, o estudante atencioso pode
ver que cá e lá reluziam alguns dos seus vislumbres. Pode-se encontrar nos
escritos desses séculos muitas alusões, veladas em frase mística, ou encobertas
com figura poética. Durante os últimos duzentos anos, a renascença da idéia
reencarnacionista foi constante; é assim que, pelo fim do século XIX e no
começo do XX, encontramos a doutrina outra vez abertamente pregada e ensinada a
milhares de ávidos ouvintes e secretamente sustentada até por muitos cristãos
ortodoxos. (ATKINSON, s/d, p. 44-48).
Como seu mestre Clemente, Orígenes
(185-254 d.C.) apaixonou-se pela metafísica dos pitagóricos, estóicos,
gnósticos, e, principalmente, pela dos neoplatônicos, cujas idéias básicas
adotou. Em sua escola, em que se ensinava também a geometria, a aritmética, a
literatura e a filosofia gregas, ele sustentava que, bem antes da união com
corpos carnais, as almas preexistiam no Céu. Estas inteligências puras e santas
eram substâncias espirituais livres, luminosas; pecaram e foram condenadas por
Deus a sofrer a encarnação no baixo mundo.
Essa assimilação da encarnação a um
estado inferior, do corpo a uma decadência, é realmente estranha, e muito
característica. Do budismo aos cataristas, e do jansenismo ao velho cristianismo
encontra-se, subjacente, a mesma aversão à carne e à individualidade —
conseqüência da primeira —, a mesma desconfiança acerca da natureza e da vida;
em resumo, o mesmo pessimismo.
Segundo o sistema de Orígenes, as penas
do Inferno eram apenas provisórias; todas as almas purificadas deveriam
alcançar um só e único Deus. Contra alguns teólogos que, sem esperar
Constantino e Nicéia, começavam a identificar Jesus com o Pai, ele afirmava que
o homem de Nazaré só era filho de Deus por adoção:
Não
há verdadeiro deus senão o próprio Deus; Deus, o Pai, criador de toda a
eternidade e que possui sozinho a plenitude do Ser, O Filho participa da
natureza divina e é mais a imagem da Divindade que Deus. Assim, ele não é o Bem
absoluto, mas o Bom. O Verbo de Deus [o Filho] não é a causa, mas o instrumento
da Criação.
Foi
tanto por concepções desse gênero quanto pela teoria da preexistência das almas
que Orígenes foi condenado.
Invocando ousadamente João, 14: 2, “Há numerosas moradas na
casa do Pai”, Orígenes fazia o seguinte comentário: “Senhor faz alusão às
diferentes estações Que as almas devem ocupar depois de despojadas de seus
corpos atuais, a fim de se investir dos novos”.
[...]
O grande mérito de Orígenes foi ter compreendido e ensinado
a constituição tripartite do ser humano: entre o corpo físico e o espírito, ele
descobrira o corpo aéreo. As almas conservavam tal corpo depois da morte, e era
por essa razão, dizia ele, que se viam aparições em torno dos túmulos.
Nas pegadas de Orígenes alguns autores católicos
contemporâneos seus, com simpatias reencarnacionistas gostavam de citar, sem,
diga-se de passagem, fornecer referências, os padres da Igreja, grega ou
latina, que levavam água a sua nora.
[...]
Em 529, fechamento da Escola de Atenas por Justiniano que,
para apressar as conversões, dava a seguinte possibilidade de escolha a seus
súditos: o batismo ou a morte. O imperador acertava sua dívida para com a
reencarnação esperando o sínodo de 543 e o concilio de 553.
Foi muito tempo depois da morte de Orígenes, e
particularmente no século 6, que a polêmica se inflamou contra ele e suas
doutrinas. Em janeiro de 543 publicou-se um édito de Justiniano — o imperador e
sua esposa Teodora gostavam muito de se imiscuir em questões teológicas —, em
que estavam expostas as opiniões de Orígenes Ao patriarca Menas foi dada a
ordem de convocar um sínodo, com a presença de todos os bispos de passagem em
Constantinopla, e de convidá-los a condenar as ditas opiniões. Foi o que eles
fizeram em dez anátemas, dos quais apresentamos os mais característicos. E
notável que não se trate aqui de metempsicose, mas somente de preexistência.
1
— Se alguém diz ou sustenta que as almas humanas preexistiram na condição de
inteligências e de santos poderes; que, tendo-se enojado da contemplação
divina, tendo-se corrompido e, através disso, tendo-se arrefecido no amor a
Deus, elas foram, por essa razão, chamadas de almas e, para seu castigo,
mergulhadas em corpos, que ele seja anatematizado!
O
sínodo de 543 recusa-se a fazer o amálgama entre decadência e encarnação.
5—
Se alguém diz ou sustenta que na ressurreição os corpos dos homens se revelarão
sob a forma esférica, se nega que nos revelaremos na postura reta, que ele seja
anatematizado!
O
sínodo sabe que, numa outra vida, a forma humana é conservada.
9
— Se alguém diz ou sustenta que o castigo dos demônios e dos homens ímpios é
temporário e que um dia terá fim, ou que haverá uma restauração dos demônios e
dos homens ímpios, que ele seja anatematizado!
Restauração deve
ser tomada no sentido de “regeneração”. O sínodo se pronuncia a favor do
Inferno eterno.
10
— Anátema a Orígenes, apelidado de Adamantios, que emitiu essas proposições, e
a seus dogmas abomináveis e criminosos, bem como a qualquer pessoa que os
aprovasse, que os defendesse, ou que ousasse, em certa medida, torná-los seus.
Todo o episcopado oriental e o papa Vigílio assinaram.
Contudo, dez anos depois, Justiniano convocou, com sua autoridade própria, o
segundo Concílio de Constantinopla, quinto concilio ecumênico.
O papa Vigílio que, por essa época, encontrava-se em
Constantinopla, recusou-se a assistir ao concilio, porque não conseguira obter
do imperador uma representação dos bispos do Ocidente equivalente à dos bispos
do Oriente.
Se alguma vez se falou de Orígenes e de origenistas, isso
ocorreu em Constantinopla em 553, nos conciliábulos que os bispos travaram
entre si, a mando do imperador, antes da abertura do concílio, convocado, na
verdade, para tratar do caso dos três capítulos suspeitos de nestorianismo.
Só os atos concernentes a esses três
famosos capítulos de Teodoro de Mopsueste foram submetidos à aprovação do papa
Vigílio, que a concedeu em dezembro de 553.
E, portanto, errôneo querer ligar
ao quinto concílio ecumênico os anátemas lançados contra Orígenes e contra sua
doutrina. Foram obra do sínodo de 543, e foi para lhes conferir mais peso que
eles foram reunidos numa coletânea dos cânones do segundo Concílio de
Constantinopla. (PRIEUR, 1994, p. 122-128).
0 Origenismo e os
Séculos que se Seguiram
Vários teólogos do passado levaram avante as idéias de
Orígenes, como Evágrio Pôntico e muitos outros elementos da Igreja Ortodoxa
Oriental, onde a influência de Orígenes fez-se sentir mais forte. No entanto,
outras figuras cristãs de nomeada opuseram-se a ele, como Epifânio, Jerônimo e
Teófilo de Alexandria. Porém, a oposição mais virulenta contra Orígenes veio do
Ocidente. O ataque foi intensificado no século VI, pelo imperador Justiniano,
que condenou diversas doutrinas de Orígenes, em sua Carta a Mennas,
patriarca de Constantinopla. Um concílio efetuado em Constantinopla, em 543
D.C. condenou vários dos ensinos de Orígenes. Isso foi reforçado pelo segundo
concílio de Constantinopla, em 553 D.C. Mas, a despeito dessas condenações, as
idéias de Orígenes, no todo ou em parte, sempre exerceram grande influência no
Oriente. E o mesmo pode ser dito acerca de Clemente de Alexandria e de outros
pais gregos da Igreja. Poderíamos dizer que Orígenes e Agostinho foram as
influências mais fundamentais, respectivamente, sobre as teologias oriental e
ocidental. (CHAMPLIN e BENTES, vol. 4, p. 628).
Cristianismo
Várias
passagens do Novo Testamento indicam a preexistência e algumas parecem indicar
a reencarnação. O exemplo mais conhecido é o de João Batista, que é considerado
como o retorno de Elias. Essas passagens são encontradas especialmente em
Marcos, mas também em Mateus, Lucas e João. João 9: 1-3 e João 17: 24 são
vistas como indicações da crença na reencarnação. Nos primórdios do
cristianismo parece que houve uma divisão sobre o assunto. Muitos religiosos
aceitavam pelo menos a preexistência. Justino, o Mártir, aceitava a
reencarnação, mas considerava impossível recordar vidas passadas. De acordo com
ele, as pessoas demasiadamente desvalorizadas para receber Cristo retornariam
como animais selvagens.
Parece
que Orígenes considerava relevantes os argumentos gnósticos a favor da
reencarnação, e também apontava para o conhecido exemplo de Elias e João. Além
disso, fez a preexistência da alma parecer plausível. Propagandistas
posteriores da reencarnação viram essas exposições como argumentos a favor da
reencarnação. Porque o Concílio de Constantinopla condenou a doutrina de
Orígenes no ano 553, alguns gnósticos modernos apontam esse ano como a data em
que a doutrina da reencarnação foi eliminada do pensamento cristão. Annie
Besant e outros propuseram essa visão questionável.
O Segundo Concílio de Constantinopla em 553 estava
principalmente preocupado com as dificuldades levantadas no Concílio de
Chalcedom, em 451 em especial com a questão de Cristo ter uma ou duas
naturezas. O Concílio de Constantinopla concorreria com a política imperial de
Justiniano, que tentava ganhar controle sobre o oeste, e portanto achava
necessário o arbítrio sobre o assunto, para diminuir a discórdia entre leste e
oeste. Por essa razão ele pressionou o Concílio. Em 5 de maio de 553, os bispos
reuniram-se sob a presidência de Eutícius, patriarca de Constantinopla. O então
papa Vigílio estava na oposição e procurou refúgio numa igreja. Na ausência do
papa, o Concilio condenou a dupla natureza de Cristo (uma das doutrinas de
Orígenes), estabelecida pelo Concílio de Chalcedon. O papa continuou a resistir
até 8 de dezembro de 553, mas finalmente rendeu-se e ratificou a resolução do
Concílio em 23 de fevereiro de 554. Com isso, a unidade das duas naturezas de
Cristo tornou-se a doutrina oficial da Igreja. Um assunto secundário da
discussão no Concílio foi a ratificação das condenações iniciais de algumas das
visões de Orígenes. E impossível dizer com certeza quais as visões que estavam
em jogo, mas provavelmente a doutrina da preexistência estava entre elas.
(TENDAM,1993, p. 65-66).
Estranha
é a resistência irracional que oferecem certos setores ditos cristãos do
pensamento religioso a essa doutrina eminentemente lúcida, consoladora,
inteligente e lógica. Ainda que em tempos remotos grandes pensadores cristãos
tenham aceito a doutrina das vidas sucessivas, como Orígenes, Agostinho,
Francisco de Assis, Jerônimo, entre inúmeros outros pensadores religiosos ou
leigos, antigos ou modernos, muitos mantêm-se na obstinada negativa de quem
concluiu sem estudar como o que não viu e não gostou.
Segundo lembra o Rev. Leslie D. Weatherhead, da Igreja
Anglicana de Londres [1], é estranho que aqueles que “tão pronta e amplamente
aceitaram no Ocidente a idéia de uma vida após a morte, rejeitem a de uma vida antes
do nascimento”.
[...]
Aliás, o conceito das vidas sucessivas foi rejeitado pela
Igreja Católica, segundo o mesmo autor, no Concílio de Constantinopla, em 553, por
votação, na qual a reencarnação perdeu por 3 a 2.
O sacerdote católico G. Nevin Drinkwater escreveu, na
publicação The Liberal Catholic, que a reencarnação nunca foi declarada
herética por um Concílio Ecumênico. - O que realmente aconteceu – diz ele
textualmente – segundo Robertson e Hefele, foi que um sínodo local condenou os
ensinamentos de Orígenes acerca da preexistência em 543, na Cidade de
Constantinopla, mas isto não é, naturalmente, uma decisão a ser
obrigatoriamente acatada pela Igreja Universal [2].
____
[1] Cf. The Case for Reincarnation, de Leslie D.
Weatherhead; Londres, 1958.
[2] Cf. Church History, de Robertson, vol, I, p. 157
e History of the Councils of the Church, de Hefele, vol. IV, p. 223 ss.
(MIRANDA,
1990, p. 95-96)
Judaísmo,
Cristianismo, Islamismo.
[...]
No terceiro século D.C., o teólogo Orígenes, um dos padres
da primitiva Igreja Cristã, e seu mais reconhecido estudioso bíblico escreveu:
“Devido a alguma inclinação para o mal, certas almas... vêm em corpos,
primeiramente de homens; então, através de sua associação com paixões
irracionais, após o período permitido de vida humana, transformaram-se em
bestas, das quais deslizam até o nível de... plantas. Desta condição, sobem
novamente, através dos mesmos estágios e são restauradas ao seu lugar
celestial”[ 6].
[...]
A
Idade média e o renascimento
Sob circunstâncias que até hoje permanecem encoberta de
mistérios, o imperador bizantino Justino em 553 D.C. Baniu os ensinamentos da
pré-existência da alma, da Igreja Católica Romana. Durante essa era, numerosos
escritos da Igreja foram destruídos, e muitos eruditos agora acreditam que as
referências à reencarnação foram purgadas das escrituras. As seitas gnósticas,
embora severamente perseguidas pela Igreja, conseguiram, entretanto, manter
viva a doutrina da reencarnação no Ocidente. (A palavra gnóstico deriva-se
do grego gnosis, significando “conhecimento”).
______
[6] De Principiis, Livro III, Capítulo 5. Ante-Nicene
Cristian Library, editores Alexander Roberts e James Donaldson, Edinburgh:
Clark, 1867.
(PRABHPUÃDA,
1994, p. 3-4).
19. Swami Tilak (?-?) (monge
indiano)
É fato muito conhecido que até 553 D.C. O Cristianismo nunca
pronunciou-se contra a Doutrina da Reencarnação. Somente no ano 553 D.C., o
Segundo Concílio de Constantinopla decidiu expressar-se contra a Doutrina da
Reencarnação. Conseqüentemente, a aceitação da existência da alma antes do
nascimento, tornava-se uma crença hostil à decisão daquele Concílio. Apesar
disto, “a Igreja ocidental, que era devotada a Calcedônio, não pôde decidir-se
a aceitar os decretos do Concílio de 553, ainda que o Papa os tivesse aceito”
[9].
_____
[9] - “Encyclopaedia Britanica” (ed. 1965) vol. VI, p. 636,
sob o título “Second Council of Constantinople (O Segundo Concílio de
Constantinopla).
(TILAK,
1974, p.33).
“Na verdade vos digo que
entre os
nascidos de mulher não se levantou outro maior
do que João
Batista. E se quiserdes bem compreender.
ele é o mesmo Elias que havia de vir.
Quem tem ouvidos de ouvir, ouça.” Foram palavras de Jesus aos discípulos, conforme está em Mateus 11: 11,14-15.
Orígenes, que viveu
no segundo século da nossa era, e foi um
dos mais ilustres
padres da
Igreja primitiva, diz que
aquelas palavras afirmam a preexistência de João Batista antes de sua existência posterior,
como precursor do Cristo.
São Paulo, em
sua Epístola
aos Efésios 1:4, diz: “Deus nos elegeu antes
da fundação do mundo, para que
fôssemos santos e irrepreensíveis diante
dele.” E é Orígenes quem diz que isso sugere nossa preexistência,
antes mesmo de existir o mundo.
Também São Jerônimo diz de nossa permanência
nas alturas, onde residem criaturas racionais
antes de
sua descida a este baixo mundo, e antes da
retirada de sua vida invisível
das esferas espirituais para esta vida visível
da terra, e ensina a necessidade de
terem novamente corpos materiais antes que,
como santos, como homens que se tornaram “perfeitos como
Nosso Pai
que está
no Céu é perfeito”, possam outra vez
gozar no
mundo angélico a sua “anterior” bem-aventurança.
[...]
Em sua obra célebre
De Principiis, começa Orígenes com
a declaração de que unicamente
Deus é, fundamentalmente, e pela
virtude de
Sua Natureza, Bom. Deus é o único Bem, o Bem
absolutamente perfeito. Quando consideramos
os graus menores do Bem, achamos que a
Bondade é derivada e
adquirida, e não fundamental e essencial. Orígenes continua dizendo que Deus dá
livre-arbítrio aos espíritos, que,
não o empregando para o bem, descem para estados
inferiores, cada qual sendo a causa
de sua própria
queda.
Diz
ainda Orígenes que “Deus enche alguns
indivíduos com Seu Espírito Santo e concede-lhes santificação, não por causa de seus justos merecimentos, mas imerecidamente”. E como seria isso
compatível com a declaração de São Paulo de que em Deus não há respeito de pessoas, e
que Ele não pode ser
Injusto. E esta opinião não é negada pelos
que opinam
que as almas vêm existir com a formação dos corpos.
Diz mais Orígenes:
“Os homens, alguns são
bárbaros e
outros gregos; e, dos
bárbaros, alguns são ferozes e selvagens
e, outros, de disposição mais suave. Alguns
deles vivem sob leis aprovadas em
sua totalidade
e outros vivem
sob leis imperfeitas ou severas.
Outros, ainda, têm antes costumes
de caráter desumano e selvagem
do que leis;
e alguns deles, à hora de seu nascimento,
são reduzidos à humilhação e sujeição e feitos escravos,
sendo colocados sob o domínio
de senhores, príncipes ou tiranos.
Alguns dos homens têm corpos sãos, outros
são enfermos
desde os
mais verdes anos; alguns têm defeitos
da visão, outros do movimento ou da faia; alguns já
nascem nessa condição, outros foram privados do
uso de seus sentidos imediatamente
após o
nascimento. Mas por que repetir
e enumerar todos os horrores
da miséria humana? Por que isso acontece?”
A
seguir, Orígenes combate as idéias
mantidas por alguns pensadores
de seu tempo,
segundo as quais as diferenças seriam
causadas por diferenças essenciais na natureza
e qualidade das almas dos
indivíduos. E declara, com grande ênfase, que todas as almas
são essencialmente
iguais quanto
à sua natureza
e qualidade, e que as diferenças provêm
da diversidade do uso que fazem do seu
privilégio de livre-arbítrio. E assim se
expressa:
“Se existe essa grande diversidade
de circunstâncias, e esta diversa
e variada condição do nascer, onde a
faculdade de livre-arbítrio
não tem
alvo algum (porque ninguém
escolhe para si onde, de quem,
e em que condição deve nascer),
se, pois, isto não é causado pela diferença
da natureza das almas, isto é,
se uma alma de má natureza
é destinada a uma nação má, e uma alma boa
a uma nação justa, que outra conclusão
é possível tirar disso senão
que essas
coisas são regularizadas por acidente
ou por
acaso? Ao admitirmos isso não podemos crer
que o
mundo tenha sido feito por Deus, ou seja,
governado pela Sua Providência.”
E continua o
ilustre Padre da igreja:
“Deus, que julgou ser
justo arranjar
as Suas criaturas
segundo o
mérito que tivessem, deixa existir
esses diferentes
entendimentos na harmonia do mundo, para
adornar, digamos, uma moradia, onde
não deve
haver só vasos
de ouro e
de prata, mas também de madeira e de barro
— uns para provar
honra e
estima, outros para demonstrar desprezo
— com os
diferentes vasos, ou almas, ou entendimentos.
E, assim, o Criador não pode aparecer como
injusto, distribuindo, pelas causas
já mencionadas,
a cada um segundo as suas
necessidades como também não é acidental
a felicidade ou a desgraça
de cada ente
ao seu nascimento,
ou qualquer condição da sua sorte.”
Através das
citações acima não se pode
duvidar de que a Metempsicose, a Reencarnação, ou Renascimento, e o Carma, eram professados e ensinados como
verdadeira doutrina pelos padres da primitiva igreja Cristã. A doutrina da
Reencarnação foi repelida por certas influências na Igreja
do sexto século.
O Segundo Concílio de Constantinopla condenou-a como heresia, e, desde aquele
tempo, a cristandade renegou-a e exterminou-a, perseguindo-a com a espada, com as
estacas e com a prisão. A luz foi
conservada por muitos anos, contudo, pela seita
dos albigenses, perseguida pela Igreja, o que valeu
àquela seita centenas de mártires. Encoberta pela
mortalha da
superstição que, como densa nuvem, desceu
sobre a Europa na Idade Média, a Verdade, não obstante,
sobreviveu, e depois de várias
tentativas recobrou a sua
chama, neste glorioso século XX, para
novamente dar ao mundo
luz e
calor, reconduzindo o cristianismo às
concepções originais daquelas gloriosas mentalidades da Igreja primitiva.
(LACERDA,1978, p. 44-47)
Entre os cristãos, durante os
cinco
primeiros séculos,
nunca
se pensou que a reencarnação pudesse ser contrária aos ensinamentos do
Cristo.
[...]
Os Patronos da Igreja — dos quais alguns foram bela e devidamente canonizados! — quase todos admitem a reencarnação.
São Jerônimo
(331-420) afirmou a necessidade das
vidas
sucessivas. Santo Agostinho escreve: “Não vivi
eu
num outro corpo antes de entrar no seio de minha mãe?” Quanto a
Clemente de Alexandria, declara que a
reencarnação (ou metempsicose)
é uma verdade
transmitida pela Tradição e autorizada
por
São Paulo.
São
Gregório de Nissa (340-400, mais ou menos) dirá
que
“a alma imortal deve ser curada e purificada; e que, se não o foi por sua vida terrestre, a
cura
se faz pelas sucessivas vidas futuras”. São Justino
(+ 165) não
só fala “das almas que habitam mais de
uma vez
um corpo humano”, como também ensina que “aquelas que se tornaram indignas de ver Deus em conseqüência de seus atos durante encarnações terrestres, retomam corpos de
bichos
inferiores!” (Opinião que, como vimos, não é unânime). Orígenes (185-254), de quem São Jerônimo foi
admirador, é o mais célebre defensor cristão da reencarnação. Ele escreveu
muito
sobre o
assunto, e influenciou fortemente seus contemporâneos. Desenvolve longamente o tema de que as desigualdades de condição entre os homens, assim como suas desigualdades
de talento
e de moralidade provêm das vidas anteriores.
Analisa também
a história dos gêmeos Esaú e Jacó,
no Antigo
Testamento. Com efeito, por que, desde o seio da mãe,
Rebeca, um
dos gêmeos é apresentado como bom e amado, e o outro como mau? Se era sua primeira encarnação,
isso
seria de uma injustiça revoltante. Orígenes pensa que esses gêmeos, antes de se encarnarem no seio de
Rebeca, tinham um passado cheio de obras boas, no caso de
um, e de crimes, no caso do outro.
Orígenes estima, portanto, que o “Purgatório” se faz aqui embaixo, por sucessivas existências, e que Deus,
em
sua bondade,
não
nos poupa
o tempo
para melhorarmos.
(Mas
ele não crê nas encarnações animais.)
Muito
próximo ainda,
no tempo, dos primeiríssimos apóstolos, ele escreve:
“Não
está em conformidade com a Razão que toda alma, por razões misteriosas (segundo a
opinião
de Pitágoras, de Platão e de
Empédocles), seja introduzida num corpo segundo seus méritos e ações passadas? Não é racional que as almas que empregaram seu corpo em fazer o bem tenham
direito, depois, a corpos superiores aos dos outros em qualidade? (Contra Celsium.)
E, num outro livro,
De Principiis: “Toda alma, [...] vem a este mundo reforçada pelas vitórias ou enfraquecida pelas derrotas de
suas
vidas anteriores.”...
Não
se pode ser mais claro!
[...]
COMO O OCIDENTE ESQUECEU A
REENCARNAÇÃO?
Como terá doutrina tão largamente difundida sido “apagada” pelos séculos seguintes?
Historicamente, é bem provável que a reencarnação
tenha levado
as sobras das
ambições
da imperatriz Teodora. Esta última esperava mais ou menos ser divinizada após sua morte, e não apreciava
as teorias
de Orígenes sobre as reencarnações sucessivas. Persuadiu seu marido imperador, o
fraco
Justiniano, de que Orígenes era herege,
e se encarregou de desacreditá-lo. Tanto fez
que, no 2º Concílio de
Constantinopla, em 553,
Justiniano mandou que fossem
condenadas as teses origenistas
por
bispos obedientes...
e aterrorizados, pois o casal imperial era bastante temível: Teodora chegara mesmo a
mandar
assassinar dois papas!
Esse Concílio de Constantinopla inaugura séculos de obscurantismo, durante os
quais
a Inquisição vai condenar certos cristãos por suas “heresias”, com uma crueldade e uma mentalidade reacionária totalmente oposta ao espírito do Cristo.
(BIZEMONT, 1990, p. 28-30).
Orígenes e os anátemas contra a preexistência
Os
primeiros padres da Igreja, entre os quais Agostinho, Clemente e Orígenes,
sustentaram em sua obra a doutrina do renascimento, retomando a tradição
hermética (isto é, de Hermes Trismegisto, a quem foi atribuído o Livro dos
Mortos), que citaram em abundância em seu trabalho. Orígenes (184-254), definido
na Enciclopédia Britânica como “o mais distinto e influente entre todos os
teólogos da antiga Igreja”, ensinou a preexistência da alma, segundo a idéia
platônica:
A alma não tem princípio nem fim. Cada alma entra neste mundo fortificada
pelas vitórias
da vida ou então enfraquecida
pelos
defeitos anteriores.
Seu
lugar neste
mundo, quase
como uma
morada
destinada à honra ou à desonra, é
determinado
pelos seus méritos precedentes.
Sua
obra neste
mundo
determina o lugar que ela terá no mundo seguinte.
Não será talvez mais de acordo com a razão que cada alma, por certas misteriosas
razões, seja introduzida em um corpo e que isto ocorra segundo seus méritos e suas ações anteriores?
Além
disso, não somente Orígenes retoma o ensinamento hermético e o platônico. Também
Santo Agostinho (354- 430) escreve: “A mensagem de Platão, o mais puro, o mais
luminoso de toda a filosofia, finalmente dissipou as trevas do erro e agora
transparece sobretudo através de Plotino, tão semelhante ao seu mestre que
acreditara que Platão tenha renascido em sua pessoa” (Contra Acadêmicos). E
depois: “Diga-me, Senhor, diga-me se à minha infância sucedeu outra minha
idade, morta antes desta? E antes ainda daquela vida, Deus, minha alegria,
estive eu talvez em algum lugar ou em algum corpo?” (Confissões.)
Obviamente,
nem todos os padres da Igreja defendem a reencarnação: Tertuliano a rejeita,
porque é “inconsistente”. Um dos argumentos que ele traz como motivo da sua
refutação (uma questão que ainda inquieta muitas pessoas) é que a preexistência
parece incompatível com o contínuo aumento do número de pessoas no mundo. Esta
pergunta é colocada com freqüência por todo aquele que entra em contato pela
primeira vez com a doutrina do renascimento: de onde vêm todas estas almas
“novas”, se o mundo partiu com poucos indivíduos e agora estamos superpovoados?
Mas a criação não é questão de “número”: não existe o dia da criação, esta é
contínua, à parte o fato de que muitas criaturas poderiam ter adquirido
experiência em outros estados de vida ou em outros planetas. Como é possível
julgar esta doutrina, baseando-se no número de presenças atuais e comparando-as
com aquelas do passado?
De
qualquer forma, os primeiros padres da Igreja sustentaram a reencarnação como
uma crença lógica, difundida tanto no Ocidente como no Oriente. Justamente por
estas constantes influências externas, nos primeiros séculos da história
cristã, foram travadas muitas batalhas em torno de alguns artigos da doutrina,
e os primeiros concílios se reuniram para decidir sobre estas disputas. No
século VI o imperador Justiniano, chefe do Império do Oriente inteiro, declarou
guerra aos discípulos de Orígenes. Em primeiro lugar seus ensinamentos foram
condenados no sínodo de 543, em Constantinopla; depois, em 553 foram publicados
os anátemas contra Orígenes e a doutrina da preexistência da alma. Em tudo isso
não houve nenhuma intervenção eclesiástica. O quinto Concílio foi promovido por
Justiniano e conduzido por bispos orientais manobrados pelo próprio imperador;
nenhum representante de Roma estava presente. Aliás, ao que parece, entre o
Imperador e o Papa (que na época era Vigílio) houvera um conflito violento e
este último fora prisioneiro de Justiniano por oito anos. Parece até mesmo que,
segundo o que foi relatado em alguns textos, os anátemas contra Orígenes não
foram lançados durante o Concílio, que se ocupou de outras questões, mas sim
posteriores e foram aprovados em uma sessão extraconciliar, por sugestão do
Imperador. Aliás, os decretos do Concílio foram acolhidos no Oriente, mas contestados
por muito tempo pela Igreja ocidental, onde surgiu um cisma que durou setenta
anos.
Os
anátemas contra Orígenes (que implicam a excomunhão por parte da Igreja contra
qualquer um que afirme suas idéias) são:
I)
Contra todo aquele que assevere a fábula da preexistência das almas e afirme
que se segue monstruosa reconstrução: anátema seja.
II) Contra todo
aquele que diga que a criação de todas as coisas racionais compreende somente
inteligências desprovidas de corpo e totalmente imateriais, sem número ou nome,
de modo que estejam entre si unidas por identidade de substância, força e
energia, e pela sua união com o conhecimento de Deus, o Verbo. E que, não mais
desejosas da visão de Deus, elas se deram a coisas piores, cada uma seguindo a
própria inclinação, e assumiram corpos mais ou menos sutis, e receberam nomes,
uma vez que entre as Potências celestes existe diferença de nomes como
diversidade de corpos; onde algumas transformaram-se e são chamadas Querubins,
outras Serafins, e Principados e Potências e Dominações e Tronos e Anjos e
outras tantas ordens celestes quanto possa existir: anátema seja.
III) Contra
todo aquele que afirme que o sol, a lua, e as estrelas são também coisas
racionais, assim transformadas unicamente porque se voltaram para o mal:
anátema seja.
IV) Contra todo
aquele que diga que as criaturas racionais em que o amor divino veio menos
foram ocultas em corpos brutos como os nossos, assumindo o nome de homens,
enquanto que aquelas que desceram ao grau mais baixo de maldade se uniram a
corpos frios e obscuros, tornando-se demônios e espíritos malignos, que é este
o seu nome: anátema seja.
V) Contra todo
aquele que afirme que uma condição psíquica provém de um estado angélico ou
arcangélico, e acrescente além disso que uma condição demoníaca e humana provém
de uma condição psíquica, e que de estado humano é possível tornar-se novamente
anjos e demônios, e que cada ordem de celestes virtudes provém ou daqueles em
baixo ou daqueles acima e embaixo: anátema seja.
(...)
X) Contra todo
aquele que diga que, após a ressurreição, o corpo do Senhor era etéreo, e em
forma de esfera, e que assim serão os corpos de todos depois da ressurreição; e
que depois que o próprio Senhor tenha jogado seu corpo e os outros que surgem
tenham jogado os seus, a natureza de seus corpos será destruída: anátema seja.
XI) Contra todo
aquele que diga que o juízo futuro significa a destruição do corpo e que o
final da história será uma (falsa aparência?) imaterial e que depois não haverá
mais matéria, mas apenas espírito: anátema seja.
(...)
XV) Contra todo
aquele que afirme que a vida dos espíritos será semelhante à vida que foi no
princípio, quando ainda aqueles espíritos não haviam descido ou caído, de forma
que o fim e o princípio serão similares, e que o fim será a verdadeira medida
do princípio: anátema seja.
A
estes anátemas do Concílio se acrescentam os do próprio Justiniano, que
reafirma: “Contra todo aquele que declare ou pense que a alma humana
preexistia, ou seja, que foram primeiro espíritos e sagrados poderes, mas que,
saciados da visão de Deus, se voltaram para o mal, e deste modo o divino amor
neles morreu e portanto se tornaram almas e condenados ao castigo dentro de
corpos, anátema seja”.
Lendo
estes anátemas tem-se a impressão de que tenha sido condenada justamente a
verdade, por uma razão que aqui parece obscura (talvez o receio de acreditar
nas crenças orientais, de aderir a formas religiosas que nada têm a ver com o
cristianismo). Tudo o que era ensinado esotericamente, tudo aquilo que pode ser
confirmado no nível sutil (por exemplo, a visão da alma depois da morte,
“esférica”, o fato de que o destino do espírito, que se separou de Deus no
início dos tempos, deverá reunir-se a Ele no final dos tempos) torna-se
anátema.
[...] Um dos
motivos pelo qual esta doutrina foi contestada pela Igreja é o fato de que a
crença na reencarnação diminuía o seu poder: com efeito, ela responsabiliza o
indivíduo, o qual se torna realmente dono do próprio destino e não tem
necessidade de prestar contas a ninguém, senão a si mesmo, das próprias ações.
O perdão não vem mais do sacerdote, investido de autoridade divina, mas é
obtido diretamente através da expiação do carma nas vidas seguintes, até que
alcance, vida após vida, a perfeição, e portanto Deus. A Igreja perde assim toda
a autoridade e permanece simplesmente como um intermediário entre o homem e
Deus, de quem, uma vez adquirida a consciência de si e a autonomia, pode-se
dispensar. Nos séculos sucessivos não houve uma condenação explícita à crença
no renascimento, a não ser a afirmação, no Concílio de Lyon de 1274 e no de
Florença de 1439, de que as almas depois da morte vão para o céu, o purgatório
ou o inferno. (POMPAS, 1991, p. 66-71).
Explicações necessárias para
se por os pingos nos “is”
Temos, sobre o que até aqui
foi colocado, quatro coisas que devem ser explicadas, pois relacionam-se
diretamente ao assunto em estudo, quais sejam: A questão da participação
efetiva de Teodora; se houve influência de Justiniano junto ao Concílio; se
Orígenes realmente acreditava na reencarnação; e, finalmente, se o Concílio de
Constantinopla, de fato, anatematizou Orígenes. É o que tentaremos ver a
seguir.
John Dominic Crossan,
professor universitário de Estudos Bíblicos, em seu livro O Jesus Histórico,
desenvolve alguns critérios para autenticar os dados de pesquisa, para que o
leitor fique plenamente seguro da informação recebida. Diz ele a certa altura:
O
elemento final desta tríade é a classificação da singularidade. Esse processo
consiste em se evitar trabalhar com qualquer unidade encontrada em apenas um
testemunho, mesmo que seja dentro do primeiro estrato. A minha intenção é fazer
com que isso funcione como uma proteção e uma garantia. Um material encontrado
em pelo menos duas fontes independentes do primeiro estrato não pode ter sido
inventado por nenhuma delas. (CROSSAN, 1994, p. 32).
Usando esse critério iremos
tratar de todos estes quatro pontos, visando dar uma consistência maior aos
relatos, de forma a poder dar ao leitor uma base maior de dados para que,
também ele, possa tirar suas próprias conclusões. Evitaremos, com isso, alguma
coisa que poderá nos levar a uma conclusão tendenciosa, que não é o nosso
objetivo, pois nos preocupamos com que apenas a verdade dos fatos se faça
presente.
a) Teodora
Será que ela teve alguma participação
nisso? Teria, de fato, a ex-prostituta mandado matar as quinhentas ex-colegas
e, por conta disso, resolveu “guerrear” contra a idéia da reencarnação, visando
fugir de um provável carma? O historiador Procópio, citado por alguns dos
autores, fala alguma coisa disso? Bem se vê que perguntas não faltam. Vejamos
se conseguiremos elucidá-las.
Muito embora não gostemos
de citar coisas disponíveis na internet, mas, como temos outras fontes que
citam o texto, vamos usar esse, porquanto, a tradução nos pareceu mais próxima
dos fatos:
Teodora
também devotou considerável atenção à punição das mulheres encontradas
em pecado carnal. Ela pegou mais de quinhentas
prostitutas no Fórum, que viviam uma vida miserável se vendendo por
três óboles, e enviou-as para a margem oposta, onde foram trancadas em
um monastério chamado Arrependimento para forçá-las a reformar sua maneira
de viver. Algumas delas, entretanto, jogaram-se dos parapeitos à
noite para livrarem-se assim de uma salvação indesejada. (Fonte: http://procopius.net/procopiuschapter17.html)
(grifo nosso).
Observe que, se Teodora
“devotou considerável atenção à punição das mulheres”, ela não estava
mesmo para brincadeiras e, certamente, nem um pouco preocupada com a salvação
delas. Um detalhe: “foram trancadas”; o que nos leva a concluir que, na
verdade, foram todas elas presas.
O romancista Francis Fèvre,
apesar de também basear-se em Procópio, nos acrescenta alguma coisa a mais
nesta história. Diz ele que Teodora “faz encerrar as prostitutas em um convento
fundado para esse fim”. Na seqüência, falando do convento, descreve que “os
muros são bastante altos, uma fuga poderia deixar aleijadas as pecadoras que se
arriscassem. Essas mulheres devem passar o resto de suas vidas à sombra dos
muros e das edificações do convento” (FÈVRE, P. 173).
Voltando ao texto de
Procópio, não podemos deixar de pensar que algo de grave deveria estar
acontecendo para que algumas delas se jogassem dos parapeitos, buscando a morte
certa. Não poderia ser por que alguém estaria torturando-as ou mesmo
matando-as? A “história” iria registrar isso? O certo é que, para nós, essa
história está muito mal contada, especialmente, depois que vimos esta opinião
sobre esse historiador:
Apesar
de tudo quanto sabia, nunca conseguiu falar senão do escândalo que a Basilissa
causava com as suas inconvenientes opiniões. Exagerava as histórias referentes
à sua avareza, à sua insolência, ao seu humor autoritário e a excessiva
influência que sobre Justiniano exercia – mas não citava fatos susceptíveis
de lhe mancharem a reputação. (FRANZERO, 1963, p. 163). (grifo nosso).
E, aproveitando que estamos
lendo Franzero, vejamos como ele cita o que Procópio escreveu:
“Era
apenas natural que a Basilissa exercesse a sua influência em favor das antigas
colegas e, assim, quinhentas prostitutas por modestíssimo preço exerciam
abertamente a sua profissão no Fórum, foram convidadas coercivamente a
entrar no novo convento do Arrependimento, na outra margem do Bósforo –
retiro magnífico para quem quisesse meditar. Ao que parece, porém, muitas
destas donzelas não se deram bem com o regime e preferiram atirar-se ao mar,
durante a noite, com nítida desvantagem para as possibilidades de salvação das
suas almas”. (FRANZERO, 1963, p. 87). (grifo nosso).
Aqui, fica evidente a
grande complexidade em se buscar dados históricos, porque fica difícil
acreditar em alguns relatos, por conta dos interesses de quem os registrou.
Apenas para ressaltar a
“confiabilidade” do historiador, transcrevemos:
“O
historiador Procópio, em sua História Secreta, apresenta-nos um retrato muito
vivo (mas não muito digno de fé) da vida tempestuosa da filha de um
domador de ursos, a qual, na palavra de Diehl, “divertiu, encantou e
escandalizou Constantinopla”. (GIORDANI, 1968, p. 47). (grifo nosso).
“A
terceira obra de Procópio, a História Secreta, é considerada por Runciman[33] “um
conglomerado amargo de mexericos”. A “História Secreta” difere, com efeito,
fundamentalmente das outras duas e sua autenticidade chegou a ser posta em
dúvida pelos críticos. Essa obra é um libelo grosseiro contra Justiniano,
Teodora e o próprio Belisário. A Justiniano o autor atribui a causa de todos os
males que, então, caíram sobre o Império.
________
[33] Lingenthal, Karl Eduard
Zachariä von, Geschichte des Grieschisch-Römischen Rechts. - Aalen in
Württenberg – Verlag Scientia 1955. (Photomecanischer Nachdruck).
(GIORDANI, 1968 , p. 192).
(grifo nosso).
Dos autores citados apenas
dois relatam esse episódio de que Teodora teria mandado matar as quinhentas
prostitutas. Um deles Kersten, teólogo alemão, que tem uma vasta referência
bibliográfica, que nos leva a crer na seriedade de seu trabalho de pesquisa.
Chaves, é o outro, que não cita Kersten, mas que, pessoalmente, não conseguiu
nos informar sua fonte. Aliás, ele disse-nos que, ao afirmar “contam alguns
autores”, estava apenas registrando, não comungando com eles.
É sabido que “Teodora
perseguia implacavelmente aqueles que o acaso de seu nascimento lhe são
impostos como elementos perturbadores” e era “capaz de mandar matar por uma
razão fútil o inseto humano que perturba seus planos” (FÈVRE, p. 168.182). Então a questão se resume em quem nós devemos acreditar,
pois o fato de outros autores não falarem no caso não o torna fictício,
inclusive, pode não ser citado nem mesmo pelos historiadores que poderiam
avaliar que tal episódio não merecesse entrar para a história. Entretanto, como
só temos uma fonte, mesmo sem a termos como inverídica, julgamos prudente, no
presente caso, aguardar que nos apareça, pelo menos, uma outra fonte que relate
isso. Vimos isso em vários outros autores, mas uns nem mesmo citavam uma fonte;
outros apenas citavam um desses dois autores, que falamos anteriormente.
Por outro lado, esse fato é
irrelevante, pois a única coisa que poderia fornecer é a razão pela qual
Teodora teria influenciado o marido para agir contra as idéias
reencarnacionistas.
b) Justiniano
Parece-nos que não tinha
muito de “justo”, veja como agia: “Se o pecador for considerado
demasiado grave para ser remido, as infelizes vítimas são executadas e as suas
fortunas confiscadas. Os julgamentos, que têm lugar à porta fechada, não
admitiram testemunhas de defesa”. (FRANZERO, 1963, p. 91). Por essa sua maneira de ser, ele
poderia ter eliminado as prostitutas a mando da mulher, mas nada disso foi
falado, apenas estamos dizendo para mostrar que, em princípio, tal
possibilidade existe.
Por outro lado, se
Justiniano teve a coragem de prender um papa, no caso o papa Silvestre, o que
mais não teria audácia de fazer?
Quanto à sua participação
no Concílio, temos essa informação dos vários autores que citamos, cuja
convocação se deu por sua iniciativa, não de uma autoridade religiosa.
Podemos ver isso nos
autores: Chaves, Russel, Prophet, Kersten, Andrade, Reale e Antiseri,
Santesson, Mello, Atkinson, Prieur, Champlin e Bentes, Tendam, Miranda,
Prabhupãda, Tilak, Bizemont, e, por fim, Pompas; ao todo, dezessete autores.
Como uns não citam os outros, temos que convir que, sendo as fontes diferentes,
não há como pensar em conluio de todos, e, muito menos, como sendo um boato.
Quanto ao motivo da
convocação do Concílio encontramos como sendo para anatematizar as idéias de
Orígenes, especialmente a preexistência, e também contra a reencarnação que,
por enquanto, não diremos ser uma crença origenista. Todos esses autores que
acabamos de citar, de um jeito ou de outro, acabam falando disso.
Como foram destruídos
muitos dados históricos, talvez esteja aí uma das boas razões por que não é
fácil achar registros de certos atos de Justiniano e Teodora; porém, uma coisa
é certa:
O
imperador convocava os concílios, onde se fazia representar por altos
funcionários, quando não comparecia pessoalmente, ratificando as decisões dos
padres, decisões essas que não tinham força de lei senão depois de sua
ratificação. Muitos imperadores vangloriavam-se, aliás, de serem excelentes
teólogos, e a esse título arrogavam-se o direito de legislar sobre a disciplina
e o dogma; e alguns dentre eles, Justiniano, por exemplo, chegaram até a escrever
longos tratados para expor e defender sua opinião sobre esta ou aquela questão
essencial, e, se necessário, para impô-la. (DIEL, 1961, p. 91-92).
Portanto, fica aí
evidenciada a sua participação nos concílios.
c) Orígenes acreditava na reencarnação?
Sobre ele diz Roque
Frangiotti, na Introdução do livro Contra-Celso, de Orígenes:
Orígenes permanece, sem dúvida, o gênio maior que a
Igreja cristã de língua grega produziu. “Ninguém, amigo ou inimigo, pôde
subtrair-se à sua influência. Não houve nome, na Antiguidade cristã, mais
discutido que o de Orígenes; nenhum foi pronunciado com tão apaixonado
entusiasmo ou tão profunda indignação. Homens nobres e doutos aderiram a ele.
Não poucos heréticos alegaram sua autoridade, mas também mestres ortodoxos dele
aprenderam”. [7] Teólogo, exegeta, apologista, asceta e precursor dos Padres do
deserto, é grande em toda ordem de coisas e deixou bem marcados todos os
domínios que tocou. Contudo, por causa da sua exegese alegórica e pela
influência da filosofia platônica, sua ortodoxia foi questionada e pelos anos
400, as disputas se acirraram violentamente. As discussões e os ataques se
acalmaram só a partir do edito do imperador Justiniano I, de 543, e do II
Concílio de Constantinopla, em 553, que condenou nove proposições de Orígenes,
o que provocou o desaparecimento sistemático de sua imensa obra.
____
[7]
B. ALTANER e A. STUIBER, Patrologia. Vida, obras e doutrina dos Padres da
Igreja, 2ª ed., Paulus, 1988, p. 205).
(FRANGIOTTI, 2004, p. 17).
Apesar de muitos dizerem
que Orígenes não acreditava na reencarnação, o que parece não ser verdade, haja
vista ele ser platônico de mão cheia, temos algumas informações que poderão
ajudar aos nossos leitores a perceberem para qual lado poderá pender o fiel da
balança:
O
vigor com que o imperador Justiniano proscreveu e destruiu livros e documentos
heréticos deixou poucos registros que permitissem às gerações subseqüentes
saber o que outros cristãos haviam ensinado e acreditado a respeito da doutrina
da reencarnação. Só no Oriente Próximo, Justiniano mandou matar mais de um
milhão de hereges. (BRUNTON, 1990, p. 118).
O que explica o fato de não
se encontrar muita coisa mais sobre a reencarnação, devido a essa “queima de
arquivo”. Entretanto, nem tudo está perdido, como veremos no desenrolar deste
texto. Outro fator que influi muito nas informações é quando o autor tem mais
compromisso com o dogmatismo religioso do que com a verdade. Muito se tem feito
em nome da fé, em detrimento do que realmente ocorreu, onde as versões se
ajustaram aos interesses das igrejas que, muitas das vezes, estavam mais
preocupadas em manterem-se no poder do que salvar uma só “ovelha perdida”,
função pela qual deveria ser sua razão de existir.
Entretanto, sabemos
que essa questão de Orígenes, realmente, é por demais complexa; contudo, as
coisas podem não ser como parecem ou como querem que sejam:
|
1 -Tudo Sobre a Reencarnação Hans Stefan Santesson |
Contra Celso -Orígenes Tradução Orlando dos Reis - Paulus |
|
1.1 - “Não está mais de conformidade com a razão que
todas as almas, por algumas razões misteriosas (falo agora de acordo com as
opiniões de Pitágoras, Platão e Empédocles, que Celso freqüentemente
menciona), sejam introduzidas num corpo de acordo com seus méritos e antigos
atos? Não é racional que as almas que usaram seus corpos para fazer maior bem
possível tenham direito a corpos dotados de qualidade superiores aos corpos
dos demais?” (p. 125,-126). |
“Não será mais de acordo com a razão que cada alma, introduzida num
corpo por razões misteriosas – falo aqui nos termos da doutrina de Pitágoras,
Platão e Empédocles, citados por Celso – seja assim introduzida por seu
mérito e seu caráter anteriores? Portanto, é provável que esta alma, mais
útil por sua incorporação à vida humana do que a de grande número de pessoas,
para não parecer preconceituoso dizendo de todas, tenha tido necessidade de
um corpo que, não só se distingue dos corpos humanos, mas também é superior a
todos.” (Livro I, 32, pp; 73-74). |
|
1.2 - “A alma, cuja natureza é imaterial e invisível,
não existe em local material sem ter um corpo apropriado à natureza do lugar;
conseqüentemente, deixa um corpo que lhe era necessário antes, mas que não é
mais adequado ao seu status modificado e troca-o por outro”. (p. 126). |
“... a alma, que por sua própria natureza é incorpórea e invisível,
precisa, quando se encontra num lugar corporal qualquer, de um corpo
apropriado por sua natureza neste lugar. Ela carrega este corpo depois de ter
abandonado a veste, necessária antes, mas supérflua para um segundo estado, e
a seguir, após tê-lo revestido por cima com aquela veste que tinha
inicialmente, porque precisa de uma veste melhor para chegar às regiões mais
puras, etéreas e celestes.” (Livro VII, 32, p. 567-568). |
|
2 - Como os teólogos refutam... Mário Cavalcanti de Mello |
|
|
2.1 - “A alma sendo imaterial e invisível não pode
existir em nenhum lugar material, sem revestir corpos apropriados a este
lugar; ela rejeita, num dado momento, um corpo que era necessário até aí, mas
do qual não tem mais necessidade, e ela o troca por um outro. (Cont. Celso –
liv. VII, c. XXXII)” (p. 153). |
|
|
2.2 - “Celso ignora completamente o objetivo de nossos
escritos; a interpretação dada por ele é que os leva ao descrédito e não a
sua verdadeira significação. Se ele houvesse refletido sobre o que é
necessário a uma alma destinada à vida eterna, se ele houvesse pensado na
natureza de sua essência e do seu princípio, não teria tornado ridícula a
entrada do que é imortal em um corpo mortal, entrada que se efetua, não
segundo o ensinamento platônico da metempsicose, mas segundo uma visão mais
elevada deste fato. (Cont. Celso, liv. IV, c. XVIII)”. (p. 151). |
“Celso, portanto, não viu de modo algum a intenção de nossas
Escrituras; por isso ele investe contra a própria interpretação, e não contra
a das Escrituras. Se tivesse compreendido o destino da alma na vida eterna
futura, e o que sua essência e origem implicam, não teria criticado dessa
forma a vida do ser imortal num corpo mortal, explicada não segundo a teoria
platônica da metensomatose, mas numa perspectiva mais elevada. (Livro IV, 17,
p. 291-292). |
|
2.3 - “Se o nosso destino atual não era determinado
pelas obras de nossas existências passadas, como poderia Deus ser justo
permitindo que o primogênito servisse ao mais jovem e fosse odiado, antes de
haver cometido atos merecendo a servidão e o ódio?.... Só as vidas
anteriores podem explicar a luta de Jacó e Esaú antes de seu nascimento, a
eleição de Jeremias durante o tempo em que estava ainda no seio de sua mãe...
e tantos outros fatos que atirarão o descrédito sobre a justiça divina, se
não forem justificados por atos bons ou maus, cometidos ou praticados em
existências passadas. (Cont. Celso --, I, III)” (p. 153). |
Não encontrado |
Veja a diferença
entre os textos da publicação católica com os dos outros escritores. Parece-nos
que a verdade é mesmo diferente para o lado que se julga vencedor; não é mesmo?
Assim, vale essa opinião: “Para poder se fazer uso das citações dos Padres é
preciso primeiro estabelecer o texto original dos escritores patrísticos, pois
estes sofreram um processo de corrupção e revisão comparável ao dos manuscritos
bíblicos”. (BARRERA, 1999, p. 411).
Etiene Gilson (1884-1978), escritor e filósofo francês, membro da Academia Francesa, um dos mais renomados intérpretes da Filosofia Medieval e Philotheus Boehner (1901-1955), escritor fundador e primeiro diretor do Instituto Franciscano da Universidade de S. Boaventura, no Estado de Nova Iorque, foram os autores do livro História da Filosofia Cristã, cuja tradução em português, feita pelo professor universitário Raimundo Vier, foi publicada pela Editora Vozes, vinculada ao catolicismo. Entre vários filósofos por eles citados encontramos Orígenes. Desse livro, iremos transcrever os trechos que julgamos interessar ao assunto do qual estamos tratando:
(...) A controvérsia acerca de Orígenes, sinceramente
admirado também por muitos varões de grande santidade, levou à ruptura das
relações amistosas entre S. Jerônimo e Rufino, e, finalmente, à solene
condenação de Orígenes no 5º Concílio Ecumênico de Constantinopla, no ano de
553. (p. 49)
(...)
A doutrina da preexistência da alma faz parte integrante do sistema de
Orígenes, que, para prová-la, recorre inclusivamente à Sagrada Escritura [88]
(p. 70).
(...)
Deus não castiga por castigar, mas para emendar.[100] Por isso, não agrilhoou
os espíritos à matéria com o intuito exclusivo de castigá-los, mas também, e
principalmente, para corrigi-los. (p. 72).
Portanto,
o extermínio do mundo constitui, no fundo, um verdadeiro benefício para a
criação; é comparável a um processo terapêutico radical, que, embora
extremamente doloroso, é contudo salutar ao organismo doentio. De sorte que a
história do nosso mundo vem a ser uma simples fase da grande história
supercósmica, abrangendo todos os mundos passados e futuros. Cada mundo
particular representa apenas uma quadra dentro desta história onicompreensiva.
Deus semeia eras e colhe idades.[104] Em cada novo mundo faz-se a sementeira
dos espíritos, e é dos seus méritos ou deméritos que depende o destino da
semente. Os que no mundo anterior pertenceram ao número dos justos entrarão
para as fileiras dos anjos; os que foram maus terão de submeter-se, mais uma
vez, às tribulações terrenas, numa nova tentativa de salvação.[105] (p.
73-74). (grifo nosso).
(...)
Os espíritos serão purificados de toda malícia e a sordidez do pecado será
totalmente eliminada. Quando Deus for tudo em todas as coisas, as criaturas já
não desejarão comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois vivem
perenemente no bem, isto é, em Deus. E assim se restaura a ordem primitiva da
criação. [107] (p. 74)
________________
88.
Princ. I, 7,4; 89, 17 ss.
100.
Cels. IV, 72; 341, 9 s e Princ. II, 5, 3; 135, 30 ss.
104.
Cels. IV, 69; 339, 4 ss.
105.
Princ. II, 3, 1-5; 113 ss.
107.
Princ. II, 10, 8; 183, 3 s.; cf. III, 6, 3; 283, 14 ss.
(BOEHNER e GILSON, 2003, p. 49-74).
Ainda quanto à crença de Orígenes, para
não deixar a mínima possibilidade de dúvida, fora o que já foi dito, vamos
confirmá-la em Champlin e Bentes, autores da Enciclopédia de Bíblia Teologia
e Filosofia, de onde transcrevemos:
Orígenes acreditava na pré-existência da alma humana e
cria que a queda original do homem deu-se em conjunto com a queda dos anjos que
se desviaram. Então isso foi transferido para o homem terreno. A queda no pecado
teria disparado o drama sagrado da alma, em que se busca a redenção do estado
de queda, o que é inevitavelmente obtido.
[...]
Os mundos materiais foram criados como lugares de
provas que necessariamente acompanham a redenção.
[...]
Orígenes
era um escritor prolífico, e nem sempre coerente consigo mesmo. Há citações
suas que favorecem a reencarnação das massas. Tenho diante de mim as obras
dele Contra Celsum e De Principiis, onde ele se manifesta nesse
sentido. Não obstante, parece que o ímpeto geral de sua teologia era que nos
mundos espirituais é que as almas têm oportunidade de continuar aprendendo e
tendo oportunidade de salvação, e não em nosso mundo físico. (CHAMPLIN e
BENTES, vol. 4, 1995, p. 627-628). (grifo nosso).
Observe que um dos dois
autores procura deixar uma margem à dúvida, embora tenha dito ter visto as
obras de Orígenes em que a reencarnação é manifesta. Por outro lado, ninguém
nega que Orígenes era admirador de Platão, tendo-o como filósofo neoplatônico. Platão
tinha a sua teoria sobre o conhecimento, que se resumia em:
O conhecimento depende de uma inquirição muito
ampla, mas tudo está envolvido na inquirição espiritual do homem e na ética. A
coisa mais elevada a ser buscada é a bondade, o Universal que a tudo
governa. O mundo verdadeiro é imutável, conforme Parmênides ensinava. Esse
mundo verdadeiro (dos Universais) não está sujeito aos sentidos físicos,
devendo ser buscado por meio da razão, da intuição e das experiências místicas.
[...]
A alma, eterna e derivada dos Universais, tem esse
conhecimento embutido em si mesma; mas, mediante exercícios, a dialética e a
contemplação, ela pode “relembrar” aquilo de que já tem conhecimento
subconsciente. A reminiscência, pois, é uma importante doutrina
platônica no tocante à teoria do conhecimento. O conhecimento completo só pode
chegar até à alma quando esta deixa o nosso mundo dos particulares (o mundo
físico), porquanto aqui as percepções físicas servem de obstáculo ao
conhecimento. Ademais, o tipo de realidade em que aqui vivemos é uma realidade
secundária, que apenas imita a verdadeira realidade. Somente o espírito puro
pode conhecer o espírito puro.
[...]
As idéias são inatas,
porquanto a alma já tinha conhecimento das Idéias e havia contemplado as
mesmas, tendo todo o conhecimento armazenado na mente. Todo conhecimento,
portanto, seria uma reminiscência.
O choque do nascimento
apaga o conhecimento inato possuído pelos homens. Um homem reencarna-se “como
se” estivesse nascendo pela primeira vez. Nenhum ser humano pode levar sobre
seus ombros, para a eternidade, todo o conhecimento; e assim, por um ato de
misericórdia, o nascimento envolve o olvido daquilo que a alma aprendeu em suas
viagens celestiais e em suas muitas reencarnações. As almas que renascem neste
mundo têm que atravessar as correntezas do esquecimento. Portanto, elas voltam
“como se” aquele fosse o seu primeiro nascimento. No entretanto, usando
expressões de Jung, todo esse conhecimento permanece na mente inconsciente,
podendo ser parcialmente recuperado através dialética (raciocínio), da intuição
e das experiências místicas.
[...]
O homem como um ser bidimensional,
isto é, participante do mundo das Idéias e do mundo dos particulares. A alma do
homem é imaterial, embora o seu corpo seja material. O corpo físico seria o
sepulcro ou prisão da alma. O conhecimento e o amor libertam o indivíduo do
mundo dos particulares, fazendo-o começar a retornar aos mundos eternos. Porém,
seriam necessárias muitas reencarnações para que o indivíduo aprenda as lições
necessárias e obtenha o progresso moral e espiritual necessário a fim de
recuperar os mundos eternos. Contudo, o homem que tiver posto seriamente o seu
pé na vereda espiritual, não haverá de falhar, finalmente.
[...]
A
mente. Essa seria a verdadeira realidade, e tudo deve sua
forma e essência a esse princípio permanente das coisas. A alma humana faz
parte da razão pura (Nous). Em parte seria espiritual, em suas porções
mais nobres, mas seria parcialmente material, devido aos seus apetites e
paixões inferiores, derivados do corpo físico. A alma racional veio residir no
corpo físico. Nas reencarnações, a alma vai e volta, até que atinge libertação,
por meio do desenvolvimento espiritual e moral. (CHAMPLIN e BENTES, vol. 5,
1995, p. 290-292).
Considerando que Orígenes
teve em Platão o seu melhor amigo e companheiro inseparável[[2]]
e, que ele conseguiu uma profunda harmonia entre os escritos de Platão e as
doutrinas cristãs [[3]], mesmo que
tenha sido confuso em suas idéias, devemos entender que não se pode deixar de
se admitir que ele aceitava a preexistência e a reencarnação, embora quanto à
reencarnação em que acreditava não fosse exatamente como a entendemos nos dias
atuais, em cuja lei todos se encontram submetidos, pois o fim último de todos
os espíritos é chegar a Deus, leve o tempo que levar, isso pouco importa.
John Van Auken, cita um
trecho de Orígenes em que fica evidente a idéia da reencarnação. Vejamo-lo:
Cada
alma... vem para este mundo fortificada pelas vitórias ou enfraquecida pelas
derrotas de sua vida anterior. Seu lugar neste mundo, como um vaso destinado à
honra ou à desonra, é determinado por seus prévios méritos ou deméritos. Seu
trabalho neste mundo determina seu lugar no mundo que se seguirá a este. Orígenes,
De Principiis (185-254 d.C.) (AUKEN, 1997, p. 153). (grifo do original).
Russel, Santesson, Bizemont e Pompas, também citam esse trecho de Orígenes.
Mas argumentam alhures que a forma que Orígenes acreditava na reencarnação é diferente da que nós, os Espíritas, acreditamos, como se isso fosse uma questão fundamental para derrubar esse princípio da Doutrina Espírita. É melhor ver o que foi dito sobre isso, no primeiro livro de Kardec:
Encarnação
nos diferentes mundos
172.
As nossas diversas existências corporais se verificam todas na Terra?
“Não;
vivemo-las em diferentes mundos. As que aqui passamos não são as primeiras, nem
as últimas; são, porém, das mais materiais e das mais distantes da perfeição.”
173.
A cada nova existência corporal a alma passa de um mundo para o outro, ou
pode ter muitas no mesmo globo?
“Pode
viver muitas vezes no mesmo globo, se não se adiantou bastante para passar a um
mundo superior.”
a)
- Podemos então reaparecer muitas vezes na Terra?
“Certamente.”
b)
- Podemos voltar a este, depois de termos vivido em outros mundos?
“Sem
dúvida. É possível que já tenhais vivido algures e na Terra.”
174.
- Tornar a viver na Terra constitui uma necessidade?
“Não;
mas, se não progredistes, podereis ir para outro mundo que não valha mais do
que a Terra e que talvez até seja pior do que ela.”
176.
Depois de haverem encarnado noutros mundos, podem os Espíritos encarnar
neste, sem que jamais aí tenham estado?
“Sim,
do mesmo modo que vós em outros. Todos os mundos são solidários: o que
não se faz num faz-se noutro.”
a)
- Assim, homens há que estão na Terra pela primeira vez?
“Muitos,
e em graus diversos de adiantamento.”
b)
- Pode-se reconhecer, por um indício qualquer, que um Espírito está pela
primeira vez na Terra?
“Nenhuma
utilidade teria isso.”
177.
Para chegar à perfeição e à suprema felicidade, destino final de todos os
homens, tem o Espírito que passar pela fieira de todos os mundos existentes no
Universo?
“Não,
porquanto muitos são os mundos correspondentes a cada grau da respectiva escala
e o Espírito, saindo de um deles, nenhuma coisa nova aprenderia nos outros do
mesmo grau.”
a)
- Como se explica então a pluralidade de suas existências em um mesmo globo?
“De
cada vez poderá ocupar posição diferente das anteriores e nessas diversas
posições se lhe deparam outras tantas ocasiões de adquirir experiência.”
178.
Podem os Espíritos encarnar em um mundo relativamente inferior a outro onde
já viveram?
“Sim,
quando em missão, com o objetivo de auxiliarem o progresso, caso em que aceitam
alegres as tribulações de tal existência, por lhes proporcionar meio de se
adiantarem.”
a)
- Mas, não pode dar-se também por expiação? Não pode Deus degredar para
mundos inferiores Espíritos rebeldes?
“Os
Espíritos podem conservar-se estacionários, mas não retrogradam. Em caso de
estacionamento, a punição deles consiste em não avançarem, em recomeçarem, no
meio conveniente à sua natureza, as existências mal empregadas.”
b)
- Quais os que têm de recomeçar a mesma existência?
“Os
que faliram em suas missões ou em suas provas.”
179.
Os seres que habitam cada mundo hão todos alcançado o mesmo nível de
perfeição?
“Não;
dá-se em cada um o que ocorre na Terra: uns Espíritos são mais adiantados do
que outros.”
184.
Tem o Espírito a faculdade de escolher o mundo onde passe a habitar?
“Nem
sempre. Pode pedir que lhe seja permitido ir para este ou aquele e pode
obtê-lo, se o merecer, porquanto a acessibilidade dos mundos, para os
Espíritos, depende do grau da elevação destes.”
a)
- Se o Espírito nada pedir, que é o que determina o mundo em que ele
reencarnará?
“O
grau da sua elevação.”
188.
Os Espíritos puros habitam mundos especiais, ou se acham no espaço
universal, sem estarem mais ligados a um mundo do que a outros?
“Habitam
certos mundos, mas não lhes ficam presos, como os homens à Terra; podem, melhor
do que os outros, estar em toda parte.” (KARDEC, 1995, p. 122-128).
Fica claro que há, sim, possibilidade de reencarnarmos em outros mundos, o que não quer dizer que seja necessariamente como Orígenes pensava que iria se dar, pois com as informações dos Espíritos as coisas se clarearam muito mais.
d) Concílio de Constantinopla
Pelo que podemos ver,
dizem-nos vários autores que a reencarnação começou mesmo a ser “perseguida”
pelo Imperador Justiniano a partir do ano de 543 d.C., quando anatemiza dez
princípios origenistas.
O Concílio de
Constantinopla, em 553, a bem da verdade, apenas referendou o que havia sido
anatematizado em 543; mesmo assim, segundo alguns dos autores que citamos, por
debaixo dos panos. Não iremos repetir o que cada um disse, somente listaremos
os que falam disso: Chaves, Prophet, Russel, Kersten, Reale e Antiseri, Denis,
Santesson, Mello, Algeo, Cajazeiras, Atkison, Prieur, Champlin e Bentes,
Tendam, Miranda, Prabhupãda, Tilak, Lacerda, Bizemont e Pompas. Seria fora de
propósito uma maquinação de todos eles para passar um boato, visando justificar
esse Concílio.
Apenas um deles basta: “5.
Constantinopla II (553 D.C.), que reafirmou as decisões dos quatro concílios e
condenou os erros de Orígenes e de outros” (CHAMPLIN e BENTES, vol. 1, 1995, p.
833).
E vejamos o que Tendam
disse sobre esse Concílio:
A Igreja ocidental rejeitou o Segundo Concílio de
Constantinopla. Na África, as tropas imperiais forçaram sua aceitação. Os
bispos do norte da Itália se distanciaram de Roma e recusaram-se a reconhecer a
ratificação do papa. Tiveram apoio da Espanha e da França. Todo o Concilio
tornou-se irrelevante diante do resultado da conquista islâmica na maioria das
províncias pertencentes à Igreja monofisista.
O
resultado foi a proposição insustentável de que a Igreja renunciava à doutrina
da reencarnação, em 553. Em primeiro lugar, a condenação das visões de Orígenes
foi apenas um assunto secundário na discussão. Em segundo, o Concílio ratificou
as condenações anteriores. Em terceiro, grande parte da Igreja rejeitou o
Concílio. Em quarto, não ficou claro quais as doutrinas de Orígenes que estavam
em discussão. Em quinto, os textos de Orígenes defendiam a preexistência e não
apoiavam diretamente as idéias reencarnacionistas. Orígenes pensava, por
exemplo, que as várias circunstâncias na vida das pessoas eram conseqüências de
pecados por elas cometidos durante as preexistências espirituais. A existência
do corpo era uma purificação dos pecados cometidos na preexistência.
Em tempos
recentes, alguns clérigos cristãos publicaram argumentos de que a crença na
reencarnação está de acordo com a fé cristã. Todavia, a doutrina da
reencarnação dificilmente teve um papel significativo no desenvolvimento
histórico do cristianismo. Segundo Guirdham (1970), a crença dos catares na
reencarnação foi uma das causas da inimizade da Igreja por eles. (TENDAM, 1993,
p. 66-67).
Corroborando:
Origenismo.
Sistema teológico errôneo, atribuído a Orígenes, brilhante teólogo e indefesso
guarda dos princípios da fé, que, imbuído de idéias platônicas, foi levado a
algumas concepções erradas. Assim, a preexistência da alma, noções inexatas
sobre as processões divinas, sobre o pecado original, sobre o inferno. O
Concílio de Constantinopla (553) aprovou uma condenação sinodal de 15
proposições origenistas, que representam uma parte apenas de sua doutrina.
(Dicionário Barsa, p. 199).
Embora não tenha ficado totalmente provada a questão do caso Teodora, são unânimes, os autores citados por nós, em relatar a influência do Imperador Justiniano, quer por conta dele próprio quer por sua esposa; mas, o fato é que exerceram essa influência no V Concílio Ecumênico de Constantinopla, de tal forma que as idéias de Orígenes foram anatematizadas.
Para finalizar, transcrevemos a opinião de Elizabeth Clare Phophet que, segundo a nossa maneira de ver, é lúcida, imparcial e abalizada, dada a extensão de sua pesquisa:
Os ortodoxos usaram a frase “com Deus
tudo é possível” para explicar a falta de lógica de uma ressurreição física.
Mas Orígenes classificou esta crença como “pobreza intelectual” ou “falta de
instrução”. Qualificando-a como “uma idéia excessivamente baixa e
insignificante”, disse que essas especulações contradiziam a afirmação de Paulo
de que o corpo ressurrecto é espiritual. Orígenes achava que a doutrina da
ressurreição física era para os “simplórios” e para o “povo comum, que é
induzido a viver uma vida melhor através da sua crença”.
(...)
A ressurreição física é um conceito de difícil
explicação e talvez por isso a Igreja Católica diga àqueles que perguntam como
ela ocorre que a resposta “excede a nossa imaginação e compreensão e só pode
ser aceita através da fé”. (PROPHET, 1999, p. 152-153).
Na medida do que nos
foi possível, eliminamos opiniões em que um autor listado citava um outro, pois
só nos interessava a fonte inicial.
Aos interessados no assunto recomendamos que pesquisem, mas fujam das informações dadas por dogmáticos, pois, por estarem presos a uma idéia que lhes foi imposta, não percebem que a verdade pode ser bem outra daquilo que eles pretendem impor. Ao final relacionaremos diversos livros sobre o tema reencarnação, fora os listados na referência bibliográfica.
“O ensino da reencarnação é amado, detestado; favorecido, temido. Sempre era e é uma coluna dogmática das religiões orientais; foi ensinada nas escolas dos fariseus e essênios, e entre os judeus místicos da Cabala”. (CHAMPLIN e BENTES, vol. 5, 1995, p. 583). Com isso vamos também, para maior esclarecimento, transcrever desses dois autores o seguinte:
c.
A reencarnação no pensamento hebreu
É
perfeitamente possível que aquela Indagação feita por Jó: «Morrendo o homem,
porventura tornará a viver?» (Jó 14:14), tenha sido uma especulação quanto à
possibilidade da reencarnação. Não encontramos provas quanto a essa hipótese,
entretanto. Mas os escritores místicos da Cabala dos judeus ensinavam
claramente o conceito da reencarnação. A palavra «Cabala» significa «receber»,
e se refere à tradição mística. É obscura a origem desse sistema. Porém,
encontram-se evidências sobre temas cabalísticos, tanto na teosofia
especulativa quanto na taumaturgia prática, na literatura apócrifa e
apocalíptica dos hebreus, evidências essas abundantes na literatura talmúdica e midráshica. O desenvolvimento dos
escritos cabalísticos prolongou-se por certo número de séculos. Ao longo do
processo, foram sendo incorporados elementos provenientes do gnosticismo, do
neoplatonismo e do neopitagoreanismo (e, quiçá, do zoroastrismo e do autismo).
De 550 a 1000 D.C., a Cabala passou por um desenvolvimento sistemático.[...]
Antes
do desenvolvimento formal da Cabala,
o judaísmo passou a contar com alguns elementos que foram os proponentes da
idéia da reencarnação. Josefo revela-nos claramente que as escolas dos
fariseus, em seus dias, ensinavam tal doutrina. Os teólogos-filósofos judeus
diretamente influenciados pelo platonismo, como Filo (30 A.C. - 50 D.C.) faziam da reencarnação uma parte
Importante dos seus sistemas. É provável que o neoplatonismo tenha exercido
influência sobre os fariseus da época de Jesus, bem como sobre o
desenvolvimento dos escritos cabalísticos, pelo menos até certo ponto.
Deveríamos acrescentar, entretanto, que, excetuando o caso dos estudiosos da
Cabala, o conceito da reencarnação nunca produziu qualquer efeito duradouro
sobre o pensamento judaico.
d.
A reencarnação no pensamento cristão
Nas
páginas do Novo Testamento existem diversas referências que quase certamente
refletem a crença na reencarnação, por parte dos judeus, nos dias de Jesus, bem
como por parte de certos primitivos cristãos. Essa idéia, entretanto, não
penetrou no sistema como um dogma. (Informação sobre a reencarnação, artigos
das enciclopédias, Britannica, Americana
e Encyclopedia of Religion, Vergilius
Ferm, editor).
Consideremos
algumas referências bíblicas:
1. Mateus 16:13,14: «Indo Jesus para as
bandas de Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser
o Filho do homem? E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros, Elias; e
outros: Jeremias, ou algum dos profetas».
Ora, se Jesus
tivesse de ser um dos antigos profetas hebreus, teria de ter reencarnado. Fazia
parte da doutrina judaica comum daquela época que os grandes profetas da
antiguidade teriam de cumprir mais de uma missão sobre a terra, e esperava-se
que voltassem a este mundo não somente Elias, mas também Jeremias. Uma figura
tão poderosa quanto Jesus, por conseguinte, bem poderia ser identificada com
algum profeta antigo, na mente popular. O comentador bíblico, Aclam Clarke, diz
a respeito desses versículos:
“...a doutrina
farisaica da metempsicose, ou transmigração das almas, era bastante generalizada,
porque era com base na mesma que eles acreditavam que a alma de Batista, ou de
Elias, Jeremias, ou de algum dos outros profetas, retornara à vida, no corpo de
Jesus».
Jesus
não aprovou e não negou essa doutrina, nessa oportunidade, apesar de não haver
aceito qualquer das identificações propostas quanto à sua pessoa. A doutrina
farisaica não limitava a reencarnação a alguns poucos indivíduos seletos, mas
encontrava lugar para inúmeros renascimentos, dentro do seu sistema.
2. João 9:1-3: «Caminhando Jesus, viu um
homem cego de nascença.. E os seus discípulos perguntaram. Mestre, quem pecou,
este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem
seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus».
A
despeito do fato de que havia uma esquisita noção judaica, segundo a qual
julgava-se que um homem podia pecar; mesmo enquanto ainda estivesse no ventre
de sua mãe, antes de seu nascimento físico, não é muito provável que os
discípulos de Jesus tivessem em mente tal idéia, quando indagaram por que razão
aquele homem já nascera cego. Mas interrogavam a Jesus a respeito do karma, pois parece que eles
compartilhavam dos pontos de vista farisaicos a respeito da reencarnação. A
resposta dada por Jesus, por sua vez, nem confirmou e nem negou essa
possibilidade, mas meramente eliminou-a no tocante a esse incidente particular.
Entretanto, é teologicamente significativo que aqueles que escreveram os
primeiros documentos cristãos, sem importar se acreditavam ou não na idéia da reencarnação,
por essa altura da vida de Jesus, não incorporaram o conceito no sistema
soteriológico do Novo Testamento, quando do registro de seus livros.
Adam Clarke, ao comentar
sobre o trecho de João 9:1-3, apresenta uma nota elaborada a respeito da reencarnação,
conforme ela é concebida dentro de várias culturas. Ele exprime a convicção de
que essa era a idéia que rebrilhava por detrás daquela indagação dos
discípulos. E cita Josefo (Ant.
b.xviii. c.1, s.3; e Guerras dos Judeus, b.ii, c.8, s. 14), onde aquele
autor judeu forneceu-nos alguns detalhes sobre os ensinos dos fariseus a
respeito da idéia. Clarke dá a entender que o ensinamento deles era que as
almas más descem diretamente para o inferno, mas que as almas boas recebem a
permissão de se reencarnarem, a fim de pagarem dívidas e progredirem. Seria uma
espécie de “recompensa”, pois ofereceria uma oportunidade renovada. Com efeito,
a alma relativamente boa poderia voltar a este mundo, o qual, para ela,
tornar-se-ia uma espécie de purgatório, onde ela daria solução para problemas
anteriores.
A discussão
exposta por Clarke também é Interessante quanto a outros particulares. Ele
mostra como os antigos, incluindo os rabinos judeus, supunham que pecados
específicos, em vidas anteriores, provocam problemas específicos em vidas
sucessivas, reencarnadas. Assim é que as dores de cabeça seriam uma punição
contra aqueles que, em um estado anterior da existência, tenham falado com
irreverência acerca de seu pai ou de sua mãe; a cegueira seria infligida aos
anteriores matricidas; e até mesmo as marcas no corpo eram consideradas
indicações de algum pecado na alma. Essa crença também é comum entre alguns
modernos advogados da idéia da reencarnação, tal como sugestão feita por Edgar
Cayce, de que a tuberculose resultaria de uma exagerada atividade sexual em
vida anterior. Certos estudos, feitos através de regressão hipnótica, têm
resultado em idêntica conclusão. (CHAMPLIN e BENTES, vol. 5, 1995, p. 585-586).
E, para encerrar, já que falamos tanto de Orígenes, vamos deixar a ele o fechamento deste texto: “Fica patente que a natureza humana é afligida com este obstáculo, se pensarmos na dificuldade que sentimos em mudar de opinião uma vez que ficamos na prevenção, ainda mesmo em favor das mais vergonhosas e mais fúteis tradições dos antepassados e concidadãos”. (ORÍGENES,2004, p. 95).
Paulo da Silva Neto Sobrinho
(Revisado e ampliado em Ago/2007)
ALGEO,
J. Investigando a reencarnação, Brasília: Teosófica, 1995.
ANDRADE,
H.G. Você e a Reencarnação. Bauru-SP:
CEAC, 2002.
ATKINSON,
W. W. A Reencarnação e a Lei do Carma, São Paulo: Pensamento, s/d.
AUKEN,
J. V. Reencarnação, Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 1997.
BARRERA,
J. T. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: introdução à história da Bíblia,
Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
BÍBLIA SAGRADA, Edição Barsa, s/ed. ,Rio de Janeiro:
Catholic Press, 1965.
BIZEMONT,
D. K. Astrologia Cármica, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
BOEHNER,
P. E GILSON, E. História da Filosofia Cristã, Petrópolis, RJ: Vozes,
2003.
BRUNTON,
P. Idéias em perspectiva, São Paulo: Pensamento, 1990.
CAJAZEIRAS,
F. Elementos de Teologia Espírita,
Capivari-SP: EME, 2002.
CHAMPLIM,
R. N. e BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia,
vols. 1, 4 e 5, São Paulo: Candeia, 1995.
CHAVES, J. R. A Reencarnação segundo a Bíblia e a Ciência, São Paulo: Martin Claret, 2002.
CROSSAN, J. D. O Jesus Histórico: a vida de um camponês judeu do mediterrâneo, Rio de Janeiro: Imago, 1994.
DENIS, L. Cristianismo e Espiritismo, Rio de Janeiro: FEB, 1987.
_______. O Problema do Ser, do Destino e da dor, Rio de Janeiro: FEB, 1989.
DIEL, C. Grandes problemas da história bizantina, São Paulo: Edameris, 1961.
FÈVRE, F. Teodora, a imperatriz de Bizâncio, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
FRANGIOTTI, R. Introdução, Contra Celso, São Paulo: Paulus, 2004.
FRANZERO, C. M. Teodora, Lisboa: ENP, 1963.
GIORDANI, M. C. História do Império Bizantino,
Petrópolis, RJ: Vozes, 1968.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos, Rio de
Janeiro: FEB, 1995.
KERSTEN, H. Jesus viveu na Índia, São Paulo: Best Seller, 1988.
LACERDA, N. A reencarnação através dos séculos, São Paulo: Pensamento, 1978.
MELLO, F. G. Reencontro Cristão: reflexões para o
cristianismo do 3º Milênio, Rio de Janeiro: DP&A, 1997.
MELLO, M. C. Como os Teólogos refutam..., Curitiba: FEP, 1958.
MIRANDA, H. C. A Reencarnação na Bíblia, São Paulo: Pensamento, 1990.
POMPAS, M., Reencarnação – a descoberta das vidas passadas, São Paulo: Maltese, 1991
PRIEUR, J. O mistério do eterno retorno, São Paulo: Best Seller, 1994.
PRABHUPÃDA, B. S. Retornando a ciência da reencarnação, São Paulo: Bhaktivedanta, 1994.
PROPHET,
E. C. Reencarnação – o elo perdido do
cristianismo, Rio de Janeiro: Nova Era, 1999.
REALE,
G e ANTISERI, D. História da Filosofia,
vol. 1, São Paulo: PAULUS, 1990.
RUSSEL,
E. W, Reencarnação – O Mistério do Homem,
Rio de Janeiro: Artenova, 1972.
SANTESSON, H. S. Tudo
sobre a reencarnação, Rio de Janeiro: Record, 1969.
TENDAM, H. Panorama sobre a Reencarnação, vol.
1, São Paulo: Summus, 1993.
TILAK, S. Reencarnação, Porto Alegre: FEEU,
1974.
1) Origem não Espírita
ALLGEIER, K. Você já viveu outras vidas, Rio de
Janeiro: Ediouro, 1986.
BANERJEE, H. N. Vida pretérita e futura, Rio de Janeiro:
Nórdica, 1987.
BERG, P. S. Reencarnação as rodas da alma, São
Paulo: Cabala, 1998.
BESANT, A. Reencarnação,
São Paulo: Pensamento, ???.
BOWMAN, C. Crianças e suas vidas passadas, Rio de
Janeiro: Sextante, 2003.
CORRÊA, I. C. Reencarnação
e o Paranormal, São Paulo: Ibrasa, 2003.
DAVID-NEEL, A. Reencarnação
e Imortalidade, São Paulo: Ibrasa, 1989.
DUNCAM, C. M. Reencarnação:
fatos e teoria, São Paulo: Ediouro, 1984.
DROUOT, P. Nós somos todos imortais, Rio de
Janeiro: Nova Era, 1995.
FIORE, E. Você já viveu antes, Rio de Janeiro: Nova Era, 1993.
GOSWAMI, A. A Física da
Alma, São Paulo: Aleph, 2005.
GUIMARÃES, M. T. R. Tempo de amar, Campinas-SP:Conhecimento,
2003.
HOLZER, H. A verdade sobre
a reencarnação, Rio de Janeiro: Record, 2ª edição, s/d
LEWIS, H. S. Mansões da
alma – reencarnação da alma na Terra, Curitiba: Amorc, 1989.
MARTINS, M. O que a Bíblia
diz sobre reencarnação, São Paulo: Abba Press, 2004.
PAPUS, A reencarnação,
São Paulo: Pensamento, 1976.
ROLFE, M. Os ciclos da
reencarnação, São Paulo: Pensamento, 1987.
RUCINSKI, L. A. A Reencarnação
está na Bíblia..., Porto União, SC: News Print, 2006.
SHRODER, T. Almas antigas,
Rio de Janeiro: Sextante, 2001.
SIWEK,
P. A reencarnação dos espíritos, São Paulo: Saraiva, 1946.
SPARROW, L. E. Reencarnação
– reivindicando o seu passado, criando o seu futuro, São Paulo: Pensamento,
1992.
STEMMAN, R. Reencarnação –
Histórias Verdadeiras de Vidas Passadas, São Paulo: Butterfly, 2005.
STEVENSON, I. 20 Casos
sugestivos de reencarnação, São Paulo: Difusora Cultural, 1970.
WAMBACH, H. Recordando vidas passadas, São Paulo:
Pensamento, 1997.
WEISS, B. L. Muitas vidas muitos mestres, Rio de
Janeiro: Salamandra, 1991.
WIESENDANGER, H. A Terapia
da Reencarnação, São Paulo: Pensamento, 1994.
WOOLGER, R. J. As várias vidas da alma, São Paulo:
Cultrix, 2004.
2)
Origem Espírita
ALEIXO, S.F., Reencarnação: Lei da Bíblia, lei do
Evangelho, Lei de Deus, Niterói-RJ: Lachatre, 2003.
ANDRADE, H. G. Morte, renascimento, evolução: uma biologia
transcendental, Votuporanga-SP: Didier, 2003.
ANDRÉA,
J. Palingênese, a grande lei, Rio de Janeiro: Caminho da Libertação,
1975.
DELANNE, G. A Reencarnação, Rio de Janeiro: FEB,
1987.
DI BERNARDI, R. Dos Faraós
à física quântica. Londrina: Universalista, 1997.
_____________ Reencarnação e Evolução das Espécies,
Londrina: Universalista, 1996.
_____________. Reencarnação
em Xeque, Londrina: Universalista, 1997.
FERREIRA, I. Psiquiatria em face da reencarnação, São
Paulo: FEESP, 1990.
IANDOLI JR, D. A
reencarnação como Lei Biológica, São Paulo: Fé, 2004.
IMBASSAHY, C. e MELLO, M. C. A Reencarnação e suas
provas, Curitiba: FEP, s/d.
KWITO, M. Doutor, eu ouço vozes!, Porto Alegre:
Besourobox, 2006.
LACERDA FILHO, L. S. A reencarnação na história
humana (dois volumes), Araguari-MG: Minas Editora, 2007.
____________. Reencarnação
e Imortalidade, Rio de Janeiro, 1983.
MULLER, K. E. Reencarnação baseada em fatos, São
Paulo: Edicel, 1986.
NOVAES, A. Reencarnação
Processo Educativo, Salvador: Lar Harmonia, 2004.
POSTIGLIONI, L. C. E
FERNÁNDES, J. S. A reencarnação, Rio de Janeiro: Eco, s/d.
ROCHA, A. S. Reencarnação em foco, Matão-SP: O
Clarim, 1991.
ROCHAS, A. As vida