"O
autor do opúsculo católico começa a introdução da obra dizendo que ««o
Espiritismo seduz muitos fiéis católicos, seja por causa dos «fatos
prodigiosos» que lá ocorrem, seja pela promessa de comunicação com os defuntos,
seja porque o Espiritismo às vezes se reveste de capa católica, adotando nomes
de santos para seus centros e louvando Jesus Cristo»».
Primeiramente,
o reverendo atesta que «muitos fiéis católicos» aderem a Doutrina Espírita.
Realmente, está com toda a razão, já que as pesquisas recentes indicam um
crescimento acentuado dos profitentes espíritas, a
expensas de um Catolicismo que se esvai consideravelmente, diminuindo
acentuadamente a vocação sacerdotal e o número de pessoas que assistem às
missas. Exasperada com a situação e tentando reverter a
situação desesperadora, a Igreja começou a estimular os cultos carismáticos,
porquanto são muito parecidos com os rituais de denominadas seitas
pseudo-evangélicas, que alcançaram um ótimo desempenho nas estatísticas.
É
importante ressaltar que os maiores índices de crescimento do Espiritismo se
verificam na classe média mais culta, contrastando acentuadamente com as seitas
que receberam maior participação das pessoas menos esclarecidas. O padre se
engana, concluindo que a causa da evasão dos católicos para as fileiras
espíritas se dê 'por causa dos fatos prodigiosos que lá ocorrem, e pela
promessa de comunicação com os defuntos'. De início é necessário frisar que nos
trabalhos práticos da Doutrina Espírita não existem fatos miraculosos.
Inclusive, o que o Catolicismo denomina de milagres, são explicados pelo
Espiritismo como fenômenos normais, conhecidos sob à
ótica mediúnica. Inteiramente discordante da realidade é o pensamento clerical
de que existe 'promessa de comunicação' com os desencarnados nos centros
espíritas. O intercâmbio mediúnico é realizado espontaneamente, nunca de forma
forçada. O estimado sensitivo mineiro, Francisco Cândido Xavier, certa feita,
relatou que «o telefone sempre toca de lá (Mundo Espiritual) para cá (Mundo
Físico) e nunca de cá para lá». Na grande maioria das comunicações mediúnicas
não há manifestação mediante evocação dos desencarnados. O que o eclesiástico
ignora ou finge desconhecer é que «fato prodigioso» é o que acontece
rotineiramente no Espiritismo, onde se verifica a verdadeira prática da
fraternidade. Realmente, é extraordinário constatar os ensinamentos do Cristo
sendo exemplificados pelos espíritas. Gratuitamente, sem auferir nenhum
rendimento monetário, os seguidores de Kardec fazem
do amor ao próximo um lema: «Fora da Caridade Não Há Salvação». «Fato
prodigioso» é observar pessoas, representando todos os
segmentos da população reunidas e irmanadas, iluminadas pela luz da concórdia.
Ricos e pobres, são e doentes, cultos e incultos sem
distinção de cor, destituídos de qualquer preconceito, juntos sob as bênçãos da
fraternidade.
Maravilhoso
é visitar uma colônia de hansenianos e observar grupos de espíritas, empenhados
na tarefa assistencial aos que lá se encontram, distribuindo, concomitantemente
com um sorriso nos lábios, bens alimentícios, roupas, produtos de higiene e
sapatos. Aos incapacitados, dando na boca a sopa deliciosa e apetitosa que
preparam com o devido carinho. Importante ressaltar que todas as tarefas são
realizadas após uma rápida reunião de congraçamento em torno de uma passagem
reconfortante do Evangelho e de uma fervorosa oração.
Certa
feita, visitando a Colônia de Hansenianos de Curupaiti,
observei um interno, cabisbaixo, bem abatido, portador
de deformidades marcantes (não possuía os membros inferiores, as mãos
desprovidas de dedos, a face desfigurada e sem expressão devido à cegueira).
Logo que o interpelei e lhe dei alguns petiscos, sorriu e me interrogou se eu
era espírita. Imediatamente o questionei: – Por que me pergunta isso? Ele prontamente
respondeu-me: "– Só os espíritas fazem o que você está fazendo. Vocês são
humanos, conversam comigo e me perguntam se estou precisando de alguma
coisa." Então, indaguei a respeito da visita de simpatizantes de outros
credos religiosos. Imediatamente, afirmou que raramente grupos católicos para
lá se dirigiam e quanto aos que se diziam evangélicos, pediam dinheiro para
suas igrejas, e insistiam na prática da unção (passar «óleo benzido» na testa
da pessoa). Constatei mais uma vez a importância da minha religião e lembrei-me
das palavras amorosas de Jesus: «Estava enfermo e tu me
visitastes» (Mateus 25:36). É verdadeiramente um «fato prodigioso» saber
que pessoas, em nome do Cristo, sem nenhum interesse pecuniário, sacrificam
seus momentos de prazer ou mesmo de repouso em favor do próximo, que pode estar
acamado em um leito de dor, recluso em uma prisão, vivendo em um asilo ou
internato, ou mesmo abandonado em uma via pública. O
Mestre ensinou que eleitos são aqueles que praticam a fraternidade, pondo o
amor em ação: «Vinde, benditos do meu pai! Entrai na posse do reino que vos
está preparado desde a fundação do mundo. Por que tive fome e
me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me
hospedastes; estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e fostes
ver-me» (Mateus 25:34-36). Para mim, é uma das mais significativas
passagens do Evangelho, desde que Jesus não alude ao seu sacrifício na cruz,
nem faz menção a qualquer religião. Reafirma que «sempre que o fizestes a um
destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes» (Mateus 25:40)"
Trecho do
Capítulo V, do mesmo livro:
"Não
satisfeito em atacar a Doutrina Espírita, através de um dos seus princípios
básicos, a Mediunidade, agora o sacerdote mira as suas armas em outro alvo, a
Reencarnação. Mais uma vez o padre não foi feliz nas suas declarações antiespíritas. Começa, na sua já costumeira agressão,
dizendo: «A reencarnação vem a ser tese arbitrária, para a qual não há
fundamento objetivo...» A afirmativa do clérigo é baseada em conceitos
dogmáticos, frutos da mente humana compromissada com crenças religiosas,
alicerçadas em valores terrenos.
Assim como
afirmo na obra O Consolador Entre Nós, Editora O Clarin,
Matão/São Paulo, nas pags. 52 e 53, «sem a explicação
sensata da palingenese, o mundo passa a ser o caos,
presidido pelo acaso, sendo o ateísmo seguido por todos aqueles que não aceitam
a futilidade e a fragilidade dos argumentos dogmáticos oferecidos pelas
religiões tradicionais».
Ainda hoje
não se fala na criação do mundo em seis dias? Não se crê até agora, num Deus
antropomórfico, que se arrependeu de ter criado o homem e de ter elevado Saul
ao trono?
Um ser que
cria as almas sabendo que definharão, em sua grande maioria, por todo o sempre
no famigerado inferno?
O Novo
Testamento ensina que Deus é Amor (Primeira Epístola de João 4:8);
portanto, a doutrina das vidas sucessivas é a única que preenche o vazio da
alma humana a procura de um esclarecimento a respeito de si mesmo. Quem é o
homem? O que faz na Terra? Qual é o seu porvir? 'Perguntas somente respondidas
tendo a reencarnação como modelo e guia. Sem a palingenese
não haveria evolução, nem progresso.
O que
representam pouquíssimos anos de vida, numa única existência? O homem é viajor do Universo e, dentro da eternidade, aufere recursos
e aptidões, desenvolve potencialidades, até chegar a
posição de um arcanjo (Espirito Superior que segundo
ensino da Codificação, também começou por ser átomo – O Livro dos Espíritos,
no 540, Allan Kardec).
«Sem o
principio da pluralidade das existências nunca se entendera o porquê das
coisas».
A Igreja
ensina que o Ser Espiritual é criado no momento de formação do seu corpo
somático e viverá apenas na existência física, na Terra. O Espiritismo é fé
raciocinada. De imediato, o profitente da Doutrina
Consoladora de Jesus, codificada pelo sábio Kardec,
questionará, baseando seu pensamento na negação da reencarnação, a causa
espiritual do nascimento de seres monstruosos, alguns vindo ao mundo sem
cérebro (anencefalos), outros trazendo, já no berço,
deficiências mentais. Sem a Doutrina da Reencarnação, Deus parece, ao olhar perquiridor, muito pouco criativo; inclusive, fazendo
lembrar uma vulgar personalidade sado-masoquista,
divertindo-se ao formar seres sem nenhuma possibilidade de crescimento
evolutivo espiritual.
Afinal,
para que, então, Deus cria a imperfeição? Certamente, os dogmáticos religiosos
tentarão uma resposta, baseado no chamado «pecado original», dizendo que o
sofrimento entrou no mundo por causa do erro do primeiro homem, Adão. Outros, alegarão «mistério», ou então, «não se pode discutir os
desígnios divinos». Todavia não são justificações plausíveis. Seria
extremamente injusto que alguém passe por um sofrimento muito intenso, por
exemplo, decorrente de deformidades congênitas, por causa do deslize de um
antepassado, chamado Adão, ao qual nem chegou a conhecer. É necessário
considerar, também, sem fundamento, o fato dos sofrimentos dos descendentes do «primeiro
homem» serem diferentes, alguns nascendo aleijados,
outros cegos, outros com malformações consideráveis e a maior parte
verificando-se com recém-nascidos normais."
Mais a
frente, no mesmo capítulo do livro:
Continuando
na sua arenga antiespírita, o sacerdote dá mais um
exemplo dos «argumentos aduzidos pelos reencarnacionistas»,
acompanhada da sua primária refutação:
«...2) A
desigualdade das sortes humanas só se explicaria como conseqüência de atos bons
ou maus praticados numa encarnação anterior – Respondemos que Deus é
livre para criar os homens como Ele os quer; a cada qual Deus dá a graça para
que se santifique e chegue à vida eterna; às vezes uma pessoa tida como pobre
ou doente no plano material e passageiro pode ser extraordinariamente rica e
sadia no plano dos valores definitivos. Ademais, segundo os princípios reencarnacionistas, quem atualmente é doente e pobre é um
pecador que está expiando pecados da vida passada, ao passo que os ricos e
sadios são pessoas virtuosas que estão recebendo o prêmio dos atos bons
praticados em encarnação anterior. Ora, tais conclusões são
absurdas».
Realmente o
religioso alude a argumentos muito absurdos, os quais nada têm a ver com o
Espiritismo.
É uma pena
que o padre não tenha tido pelo menos o honesto propósito de, primeiramente, se
instruir a respeito da Doutrina Espírita, antes de arvorar-se em destruidor e ceifador da Terceira Revelação Divina à Humanidade.
Os
seguintes ensinamentos esclarecedores são encontrados a respeito do tema em
tela,
814. Por
que Deus a uns concedeu as riquezas e o poder, e a outros, a miséria?
“Para
experimentá-los de modos diferentes. Além disso, como sabeis,
essas provas foram escolhidas pelos próprios Espíritos, que nelas, entretanto,
sucumbem com freqüência.”
815. Qual
das duas provas é mais terrível para o homem, a da desgraça ou a da riqueza?
“São-no
tanto uma quanto outra. A miséria provoca as queixas contra a Providência, a
riqueza incita a todos os excessos.”
816.
Estando o rico sujeito a maiores tentações, também não dispõe, por outro lado,
de mais meios de fazer o bem?
“Mas, é
justamente o que nem sempre faz. Torna-se egoísta, orgulhoso e insaciável. Com
a riqueza, suas necessidades aumentam e ele nunca julga possuir o bastante para
si unicamente.”
NOTA DE
ALLAN KARDEC: – A alta posição do homem neste mundo e o ter autoridade sobre os
seus semelhantes são provas tão grandes e tão escorregadias como a desgraça,
porque, quanto mais rico e poderoso é ele, tanto mais obrigações
tem que cumprire tanto mais abundantes são os
meios de que dispõe para fazer o bem e o mal. Deus experimenta o pobre pela
resignação e o rico pelo emprego que dá aos seus bens e ao seu poder.
A riqueza e
o poder fazem nascer todas as paixões que nos prendem
à matéria e nos afastam da perfeição espiritual. Por isso foi que Jesus disse:
“Em verdade vos digo que mais fácil é passar um camelo por um fundo de agulha
do que entrar um rico no reino dos céus.” (266)
Mais a
frente, mesmo capítulo:
A seguir, o
quinto argumento e sua rudimentar refutação, transcrita, como de hábito,
integralmente:
«5) O reencarnacionismo atribui ao
homem o poder de salvar a si mesmo mediante sucessivas existências na carne,
durante as quais o indivíduo mesmo se aperfeiçoa por seus esforços. Ao
contrário, o bom senso e a fé mostram que o homem é,
por si só, incapaz de se libertar do pecado e necessita da graça de Deus para
se salvar. Somente numa perspectiva panteísta (ver Cap. VI, a
seguir) é que se pode admitir a auto-salvação do homem (pois, no caso ele é
parcela da Divindade); contudo numa perspectiva monoteísta, segundo a qual Deus
é distinto do mundo e do homem, é lógico que o homem limitado e falho como é,
necessita de Deus para se auto-realizar plenamente.»
O poder
atribuído pelo sacerdote ao reencarnacionismo de
salvar o homem por si mesmo vem de Deus e foi muito bem ensinado por Jesus. Na
discussão da refutação anterior (no 4),
coloquei várias referências bíblicas, anatematizando a doutrina dogmática do
inferno. Portanto, não existindo o suplício eterno e havendo chance de sair-se
da prisão, a reencarnação surge como a luz da alvorada, afastando, com seus
primeiros clarões, as trevas, a escuridão da noite. O eclesiástico, após
revelar uma crença confusa e absurda («o homem é incapaz de se libertar do
pecado...»), refere-se a uma «perspectiva panteísta», como de aceitação por
parte dos espíritas. Desde o início da refutação da obra do autor católico,
constato, da sua lavra, afirmações primárias, elementares, destituídas de
embasamento, muito mal fundamentadas. O livro Por que não sou espírita? revela-se como uma verdadeira colcha de retalhos, tentando
encobrir uma secular sujeira eclesiástica, armazenada nas vetustas e bolorentas
sacristias, utilizando o processo psicológico de transferência. Tenta enquadrar a Doutrina Espírita como fiel proprietária das
impurezas religiosas, chegando ao ponto de atacar os seguidores de Kardec e macular o Consolador prometido por Jesus,
denominando-os de panteísta."
Capítulo
VII do mesmo livro:
O escritor
católico faz a seguinte observação: «O Espiritismo apregoa em alta voz a
prática da caridade, sem a qual não há salvação. Tem razão ao afirmar a
importância da caridade. Todavia os espíritas chegam a relativizar
a verdade, como se esta fosse algo de secundário, que não se teria de levar
De forma
nenhuma, os espíritas «chegam a relativizar a
verdade». O Mestre afirmou: «Conhecereis a verdade e ela vos libertará» (João
8:32). O profitente da
Terceira Revelação tem um manancial, constituído dos cinco livros básicos,
denominado Pentateuco espírita, contendo ensinamentos profundos, transmitidos
por Entidades Superiores, não nos deixando órfãos (João 14:18), e trazendo-nos a verdade que liberta.
A caridade legítima foi exemplificada pelo Cristo. O próprio Mestre fez do amor
ao semelhante um impositivo maior para que o «Reino de Deus em nós» cada vez
mais cresça e evolua, diante da eternidade. No chamado «sermão profético»,
Jesus alude aos eleitos como aqueles que O seguem na pessoa do próximo, não
fazendo referência a nenhuma crença religiosa, nem mesmo ao seu sacrifício na
cruz: «Vinde, benditos do meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está
preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer;
tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; Estava nu e me
vestistes; enfermo e me visitastes; preso e fostes ver-me. Então perguntarão os
justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com
sede e te demos de beber. E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e
te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que sempre que
fizestes a um destes pequeninos irmãos, a mim o fizestes». (Mateus
25:34 a 40).
Portanto, o
lema espírita «Fora da Caridade não há salvação» é essencialmente cristão,
correspondente ao ensinamento de Jesus. Já o Catolicismo negando o Sermão
Profético afirma que «Fora da Igreja não há salvação», sentença
completamente antagônica a razão e ao progresso, necessitando de urgente
retificação.
Quanto ao «cometer
aberrações, em nome da caridade mal entendida», o padre não precisa olhar para a frente, buscando anestesiar-se, fugindo da realidade
interior de sua crença, quando milhares de assassinatos foram cometidos pelos
clérigos, em nome de Deus e de Jesus, através da Inquisição. Sendo um ministro
católico, deveria ter mais respeito com a religião de outrem, não esquecendo
que as bases do Catolicismo, há milênios, se encontram minadas pelo absolutismo
clerical aliado ao poder temporal, responsáveis pela degeneração do
Cristianismo puro e autêntico, dos tempos primevos.
(«Conhecereis a árvore pelos seus frutos», Mateus 7:20).
Afirmou o prelado que «muitos e muitos Santos foram, e são verdadeiros heróis
do serviço ao próximo». Como já foi dito anteriormente, os Espíritos
santificados não são propriedade exclusiva do Catolicismo. Pelo contrário, do
Plano Extrafísico, tiveram o infeliz ensejo de
observar as ignominiosas ações da abjeta «Santa Inquisição» e, certamente,
ampararam os espíritos vitimas de tal barbaridade.
O quarto
argumento trata-se de “O Conceito de inferno...”. O padre diz o seguinte: “Muitas
vezes a má compreensão do que seja o inferno leva a rejeitá-lo em favor do reencarnacionismo. Na verdade, o inferno não é um tanque de
enxofre fumegante atiçado por diabos munidos de tridentes, mas é um estado de
alma, no qual o indivíduo se projeta por dizer NÃO a Deus: após a morte, a
pessoa que morre consciente e voluntariamente avessa a Deus, é respeitada em
sua opção definitiva, mas não pode deixar de reconhecer que Deus é o Sumo
Bem... e o Sumo Bem que continua a amá-la irreversivelmente. É o fato de que
Deus ama uma vez por todas, mas foi conscientemente preterido em favor de
bagatelas, que causa o tormento do réprobo. Se Deus desviasse do réprobo o seu
amor, ele não sofreria o inferno; mas Deus não pode deixar de amar, porque Ele
não se pode contradizer. É precisamente nisto que está o princípio do inferno.
Vê-se assim que o inferno, longe de contradizer o amor de Deus, decorre, de
certo modo, da grandeza divina desse amor”.
Se o Sumo
Bem que é Deus ama irreversivelmente aos seus filhos, sabendo da ignorância de
que se acham revestidos os que se encontram avessos a ELE, não pode de forma
alguma respeitar a “opção definitiva da negação”, deixando a grande esmagadora
maioria da Sua criação ser condenada por todo o
sempre. Exatamente por não poder deixar de amar, Deus concede a todos a eternidade
do perdão. O “tormento do réprobo” é a consciência do espírito remoendo no
Plano Extrafísico, oprimindo-o, recriminando-o.
Devido a aparência de prolongar-se indefinidamente, o
sofrimento do autojulgamento é denominado de “fogo
eterno”. Na realidade, é o “fogo do remorso”. O Mestre Jesus antecipadamente, pôs por terra esse conceito dogmático, com os seguintes
ensinamentos, contidos nos versículos a seguir:
1) Certa
feita, um discípulo de Jesus perguntou ao Mestre: “Senhor, até quantas vezes
meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe o
Cristo: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. (Mt. 18:21-22)
Incomensurável
é o amor de Deus, perdoando sempre o filho infrator às suas leis;
2) “Qual
dentre vós é o homem que se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra?
Ou se lhe pedir peixe, lhe dará uma cobra? Ora se vós, que sois maus, sabeis
dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos
Céus...” (Mt. 7:9-11)
Se um pai
não castiga eternamente ao seu filho, como pode Deus punir um fruto da Sua
criação por todo o sempre?
3) Em Mateus
5:25-26: “Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com
ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz ao oficial
de justiça e sejas recolhido à prisão. Em verdade te digo que não sairás dali
enquanto não pagares o último centavo.”
O Mestre,
peremptoriamente, arrasa com o conceito do inferno,
dizendo que a prisão é transitória, a pena não é perpétua. Através do “nascer de novo”, as dívidas serão resgatadas, pagando-se o
último ceitil. Daí o Cristo ter dito a Nicodemos que todos teriam que reencarnar: “Importa-vos
nascer de novo” (João 3:7)
4) “Jesus
visitou e pregou aos espíritos em prisão” (1 Pedro 3:19)
Este
versículo liquida inteiramente com o chamado “Suplício Eterno”, porquanto o
Mestre foi visitar aos que estavam em sofrimento desde o tempo de Noé (1 Pedro 3:20).
O ato de visitar e pregar, explicitamente derruba a possibilidade de existência
do inferno, porquanto o Cristo foi às regiões inferiores do Plano Espiritual
para pregar, isto é, difundir uma doutrina, propagar idéias virtuosas,
preconizar a melhoria espiritual de outrem. Certa feita, quando jovem,
praticante do protestantismo, abordei o pastor da
igreja que freqüentava, a respeito desse versículo. O reverendo teve a
petulância de dizer-me que o Mestre foi ao inferno mostrar a Sua glória para os
que lá estão definhando por todo o sempre. Com assaz infelicidade, o “pastor de
almas” enquadrou Cristo como um vulgar sado-masoquista,
felicitando-se com o sofrimento alheio. Anteriormente, no meu tempo de
infância, professava o Catolicismo. Lembro-me que quando indaguei,
do sacerdote que ministrava as aulas de Catecismo, o seguinte: – Padre, se eu
for para o céu e minha genitora para o inferno, como
me comportarei no paraíso, sabendo que minha mãe está sofrendo? O prelado foi
muito infeliz e cruel na resposta, dizendo-me que os eleitos esquecem o que
foram na Terra. De imediato, redargüi, afirmando-lhe não acreditar que Deus
possa fazer uma lavagem cerebral nos que entram no Éden eterno.
Logo me afastei dessa religião, que prega existir nenhum sentimento de piedade
e de caridade, subsistindo naqueles que se encontram na beatitude celestial.
Inclusive a Summa Theologia
de S. Tomás de Aquino; suplemento da parte III, quest.
95, arts 1, 2 e 3, edição de
Lião, 1685, T-II, pag. 425,
traz a seguinte aberração:
“Os
eleitos, no céu, não conservam sentimento algum de amor e amizade pelos réprobos;
não sentem por eles compaixão alguma e até gozam do suplício de seus amigos e
parentes. Os eleitos o gozam no sentido de que se sentem isentos de torturas, e
que, por outro lado, neles terá expirado toda compaixão, porque admirarão a
justiça divina” (Retirado do livro Cristianismo e Espiritismo, pag. 247, 6.a edição, FEB).
5) No Antigo
Testamento, no livro de Isaías, capítulo 57, versículo 16, está bem
claro que não existe condenação eterna: “... não contenderei para sempre, nem
me indignarei continuamente, porque, do contrário, o espírito definharia diante
de mim e o fôlego da vida que eu criei”.
6) A
seguinte passagem do Evangelho nos revela que o sofrimento, após a morte
física, é padecido com diferenciação e tem finalidade corretiva: “Aquele servo,
porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo
a sua vontade, será punido com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a
vontade de seu Senhor e fez coisas dignas de reprovação, levará poucos açoites”
(Lc. 12:47-48)
O “inferno”, além de não ser eterno, não é o mesmo para todos os pecadores. O
próprio Jesus esclarece esta questão, em continuação ao versículo 48: “Mas
àquele a quem muito foi dado muito mais lhe pedirão”.
Portanto, os espíritos, que reencarnam com conhecimentos espirituais, ou que os
adquirem na presente existência, já não sendo mais “porcos para quem não devam
ser lançadas pérolas, nem cães para os quais as coisas santas não devam ser
dadas” (Mt. 7:6), têm grande
responsabilidade e são mais culpados, diante do insucesso na existência física,
levando ao “inferno do remorso” (muitos açoites), que os outros espíritos que
falharam, sem o conhecimento prévio das coisas espirituais, com o remorso
remoendo menos (poucos açoites), já que não tinham idéia precisa do mal em que
incorreram. 'Na verdade, existem inúmeros estados de sofrimentos, como inúmeros
são nossos erros, porém os erros de uma única existência, jamais poderiam
justificar o sofrimento por toda a Eternidade. Se o ser está lesado em seu
espírito, devido ao mau procedimento em vida passada, vivendo intenso
sofrimento espiritual (fogo eterno), é necessário que reencarne, marcando no
corpo físico a sua deficiência, tendo a oportunidade da cura
total, através do seu procedimento diante do resgate, expurgando do corpo
espiritual a chaga que o maltratava. No decurso de existências
sucessivas, o espírito se vai aprimorando e tornando-se apto, através da
evolução espiritual, de compreender e habitar o Universo. A Espiritualidade,
por intermédio das Escrituras, nos revela a grandiosidade da lei da
reencarnação, que permite o nosso aprimoramento, em época certa, quando já
teremos “olhos para ver” e “ouvidos para ouvir”, (Mt
11:15). Tudo realmente tem uma causa e fomos criados para a ventura eterna. Com
o pensamento voltado para o oceano de galáxias, revelando a grandiosidade da
criação, ouvimos, no nosso íntimo, as palavras do representante maior da
Divindade, em nosso planeta: “Na casa de meu Pai há muitas moradas...” (Jo. 14:2). O Universo espelha a eternidade de
nossos espíritos e nos mostra que o seu Autor, sendo Onisciente e, produzindo
uma obra tão gigantesca e maravilhosa, não erraria ao ponto de permitir o “inferno
eterno” e deixar que o fruto de Sua Criação, “feito à sua imagem e semelhança”
– (Gênesis 1:27), perecesse para todo o sempre.
Sem reencarnação só restam o caos e a desesperança (retirado do capítulo “Inferno
Eterno ou Reencarnação”, do livro A Queda dos Véus, publicado pelo
Centro Espírita Léon Denis, do mesmo autor, Américo
Domingos Nunes Filho).
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