Refutações de Kardec – Revista Espírita 1859
Refutação de um artigo de O Universo
Resposta à réplica do senhor abade Chesnel, em l'Univers
Resposta ao Senhor Oscar Comettant
março de 1859
Algumas pessoas, sem dúvida, esperam encontrar aqui uma resposta a certos ataques, bem pouco circunspectos, dos quais a Sociedade, nós pessoalmente, e os partidários do Espiritismo em geral foram objetos nestes últimos tempos. Rogamos desejarem se reportar ao nosso artigo sobre a polêmica espírita, colocado na cabeça do nosso número de novembro último, onde fizermos nossa profissão de fé a esse respeito. Não lhe acrescentaremos senão poucas palavras, não tendo o lazer de não nos ocuparmos com todas essas discussões ociosas. E aqueles que têm tempo a perder para rir de tudo, mesmo do que não compreendem, para serem maledicentes, caluniadores, letrados mas pretensiosos, se contentem, não temos a pretensão de a isso impedi-los. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, composta de homens honrados pelo seu saber e sua posição, tanto na França quanto no Estrangeiro, médicos, literatos, artistas, funcionários, oficiais, negociantes, etc., recebendo, cada dia, as mais altas notabilidades sociais, e correspondendo com todas as partes do mundo, está acima das pequenas intrigas do ciúme e do amor-próprio; ela persegue seus trabalhos na calma e no recolhimento, sem se inquietar com piadas que não poupam mesmo as mais respeitáveis corporações.
Quanto ao Espiritismo em geral, como é uma das forças da Natureza, o escárnio disso virá cansar-se, como se cansou contra tantas outras coisas que o tempo consagrou; essa utopia, essa tocade, como a chamam certas pessoas, já fez a volta ao mundo e todas as diatribes não a impedirão mais de caminhar quanto outrora os anátemas não o impediram à Terra girar. Deixemos, pois, os escárnios rirem à sua satisfação, uma vez que tal é o seu bom prazer; serão, para eles, fracos de Espíritos; riem muito da religião, por que não ririam do Espiritismo que não é senão uma ciência? Esperando, nos servem mais que nos prejudicam e economizamos sem gastos de publicidade porque não é um de seus artigos, mais ou menos espirituosos, que não fará vender algum de nossos livros e obter algumas assinaturas. Obrigado, pois, pelo serviço que nos prestam sem querer.
Diremos, igualmente, pouca coisa pelo que nos toca pessoalmente; se aqueles que nos atacam ostensivamente, ou de mão oculta, crêem nos perturbar, perdem seu tempo; se pensam em nos barrarem o caminho, enganam-se igualmente, uma vez que não pedimos nada e não aspiramos a nada, senão a nos tornarmos úteis, nos limites das forças que Deus nos deu; por modesta que seja a nossa posição, nos contentamos com aquilo que, por muito, seria a mediocridade; não ambicionamos nem conceito público, nem fortuna, nem honrarias; não procuramos nem o mundo, nem seus prazeres; o que possamos ter não nos causa nenhum pesar: vemo-lo com a mais completa indiferença; isso não está no nosso gosto, por conseguinte, não levamos inveja de nenhum daqueles que possuem essa vantagem, se vantagem são, o que aos nossos olhos é uma questão, porque os gozos pueris nesse mundo não asseguram um melhor lugar no outro, longe disso; nossa vida é toda de labor e de estudo, consagrando ao trabalho até os instantes de repouso: aí não há do que ter ciúme. Trazemos, como tantos outros, nossa pedra ao edifício que se eleva; mas Goraríamos de nos fazer dele um degrau para chegar ao que quer que seja; que outros tragam-lhe mais do que nós; que outros trabalhem tanto quanto nós e melhor que nós, e os veremos com uma alegria sincera; o que queremos, antes de tudo, é o triunfo da verdade, de qualquer parte que venha, não tendo a pretensão de ter sozinho a luz; se disso deva jorrar alguma glória, o campo está aberto a todo o mundo, estendemos a mão a todos aqueles que, nessa rude liça, seguiremos lealmente, com abnegação e sem pensamento dissimulado pessoal.
Bem sabemos que, erguendo abertamente a bandeira das idéias, das quais nos fizemos um dos propagadores, afrontando os preconceitos, atrairemos inimigos, sempre prontos à atirarem flechadas envenenadas contra quem eleva a cabeça e se coloca em evidência; mas há essa diferença entre eles e nós, é que nós não lhes queremos o mal que procuram nos fazer, porque participamos da fraqueza humana, e é somente nisso que cremos ser seu superior; rebaixa-se pela inveja, pelo ódio, pelo ciúme e por todas as paixões mesquinhas: eleva-se pelo esquecimento das ofensas. Esta é a moral espírita; não vale ela mais do que a das pessoas que ultrajam o seu próximo? É o que nos ditaram os Espíritos que nos assistem, e pode-se julgar, por aí, se são bons ou maus. Ela nos mostra as coisas de uma altura tão grande e aquelas deste mundo tão pequenas, que não se pode senão lamentar aqueles que se torturam voluntariamente, para se darem uma efêmera satisfação de amor-próprio. (pp. 66-67).
abril de 1859
Aqueles que não admitem a realidade das manifestações físicas, geralmente, atribuem à fraude os efeitos produzidos. Baseiam-se no fato de que os prestidigitadores hábeis fazem coisas que parecem prodígios quando não se conhece seus segredos; de onde concluem que os médiuns não são senão escamoteadores. Já refutamos esse argumento, ou antes, essa opinião, notadamente nos artigos sobre o senhor Home, e nos nos. da Revista de janeiro e fevereiro de 1858; sobre isso não diremos, pois, senão algumas palavras antes de falarmos de uma coisa mais séria.
Do fato de que há charlatães que vendem drogas nas praças públicas, de que há mesmo médicos que, sem irem à praça pública, enganam a confiança, segue-se que todos os médicos sejam charlatães, e o corpo médico, com isso, é atingido em sua consideração? Do fato de que há pessoas que vendem tintura por vinho, segue-se que todos os vendedores de vinho são adulteradores e que não há vinho puro? Abusa-se de tudo, mesmo das coisas mais respeitáveis, e pode-se dizer que a fraude tem também seu gênio. Mas a fraude tem sempre um objetivo, um interesse material qualquer; onde não haja nada a ganhar, não haverá nenhum interesse a enganar. Também dissemos, em nosso número precedente, a propósito dos médiuns mercenários, que a melhor de todas as garantias é um desinteresse absoluto.
Essa garantia, dir-se-á, não é única, porque, em casos de prestidigitação, há amadores que não visam senão divertir uma sociedade e não fazem disso um ofício; não pode ocorrer o mesmo com os médiuns? Sem dúvida, pode-se divertir um instante divertindo os outros, mas para nisso passar horas inteiras, e isso durante semanas, meses e anos, seria preciso, verdadeiramente, estar possuído pelo demônio da mistificação, e o primeiro mistificado seria o mistificador. Não repetiremos aqui tudo o que se disse sobre a boa fé dos médiuns, e dos assistentes, que podem ser o joguete de uma ilusão ou de uma fascinação. Nós o respondemos vinte vezes, assim como quanto a todas as outras objeções para as quais reenviamos notadamente à nossa Instrução prática sobre as manifestações, e aos nossos artigos precedentes da Revista. Nosso objetivo aqui não é de converter os incrédulos; se não o foram pelos fatos, não serão mais pelo raciocínio: seria, pois, perder nosso tempo. Ao contrário, nos dirigimos aos adeptos para premuni-los contra os subterfúgios, dos quais poderiam ser vítimas da parte de pessoas interessadas, por um motivo qualquer, em simular certos fenômenos; dizemos certos fenômenos, porque os há que desafiam, evidentemente, toda a habilidade da prestidigitação, tais são, notadamente, o movimento dos objetos sem contato, a suspensão dos corpos pesados no espaço, as pancadas de diferentes lados, as aparições, etc., e ainda, para alguns desses fenômenos, poder-se-ia, até certo ponto, simulá-los, tanto progrediu a arte da imitação. O que é preciso fazer, em semelhante caso, é observar atentamente as circunstâncias, e sobretudo levar em conta o caráter e a posição das pessoas, o objetivo e o interesse que elas poderiam ter em enganar: aí está o melhor de todos os controles, porque são tais circunstâncias que levantam todos os motivos para a suspeição. Colocamos, pois, em princípio, que é preciso desconfiar de quem faça desses fenômenos um espetáculo, ou um objeto de curiosidade e de divertimento, que deles tire um proveito, por mínimo que seja, e se vanglorie de produzi-los à vontade e a propósito. Não poderíamos repetir demais que as inteligências ocultas, que se manifestam a nós, têm suas suscetibilidades, e querem nos provar que também têm seu livre arbítrio, e não se submetem aos nossos caprichos.
De todos os fenômenos físicos, um dos mais comuns é o dos golpes íntimos batidos na própria substância da madeira, com ou sem movimento da mesa ou de outro objeto do qual se sirva. Ora, esse efeito é um dos mais fáceis de serem imitados, e como é também um dos que se produzem mais freqüentemente, cremos ser útil revelar a pequena astúcia com a qual se pode enganar. Basta, para isso, colocar as duas mãos espalmadas sobre a mesa, e bastante próximas para que as unhas dos dedos se apóiem firmemente uma contra a outra; então, por um movimento muscular inteiramente imperceptível, se as faz friccionar, o que dá um pequeno ruído seco, tendo uma grande analogia com aqueles da tiptologia íntima. Esse ruído repercute na madeira e produz uma ilusão completa. Nada é mais fácil que fazer ouvir a quantos golpes se peça, uma bateria de tambor, etc.; responder a certas perguntas, por sim ou por não, por números, ou mesmo pela indicação de letras do alfabeto.
Uma vez prevenido, o meio de se reconhecer a fraude é bem simples. Ela não é mais possível se as mãos forem afastadas uma da outra, e assegurando-se que nenhum outro contato pode produzir o ruído. Os golpes reais, aliás, oferecem de característico que mudam de lugar e de timbre à vontade, o que não pode ocorrer quando são devidos à causa que assinalamos, ou a qualquer outra análoga; que saia da mesa para se transportar sobre um móvel qualquer que ninguém toca, enfim, que responda a perguntas imprevistas.
Chamamos, pois, a atenção das pessoas de boa fé para esse pequeno estratagema e todos aqueles que poderiam reconhecer, a fim de assinalá-los sem circunspecção. À possibilidade da fraude e da imitação não impede a realidade dos fatos, e o Espiritismo não pode senão ganhar, desmascarando os impostores. Se alguém nos disser: Eu vi tal fenômeno, mas havia charlatanice, responderemos que isso é possível; nós vimos, nós mesmos, supostos sonâmbulos simularem o sonambulismo com muita destreza, o que não impede de o sonambulismo ser um fato; todo mundo viu mercadores venderem algodão por seda, o que não impede que hajam verdadeiros tecidos de seda. É preciso examinar todas as circunstâncias e ver se a dúvida tem fundamento; mas nisso, como em todas as coisas, é preciso ser perito; ora, não poderíamos reconhecer, por juiz de uma questão qualquer, aquele que dela nada conhecesse.
Diremos o mesmo quanto aos médiuns escreventes. Geralmente, pensa-se que aqueles que são mecânicos oferecem mais garantias, não só pela independência das idéias, mas também contra o charlatanismo. Pois bem! É um erro. A fraude se introduz por toda parte, e sabemos com quanta habilidade se pode dirigir, à vontade mesmo, uma cesta ou uma prancheta que escreve, e dar-lhes todas as aparências de movimentos espontâneos. O que tira todas as dúvidas, são os pensamentos exprimidos, quer venham de um médium mecânico, intuitivo, audiente, falante ou vidente. Há comunicações que estão de tal modo fora das idéias, dos conhecimentos, e mesmo da capacidade intelectual do médium que é preciso enganar-se estranhamente para honrá-los. Nós reconhecemos, no charlatanismo, uma grande habilidade e fecundos recursos, mas não lhe conhecemos, ainda, o dom de dar saber a um ignorante, ou o espírito àquele que não o tem. (pp. 94-96).
Refutação de um artigo de O Universo
maio de 1859
O jornal O Universo, em seu número de 13 de abril último, contém o artigo do senhor abade Chesnel, onde a questão do Espiritismo está longamente discutida. Tê-lo-íamos deixado passar como tantos outros aos quais não ligamos nenhuma importância, se se tratasse de uma dessas diatribes grosseiras que provam, pelo menos da parte de seus autores, a ignorância mais absoluta daquilo que atacam. Apraz-nos reconhecer que o artigo do senhor abade Chesnel está redigido com espírito diferente. Pela moderação e a conveniência de sua linguagem, merece uma resposta, tanto mais necessária porque esse artigo contém um erro grave e pode dar uma idéia muito falsa seja do Espiritismo em geral, seja em particular do caráter e do objetivo dos trabalhos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Citamos o artigo na íntegra.
"Todo o mundo conhece o espiritualismo do senhor Cousin, essa filosofia destinada a tomar delicadamente o lugar da religião. Hoje, possuímos sob o mesmo título um corpo de doutrina reveladas, que vai se completando pouco a pouco, é um culto muito simples, é verdade, mas de uma eficácia maravilhosa, uma vez que coloca os devotos em comunicação real, sensível e quase sempre permanente com o mundo sobrenatural.
"Esse culto tem assembléias periódicas que se abrem pela invocação de um santo canonizado. Depois de constatar a presença, no meio dos fiéis, de São Luís, rei da França, se lhe suplica interditar, aos maus Espíritos, a entrada do templo, e lê-se a ata da sessão precedente. Depois, com o convite do presidente, um médium sobe à escrivaninha junto ao secretário encarregado de escrever as perguntas feitas por um dos fiéis e as respostas que serão ditadas ao médium, pelo espírito invocado. A assembléia assiste gravemente, piedosamente, a essa cena de necromancia algumas vezes muito longa, e quando a ordem do dia está esgotada, retira-se mais persuadido que nunca da verdade do espiritualismo. Cada fiel, no intervalo que decorre até a reunião seguinte, não negligencia manter um comércio assíduo, mas privado, com aqueles espíritos que lhe são ou os mais acessíveis ou mais caros. Os médiuns são muitos, e não há quase nada de segredo, na outra vida, que os médiuns acabem por penetrar. Esses segredos, uma vez revelados aos fiéis, não são ocultados ao público. A Revista espiritualista que aparece regularmente todos os meses, não recusa nenhuma assinatura profana, e qualquer um pode comprar os livros que contêm o texto revelado com seu comentário autêntico.
"Chegar-se-ia a crer que uma religião, que consiste unicamente da evocação dos mortos, seja muito hostil à Igreja católica, que nunca cessou de interditar a prática da necromancia. Mas esses sentimentos estreitos, por natural que pareçam, não lhe são menos estranhos, assegure-se, ao coração dos espiritualistas. Rendem, de bom grado, justiça ao Evangelho e ao seu Autor, confessam que Jesus viveu, agiu, falou, sofreu como os nossos quatro evangelistas o narram. A doutrina evangélica é verdadeira; mas essa revelação, da qual Jesus foi o órgão, longe de excluir todo o progresso, tem necessidade de ser completada. O espiritualismo é que dará ao Evangelho a sã interpretação que lhe falta e o complemento que espera há dezoito séculos.
"Mas, também, quem assinará limites ao progresso do cristianismo ensinado, interpretado, desenvolvido qual está, por almas libertas da matéria, estranhas às paixões terrestres, aos nossos preconceitos e aos nossos interesses humanos? O próprio infinito se nos descobre; ora, o infinito não tem limites, e tudo nos faz esperar que a revelação do infinito será continuada, sem interrupção; à medida que se escoarem os séculos, ver-se-ão as revelações acrescentadas, sem esgotar jamais esses mistérios, cuja extensão e profundidade parecem aumentar à medida que se libertam da obscuridade que os envolvera até aqui.
"De onde esta conseqüência que o espiritualismo é uma religião, uma vez que nos coloca intimamente em relação com o infinito e que absorve, em se alargando, o cristianismo, que, de todas as formas religiosas presentes ou passadas, é, como se confessa sem dificuldade, a mais elevada, a mais pura e mais perfeita. Mas alargar o cristianismo é uma tarefa difícil, que não pode se cumprir sem derrubar as barreiras atrás das quais está entrincheirado. Os racionalistas não respeitam nenhuma barreira; menos ardentes, ou menos, avisados, os espiritualistas não encontram senão duas, cujo rebaixamento parece indispensável, a saber, a autoridade da Igreja católica, e o dogma da eternidade das penas.
"Esta vida é única prova que será dada ao homem para atravessar? A árvore mora eternamente no canto em que tombou? O estado da alma depois da morte é definitivo, irrevogável e eterno? Não, responde a necromancia espiritualista. Na morte, nada se acaba, tudo recomeça. A morte é, para cada um de nós, o ponto de partida de uma nova encarnação, de uma nova vida e de uma nova prova.
"Deus, segundo o panteísmo alemão, não é o ser, mas o vir a ser eterno. O que quer que ele seja de Deus, o homem, segundo os espiritualistas parisienses, não tem outro destino que o futuro progressivo ou retrógrado, segundo seus méritos e segundo suas obras. A lei moral ou religiosa tem uma sanção verdadeira nas outras vidas, onde os bons são recompensados e os maus punidos, mas durante um período, mais ou menos longo, de anos ou de séculos, e não durante a eternidade.
"O espiritualismo seria a forma mística do erro do qual o senhor Jean Reynaud é o teólogo? Talvez. É permitido ir mais longe e dizer que entre o senhor Reynaud e os novos sectários exista um laço mais estreito que aquele da comunidade de doutrinas? Talvez ainda. Mas essa questão por falta de informações certas, não seria decidida aqui de um modo decisivo.
"O que importa muito mais que o parentesco ou as alianças heréticas do senhor Jean Reynaud, é a confusão de idéias da qual o progresso do espiritualismo é o sinal; é a ignorância em matéria de religião, que torna possível tanta extravagância; é a leviandade com a qual os homens, aliás estimáveis, acolhem essas revelações do outro mundo que não têm nenhum mérito, mesmo o da novidade.
"Não é necessário remontar até Pitágoras e aos pais da Igreja para descobrir as origens do espiritualismo contemporâneo. Serão encontradas folheando-se as atas do magnetismo animal.
"Desde o século XVIII, a necromancia desempenha um grande papel nas práticas do magnetismo; e vários anos antes que ocorresse a questão dos Espíritos batedores na América, certos magnetizadores franceses obtiveram, disseram eles, da boca dos mortos ou dos demônios, a confirmação de doutrinas condenadas pela Igreja; e notadamente a dos erros de Orígenes quanto à conversão futura dos maus anjos e dos condenados.
"É preciso dizer também que o médium espiritualista, no exercício de suas funções, pouco difere do sujeito nas mãos do magnetizador, e que o círculo abrangido pelas revelações do primeiro não ultrapassa aquela que limita a visão do segundo.
"As informações que a curiosidade obtém nos assuntos privados, por meio da necromancia, não ensinam, em geral, nada mais do que era conhecido antes. A resposta do médium espiritualista é obscura nos pontos que nossas pesquisas pessoais puderam esclarecer; ela é limpa e precisa nas coisas que nos são bem conhecidas; muda sobretudo sobre o que se oculta aos nossos estudos e aos nossos esforços. Parece, em uma palavra, que o médium tem uma visão magnética de nossa alma, mas que não descobre nada além daquilo que se encontra escrito. Mas essa explicação, que parece bem simples, está, todavia, sujeita a graves dificuldades. Ela supõe, com efeito, que uma alma pode naturalmente ler no fundo de uma outra alma sem os recursos de sinais, independentemente da vontade daquele que se tomaria, para qualquer um, um livro aberto e muito legível. Ora, os anjos, bons ou maus, não possuem naturalmente esse privilégio, nem com relação a nós, nem nas relações diretas que têm entre eles. Só Deus peneira imediatamente os espíritos e escruta, até o fundo, os corações mais obstinadamente fechados à sua luz.
"Se os fatos espiritualistas mais estranhos, que se narram, são autênticos, seria preciso, pois, para explicá-los, recorrer a outros princípios. Esquece-se muito que esses fatos se reportam, em geral, a um objeto que preocupa fortemente o coração ou a inteligência, que provocou longas pesquisas e dos quais, freqüentemente, fala-se fora da consulta espiritualista. Nessas condições, não se pode perder de vista que um certo conhecimento das coisas que nos interessam não ultrapassa nunca os limites naturais da força dos Espíritos.
"Qualquer que ela seja, não há outra coisa, no espetáculo que nos é dado hoje, senão um evolução do magnetismo que se esforça por se tornar uma religião.
"Sob a forma dogmática e polêmica que a nova religião deu ao senhor Jean Reynaud, ela encorajou a condenação do Concilio de Perigueux, cuja competência, lembre-se, foi gravemente negada pelo culpado.
"Na forma mística que ela toma hoje em Paris, merece ser estudada ao menos como um sinal dos tempos em que vivemos. O espiritualismo já recrutou um certo número de homens, entre os quais vários são honrosamente conhecidos no mundo. Esse poder de sedução que ele exerce, o lento progresso, mas não interrompido, que lhe é atribuído por testemunhas dignas de fé, as pretensões que ele ostenta, os problemas que coloca, o mal que pode fazer às almas, eis, sem dúvida, bastante motivos reunidos para atrair, desse lado, a atenção dos católicos. Guardemo-nos de atribuir, à nova seita, mais importância do que realmente ela tem. Mas, para evitar o exagero que aumenta tudo, não caiamos na mania de negar e diminuir todas as coisas. Nolite omni spiritui credere, sed probate spiritus si ex Deo sint: Quoniam multi pseudoprophetoe exierunt in mundum. (1 João IV. 1.)"
O ABADE FRANÇOIS CHESNEL.
SENHOR ABADE,
O artigo que publicastes no Universo, concernente ao Espiritismo, contêm vários erros que importa retificar, e que provêm, sem dúvida, de um estudo incompleto da matéria. Para refutá-los todos, seria preciso retomar, desde o alicerce, todos os pontos da teoria, assim como os fatos que lhe servem de base, e é o que não tenho nenhuma intenção de fazer aqui. Limito-me aos pontos principais.
Desejais reconhecer que as idéias espíritas recrutaram um certo número de homens honrosamente conhecidos no mundo; esse fato, cuja realidade ultrapassa, sem dúvida, de muito o que credes, merece incontestavelmente a atenção de todo homem sério, porque tantas pessoas eminentes, pela sua inteligência, seu saber e sua posição social, não se apaixonariam por uma idéia despida de todo fundamento. A conclusão natural é que no fundo de tudo isso deve haver alguma coisa.
Objetareis, sem dúvida, que certas doutrinas, metade religiosas, metade sociais, encontraram nestes últimos anos sectários nas próprias classes da aristocracia intelectual, o que não lhes impediu caírem no ridículo. Os homens de inteligência podem, pois, se deixarem seduzir-se por utopias. A isso respondo que as utopias não têm senão um tempo; cedo ou tarde; a razão lhe faz justiça; ocorrerá o mesmo com o Espiritismo, se for uma; se for uma verdade, ele triunfará de todas as posições, de todos os sarcasmos, direi mesmo de todas as perseguições, se as perseguições fossem ainda do nosso século, e os detratores o serão à suas expensas; seria bem preciso que, bom grado, malgrado, os opositores o aceitassem, como aceitaram tantas coisas, contra as quais haviam protestado, supostamente em nome da razão. O Espiritismo é uma verdade? O futuro julgará; já parece prenunciar pela rapidez com a qual essas idéias se propagam, e notai bem que não é na classe ignorante e iletrada que elas encontram adeptos, mas, bem ao contrário, entre as pessoas esclarecidas.
Há ainda a se anotar que todas as doutrinas filosóficas são obras de homens com pensamentos maiores ou menores, mais ou menos justos; todas têm um chefe, ao redor do qual se agruparam outros homens partilhando a mesma maneira de ver. Qual é o autor do Espiritismo? Quem é aquele que imaginou essa teoria, verdadeira ou falsa? Procurou-se coordená-la, formulá-la, explicá-la, é verdade; mas a idéia primeira, quem a concebeu? Ninguém; ou, por melhor dizer, todo o mundo, porque cada um pôde ver, e aqueles que não viram, foi porque não quiseram ver, ou quiseram ver à sua maneira, sem sair do círculo de suas idéias preconcebidas, o que fez com que vissem mal e julgassem mal. O Espiritismo decorre de observações que cada um pode fazer, que não são nenhum privilégio para ninguém, é o que explica sua irresistível propagação; não é o produto de nenhum sistema individual, e é isso que o distingue de todas as outras doutrinas filosóficas.
Essas revelações do outro mundo não têm mesmo, dissestes, o mérito da novidade. Seria, pois, um mérito apenas a novidade? Quem jamais pretendeu que fosse uma descoberta moderna? Essas comunicações sendo uma conseqüência na natureza humana, e ocorrendo por uma vontade de Deus, fazem parte das leis imutáveis pelas quais rege o mundo; elas, pois, devem existir desde que há homens na Terra eis porque são encontradas na mais alta antigüidade, em todos os povos, na história profana, como também na história sacra. A antigüidade e a universalidade dessa crença são argumentos em seu favor; tirar dela uma conclusão desfavorável, seria falta de lógica antes de tudo.
Dissestes, em seguida, que a faculdade dos médiuns difere pouco da dos sujeitos na mão do magnetizador, dito de outro modo, do sonâmbulo; mas, admitamos mesmo uma perfeita identidade; qual pode ser a causa dessa admirável clarividência sonambúlica, clarividência que não encontra obstáculo nem na matéria, nem na distância; que se exerce sem o concurso dos órgãos da visão? Não é a demonstração mais patente da existência e da individualidade da alma, pivô da religião? Se eu fora padre, e quisesse, num sermão, provar que há em nós outra coisa além do corpo, demonstrá-lo-ia, de modo irrecusável, pelos fenômenos do sonambulismo natural ou artificial. Se a mediunidade não é senão uma variedade do sonambulismo, seus efeitos não são menos dignos de observação. Nela encontraria uma prova a mais em favor de minha tese, e dela faria uma nova arma contra o ateísmo e o materialismo. Todas as nossas faculdades são obras de Deus; quanto maiores e maravilhosas, mais atestam seu poder e sua bondade.
Para mim que, durante trinta e cinco anos, fiz do sonambulismo um estudo especial, que nele fiz um não menos aprofundado de todas as variedades de médiuns, digo, como todos aqueles que não julgam pela visão de uma única face, que o médium é dotado de uma faculdade particular, que não permite confundi-lo com o sonâmbulo, e que a completa independência de seu pensamento está provada por fatos da última evidência, para qualquer que se coloque nas condições requeridas para observar sem parcialidade. Abstração feita das comunicações escritas, qual é o sonâmbulo que jamais fez jorrar um pensamento de um corpo inerte? Que produziu aparições visíveis e mesmo tangíveis? Que pôde manter um corpo pesado no espaço sem ponto de apoio? Foi por um efeito sonambúlico que um médium desenhou, há quinze dias, em minha casa, na presença de vinte testemunhas, o retrato de uma jovem morta há dezoito meses, e que jamais conhecera, retrato reconhecido pelo pai presente à sessão? Foi por" um efeito sonambúlico que uma mesa respondeu com precisão às perguntas propostas, e mesmo a perguntas mentais? Seguramente, admitindo-se que o médium esteja num estado magnético, parece-me difícil acreditar que a mesma seja sonâmbula.
Dissestes que o médium não fala claramente senão de coisas conhecidas. Como explicar o fato seguinte, e cem outros do mesmo gênero, que se reproduziram muitas vezes e de meu conhecimento pessoal? Um de meus amigos, muito bom médium escrevente, perguntou a um Espírito se uma pessoa que ele perdeu de vistas há quinze anos está ainda neste mundo. "Sim, ele vive ainda, respondeu-lhe; ele mora em Paris, em tal rua e tal número." Ele foi, e encontrou a pessoa no endereço indicado. Foi ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe essa resposta? Se, em certos casos, as respostas podem concordar com o pensamento, é racional concluir disso que seja uma regra geral? Nisso, como em todas as coisas, os julgamentos precipitados são sempre perigosos, porque podem ser desmentidos pelos fatos que se observam.
De resto, senhor Abade, minha intenção não é fazer aqui um curso de Espiritismo, nem discutir-lhe o erro nem a verdade. Ser-me-ia preciso, como disse sempre, lembrar os inumeráveis fatos que citei na Revista Espírita, assim como as explicações que lhes dei em meus escritos. Chego, pois, à parte de vosso artigo que me parece a mais grave. Intitulastes vosso artigo: Uma religião nova em Paris. Supondo que tal fosse, com efeito, o caráter do Espiritismo, haveria aí um primeiro erro, tendo em vista que está longe de se circunscrever a Paris. Ele conta vários milhões de adeptos, espalhados nas cinco partes do mundo, e Paris não lhe foi o foco primitivo. Em segundo lugar, é uma religião? Tratarei de mostrar o contrário.
O Espiritismo funda-se sobre a existência de um mundo invisível, formado por seres incorpóreos que povoam o espaço, e que não são outros senão as almas daqueles que viveram na Terra, ou em outros globos, onde deixaram seu envoltório material. São esses seres aos quais demos, ou melhor, que se deram o nome de Espíritos. Esses seres, que nos rodeiam sem cessar, exercem sobre os homens, com o seu desconhecimento, uma grande influência; eles desempenham um papel muito ativo no mundo moral, e, até um certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo está, pois, na natureza, e pode-se dizer que, em uma certa ordem de idéias, é uma força, como a eletricidade é uma outra sob outro ponto de vista, como a gravidade universal é uma outra.
Ele nos revelou o mundo dos invisíveis, como um microscópio nos revelou o mundo dos infinitamente pequenos, que não supúnhamos. Os fenômenos, dos quais esse mundo invisível é a fonte, deveram se produzir, e são produzidos, em todos os tempos, eis porque a história de todos os povos os menciona. Unicamente, em sua ignorância, os homens atribuíram esses fenômenos a causas mais ou menos hipotéticas, e deram, sob esse aspecto, um livre curso à sua imaginação, como fizeram com todos os fenômenos, cuja natureza lhes era imperfeitamente conhecida. O Espiritismo, melhor observado depois que foi vulgarizado, vem lançar a luz sobre uma multidão de questões até aqui insolúveis ou mal resolvidas. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião, e a prova disso é que conta, entre seus adeptos, com homens de todas as crenças, e que por isso não renunciaram às suas convicções: os católicos fervorosos que não praticam menos todos os deveres de seu culto, protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e até budistas e brâmanes; há de tudo, exceto materialistas e ateus, porque essas idéias são incompatíveis com as observações espíritas. O Espiritismo repousa, pois, sobre princípios gerais independentes de todas as questões dogmáticas. Ele tem, é verdade, conseqüências morais como todas as ciências filosóficas; essas conseqüências estão no sentimento do Cristianismo, porque o Cristianismo, de todas as doutrinas, é a mais clara, a mais pura, e é por esta razão que, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos são os mais aptos a compreendê-lo em sua verdadeira essência. O Espiritismo não é, pois, uma religião: de outro modo teria seu culto, seus templos, seus ministros. Cada um, sem dúvida, pode se fazer uma religião de suas opiniões, interpretar ao seu gosto as religiões conhecidas, mas daí à constituição de uma nova Igreja, há distância, e creio que seria imprudente dar-lhe a idéia. Em resumo, o Espiritismo se ocupa com a observação dos fatos, e não com as particularidades de tal ou tal crença, da procura das causas, de explicações que esses fatos podem dar de fenômenos conhecidos, na ordem piorai como na ordem física, e não impõe mais um culto aos seus adeptos do que a astronomia impõe o culto dos astros, nem a pirotécnica o do fogo. Bem mais: do mesmo modo que o sabeísmo nasceu da astronomia mal compreendida, o Espiritismo, mal compreendido na antigüidade, foi a fonte do politeísmo. Hoje que, graças às luzes do Cristianismo, podemos julgá-lo mais sadiamente, nos põe em guarda contra os sistemas errôneos, frutos da ignorância; e a própria religião pode nele haurir a prova palpável de muitas verdades contestadas por certas opiniões; eis porque, contrariamente à maioria das ciências filosóficas, um dos seus efeitos é o de conduzir às idéias religiosas aqueles que se desviaram por um ceticismo exagerado.
A Sociedade, da qual falais, definiu seu objetivo por seu próprio título; o nome de: Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não se parece com nada de uma seita; tem-lhe tão pouco caráter, que seu regimento lhe interdita ocupar-se de questões religiosas; ela está alinhada na categoria de sociedades científicas porque, com efeito, seu objetivo é estudar e aprofundar todos os fenômenos que resultam das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; ela tem seu presidente, seu secretário, seu tesoureiro, como todas as sociedades; não convida o público às suas sessões; ali não se faz nenhum discurso, nem nada que tenha o caráter de um culto qualquer. Ela procede aos seus trabalhos com calma e recolhimento, primeiro porque é uma condição necessária para as observações; segundo, porque sabe o respeito que se deve àqueles que não vivem mais na Terra. Chama-os em nome de Deus, porque crê em Deus, em seu todo poder, e sabe que nada se faz neste mundo sem a sua permissão. Abre a sua sessão por uma chamada geral aos bons Espíritos, porque, sabendo que os há bons e maus, prende-se a que estes últimos não venham misturar-se fraudulentamente às comunicações que recebem e induzi-la em erro. O que isso prova? Que não somos ateus; mas isso não implica, de nenhum modo, que sejamos religiosos; é do que deveria convencer-se a pessoa que vos narrou o que se faz entre nós, se ela tivesse seguido nossos trabalhos, e se, sobretudo, os julgasse menos levianamente, e talvez com espírito menos prevenido e menos apaixonado. Os fatos protestam, pois, por si mesmos, contra a qualificação de nova seita que destes à Sociedade, por falta, sem dúvida, de melhor conhecê-la. Terminais vosso artigo chamando a atenção dos católicos para o mal que o Espiritismo pode fazer às almas. Se as conseqüências do Espiritismo fossem a negação de Deus, da alma, de sua individualidade depois da morte, do livre arbítrio do homem, das penas e das recompensas futuras, seria uma doutrina profundamente imoral; longe disso, ele prova, não pelo raciocínio, mas pelos fatos, essas bases fundamentais da religião, da qual o mais perigoso inimigo é o materialismo. E faz mais: por suas conseqüências ensina a suportar, com resignação, as misérias desta vida; acalma o desespero; ensina os homens a se amarem como irmãos, segundo os divinos preceitos de Jesus. Se soubésseis, como eu, quantos incrédulos endurecidos conduziu, quanto arrancou de vítimas ao suicídio pela perspectiva da sorte reservada àqueles que abreviam sua vida, contrariamente à vontade de Deus; quantos ódios acalmou e aproximou inimigos! Está aí o que chamais fazer mal às almas? Não, não podeis pensar assim, e apraz-me crer que se o conhecesse melhor, julgá-lo-ia de outro modo. A religião, direis, pode fazer tudo isso. Longe de mim contestá-lo; mas crede que teria sido mais feliz para aqueles que ela encontrou rebeldes, seres que permaneceram numa incredulidade absoluta? Se o Espiritismo disso triunfou, se tornou claro o que era obscuro, evidente o que era duvidoso, onde está o mal? Para mim, digo que em lugar de perder as almas, ele as salvou.
Aceite, etc.
ALLAN KARDEC.
(pp. 129-138)
junho de 1859
Os adversários do Espiritismo acabam de fazer uma descoberta que deverá contrariar muito os Espíritos batedores; é para eles um golpe, do qual terão muita dificuldade para se levantarem. Que devem pensar, com efeito, da terrível estocada que acabam de lhes dar o senhor Schiff, e depois o senhor Jobert (de Lamballe), e depois o senhor Velpeau? Parece-me vê-los todos envergonhados com mais ou menos esta linguagem: "Pois bem! Meu caro, estamos em maus lençóis! Eis-nos derrotados; não contávamos com a anatomia que descobriu as nossas artimanhas. Decididamente, não há meios para se viver num país onde há pessoas que vêem tão claro." - Vamos, senhores palermas, que crestes ingenuamente em todos esses contos de velhas; impostores que quisestes crêssemos que podem existir seres que não vemos. Ignorantes que credes que alguma coisa possa escapar ao escalpelo, mesmo a vossa alma] e vós todos, escritores espíritas ou espiritualistas, mais ou menos espirituais, inclinai-vos e reconhecei que fostes todos enganadores, charlatães, até mesmo velhacos ou imbecis: esses senhores vos deixam a escolha, porque eis a luz, a verdade pura.
"Academia de ciências (sessão de 18 de abril de 1859.) - DA CONTRAÇÃO RÍTMICA MUSCULAR INVOLUNTÁRIA. - O senhor Jobert (de Lamballe) comunica um fato curioso de contrações musculares involuntárias rítmicas do curto perônio lateral direito, que confirma a opinião do senhor Schiff, relativamente ao fenômeno oculto dos Espíritos batedores.
A senhorita X..., com a idade de quatorze anos, bem constituída, desde os seis anos ostentando movimentos involuntários regulares do músculo curto perônio lateral direito, e batimentos que se fazem ouvir atrás do maléolo externo direito, oferecendo a regularidade do pulso. Declararam-se, pela primeira vez, na perna direita, durante a noite, ao mesmo tempo que uma dor muito viva. Pouco tempo depois, o curto perônio lateral esquerdo foi atingido por uma afecção da mesma natureza, mas de menor intensidade.
O efeito desses batimentos é o de provocar a dor, produzir hesitações no caminhar e mesmo determinar quedas. A jovem enferma declarou-nos que a extensão do pé e a compressão exercida sobre certos pontos do pé e da perna bastam para detê-los, mas que, então, continua a sentir a dor e a fadiga no membro.
Quando essa interessante pessoa se nos apresentou, eis em que estado a encontramos: Ao nível do maléolo externo direito, foi fácil constatar, perto dessa saliência óssea, um batimento regular, acompanhado de uma saliência passageira e de um levantamento das partes moles dessa região, que eram seguidas de um ruído seco sucedendo a cada contração muscular. Esse ruído se fazia ouvir na cama, fora da cama e a uma distância bastante considerável do lugar onde a jovem repousava. Notável pela sua regularidade e seu estrépito, esse ruído a acompanhava por toda parte. Aplicando-se o ouvido sobre a perna, o pé ou sobre o maléolo, distinguia-se um choque incômodo que ganhava toda a largura do trajeto percorrido pelo músculo, absolutamente como um golpe transmitido de uma extremidade à outra de um madeiro. Algumas vezes, esse ruído parecia uma fricção, uma arranhadura, e isso quando as contrações tinham menor intensidade. Esses mesmos fenômenos sempre se reproduziram, quer a doente estivesse de pé, sentada ou deitada, qualquer que fosse a hora do dia ou da noite, quando nós a examinávamos.
Se estudarmos os batimentos produzidos, e se, para maior clareza, decompusermos cada batimento em dois tempos, veremos:
Que, no primeiro tempo, o tendão do curto perônio se desloca saindo da goleira e, necessariamente, levantando o longo perônio lateral e a pele;
Que, no segundo tempo, tendo se cumprido o fenômeno de contração, seu tendão se relaxa, se repõe na goleira, e produz, batendo contra esta, o ruído seco e sonoro do qual falamos.
Ele se renovava, por assim dizer, a cada segundo, e cada vez o pequeno dedo do pé sofria um impulso e a pele que recobria o quinto metatársico era levantada pelo tendão. Ele cessava quando o pé era fortemente estendido. Cessava, ainda, quando era exercida uma pressão sobre o músculo ou a bainha dos perônios.
Nestes últimos anos, os jornais franceses e estrangeiros têm falado muito de ruídos semelhantes a golpes de martelo, ora se sucedendo regularmente, ora tomando um ritmo particular, que se produziam ao redor de certas pessoas deitadas em seu leito.
Os charlatães se apossaram desses fenômenos singulares, cuja realidade, aliás, foi atestada por testemunhas dignas de fé. Tentou-se reportá-los a uma causa sobrenatural, e deles se serviram para explorar a credulidade pública.
A observação da senhorita X... mostra como, sob a influência da contração muscular, os tendões deslocados podem, no momento em que caem em suas goleiras ósseas, produzir batimentos que, para certas pessoas, anunciam a presença de Espíritos batedores.
Com o exercício, todo homem pode adquirir a faculdade de produzir, à vontade, semelhantes deslocamentos dos tendões e batimentos secos que são ouvidos à distância.
Repelindo toda idéia de intervenção sobrenatural e notando que esses batimentos, e esses ruídos se passavam sempre ao pé do leito dos indivíduos agitados pelos Espíritos, o senhor Schiff perguntou-se se a sede desses ruídos não estava neles, antes que fora deles. Seus conhecimentos anatômicos levaram-no a pensar que poderia bem estar na perna, na região peroneal, onde se acham colocados uma superfície óssea, tendões e uma corrediça comum.
Com essa maneira de ver, estando bem arraigada em seu espírito, fez experiências e ensaios sobre si mesmo, que não lhe permitiram duvidar que o ruído tinha a sua sede atrás do maléolo externo e na corrediça dos tendões peroneais.
Logo o senhor Schiff chegou mesmo a executar ruídos voluntários, regulares, harmoniosos, e pôde, diante de um grande número de pessoas (cerca de cinqüenta ouvintes), imitar os prodígios dos Espíritos batedores com ou sem sapato, de pé ou deitado.
O senhor Schiff estabeleceu que todos esses ruídos têm por origem o tendão do longo perônio, quando passa na goleira peroneal, e acrescentou que coexiste com um adelgaçamento, ou a ausência, da bainha comum ao longo e ao curto perônio. Quanto a nós, admitindo primeiro que todos esses batimentos são produzidos pela queda do tendão contra a superfície óssea peroneal, pensamos, entretanto, que não há necessidade de uma anomalia da bainha para deles se render conta. Bastam a contração do músculo, o deslocamento do tendão e seu retorno à goleira para que o ruído ocorra. Além disso, só o curto perônio é o agente do ruído em questão. Com efeito, ele assume uma direção mais direita que o longo perônio, que sofre vários desvios em seu trajeto; ele está profundamente situado na goteira; recobre inteiramente a goteira óssea, de onde é natural concluir que o ruído é produzido pelo choque desse tendão sobre as partes sólidas da goteira; apresenta fibras musculares até a entrada do tendão na goteira comum, ao passo que, para o longo perônio, é tudo ao contrário.
O ruído é variável em sua intensidade e pode-se, com efeito, distinguir-lhe diversas nuanças. Assim é que, depois do ruído estrepitoso e que se distingue ao longe, encontram-se variedades de ruído, de fricção, de serra, etc.
Pelo método subcutâneo, sucessivamente, fizemos incisão através do corpo do curto perônio lateral direito e do corpo, do mesmo músculo, do lado esquerdo em nossa doente, e mantivemos os membros na imobilidade com a ajuda de um aparelho. Fez-se a reunião e a função dos dois membros foi recuperada, sem nenhum sinal dessa singular e RARA afecção.
SENHOR VELPEAU. Os ruídos, dos quais o senhor Jobert acaba de tratar em sua interessante notícia, me parecem prenderem-se a uma questão bastante vasta. Observam-se, com efeito, esses ruídos, em grande quantidade de regiões. O quadril, a espádua, o lado interno do pé, muito freqüentemente, tornam-se sua sede. Eu vi, entre outras, uma senhora que, com a ajuda de certos movimentos de rotação da coxa, assim produzia uma espécie de música bastante manifesta para ser ouvida de um canto ao outro do salão. O tendão da parte longa do bíceps braquial engendra-o facilmente saindo de sua corrediça, quando os freios fibrosos, que o retêm naturalmente, venham a se relaxar ou romper-se. Ocorre o mesmo com o músculo superior da perna ou o flexor do grosso dedo do pé, atrás do maléolo interno. Tais ruídos se explicam, assim como o entenderam os senhores Schiff e Jobert, pela fricção ou os sobressaltos dos tendões nas ranhuras ou contra as bordas nas superfícies sinoviais. Conseqüentemente, são possíveis em uma infinidade de regiões ou na vizinhança de uma multidão de órgãos. Ora claros ou ruidosos, ora surdos ou obscuros, por vezes úmidos e de outras secos, variam, aliás, extremamente de intensidade.
Esperamos que o exemplo dado, a esse respeito, pelos senhores Schiff e Jobert venha a levar os fisiologistas a se ocuparem seriamente com esses diversos ruídos, e que darão, um dia, a explicação racional de fenômenos incompreendidos ou atribuídos, até aqui, a causas ocultas e sobrenaturais.
O senhor JULES CLOQUET, com o apoio das observações do senhor Velpeau sobre os ruídos anormais que os tendões podem produzir em diversas regiões do corpo, cita o exemplo de uma jovem de dezesseis a dezoito anos, que lhe foi apresentada no hospital Saint-Louis, numa época na qual os senhores Velpeau e Jobert estavam ligados a esse mesmo estabelecimento. O pai dessa jovem, que se intitulava pai de um fenômeno, espécie de saltimbanco, pretendia tirar proveito de sua filha entregando-a numa exibição pública; ele anunciou que sua filha tinha no ventre um movimento de pêndulo. Essa jovem estava perfeitamente conformada. Por um ligeiro movimento de rotação na região lombar da coluna vertebral, ela produzia estalidos muito fortes, mais ou menos regulares, segundo o ritmo dos ágeis movimentos que imprimia à parte inferior de seu busto. Esses ruídos anormais podiam ser ouvidos, muito distintamente, a mais de vinte e cinco pés de distância, e se assemelhavam ao ruído de um velho espeto de manivela; eram suspensos à vontade da jovem, e pareciam ter sua sede nos músculos da região lombo-dorsal da coluna vertebral." .
Esse artigo, tirado de a L’Abeille médicale, e que cremos dever transcrever na íntegra, para a edificação de nossos leitores, e a fim de que não nos acusassem de querer evitar alguns argumentos, foi reproduzido com variantes por diferentes jornais, com epítetos forçados. Não temos o hábito de revelar grosserias; deixamo-las à sua conta, dizendo-nos nosso vulgar bom senso que nada se prova com asneiras e injúrias, por sábio que se seja. Se o artigo em questão se limitasse a essas banalidades, que nem sempre são marcadas com o cunho da urbanidade e da civilidade, não as teríamos revelado; mas ele trata da questão do ponto de vista científico; ele nos acabrunha por demonstrações com as quais pretende nos pulverizar; vejamos, pois, decididamente, se estamos mortos com o decreto da Academia de ciências, ou bem se temos alguma chance de vivermos como esse pobre louco Fulton, cujo sistema foi declarado, pelo Instituto, um sonho oco, impraticável, o que muito simplesmente privou a França da iniciativa da marinha a vapor; e quem sabe quais as conseqüências que essa força, nas mãos de Napoleon l, poderia ter sobre os acontecimentos ulteriores!
Não faremos senão uma curtíssima nota a respeito da qualificação de charlatão dada aos partidários de idéias novas; parece-nos um tanto arriscada, quando se aplica a milhões de indivíduos que dela não tiram nenhum proveito* e quando ela alcança os cumes mais elevados das regiões sociais. Esquece-se que o Espiritismo fez, em alguns anos, progressos incríveis em todas as partes do mundo; que ele se propaga, não entre os ignorantes, mas nas classes esclarecidas; que conta, em suas fileiras, um número muito grande de médicos, de magistrados, de eclesiásticos, de artistas, de homens de letras, de altos funcionários: pessoas às quais, geralmente, se atribuem algumas luzes e um pouco de bom senso. Ora, confundi-las no mesmo anátema, e enviá-las sem cerimônia às Petites-Maisons, é agir muito insolentemente.
Mas, direis, aquelas pessoas são de boa fé; são vítimas de uma ilusão; não negamos o efeito, não contestamos senão a causa que lhe atribuís, a ciência vem de descobrir a verdadeira causa, fê-la conhecer e, por isso mesmo, fez desabar esse alicerce místico de um mundo invisível que pode seduzir imaginações exaltadas, mas fiéis.
Não nos apontamos como sábios, e ainda menos ousaríamos nos colocar ao nível de nossos honrosos adversários; diremos apenas que os nossos estudos em anatomia, e as ciências físicas e naturais que tivemos a honra de professar, nos permitem compreendermos sua teoria, e que de modo algum estamos aturdidos por essa avalanche de termos técnicos; os fenômenos dos quais eles falam nos são perfeitamente conhecidos. Nas nossas observações sobre os efeitos atribuídos aos seres invisíveis, não tivemos cautela de negligenciar uma causa tão patente de equívoco. Quando um fato se apresenta, não nos contentamos com uma única observação; queremos vê-lo de todos os lados, sob todas as faces, e antes de aceitarmos uma teoria, examinamos se ela rende conta de todas as circunstâncias, se algum fato desconhecido não vem contradizê-la, em uma palavra, se ela resolve todas as questões: a verdade tem esse preço. Admitis, senhores, que essa maneira de proceder é bastante lógica. Pois bem! Apesar de todo o respeito que impõe o vosso saber, ele apresenta algumas dificuldades na aplicação de vosso sistema a isso que se chama os Espíritos batedores. A primeira é que é ao menos singular que essa faculdade, que o senhor Jobert (de Lamballe) qualifica de rara e singular afecção, tenha se tornado de repente tão comum. O senhor Lamballe disse, é verdade, que todo homem pode adquiri-la pelo exercício; mas como ele disse também que ela é acompanhada de dor e de fadiga, o que é bastante natural, convir-se-á que seria necessário ter uma firme vontade de mistificar para fazer estalar seu músculo, durante duas ou três horas seguidas, quando isso não acrescenta nada, e pelo único prazer de divertir uma sociedade.
Mas falemos seriamente; isso é mais grave porque vem da ciência. Esses senhores que descobriram essa maravilhosa propriedade do músculo longo perônio, não desconfiam de tudo o que esse músculo pode fazer; ora, eis um belo problema para resolver. Os tendões deslocados não batem somente nas goleiras ósseas; por um efeito verdadeiramente bizarro, vão bater contra as portas, as paredes, os tetos, e isso à vontade, em tal lugar designado. Mas eis o que é mais forte, e vede quanto a ciência está longe de desconfiar de todas as virtudes desse músculo estalador: ele tem o poder de levantar uma mesa sem tocá-la, de fazê-la bater os pés, passear num aposento, manter-se no espaço sem ponto de apoio; de abri-la e de fechá-la, e avaliai sua a força! de fazê-la quebrar ao cair. Credes que se trata de uma mesa frágil e leve como uma pluma, e que se ergue soprando em cima? Desenganai-vos, trata-se de mesas pesadas e maciças, pesando cinqüenta a sessenta quilos, que obedecem às mocinhas, às crianças. Mas, dirá o senhor Schiff, jamais vi esses prodígios. Isso é fácil de conceber, ele não quis ver senão as pernas.
Em suas observações, o senhor Schif empregou a necessária independência de idéias? Estava livre de toda prevenção? Disso é permitido duvidar, não somos nós que o dizemos, é senhor Jobert. Segundo ele, o senhor Schif perguntou-se, falando dos médiuns, se a sede desses ruídos não estava antes neles do que fora deles; seus conhecimentos anatômicos levaram-no a pensar que bem poderia estar na perna. Essa maneira de ver estava bem assentada em seu espírito, etc. Assim, da declaração do senhor Jobert, o senhor Schiff tomou por ponto de partida, não os fatos, mas sua própria idéia, sua idéia preconcebida bem assentada; daí as pesquisas em um sentido exclusivo e, por conseqüência, uma teoria exclusiva que explica perfeitamente o fato que ele viu, mas não aqueles que não viu. - E por que não viu? -Porque, em seu pensamento, ele não tinha senão um ponto de partida verdadeiro, e uma explicação verdadeira; partindo daí, todo o resto deveria ser falso e não mereceria exame; disso resultou que, em seu ardor de rachar os médiuns ao meio, ele a feriu de lado.
Credes, Senhores, conhecer todas as virtudes do longo perônio, porque o surprendestes tocando guitarra em sua corrediça? Ah! bem que sim, eis outra coisa a ser registrada nos anais anatômicos. Crestes que o cérebro era a sede do pensamento; errado! Pode-se pensar pela cravelha. As pancadas dão provas de inteligência, portanto, se esses golpes vêm exclusivamente do perônio, que seja o longo, segundo o senhor Schiff, ou o curto, segundo o senhor Jobert, (seria preciso, portanto, entender-se bem a esse respeito): é porque o perônio é inteligente. - Isso nada tem de espantoso; o médium, fazendo estalar seu músculo à vontade, executará o que quiserdes: ele imitará a serra, o martelo, baterá o toque de reunir, o ritmo de uma música pedida. - Seja; mas quando o ruído responde a uma coisa que o médium desconhece inteiramente, que não pode saber; quando vos diz esses pequenos segredos que só vós sabeis, desses segredos que se gostaria de esconder no gorro de dormir, é preciso convir que o pensamento vem de outra parte que não o seu cérebro. De onde vem ele? Por Deus! Do longo perônio. Isso não é tudo, ele é também poeta, esse longo perônio, porque pode compor versos encantadores, embora o médium jamais soubesse fazê-los em sua vida; ele é poliglota, porque dita coisas verdadeiramente muito sensatas em línguas das quais o médium não sabe a primeira palavra; ele é músico... nós o sabemos, o senhor Schiff fez o seu executar sons harmoniosos, com ou sem sapato, diante de cinqüenta pessoas. Sim; mas ele compõe. Vós, senhor Dorgeval, que nos destes recentemente uma encantadora sonata, credes ingenuamente que foi o Espírito de Mozart que vo-la ditou? Em verdade, senhores médiuns, não desconfiáveis de terem tanto espírito em vosso calcanhar. Honra, pois, àqueles que fizeram essa descoberta; que seus nomes sejam escritos em letras grandes para a edificação da posteridade, e a honra de sua memória!
Gracejais com uma coisa séria, dir-se-á; mas os gracejos não são razões. Não, não mais que as asneiras e as grosserias.
Confessando nossa ignorância junto desses senhores, aceitamos sua sábia demonstração e a tomamos muito seriamente. Acreditávamos que certos fenômenos eram produzidos por seres invisíveis que se deram o nome de Espíritos: enganamo-nos, seja; como procuramos a verdade, não teremos a tola pretensão de nos apaixonar por uma idéia que nos é demonstrada falsa, de modo tão peremptório. Desde o momento em que o senha Jobert, por uma incisão subcutânea, pôs termo aos Espíritos, é porque não há Espíritos. Uma vez que ele disse que todos os ruídos vêm do perônio, é necessário crê-lo e admiti-lo em todas as suas conseqüências; assim, quando os golpes se fazem ouvir na parede ou no teto, é porque o perônio aí corresponde, ou que a parede tem um perônio; quando esses golpes ditam versos por uma mesa que bate o pé, de duas coisas uma, ou a mesa é poeta ou bem o perônio; isso nos parece lógico. Vamos mesmo mais longe: um oficial, dos nossos conhecidos, recebeu um dia, fazendo experiências espíritas, e por mão invisível, um par de bofetadas tão bem aplicadas que as sentia ainda duas horas depois. Ora, o meio de provocar uma reparação? Se semelhante coisa ocorresse com o senhor Jobert, ele não se inquietaria, porque diria que foi fustigado pelo longo perônio.
Eis o que lemos, a esse respeito, no jornal La Mode de 19 de maio de 1859.
"A Academia de medicina continua a cruzada de espíritos positivos contra o maravilhoso em todo gênero. Depois de ter, com justiça, mas talvez um pouco desastradamente, fulminado o famoso doutor negro, pelo órgão do senhor Velpeau, eis agora que acaba de ouvir o senhor Jobert (de Lamballe) declarar, em pleno Instituto, o segredo do que ele chama a grande comédia dos Espíritos batedores, que é representada com tanto sucesso nos dois hemisférios.
"Segundo o célebre cirurgião, todos os toe toe, todos os pan pan fazendo vibrar de boa fé as pessoas que os ouvem; esses ruídos singulares, esses golpes secos batidos sucessivamente e como em cadência, precursores da chegada, sinais certos da presença de habitantes do outro mundo, são muito simplesmente o resultado de um movimento dado a um músculo, a um nervo, a um tendão! Trata-se de uma bizarrice da natureza, habilmente explorada, para produzir, sem que seja possível notá-la, essa música misteriosa que tem encantado, seduzido tanta gente.
"A sede da orquestra está colocada na perna, É o tendão do perônio, jogando em sua corrediça, que faz todos esses ruídos que são ouvidos sob as mesas, ou à distância, à vontade do prestidigitador.
"Duvido muito, de minha parte, que o senhor Jobert tenha colocado a mão, como ele crê, no segredo do que chama "uma comédia", e os artigos publicados nesse próprio jornal, pelo nosso confrade senhor Escander, sobre os mistérios do mundo oculto, parece-me colocar a questão com uma amplitude bem mais sincera e filosófica, no bom sentido da palavra.
"Mas se os chariatães de todas as cores são irritantes com seus golpes de bombo, é preciso convir que os senhores sábios, algumas vezes, não o são menos, com o apagador que pretendem pôr sobre tudo o que brilha fora das luzes oficiais.
"Eles não compreendem que a sede do maravilhoso, que devora nossa época, tem justamente por causa os excessos de positivismo onde certos espíritos quiseram empolgar. A alma humana tem necessidade de crer, admirar e ter visto sobre o infinito. Tem-se trabalhado para tapar as janelas que o catolicismo lhe abriu, ela olha não importa por quais frestas."
HENRYDEPÈNE.
"Nosso excelente amigo, senhor Henry de Pene, permita-nos uma observação. Ignoramos quando o senhor Jobert fez essa imortal descoberta, e qual foi o dia memorável no qual comunicou-a ao Instituto. O que sabemos é que essa original explicação já fora dada por outros. Em 1854, o senhor doutor Rayer, um prático célebre, que lá não fez nesse dia a prova de uma rara perspicácia, também ele apresentou, ao Instituto, um Alemão cuja habilidade, segundo ele, daria a chave de todos os knokings e rappings dos dois mundos. Tratava-se, como hoje, do deslocamento de um dos tendões musculares da perna, chamado o longo perônio. Sua demonstração foi dada em sessão, e a Academia expressou seu reconhecimento por essa interessante comunicação. Alguns dias depois, um professor agregado da Faculdade de medicina consignou o fato no Contitutionnel, e teve a coragem de acrescentar que "os sábios, enfim, tendo se pronunciado, o mistério estava enfim esclarecido". O que não impediu o mistério de persistir e de aumentar, apesar da ciência que, se recusando experimentá-lo, se contenta em atacá-lo com explicações ridículas e burlescas, como essas das quais acabamos de falar. Por respeito ao senhor Jobert (de Lamballe), nos apraz crer que se lhe emprestou uma experiência que nunca lhe pertenceu. Algum jornal, com fito de novidade, encontrou em algum canto esquecido de sua pasta, a antiga comunicação do senhor Rayer, e a ressuscitou, colocando-a sob seu patrocínio, a fim de variar um pouco. Mutato nomine, de te fábula narratur. É deplorável, sem dúvida, mas isso é melhor do que se o jornal houvesse dito a verdade."
A. ESCANDE
(pp. 141-149).
Resposta à réplica do senhor abade Chesnel, em l'Univers
julho de 1859
O jornal L'Univers inseriu, em seu número do dia 28 de maio último, a resposta que demos ao artigo do senhor abade Chesnel sobre o Espiritismo, e fê-la seguir de uma réplica deste último. Esse segundo artigo, reproduzindo todos os argumentos do primeiro, menos a urbanidade das formas a qual todo o mundo estava pronto a render justiça, não poderíamos respondê-la senão repetindo o que já dissemos, o que nos parece completamente inútil. O senhor abade Chesnel se esforça sempre por provar que o Espiritismo é, deve ser e não pode ser senão uma religião nova, porque dele decorre uma filosofia, e que se ocupa da constituição física e moral dos mundos. Nessa conta, todas as filosofias seriam religiões. Ora, como os sistemas são muitos e todos têm partidários mais ou menos numerosos, estreitaria singularmente o círculo do catolicismo. Não sabemos até que ponto é imprudente e perigoso emitir uma tal doutrina; porque é proclamar uma cisão que não existe; ao menos dar-lhe a idéia. Vede um pouco a que conseqüência chegaríeis. Quando a ciência veio contestar o sentido do texto bíblico dos seis dias da criação, criou-se-lhe o anátema, disse-se que era atacar a religião; hoje, quando os fatos deram razão à ciência, quando não há mais meios de contestá-los senão negando a luz, a Igreja se pôs de acordo com a ciência. Suponhamos que então se dissesse que essa teoria científica era uma religião nova, uma seita, que ela apareceu em contradição com os livros sacros, que ela derrubava uma interpretação dada há séculos, disso resultaria que não se poderia ser católico e adotar essas idéias novas. Pensai, pois, a que se reduziria o número dos católicos, se fossem suprimidos todos aqueles que não crêem que Deus fez a Terra em seis vezes vinte e quatro horas!
Ocorre o mesmo com o Espiritismo; se o olhais como uma religião nova, é porque aos vossos olhos ele não é católico. Ora, segui bem o meu raciocínio: De duas coisas uma: ou é uma realidade, ou é uma utopia. Se for uma utopia, não há com que preocupar-se com ele, porque cairá por si mesmo; se for uma realidade, todos os raios não impedi-lo-ão de sê-lo, tanto quanto não impediram outrora à Terra de girar. Se há verdadeiramente um mundo invisível que nos cerca, se se pode comunicar com esse mundo e dele obter notícias sobre o estado daqueles que o habitam, e todo o Espiritismo está aí dentro, logo isso parecerá tão natural quanto ver o Sol em pleno meio-dia ou encontrar milhares de seres vivos e invisíveis em uma límpida gota d'água; essa crença se tornará tão vulgar, que vós mesmos sereis forçados em vos render à evidência. Se, aos vossos olhos, essa crença é uma religião nova, ela está fora do catolicismo; porque não pode ser, ao mesmo tempo, a religião católica e uma religião nova. Se, pela força das coisas e da evidência, ela se tornar geral, e não poderá ser de outro modo se for uma das leis da Natureza, do vosso ponto de vista não haverá mais católicos, e vós mesmos não sereis mais católicos, porque sereis forçados a fazê-lo como todo o mundo. Eis, senhor abade, o terreno sobre o qual nos arrasta a vossa doutrina, e ela é tão absoluta que me agraciais já com o título de grande sacerdote dessa religião, honra da qual, verdadeiramente, pouco desconfiava. Mas ides mais longe: segundo vós, todos os médiuns são os sacerdotes dessa religião. Aqui vos detenho em nome da lógica. Até o presente, pareceu-me que as funções sacerdotais eram facultativas, que não se era sacerdote senão por um ato de própria vontade, que se não o era, apesar dela e em virtude de uma faculdade natural. Ora, a faculdade dos médiuns é uma faculdade natural que se prende à organização, como a faculdade sonambúlica; que não requer nem sexo, nem idade, nem instrução, uma vez que é encontrada nas crianças, nas mulheres e nos velhos, entre os sábios como entre os ignorantes. Compreender-se-ia que moços e jovens fossem sacerdotes e sacerdotisas sem o querer e sem o saber? Em verdade, senhor abade, é abusar do direito de interpretar as palavras. O Espiritismo, como eu disse, está fora de todas as crenças dogmáticas, com as quais não se preocupa; não o consideramos senão como uma ciência filosófica, que nos explica uma multidão de coisas que não compreendemos, e, por isso mesmo, em lugar de abafar em nós as idéias religiosas, como certas filosofias, fá-las nascer naqueles em que elas não existem; mas se quereis, por toda a força, elevá-lo à categoria de uma religião, vós mesmos o empurrais para um caminho novo. É o que compreendem perfeitamente muitos eclesiásticos que, longe de produzir o cisma, se esforçam em conciliar as coisas, em virtude desse raciocínio: se as manifestações do mundo invisível ocorrem, isso não pode ser senão pela vontade de Deus, e não podemos ir contra a sua vontade, a menos que digamos que, no mundo, qualquer coisa pode ocorrer sem a sua permissão, o que seria uma impiedade. Se tivesse a honra de ser sacerdote, disso me serviria em favor da religião; faria dela uma arma contra a incredulidade, e diria aos materialistas e aos ateus: Pedis prova? Essas provas, eis-las aqui: é Deus que as envia.
(pp. 191-192).
Resposta ao Senhor Oscar Comettant
dezembro de 1859
Senhor,
Consagrastes o folhetim do Siècle do dia 27 de outubro último aos Espíritos e aos seus partidários. Apesar do ridículo que lançastes sobre uma questão muito mais grave do que pensais, apraz-me reconhecer que, atacando o Espiritismo, salvaguardais as conveniências pela urbanidade das formas, e que é impossível dizer às pessoas, com mais polidez, que elas não têm o senso comum; também guardo-me de confundir o vosso espiritual artigo com essas diatribes grosseiras que dão uma tão triste idéia do bom gosto de seus autores, e aos quais todas as pessoas que conhecem as regras da civilidade, partidárias ou não, fazem justiça.
Não tenho por hábito responder à crítica; portanto, teria deixado passar o vosso artigo, como tantos outros, se não fora encarregado pelos Espíritos, primeiro de vos agradecer por querer vos ocupar deles, em seguida para dar-vos um pequeno aviso. Concebei, senhor, que de mim mesmo, eu não mo permitiria; cumpro sua incumbência, eis tudo. - Como! Direis, os Espíritos se ocupam, pois, com o folhetim que escrevi sobre eles? São muito bondosos. -Seguramente, uma vez que estavam ao vosso lado quando escrevíeis. Um deles, que vos quer bem, procurou mesmo impedir-vos de colocar certas reflexões que não se acham à altura da vossa sagacidade, temendo a crítica para vós, não dos Espíritas, com os quais pouco vos importais, mas daqueles que conhecem a importância do vosso julgamento. Sabei bem que eles estão por toda parte, sabem tudo o que se diz e o que se faz e neste momento, em que ledes estas linhas, estão aí, ao vosso lado, observando-vos. Em vão vos esforçaríeis em dizer: Não posso crer na existência desses seres que povoam o espaço e que não são vistos. Credes no ar que não vedes e que, entretanto, vos envolve? Isto é bem diferente; creio no ar, porque, se não o vejo, eu o sinto, eu o ouço ribombar na tempestade e no tubo de minha chaminé; vejo os objetos que ele derruba. - Pois bem! Os Espíritos também se fazem ouvir; também eles fazem mover os corpos pesados, erguem-nos, transportam-nos, quebram-nos. - Apelemos, pois, Senhor Allan Kardec, à vossa razão; como quereis que seres impalpáveis, supondo que existam, o que não admitirei senão quando os veja, tenham esse poder? Como seres imateriais podem agir sobre a matéria? Isso não é racional. - Credes nas existências dessas miríades de animálculos que estão na vossa mão e dos quais a ponta de uma agulha pode cobrir milhares? - Sim, porque se não os vejo com os olhos, o microscópio faz-me vê-los. - Mas, antes da invenção do microscópio, se alguém vos dissesse que tendes sobre a vossa pele bilhões de insetos que aí pululam; que uma gota d'água límpida encerra toda uma população; que deles absorveis massas com o ar mais puro que respirais, que diríeis? Ao absurdo, teríeis gritado, e se, então, fosseis folhetinista não deixaríeis de escrever um belo artigo sobre os animálculos, o que não impedira que existissem. Hoje o admitis porque o fato é patente; mas antes, declararíeis a coisa impossível. O que há, pois, de irracional em crer que o espaço esteja povoado por seres inteligentes, que, embora invisíveis, não estejam em todos os microscópios? Quanto a mim, confesso que a idéia de seres pequenos, como uma parcela homeopática, e todavia providos de órgãos visuais, sensuais, circulatórios, respiratórios, etc., me parece ainda mais extraordinária. - Convenho com isso, mas ainda uma vez são seres materiais, são alguma coisa, ao passo que os vossos Espíritos o que são? Nada, seres abstratos, imateriais. - Primeiro, quem vos disse que são imateriais? A observação, pesai bem, eu vos peço, essa palavra observação não quer dizer sistema; a observação, digo eu, demonstra que essas inteligências ocultas têm um corpo, um envoltório, invisível, é verdade, mas que não é por isso menos real; ora, é por esse intermediário semi-material que eles agem sobre a matéria. Não há senão os corpos sólidos que tenham uma força motriz? Ao contrário, não são os corpos rarefeitos que possuem essa força em mais alto grau: o ar, o vapor, todos os gases, a eletricidade? Por que, pois, a recusais à substância que compõe o envoltório dos Espíritos? - De acordo; mas se essas substâncias são invisíveis e impalpáveis em certos casos, a condensação pode tomá-las visíveis e mesmo sólidas; pode-se agarrá-las, encerrá-las, analisá-las, e por aí sua existência é demonstrada de modo irrecusável. - Ah! Aí chegamos! Negais os Espíritos porque não podeis colocá-los num cornífero, saber se são compostos de oxigênio, de hidrogênio ou nitrogênio. Dizei-me, eu vos peço, se antes das descobertas da química moderna conhecia-se a composição do ar, da água, e as propriedades dessa multidão de corpos invisíveis, dos quais não supúnhamos a existência? O que se teria dito, então, àquele que anunciasse todas as maravilhas que hoje admiramos? Seria tratado de charlatão, de visionário. Supondo que vos caia nas mãos um livro de um sábio daquele tempo, que tivesse negado todas essas coisas, e que, além do mais, procurasse demonstrar-lhes a impossibilidade, diríeis: Eis um sábio bem presunçoso, que se pronunciou muito levianamente tratando sobre o que não sabia; melhor seria para sua reputação que se abstivesse; em uma palavra, não teríeis uma alta opinião de seu julgamento. Pois bem! Veremos em alguns anos o que se pensará daqueles que, hoje, procuram demonstrar que o Espiritismo é uma quimera.
É lamentável, sem dúvida, para certas pessoas, e os apreciadores de coleções, que não se possa colocar os Espíritos dentro de um frasco para observá-los à vontade; mas não credes, entretanto, que eles escapem aos nossos sentidos de um modo absoluto. Se a substância que compõe seu envoltório é invisível em seu estado normal, ela pode também, em certos casos, como o vapor, mas por uma outra causa, sofrer uma espécie de condensação, ou, para ser exato, uma modificação molecular que a torna momentaneamente visível e mesmo tangível; então, podem ser vistos, como nós nos vemos, tocá-los, apalpá-los; eles podem nos agarrar, impressionar sobre nossos membros; somente esse estado não é senão temporário; podem deixá-lo tão prontamente como o tomaram, e isso, não em virtude de uma rarefação mecânica, mas pelo efeito de sua vontade, tendo em vista que são seres inteligentes, e não corpos inertes. Se a existência dos seres inteligentes que povoam o espaço está provada; se têm, como acabamos de ver, uma ação sobre a matéria, o que há de espantoso em que possam se comunicar conosco, e transmitir-nos os seus pensamentos através de meios materiais? - Se a existência desses seres está provada, seja; mas aí está a questão. – O importante, primeiro, é provar sua possibilidade: a experiência fará o resto. Se essa existência não está provada para vós, o está para mim. Eu vos entendo aqui dizer para vós mesmos: Eis um argumento muito pobre. Convenho que minha opinião pessoal é de um peso muito fraco, mas não estou só; muitos outros, antes de mim, pensaram do mesmo modo, porque nem inventei, nem descobri os Espíritos; e essa crença conta milhões de adeptos que têm tanta ou mais inteligência do que eu; entre aqueles que crêem e aqueles que não crêem, o que decidirá? - O bom senso, direis. - Seja; eu acrescento: O tempo que, cada dia, vem em nossa ajuda. Mas com qual direito aqueles que não crêem se arrogam o privilégio do bom senso quando, sobretudo, aqueles que crêem se recrutam precisa mente, não entre os ignorantes, mas entre as pessoas esclarecidas; quando, todos os dias, o número deles cresce? Eu o julgo pela minha correspondência, pelo número de estrangeiros que vêm me ver, pela extensão do meu jornal, que cumpre seu segundo ano, e conta com assinantes das cinco partes do mundo, nas classes mais elevadas da sociedade, e até nos tronos. Dizei-me, conscientemente, se é a marcha de uma idéia oca, de uma utopia?
Constatando esse fato capital em vosso artigo, dissestes que ele ameaça tomar proporções de um flagelo, e acrescentais: "A espécie humana não tinha bastante, bom Deus! De todas as coisas vãs que perturbam sua razão, sem que uma nova doutrina viesse agora se apossar de nosso pobre cérebro!" Parece que não amais as doutrinas; cada um com seu gosto; todo o mundo não gosta da mesma coisa; somente direi que não sei muito a qual papel intelectual o homem seria reduzido se, desde que está sobre a Terra, não tivesse doutrinas que, fazendo-o refletir, o tirasse do estado passivo da brutalidade. Sem dúvida, há as boas e más, justas e falsas, mas é para discerni-las que Deus lhe deu o julgamento. Esquecestes uma coisa, a definição clara e categórica do que alinhais entre as coisas vãs. Há pessoas que assim qualificam todas as idéias que não partilham; mas tendes muito espírito para crer que está condensada só em vós. Há outros que dão esse nome a toda opinião religiosa, e que consideram a crença em Deus, na alma e na sua imortalidade, nas penas e nas recompensas futuras, no máximo, como úteis para se ocuparem as velhas e meter medo às crianças. Não conheço a vossa opinião a esse respeito; mas do sentido do vosso artigo algumas pessoas poderiam inferir que estais um pouco nessas idéias. Que as partilhais ou não, eu me permitiria dizer-vos, com muitas outras, que aí estaria o verdadeiro flagelo se elas se propagassem. Com o materialismo, com a crença que morremos como os animais, que depois de nós será o nada, o bem não teria nenhuma razão de ser, os laços sociais não têm nenhuma consistência - é a sanção do egoísmo; a lei penal é o único freio que impede o homem de viver às expensas de outrem. Se assim fora, com que direito punir aquele que mata seu semelhante por se apoderar de seu bem? Porque é mal, direis; mas por que é mal? Ele vos responderá: depois de mim nada mais haverá; tudo estará terminado; nada tenho a temer; quero viver aqui o melhor possível, e para isso eu tomo daqueles que têm; quem me acusa? A vossa lei? A vossa lei terá razão se ela for mais forte, quer dizer, se ela me apanhar; mas se eu for o mais astuto, e se lhe escapo, a razão estará comigo. Qual é, vos pergunto, a sociedade que poderia subsistir com semelhantes princípios? Isso me lembra o fato seguinte: Um senhor que, como se diz vulgarmente, não acreditava nem Deus e nem no diabo, e não o escondia, percebeu que, há algum tempo, era roubado por seu empregado doméstico; um dia surpreendeu-o em flagrante delito. - Como, infeliz! disse-lhe, ousas tomar o que não te pertence? Tu não crês em Deus? - O doméstico se pôs a rir e respondeu: Por que eu creria, uma vez que vós mesmo não credes? Por que tendes mais do que eu? Se eu fosse rico e vós pobre, quem vos impediria de fazer o que fiz? Fui inábil esta vez, eis tudo, numa outra vez tratarei de fazer melhor. - Esse senhor ficou muito contente que seu doméstico não tomou a crença em Deus por uma coisa vã. É a essa crença, e àquelas que dela decorrem, que o homem deve sua verdadeira segurança social, bem mais que à severidade da lei, porque a lei não pode tudo alcançar; se estivesse enraizada no coração de todos, uns dos outros nada teriam a temer; atacá-la vivamente, seria abandonar-se a todas as paixões, aniquilar todo escrúpulo. Foi o que, recentemente, levou um sacerdote a dizer, consultado sobre sua opinião a respeito do Espiritismo, essas palavras cheias de sentido: O Espiritismo conduz a crer em alguma coisa; ora, gosto mais daqueles que crêem em alguma coisa do que daqueles que não crêem em nada, porque as pessoas que não crêem em nada não crêem mesmo na necessidade do bem.
O Espiritismo, com efeito, é a destruição do materialismo; é prova patente, irrecusável, do que certas pessoas chamam de coisas vãs, a saber Deus, a alma, a vida futura feliz ou infeliz. Esse flagelo, pois assim o chamais, tem outras conseqüências práticas. Se soubesses, como eu, quantas vezes fez voltar a calma nos corações ulcerados pelos desgostos; que doce consolação derrama sobre as misérias da vida; quanto acalmou de ódios, impediu de suicídios, deles zombaríeis menos. Suponde que um de vossos amigos venha vos dizer Estava desesperado; ia estourar os miolos; mas hoje que, graças ao Espiritismo, sei o que isso custa, renuncio; que um outro indivíduo vos diga: Tinha inveja de vosso mérito, de vossa superioridade; vossos sucessos me impediam de dormir; queria vingar-me, vos oprimir, vos arruinar, matar-vos mesmo, vos confesso que correstes grandes perigos; mas hoje que sou Espírita, compreendo o quanto esses sentimentos são ignóbeis, eu os abjuro; e, em lugar de vos fazer mal, eu venho para vos prestar serviço; dir-vos-ia provavelmente: Pois bem! Ainda há algo de bom nessa loucura.
O que vos digo, senhor, não é para vos convencer nem para vos conduzir às minhas idéias; tendes convicções que vos satisfazem, que para vós resolvem todas as questões do futuro: é muito natural que vós as guardeis; mas me apresentais, aos vossos leitores, como o propagador de um flagelo, e devo mostrar-lhes que seria desejável que todos os flagelos não acabassem mais mal, a começar do materialismo, e conto com a vossa imparcialidade para transmitir-lhes a minha resposta.
Mas, direis, não sou materialista' pode-se muito bem não ser dessa opinião sem crer nas manifestações dos Espíritos. - Sou da vossa opinião; então, ou se é Espiritualista, se não Espírita. Se me enganei sobre a vossa maneira de ver, é que tomei ao pé da letra a vossa profissão de fé, colocada no fim do vosso artigo. Dissestes: creio em duas coisas, no amor, no homem, em tudo que é maravilhoso, fosse esse maravilhoso absurdo, e no editor que me vendeu o fragmento de sonata ditado pelo Espírito de Mozart, por dois francos, preço liquido. Se aí se limita toda a vossa crença, ela é bem, isso me parece, a prima germânica do ceticismo. Mas aposto que credes em alguma coisa a mais que no senhor Ledoyen, que vos vendeu por dois francos um fragmento de sonata: é ao produto de vossos artigos, porque presumo, e talvez me engane, que não lhes dais mais por amor a Deus que o senhor Ledoyen não dá a seus livros. Cada um no seu ofício: o senhor Ledoyen vende seus livros, o literato vende sua prosa e seus versos. Nosso pobre mundo não está ainda bastante avançado para que não se possa morar, alimentar-se e vestir-se por nada. Talvez, um dia, os proprietários, os alfaiates, os açougueiros e os padeiros estarão bastante esclarecidos para compreender que é ignóbil a eles pedir o dinheiro: então os livreiros e os literatos serão arrastados pelo exemplo.
- Com tudo isso, não me dissestes o conselho que dão os Espíritos. - Ei-lo: Que é prudente não se pronunciar, muito levianamente, sobre as coisas que não se conhece, e imitar a sábia reserva do prudente Arago, que dizia, a propósito do magnetismo animal: "Eu não poderia aprovar o mistério com o qual se envolvem os sábios sérios que hoje vão assistir às experiências de sonambulismo. A dúvida é uma prova de modéstia, e raramente prejudicou o progresso das ciências. Não se poderia dizer outro tanto da incredulidade. Aquele que, fora das matemáticas puras, pronuncia a palavra IMPOSSÍVEL, não é prudente. A reserva é, sobretudo, um dever quando se trata da organização animal. (Notícia sobre Bailly.)
Aceitai, etc. Allan Kardec.
(pp. 309-314).
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