Refutações de Kardec – Revista Espírita 1862

 

 

 

Do sobrenatural

O Espiritismo é provado por milagres?

Os ataques contra a idéia nova

Resposta de uma senhora a um eclesiástico sobre o Espiritismo

Eis como se escreve a história!

Conferências do Sr. Trousseau, Professor da Faculdade de Medicina

Carta do Sr. Jean Reynaud ao Journal dês Débats

Carta ao Journal de Saint-Jean d'Angély

Carta a um pregador, pelo Sr. Dombre

O Espiritismo numa distribuição de prêmio

Perseguições

Resposta ao Abeille agenaise, pelo Sr. Dombre

O Espiritismo e o espírito maligno

O Espiritismo em Rochefort

O Espiritismo é possível?

Resposta a um senhor de Bordeaux

 

 

 

 

 

 

Do sobrenatural

janeiro de 1862

 

Pelo Sr. Guizot.

 

(2° artigo. - Ver o número de dezembro de 1861.)

 

Publicamos, no nosso último número, eloqüente e notável capítulo do Sr. Guizot sobre o Sobrenatural, e a respeito do qual nos propusemos fazer algumas notas críticas, que não tiram nada de nossa admiração pelo ilustre e sábio escritor.

O Sr. Guizot crê no sobrenatural; sobre esse ponto, como sobre muitos outros, importa se entender bem sobre as palavras. Na sua acepção própria, sobrenatural significa o que está acima da Natureza, fora das leis da Natureza. O sobrenatural, propriamente dito, não está, pois, submetido a leis; é uma exceção, uma derrogação às leis que regem a criação; em uma palavra, é sinônimo de milagre. Do sentido próprio, essas duas palavras passaram na linguagem figurada, onde delas se servem para designar tudo o que é extraordinário, surpreendente, insólito; diz-se de uma coisa que espanta que ela é miraculosa, como se diz de uma grande extensão que ela é incomensurável, de um grande número que ele é incalculável, de uma longa duração que ela é eterna, embora, a rigor, possa-se medir uma, calcular outra, e prever um fim à ultima. Pela mesma razão, qualifica-se de sobrenatural o que, à primeira vista, parece sair dos limites do possível. O vulgo ignorante é sobretudo muito levado a tomar esta palavra ao da letra, para o que não compreende. Entendendo-se por o que se afasta das causas conhecidas, nós o queremos muito, mas então essa palavra não tem mais sentido preciso, porque o que era sobrenatural ontem não o é mais hoje. Quantas coisas, consideradas outrora como tais, a ciência não fez entrar no domínio das leis naturais! Por alguns progressos que fizemos, podemos nos gabar de conhecer todos os segredos de Deus? A Natureza nos disse sua última palavra sobre todas as coisas? Cada dia não vem dar um desmentido a essa orgulhosa pretensão? Se, pois, o que era sobrenatural ontem não o é mais hoje, pode-se logicamente inferir que o que é sobrenatural hoje pode não sê-lo amanhã. Para nós, tomamos a palavra sobrenatural no seu mais absoluto sentido próprio, isto é, para designar todo fenômeno contrário às leis da Natureza. Ó caráter do fato sobrenatural, ou miraculoso, é de ser excepcional; desde que se reproduz, é que está submetido a uma lei conhecida ou desconhecida, e reentra na ordem geral.

Se se restringe a Natureza ao mundo material, visível, é evidente que as coisas do mundo invisível serão sobrenaturais; mas o mundo invisível estando, ele mesmo, submetido a leis, cremos mais lógico definir a Natureza: O conjunto das obras da criação, regidas por leis imutáveis da Divindade. Se, como o Espiritismo demonstra, o mundo invisível é uma das forças, uma das potências reagindo sobre a matéria, desempenha um papel importante na Natureza, é porque os fenômenos espíritas não são, para nós, nem sobrenaturais, nem miraculosos; de onde se que o Espiritismo, longe de ser o círculo do maravilhoso, tende a restringi-lo e mesmo a fazê-lo desaparecer.

O Sr. Guizot, dissemos, crê no sobrenatural, mas no sentido miraculoso, o que não implica, de nenhum modo, a crença nos Espíritos e em suas manifestações; ora, do fato que, para nós, os fenômenos espíritas nada têm de anormal, não se segue que Deus não haja podido, em certos casos, derrogar as suas leis, uma vez que é todo-poderoso. Tê-lo-ia feito? Não é aqui o lugar de examiná-lo; seria preciso, para isso, discutir não o princípio mas cada fato isoladamente; ora, colocando-nos no ponto de vista do Sr. Guizot, quer dizer, da realidade dos fatos miraculosos, vamos tentar combater a conseqüência que disso tira, a saber que: a religião não é possível sem o sobrenatural, e provar ao contrário que de seu sistema decorre o aniquilamento da religião.

O Sr. Guizot parte deste princípio de que todas as religiões são fundadas sobre o sobrenatural. Isso é verdadeiro se se entende por o que não é compreendido; mas se se remonta o estado dos conhecimentos humanos, à época da fundação de todas as religiões conhecidas, sabe-se o quanto era, então, limitado o saber dos homens em astronomia, em física, em química, em geologia, em fisiologia, etc.; se nos tempos modernos, bom número de fenômenos hoje perfeitamente conhecidos e explicados, passaram por maravilhosos, com mais forte razão deveria ser assim nos tempos recuados. Acrescentemos que a linguagem figurada, simbólica e alegórica, em uso entre todos os povos do Oriente, se prestava naturalmente às ficções, cuja ignorância não permitia descobrir o verdadeiro sentido; acrescentemos ainda que, os fundadores das religiões, homens superiores ao vulgo, e sabendo mais do que ele, deveram, para impressionar as massas, cercar-se de um prestígio sobre-humano, e que certos ambiciosos puderam explorar a credulidade: vede Numa; vede Maomé e tantos outros. São impostores, direis. Seja; tomemos as religiões resultantes da lei mosaica; todas adotam a criação segundo o Gênesis; ora, há, com efeito, alguma coisa de mais sobrenatural do que essa formação da Terra, tirada do nada, desembaraçada do caos, povoada de todos os seres vivos, homens, animais e plantas, todos formados e adultos, e isso em seis dias de vinte e quatro horas, como um golpe de varinha mágica? Não é a derrogação, a mais formal, às leis que regem a matéria e a progressão dos seres? Certamente, Deus poderia fazer; mas o fez? Há poucos anos ainda, afirmava-se-o como um artigo de , e eis que a ciência recoloca o fato imenso da origem do mundo na ordem dos fatos naturais, provando que tudo se cumpriu segundo leis eternas. A religião sofreu por não ter mais por base um fato maravilhoso por excelência? Incontestavelmente, teria sofrido muito em seu crédito se ela obstinasse em negar a evidência, ao passo que ganhou reentrando no direito comum.

Um fato muito menos importante, apesar das perseguições das quais foi a fonte, é o de Josué detendo o Sol para prolongar o dia de duas horas. Que seja o Sol ou a Terra que tenha parado, o fato não é por isso menos tudo o que há de mais sobrenatural; é uma derrogação a uma das leis mais capitais, a da força que arrasta os mundos. Acreditou-se escapar à dificuldade reconhecendo que é a Terra que gira, mas contara-se sem a maçã de Newton, a mecânica celeste de Laplace e a lei da gravitação. Que o movimento da Terra seja suspenso, não por duas horas, mas por alguns minutos, a força centrífuga cessa, e a Terra vai se precipitar sobre o Sol; o equilíbrio das águas em sua superfície é mantido pela continuidade do movimento; cessando o movimento, tudo é transtornado; ora, a história do mundo não faz menção do menor cataclismo nessa época. Não contestamos que Deus haja podido favorecer Josué prolongando a claridade do dia; que meio empregaria? Nós o ignoramos; isso poderia ser uma aurora boreal, um meteoro ou qualquer outro fenômeno que não mudaria nada na ordem das coisas; mas, seguramente, esse não foi aquele do qual se fez, durante séculos, um artigo de ; que outrora se haja acreditado, é bastante natural, mas hoje isso não é possível, a menos que se renegue a ciência.

Mas, dir-se-á, a religião se apoia sobre muitos outros fatos que não são nem explicados nem explicáveis. Inexplicados sim; inexplicáveis, é uma outro, questão; sabe-se sobre as descobertas e os conhecimentos que o futuro nos reserva? não se , sob o império do magnetismo, do sonambulismo, do Espiritismo, se reproduzirem os, êxtases, as visões, as aparições, a visão à distância, as curas instantâneas, os levantamentos, as comunicações orais e outras com os seres do mundo invisível, fenômenos conhecidos de tempos imemoriais, considerados outrora como maravilhosos, e demonstrados hoje pertencerem à ordem das coisas naturais segundo a lei constitutiva dos seres? Os livros sacros estão cheios de fatos qualificados de sobrenaturais; mas como são encontrados análogos, e mais maravilhosos ainda, em todas religiões pagas da antigüidade, se a verdade de uma religião dependesse do número e da natureza desses fatos, não sabemos muito a que dominava.

O Sr. Guizot, como prova do sobrenatural, cita a formação do primeiro homem que deveu ser criado adulto, porque, diz ele, , no estado de infância, não poderia se nutrir. Mas se Deus fez uma exceção criando-o adulto, não poderia fazer uma outra dando à criança os meios de viver, e isso mesmo sem se afastar da ordem estabelecida? Os animais sendo inferiores ao homem, não podia realizar, a respeito da primeira criança, a fábula de Rômulo e Remo?

Dizemos da primeira criança, deveríamos dizer das primeiras crianças; porque a questão de uma fonte única da espécie humana é muito controvertida. Com efeito, as leis antropológicas demonstram a impossibilidade material de que a posteridade de um único homem haja podido, em alguns séculos, povoar toda a Terra, e se transformar em raças negras, amarelas e vermelhas; porque está bem demonstrado que essas diferenças prendem-se à constituição orgânica e não ao clima.

O Sr. Guizot sustenta uma tese perigosa afirmando que, de nenhum modo, a religião é possível sem o sobrenatural; se faz repousar as verdades do Cristianismo sobre a base única do maravilhoso, dá-lhe um apoio frágil cujas pedras se destacam cada dia. Nós lha damos uma mais sólida: as leis imutáveis de Deus. Esta base desafia o tempo e a ciência; porque o tempo e a ciência virão sancioná-la. A tese do Sr. Guizot conduz, .pois, a esta conclusão de que, num tempo dado, não haveria mais religião possível, mesmo religião cristã, se o que é considerado como sobrenatural for demonstrado natural. Está o que se quis provar? Não; mas é a conseqüência do seu argumento, e para ela se caminha a grande passo; porque seria agir inutilmente e amontoar raciocínios sobre raciocínios, não se chegará a manter a crença de que um fato é sobrenatural quando estiver provado que não o é.

Sob esse aspecto somos muito menos cépticos que o Sr. Guizot, e dizemos que Deus não é menos digno de nosso reconhecimento e de nosso respeito por não haver derrogado às suas leis, grandes sobretudo pela sua imutabilidade, e que não necessidade de sobrenatural para lhe prestar o culto que lhe é devido, e, por conseqüência, para ter uma religião que encontrará tanto menos incrédulos quanto seja, em todos os pontos, sancionada pela razão; não pode senão ganhar com isso: se alguma coisa pôde prejudicá-la na opinião de muitas pessoas, foi precisamente o abuso do maravilhoso e do sobrenatural. Fazei ver aos homens a grandeza e o poder de Deus em todas as suas obras; mostrai-lhes sua sabedoria e sua admirável previdência, desde a germinação de um talo de erva até o mecanismo do Universo: as maravilhas não faltam; substituí em seu espírito a idéia de um Deus ciumento, colérico, vingativo e implacável, pela de um Deus soberanamente justo, bom e misericordioso, que não condena aos suplícios eternos e sem esperança por faltas temporárias; que, desde a infância, sejam nutridos dessas idéias que crescerão com a sua razão, e fareis mais de firmes e sinceros crentes do que os embalando com alegorias que vós os forçais a tomar ao da letra, e que, mais tarde, repelirão por si mesmos, levando-os a duvidar de tudo, e mesmo a tudo negar. Se quereis manter a religião pelo único prestígio do maravilhoso, não senão um único meio, é manter os homens na ignorância; vede se é possível. À força de não mostrar a ação de Deus senão nos prodígios, nas exceções, cessa-se de fazê-la ver nas maravilhas que esmigalhamos sob os pés.

Objetar-se-á, sem dúvida, o nascimento miraculoso do Cristo, que não se saberia explicar pelas leis naturais, e que é uma das provas mais brilhantes de seu caráter divino. Não é aqui o lugar de examinar esta questão; mas, ainda uma vez, não contestamos a Deus o poder de derrogar as leis que fez; o que contestamos é a necessidade absoluta dessa derrogação para o estabelecimento de uma religião qualquer.

O Magnetismo e o Espiritismo, dir-se-á, reproduzindo os fenômenos reputados miraculosos, são contrários à religião atual, porque tendem a tirar desses fatos seu caráter sobrenatural. Que fazer , se esses fatos são reais? Não serão impedidos, uma vez que não são o privilégio de um homem, mas que se produzem no mundo inteiro. Poder-se-ia dizer isso tanto da física, da química, da astronomia, da geologia, da meteorologia, de todas as ciências em uma palavra. Sob esse aspecto, diremos que o ceticismo