Refutações de Kardec – Revista Espírita 1863

 

 

 

Sermões contra o Espiritismo

Sobre a loucura espírita

A luta entre o passado e o futuro

Os falsos irmãos e os amigos desajeitados

Os sermões continuam e não se assemelham

Suicídio falsamente atribuído ao Espiritismo

Algumas refutações

Um argumento terrível contra o Espiritismo

Algumas palavras sépias a propósito dos golpes de bengala

Algumas refutações II

Orçamento do Espiritismo

As aparições simuladas no teatro

Primeira carta ao cura Marouzeau

Ainda uma palavra sobre os espectros artificiais

Segunda carta ao cura Marouzeau

Sermões contra o Espiritismo

Da proibição de evocar os mortos

Dissertações espíritas

Sermões sobre o Espiritismo

Ordem do Monsenhor Bispo de Argel contra o Espiritismo

O Espiritismo na Argélia

Elias e João Batista

 

 

 

 

 

Sermões contra o Espiritismo

fevereiro de 1863

 

Uma carta de Lyon, datada de 7 de dezembro de 1862, contém a passagem seguinte, que uma testemunha ocular e auricular nos confirmou de viva voz:

 

“Tivemos aqui o bispo do Texas, da América, que pregou, terça-feira última, 2 de dezembro, às oito horas da noite, na igreja Saint-Nizier, diante de um auditório de quase duas mil pessoas, entre as quais se encontravam um grande número de Espíritas. Aí! Não parecia muito instruído na nossa doutrina; pode-se julgá-lo por este curto resumo:

 

“Os Espíritas não admitem o inferno nem a preces nas igrejas, eles se fecham em seus quartos e ali oram, Deus sabe que preces!... Não há senão duas categorias de Espíritos: os perfeitos e os ladrões; os assassinos e os canalhas... Venho da América, onde esses infames começaram; pois bem! Posso vos assegurar que, há dois anos, não se ocupa mais de tudo nesse país. Foi-me dito que aqui, nesta cidade de Lyon, tão renomada pela sua piedade. Havia muitos Espíritas; isso não pode ser; não o creio. Estou bem seguro, caros irmãos e irmãs, que não há entre vós um único médium, nem uma única médium, porque, vede os Espíritas não admitem nem o casamento, nem o batismo, e todos os Espíritas são separados de suas mulheres, etc., etc...”

 

“Estas várias frases podem dar uma idéia do resto. O que teria dito o orador se soubesse que quase um quarto de seus ouvintes era composto de Espíritas? Quanto à sua eloqüência, não posso dizer senão uma coisa, é que, por momentos, ela parecia do frenezi; ele parecia perder o fio de suas idéias e não sabia o que queria dizer; se eu não temesse servir-me de um termo irreverente, diria que ele patinhava. Creio verdadeiramente que era impelido por alguns Espíritos a dizer todos esses absurdos, e de maneira tal que, vos asseguro, não se estaria em dúvida de estar num lugar santo; também todo mundo ria. Alguns de seus partidários foram os primeiros a julgar do efeito que produzira o sermão, mas não deveram estar muito satisfeitos, porque, uma vez fora, cada um tratou de rir e de dizer seu pensamento; vários mesmo de seus amigos deploravam os desvios aos quais se entregou, e compreendiam que o objetivo fora completamente errado. Com efeito, não poderia fazer melhor para recrutar adeptos, e foi o que aconteceu durante a sessão. Uma senhora, que se achava ao lado de um muito bom Espírita de meu conhecimento, disse-lhe: “Mas o que é, pois, esse Espiritismo e esses médiuns, dos quais se fala tanto, e contra os quais esses senhores estão tão furiosos?” A coisa tendo-lhe sido explicada: Oh! disse ela, chegando em minha casa, vou conseguir os livros e tentarei escrever”.

 

“Posso vos assegurar que se os Espíritas são tão numerosos em Lyon, é graças alguns sermões do gênero desse. Lembrai-vos que, há três anos, quando não se contava aqui senão algumas centenas de Espíritas, eu vos escrevi, em conseqüência de uma pregação colérica conta a Doutrina, e que produziu um excelente efeito: “Ainda alguns sermões como este, e em um ano o número de adeptos será decuplicado.” Pois bem! hoje decuplicado, graças também aos ignóbeis e mentirosos ataques de alguns órgãos de imprensa. Todo o mundo, até o simples operário que, sob suas vestes grosseiras, tem mais bom senso do que se crê, diz que não se ataca com tanto furor senão uma coisa que para isso valha a pena, é porque se quis ver por si mesmo, e quando se reconheceu a falsidade de certas afirmações, que denotavam ignorância e malevolência, a crítica perdeu todo o crédito, e, em lugar de afastar do Espiritismo, ela conquistou partidários. Ocorrerá o mesmo, muito esperamos, com o sermão do monsenhor do Texas, cuja maior imperícia foi dizer que “todos os Espíritas estão separados de suas mulheres”, quando temos aqui, sob nossos olhos, numerosos exemplos de lares outrora divididos, e onde o Espiritismo levou à união e à concórdia. Cada um diz naturalmente que, uma vez que os adversários do Espiritismo lhe atribuem ensinos e resultados cuja falsidade está demonstrada pelos fatos e pela leitura dos livros que dizem tudo ao contrário, nada prova a verdade das outras críticas. Creio que se os Espíritas lioneses não temessem faltar com o respeito ao monsenhor do Texas, ter-lhe-iam votado um requerimento de agradecimentos. Mas o Espiritismo nos torna caridosos, mesmo para com os nossos inimigos”.

 

Uma outra carta, de uma testemunha ocular, contém a passagem seguinte:

“O orador de Saint-Nizier partiu desse dado de que o Espiritismo tivera seu tempo nos Estados Unidos, e que não se falava dele há dois anos. Era, pois, segundo ele, um assunto da moda: esses fenômenos eram sem consistência, e não valiam a pena serem estudados; tinha procurado ver e não vira nada. No entanto, mostrava a nova doutrina como atentatória aos laços de família, à propriedade, à constituição da sociedade, e denunciando-a como tal às autoridades competentes.

 

“Os adversários se prendiam a um efeito mais surpreendente, e não a uma simples negação representada de maneira bastante ridícula; porque não ignoram o que se passa na cidade, a marcha do progresso e a natureza das manifestações. Também a questão retornou, domingo dia 14, em Saint-Jean, e esta vez um pouco melhor tratada.

 

“O orador de Saint-Nizier negara os fenômenos; o de Saint-Jean reconheceu-os, afirmou-os: “Ouvem-se, disse ele, golpes nas paredes; no ar, vozes misteriosas; se tem, realmente, relações com os Espíritos, mas quais Espíritos? Podem não ser bons, porque os bons são dóceis e submissões às ordens de Deus, que proibiu a própria evocação dos Espíritos; portanto, aqueles que vêm não pode ser senão mais”.

 

Contaram-se bem três mil pessoas em Saint-Jean; entre elas, trezentas pelos menos irão à descoberta.

“O que contribuirá, certamente, para fazer refletirem as pessoas honestas ou inteligentes que compõem o auditório, são as afirmações singulares do orador, - digo singulares por polidez. - “O Espiritismo, disse ele, vem destruir a família, aviltar a mulher, pregar o suicídio, o adultério e o abortamento, preconizar o comunismo, dissolver a sociedade”. Depois convidou os paroquianos que, por acaso, tivessem livros espíritas a levá-los a esses senhores que os queimariam, como São Paulo fez a respeito das obras heréticas.

 

“Não sei se esses senhores encontrarão muitas pessoas bastante zelosas para irem esgotar, o dinheiro à mão, as lojas de nossas livrarias. Alguns Espíritas estavam furiosos; a maioria se alegrava, porque compreendiam que era uma boa coisa.

 

“Assim, do alto do segundo púlpito da França vem de se proclamar que os fenômenos espíritas são verdadeiros; toda questão se reduz, pois, em saber se são bons ou maus Espíritos, e se não é senão aos maus que Deus permite vir”.

 

O orador de Saint-Jean afirma que não pode ser senão os maus; e eis um outro que modifica um pouco a solução. Escrevem-nos de Angoulême que, quinta-feira, 5 de dezembro último, um pregador assim se exprimiu em seu sermão: “Sabíamos todos que se podiam evocar os Espíritos, e isso há muito tempo; mas a Igreja pode fazê-lo; não é permitido aos outros homens tentarem corresponder-se com eles por meios físicos; para mim, é uma heresia”. O efeito produzido foi todo contrário ao que se esperava”.

 

É, pois, muito evidente que os bons e os maus podem se comunicar, ,porque se só os maus tivessem esse poder, não é provável que a Igreja se reservasse o privilégio de chamá-los.

 

Duvidamos que dois sermões, pregados em Bordeaux em outubro último, tenham servido melhor à causa de nossos antagonistas. Eis a análise que deles foi feita por um ouvinte; os Espíritas puderam ver se, sob esse disfarce, reconhecem sua doutrina, e se os argumentos que se lhes opõem são de natureza a abalar sua fé. Quanto a nós, repetimos o que dissemos alhures: Enquanto não se atacar o Espiritismo com melhores armas, nada se tem a temer.

 

“Lamentarei sempre, disse o narrador, não ter ouvido o primeiro desses sermões, que ocorreu na capela Margaux, a 15 de outubro último, se minhas informações estão certas. Segundo o que testemunhas dignas de fé me reportaram, a tese desenvolvida foi esta:

 

“Os Espíritos podem se comunicar aos homens. Os bons se comunicam só na Igreja. Todos aqueles que se manifestam fora da Igreja são maus, porque fora da Igreja não há salvação. – Os médiuns são infelizes que fizeram pacto com o diabo e dele, ao preço de sua alma, que lhe venderam, recebem manifestações de todas as espécies, fossem elas extraordinárias para não dizer miraculosas”. – Silêncio sobre outras citações mais estranhas ainda; eu mesmo não as tenho entendido, temeria exagerá-las.

 

No domingo seguinte, 19 de outubro, tive a felicidade de assistir ao segundo sermão. Informei-me quanto ao nome do pregador; foi-me respondido que era o Padre Lapeyre, da companhia de Jesus.

 

 “O Padre Lapeyere fez a crítica de O Livro dos Espíritos, e. certamente, seria preciso uma extraordinária dose de boa vontade para reconhecer essa admirável obra nas teorias desprovidas de bom senso que o pregador pretendia ali ter encontrado. Limitar-me-ei a vos mostrar os pontos que me feriram mais, preferindo do ficar abaixo da verdade antes que atribuir ao nosso adversário o que não teria dito, ou o que eu teria mal compreendido.

 

“Segundo o Padre Lapeyere, “O Livro dos Espíritos prega o comunismo, a partilha dos bens, o divórcio, a igualdade entre todos os homens e, sobretudo, entre o homem e a mulher, a igualdade entre o homem e seu Deus, porque o homem, levado por esse orgulho que os anjos perderam, não aspira a nada menos do que se tornar semelhante a Jesus Cristo; ele arrasta os homens ao materialismo e aos prazeres sensuais, porque o trabalho de aperfeiçoamento pode se fazer sem o concurso de Deus, apesar dele mesmo, pelo efeito dessa força que quer que tudo se aperfeiçoe gradualmente; ele preconiza a metempsicose, essa loucura dos Antigos, etc.”

 

Passando em seguida à rapidez com a qual as idéias novas se propagam, constata com pavor quanto o diabo que as ditou é hábil e velhaco, quanto soube habituar com arte, de maneira a fazê-los vibrar com força nos corações pervertidos das crianças deste século de incredulidade e de heresia. “Este século, exclama, ama tanto a liberdade! e se lhe vêm oferecer o livre exame, o livre arbítrio, a liberdade de consciência! Este século gosta tanto da igualdade! e se lhe mostra o homem á altura de Deus! Gosta tanto de luz! e com traço de pena se rasga o véu que esconde os santos mistérios!

 

“Depois atacou a questão das penas eternas, e fez sobre esse assunto, palpitante de emoções, magníficos movimentos oratórios: “Crê-lo-íeis, meus muito caros irmãos; acreditaríeis até onde foi a impudência desses filósofos novos, que crêem fazer desabar sob o peso dos sofismas a santa religião do Cristo! Pois bem, os infelizes! dizem que não há inferno! dizem que não há purgatório! Para eles não mais de relações benditas que ligam os vivos às almas daqueles que perderam! Não mais o santo sacrifício da missa! E por que celebrá-la? essas almas não se purificam por si mesmas e sem trabalho nenhum, pela eficácia dessa força irresistível que, som cessar, as atrai para a perfeição?

 

“Sabeis quais são as autoridades que vêm proclamar essas doutrinas ímpias, marcadas na fronte com o sinal inapagável desse inferno que quereriam aniquilar? Ah! meus irmãos, essas são as mais sólidas colunas da Igreja: os São Paulo, os São Agostinho, os São Luís, os São Vicente de Paulo, os Bossuet, os Fénelon, os Lamennais, e todos esses homens de elite, santos homens que, durante sua vida, combateram para o estabelecimento das verdades inabaláveis, sobre as quais a Igreja construiu seus fundamentos, e que vem declarar hoje que seu Espírito, libero da matéria, estando mais clarividente, perceberam que suas opiniões eram errôneas, e que é tudo ao contrário que é preciso crer”.

 

O pregador, passando em seguida à pergunta que o autor da Carta de um católico dirige a um Espírito para saber se, praticando o Espiritismo, ele é herético acrescenta:

 

“Eis a resposta, meus irmãos: ela é curiosa, e o que é mais curioso ainda, o que nos mostra a maneira, a mais evidente, que o diabo, apesar de suas velhacarias e sua habilidade, deixa sempre perceber seu verdadeiro caráter, foi o próprio nome do Espírito que deu essa resposta; eu vos dizia há pouco”.

 

“Segue a citação dessa resposta, que termina assim: ‘Estás de acordo com a Igreja sobre todas as verdades que te fortalecem no bem, que aumenta em tua alma o amor de Deus e o devotamento aos teus irmãos? Sim; pois bem! tu és católico.” Depois acrescenta: Marcai.. Zenon!... Zenon! um filósofo grego, um pagão, um idólatra que, do fundo do inferno onde queima há vinte séculos, vem nos dizer que se pode ser católico o não crer nesse inferno que o tortura, e que espera todos aqueles que, como ele, não morrerem humildes e submissos no regaço da santa Igreja.. Mas, insensatos e cegos que sois! com toda a vossa filosofia, não teríeis senão essa prova, essa única prova de que a doutrina que proclamais emana do demônio, que ela seria mil vezes suficiente!”

 

“Depois de longos desenvolvimentos sobre essa questão e sobre o privilégio exclusivo que a Igreja tem de expulsar os demônios, ajunta:

 

“Pobres insensatos, que vos divertis falando aos Espíritos e pretendeis exercer sobre eles alguma influência! Não tomeis, pois, que, como aquele do que fala São Lucas, esses Espíritos batedores, barulhentos, — e são bom nomeados, meus muito caros irmãos — não vos pergunte também: E vós, quem sois? Quem sois para vir nos perturbar? Crede-vos submeter-nos impunemente aos vossos caprichos sacrílegos? e que, agarrando as cadeiras e mesas que fazeis girar, não se apoderem de vós, como se apoderaram dos filhos de Sceva, e não vos maltratem de tal modo que não sejais forçados a fugir nus e feridos, e reconhecendo, mas muito tarde, toda abominação que há em jogar assim com os mortos.

 

“Diante desses fatos tão patentes, e que falam tão alto, que nos resta a fazer? Que temos a dizer? Ah! meus caros irmãos! Guardai-vos com cuidado do contágio! Repeli com horror todos as tentativas que os maus não deixarão de fazer depois de vos arrastar com eles ao abismo! Mas, ah!, já é muito tarde para fazer tais recomendações; o mal já fez rápidos progressos. Esses livros infames, ditados pelo príncipe das trevas, a fim de atrair em seu reino uma multidão de pobres ignorantes, estão de tal modo esparramados que se, como outrora em Éfeso, se calculasse o preço dos que circulam em Bordeaux, ultrapassar-se-ia, disto estou seguro, a soma enorme de cinqüenta mil moedas de prata (170000 francos de nossa moeda; chamada de uma citação feita em outra parte de seu sermão); e não estaria admirado que, entre os numerosos fiéis que me escutam, haja alguns deles que já se deixaram arrastar ao lê-los. Aqueles não podemos dizer senão isto: Depressa! aproximai-vos do tribunal da penitência; depressa! vinde abrir vossos corações aos vossos guias espirituais. Cheios de doçura e de bondade, e seguindo em todos os pontos o magnânimo exemplo de São Paulo, nos apressaremos em vos dar a absolvição; Mas, como ele, não vo-la daremos senão com a condição expressa de nos trazer esses livros do magia que fizeram vos perder. E desses livros, muito caros irmãos, o que faremos deles? sim, que faremos deles? Como São Paulo, deles faremos uma grande pilha na praça pública, e, como ele, nós mesmos lhes colocaremos o fogo.

 

Não faremos senão urna curta observação sobre esse sermão é que o autor se enganou da data, e que talvez, novo Epimênides, dormiu depois de quatorze séculos. Um outro lato que disso ressalta é a constatação do rápido desenvolvimento do Espiritismo. Os adversários de uma outra escola o constatam também com desespero, tanto é grande seu amor pela razão humana. Lê-se no Moniteur de Ia Moselle, de 7 de novembro de 1 852: “O Espiritismo faz perigosos progressos. Invade o grande, o pequeno, o médio e o semi-mundo. Magistrados, médicos, pessoas sérias dão também nesse erro.” Achamos essa afirmação repetida na maioria das criticas atuais; é que, em presença de um fato tão patente seria preciso vir do fundo do Texas para adiantar, diante de um auditório, onde se encontram mais de mil espíritas, que há dois anos dele não se ocupa mais. Então, por que tanta cólera se o Espiritismo está morto e enterrado? O P. Lapeyere, ao menos não se ilude; seu próprio medo lhe exagera a extensão do pretenso mal, urra vez que avalia numa cifra fabulosa o valor dos livros espíritas esparramados em Bordeaux somente: em todos os casos, é reconhecer um grande poder à idéia O que quer que seja, em presença de todas essas afirmações, ninguém nos taxará de exagero, quando falamos dos rápidos progressos da Doutrina; que uns os atribuem ao poder do diabo, lutando com vantagem contra Deus, os outros a um acesso de loucura que invadiu todas as classes da sociedade, de tal sorte que o círculo das pessoas sensatas vai todos os dias se restringindo, e logo não terá mais lugar senão para alguns indivíduos; que uns e os outros deplorem esse estado de coisa, cada um do seu ponto de vista, e se perguntem: Onde vamos? grande Deus!” lhes é permitido: disso não ressalta menos esse fato de que o Espiritismo passa por cima de todas as barreiras que se lhe opõem; portanto, se é urna loucura, logo não haverá mais do que loucos sobre a Terra: conhece-se o provérbio; se é obra do diabo, logo não haverá mais do que condenados, e se aqueles que falam em nome de Deus não podem detê-lo, é que o diabo é mais forte do que Deus. Os Espíritas são mais respeitosos do que isso para com a Divindade; não admitem que haja um ser podendo lutar com ela de poder a poder, e sobretudo se impor sobre ela; de outro modo os papéis estariam mudados, e o diabo tornar-se-ia o verdadeiro senhor do Universo. Os Espíritas dizem que Deus sendo soberano sem partilha, nada chega no mundo sem a sua permissão; portanto, se o Espiritismo se difunde com a rapidez do relâmpago, o que quer que se faça para de tê-lo, é preciso nisso ver um eleito da vontade de Deus; ora. sendo Deus soberanamente justo e bom, não pode querer a perda de suas criaturas, nem fazê-las tentar, com a certeza, em virtude de sua presciência, que elas sucumbirão, para precipitá-las nos tormentos eternos. Hoje, o dilema está colocado; está submetido à consciência de todos; o futuro se encarrega da conclusão

 

Se fazemos essas citações, é para mostrar a que argumentos os adversários do Espiritismo se reduziram para atacá-lo; com efeito, é preciso estar muito desprovido de boas razões para recorrer a uma calúnia como aquela que o representa pregando a desunião da família, o adultério, o abortamento, o comunismo, o transtorno da ordem social. Temos necessidade de refutar semelhantes afirmações? Não, porque hasta remeter ao estudo da Doutrina, á leitura do que ela ensina, e é o que se faz de todos os lados. Quem poderá crer que pregamos o comunismo depois das instruções que demos sobre esse assunto no discurso reportado in extenso na narração de nossa viagem em 1862? Quem poderá ver uma excitação à anarquia nas palavras seguintes que se encontram na mesma brochura, página 58: “Em todo estado de causa, os Espíritas devem ser os primeiros a dar o exemplo da submissão às leis, nos casos em que para isso forem chamados".

 

Adiantar semelhantes coisas num país longínquo, onde o Espiritismo seria desconhecido, onde não houvesse nenhum meio de controlo, isso poderia produzir algum efeito; mas afirmá-lo do alto do púlpito, no meio de uma população espírita que lhe dá, incessanternente, um desmentido para suas informações e seu exemplo, por imperícia, e não se pode impedi-lo de dizer que é preciso estar preso de singular vertigem para se iludir a esse ponto, e não compreender que, falar assim, é servir á causa do Espiritismo.

 

Estar-se-ia errado, no entanto, crendo que é a opinião de todos os membros do clero; ocorre muito, ao contrário, que não a partilham, e disso conhecemos um bom número que deplora esses desvios, mais nocivos á religião do que á Doutrina Espírita. Essas são, pois, opiniões individuais que não podem fazer lei; e o que prova que são apreciações pessoais 6 a contradição que existe entre eles. Assim, ao passo que um declara que todos os Espíritos que se manifestam são necessariamente maus, uma vez que desobedecem a Deus comunicando-se, um outro reconhece que há bons e maus, que só os bons vão à Igreja, e os maus ao vulgo. Um acusa o Espiritismo de aviltar a mulher, um outro o reprova por elevá-la ao nível dos direitos do homem; um pretende que ele "arrasta os homens ao materialismo e aos prazeres sensuais;” e um outro, o Sr. cura Marouzeau, reconhece que ele destrói o materialismo.

 

O Sr. abade Marouzeau, em sua brochura, assim se exprime: verdadeiramente, ao ouvir os partidários das comunicações de além-túmulo, isso seria um preconceito da parte do clero de combater quando mesma o Espiritismo. Por que, pois, supor aos padres tão pouco de inteligência e de bom senso, uma teimosia estúpida? Por que crer que a Igreja que, em todos os tempos, deu tantas provas de prudência, de sabedoria e de alta inteligência, para discernir o verdadeiro do falso, seja hoje incapaz de compreender o interesse de seus filhos? Por que condená-la sem ouvi-la? Se ela se recusa a reconhecer vossa bandeira, é que vosso estandarte não é o sou; tem as cores que lhe são essencial-mente hostis; é que ao lado do bem que fazeis, combatendo o horrendo materialismo, ela vê um perigo real para as almas e a sociedade.” E em outra parte: “Concluamos de tudo isso que o Espiritismo deve se limitar a combater o materialismo, a dar ao homem provas palpáveis de sua imortalidade por meio das manifestações de além-túmulo bem constatadas”

 

De tudo isto ressalta um fato capital, é que todos esses senhores estão de acordo sobre a realidade das manifestações; somente cada um a aprecia sua maneira. Negá-las, com efeito, seria negar a verdade das Escrituras, e os próprios fatos sobre os quais se apóiam a maioria dos dogmas. Quanto maneira de encarar a coisa, pode-se, desde o presente, constatar em que sentido se faz a unidade e se pronuncia a opinião pública, que tem também seu veto. Disso resulta ainda um outro fato, é que a Doutrina Espírita comove profundamente as massas; ao passo que uns nela vêem um fantasma apavorante, outros nela vêem o anjo da consolação e da liberdade, e uma nova era de progresso moral para a Humanidade.

 

Uma vez que citamos a brochura do Sr. abade Marouzeau, perguntar-se-nos-á, talvez, porque ainda não a respondemos, uma vez que nos era pessoalmente dirigida. Disso se pôde ver o motive na narração de nossa viagem, a propósito das refutações. Quando tratamos uma questão, o fazemos do ponto de vista geral, abstração das pessoas que não são, aos nossos olhos, senão individualidades se apagando diante das questões de princípios. Falaremos do Sr. Marouzeau oportunamente, assim como de alguns outros, quando examinarmos o conjunto das objeções; para isso era útil esperar que cada um tivesse dito sua palavra, grande ou pequena, —  viram-se acima algumas delas bastante grossas, — para apreciar a força da oposição. Respostas especiais e individuais teriam sido prematuras e, sem cessar, a recomeçar. A brochura do Sr. Marouzeau foi um tiro de fuzil; nós lhe pedimos perdão por colocá-Lo na condição dos simples atiradores, mas a sua modéstia cristã com isso não se ofenderá. Prevenido de um levante geral, nos pareceu conveniente deixar descarregar todas as armas, mesmo a grossa artilharia que, como se vê, vem de dar, a fim de julgar sua importância; ora, até o presente, não temos a nos lamentar dos vazios que ela fez em nossas fileiras, uma vez que, ao contrário, seus tiros ricochetearam contra ela. De um outro lado não era menos útil deixar a situação se desenhar, e se convirá que, há dois anos, o estado das coisas, longe de imperar para nós, cada dia vem nos emprestar uma nova força. Responderemos, pois, quando julgarmos oportuno; até o presente não houve tempo perdido, uma vez que ganhamos terreno sem cessar, sem isso, e que nossos adversários, eles mesmos, se encarregam de tornar, nossa tarefa mais fácil. Não temos, pois, senão que deixá-los fazer.

 

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Sobre a loucura espírita

fevereiro de 1863

 

 

Resposta ao Sr. BurIet, de Lyon.

 

O folhetim da Presse, de 8 de janeiro de 1863, contém o artigo seguinte, tirado do Salut public de Lyon, e que a Gironde de Bordeaux se apressou em reproduzir, crendo nele achar uma boa fortuna contra o Espiritismo:

 

CIÊNCIAS.

 

“O Sr. Philibert Burlet, interno dos hospitais de Lyon, leu recentemente à Sociedade das ciências médicas, dessa cidade, o interessante trabalho sobre o Espiritismo, considerado como causa de alienação mental. Em presença da epidemia que maltrata, neste momento e sociedade francesa, sem dúvida, não será desprovido de utilidade mencionar os fatos contidos no relatório do Sr. Burlet.

 

“O autor descreveu com cuidado seis casos de loucura, dita aguda, observadas por ele mesmo no hospital de Antiquaille, e nos quais segue-se sem dificuldade a relação direta entre a alienação mental o as práticas espíritas O Sr. doutor Carrier disse ele, de sua parte teve ocasião, e há algum tempo, de tratar e de ver curar, em seu serviço, três mulheres que a Espiritismo havia tornado ouças. De resto, Pan há um único médico ocupando-se especialmente da alienação mental, que não haja tido a oportunidade, em mais ou em menos número de casos análogos, sem falar bem entendido, das perturbações intelectuais ou afetivas que, sem irem até o ponto que se convencionou chamar a loucura, não deixam senão de alterar a razão e de tornar o comércio daqueles que os apresentam desagradável e bizarro, essa influência da pretensa Doutrina Espírita está hoje bem demonstrada pela ciência. As observações que estabelecem contar-se-iam por milhares, "Sim, disse o Sr. Burlet, em outras partes da França, os casos de loucura causados pela doutrina dos médiuns são tão freqüentes quanto no departamento que habitamos, e não há razão para que não o seja assEm, nos parece fora de dúvida que o Espiritismo pode tomar lugar na classe das causas mais fecundas de alienação mental". Terminando, o autor exorta os pais e mães de família, os chefes de oficina, etc., a velarem para que seus filhos ou seus empregados não vão jamais la essas reuniões espíritas chamadas de grupos, e nas quais, acrescenta ele o perigo para a razão, certamente, não é o único a temor’.

 

‘Portanto, é de uma incontestável utilidade dar publicidade aos fatos desse gênero, conscienciosamente recolhidos, como os do interno dos hospitais de Lyon. Não que houvesse a menor chance para que agissem sobre os indivíduos já atingidos pela epidemia: o caráter de sua loucura é precisamente a fade convicção de serem os únicos de posse da verdade. Em sua humildade, se crêem coro o dom de comunicar-se com os Espíritos, e tratam orgulhosamente da ciência que ousa duvidar de seus poderes. Vitimas da alucinação que os possui, sua premissa admite, e raciocina em seguida com uma lógica irrepreensível, que não faz senão fortalecê-los em sua aberração. Mas pode se conservar a esperança de agir sobre as inteligências ainda sadias que estivessem tentadas a se expor às seduções do Espiritismo, mostrando-lhes o perigo, e garanti-ias assim contra esse perigo. E bom saber que as práticas espíritas e a freqüência dos médiuns, — que são os verdadeiros alucinados, — é necessariamente malsã para a razão. Só os caracteres fortemente temperados podem resistir, Os outros ali deixam sempre urna parto, pequena ou grande, de seu bom senso.”

"A.  SANSON".

Este artigo pode fazer a tendência dos sermões relatados no artigo precedente; nele se pode ver, senão uma comunidade de origem, pelo menos uma intenção idêntica: a de levantar a opinião contra o Espiritismo por meios onde se descobrem a mesma boa fé ou a mesma ignorância das coisas. Notai a graduação que seguiu os ataques desde o famoso e desajeitado artigo da Gazeite de Lyon (ver a Revista Espírita do mês de outubro de 1860, página 254); isso não era então senão uma chata zombaria onde os operários dessa cidade foram achincalhados, ridicularizados, e sua profissão comparada a suplícios. Não era, com efeito, uma imperícia insigne senão de derramar o desprezo sobre os trabalhadores e os instrumentos que fazem a prosperidade de uma cidade como Lyon? Depois então, a agressão tomou um outro caráter: vendo a impotência do ridículo, e não podendo impedir-se de constatar o terreno que as idéias espíritas ganham a cada dia, toma-o sobre um tom mais lamentável; é em nome da Humanidade, em presença da epidemia que castiga neste momento sobre a sociedade francesa, que ela vem mostrar os perigos dessa pretensa doutrina que torna o comércio daqueles que a professam desagradável e bizarro. Elogio pouco lisonjeador para as senhoras de todas as classes, até mesmo as princesas, que crêem nos Espíritos. Parece-nos, no entanto, que as pessoas violentas e irascíveis tornadas brandas e boas pelo Espiritismo, não dão provado um caráter muito mau e são menos desagradáveis do que antes, e que entre os não espíritas não se encontram senão pessoas amáveis e benevolentes. Se bem que se vejam numerosas famílias onde o Espiritismo levou a paz e a união, é em nome de seu interesse que se abjuram os operários de não retornarem “a essas reuniões chamadas grupos, onde podem perder sua razão e muitas outras coisas", acham, sem dúvida que a conservariam muito melhor indo ao cabaré do que permanecendo em sua casa. Não tendo dado resultado o sarcasmo, eis agora que os adversários chamam a ciência em sua ajuda; não mais a ciência zombeteira representada pelo músculo estalante do Sr. Jobert (de Lamballe) (ver a Revista Espírita de junho de 1859, página 141), mas a ciência séria, condenando o Espiritismo tão seriamente quanto condenou outrora a aplicação do vapor à marinha, e tantas outras utopias que se teve mais tarde a fraqueza de tomar por verdades. E quais são seus representantes nessa séria questão? E o Instituto de França? Não, é o Sr. Philibert Burlet, interno dos hospitais de Lyon, quer dizer, estudante de medicina, que faz suas primeiras armas lançando um relatório contra o Espiritismo. Falou, e por ele o Sr. Sanson (da Pressa), a ciência tornou-se sua sentença, sentença que, provavelmente, não será mais sem apelação do que a dos doutores que condenaram a teoria de Harvey sobre a circulação do sangue, e lançaram contra seu autor “libelos e diatribes mais ou menos virulentas e grosseiras.” (Dicionário das origens.) Seja dito, entre parênteses, um trabalho curioso a fazer seria uma monografia sobre os erros dos sábios.

O Sr. Burlel observou, disse ele, seis casos de loucura aguda produzida pelo Espiritismo; mas como é pouco sobre uma população de 300.000 almas, da qual a décima pelo menos é espírita, teve o cuidado de acrescentar que seriam os contados por milhares se, nas outras partes da França, os casos de loucura causados pelo doutrina dos médiuns são tão freqüentes quanto no departamento que habitamos, e não há razão para que assim não seja.”

Com o sistema das suposições se vai muito longe, como se vê. Pois bem! vamos mais longe do que ele, e diremos, não por hipótese, mas por afirmação, que, num tempo dado, não se contarão loucos senão entre os Espíritas. Com efeito, a loucura é uma das enfermidades da espécie humana; mil causas acidentais podem produzi-las, e aprova disso é que houve loucos antes que o Espiritismo fosse questão, e que todos os loucos não são Espíritas. O Sr. Burlet nos concederá muito este ponto. Em todos os tempos houve loucos, e os haverá sempre; portanto, se todos os habitantes de Lyon fossem Espíritas, não se encontrariam loucos senão entre os Espíritas, absolutamente como num país todo católico, não há loucos senão entre os católicos. Observando-se a marcha da Doutrina desde alguns anos, poder-se-­ia, até um certo ponto, prever o tempo que e necessário para isso. Mas não falemos senão do presente.

 

Os loucos falam daquilo que os preocupa; é bem cedo que aquele que jamais tivesse ouvido falar do Espiritismo, dele não falará, ao passo que, no caso contrário, dele falará como o faria de religião de amor, etc. Qualquer que seja a causa da loucura, o número de loucos falando dos Espíritos aumentará, pois, naturalmente com o número dos adeptos. A questão é saber se o Espiritismo é uma causa eficiente de loucura, O Sr. Burlet o afirma do alto de sua autoridade de interno, dizendo que: “Essa influência está hoje bem demonstrada pela ciência.” Daí, exclamando com ardor, apela aos rigores da autoridade, como se uma autoridade qualquer pudesse impedir o curso de uma idéia e sem pensar que as idéias não são jamais propagadas senão sob o império da perseguição. Tomam-se, pois, sua opinião e a de alguns homens que pensam como ele para os decretos da ciência? Parece ignorar que o Espiritismo conta em suas fileiras com um grande número de médicos distintos, que muitos grupos e sociedades são presididas por médicos que, também eles, são homens de ciência, e que chegam a conclusões todas contrárias às suas. Quem, pois, tem razão a dele ou a dos outros? Neste conflito entre a afirmação e a negação, quem é que se pronunciará em última instância? O tempo, a opinião, a consciência da maioria, e a própria ciência que se renderá á evidência, como se rendeu em outras circunstâncias.

 

Diremos ao Sr. Burlet: E contrário aos mais simples preceitos da lógica deduzir uma conseqüência geral de alguns fatos isolados, e à qual outros fatos podem dar um desmentido. Para apoiar vossa tese, seria preciso um outro trabalho do que aquele que fizestes. Dissestes ter observado seis casos; creio-vos sob palavra: mas o que é que isso prova? Teríeis observado o dobro ou o triplo deles, mas isso não provaria mais, se o total dos loucos não ultrapassou a média. Suponhamos essa média de 1000 para tomar um número redondo; as causas habituais da loucura sendo sempre as mesmas, se o Espiritismo pode provocá-la, é uma causa a mais a se acrescentar a todas as outras, e que deve aumentar a cifra da média. Se, depois da introdução das idéias espíritas, essa média, de 1000 se tivesse evado a 1200, por exemplo, e que essa diferença fosso precisamente dos casos de loucura espírita, a questão mudaria de face; mas enquanto não for provado que, sob a influência do Espiritismo, a média dos alienados aumentou, a exibição que se lhe faz de alguns casos isolados nada prova, senão a intenção de lançar o descrédito sobre as idéias espíritas e de amedrontar a opinião.

 

No estado atual das coisas, fica mesmo a conhecer o valor dos casos isolados que se colocaram à frente, e de saber se todo alienado que fala dos Espíritos deve sua loucura ao Espiritismo, e para isso seria preciso um julgamento imparcial e desinteressado. Suponhamos que o Sr. Burlet se torne louco, o que pode lhe acontecer tanto quanto a um outro; —  quem sabe mesmo? talvez antes do que a um outro; — não haveria nada de espantoso em que, preocupado com a idéia que ele combateu, dela falasse em sua demência? Seria preciso disso concluir que foi a crença nos Espíritos que o teria tornado louco? Poderemos citar vários casos, dos quais um fez grande ruído, e onde foi provado que os indivíduos estavam pouco ou nada ocupados do Espiritismo, ou tiveram ataques de loucura característicos bem anteriores. A isto é preciso acrescentar os casos de obsessão e de subjugação, que se confundem com a loucura, e que se trata como tais com grande prejuízo para a saúde das pessoas que disso são afetadas, assim como explicamos nos nossos artigos sobre Morzine. São os únicos que se poderia, à primeira vista, atribuir ao Espiritismo, se bem que não esteia provado que se encontrem em grande número nos indivíduos que a isso são os mais estranhos, e que, por ignorância da causa, são tratados com contra-senso.

 

         É verdadeiramente curioso ver certos adversários que não crêem nem nos Espíritos, nem em suas manifestações, pretenderem que o Espiritismo seja uma causa de Loucura. Se os Espíritos não existem, ouse não podem se comunicar cornos homens, todas essas crenças são quimeras que nada têm de real, Perguntamos, então, como nada pode produzir alguma coisa? Essa idéia, dirão, essa idéia é falsa; ora, todo homem que professa uma idéia falsa desarrazoa. Qual é, pois, essa idéia tão funesta á razão? ei-la Temos uma alma que vive depois da morte do corpo; essa alma conserva suas afeições da vida terrestre, e pode se comunicar cornos vi vos. Segundo eles, é mais sadio crer no nada depois da morte; ou bem, o que vem a ser o mesmo, que a alma perde sua individualidade, se confunde no todo universal, como as gotas d’água no Oceano. É fato que, com esta última idéia, não se tem mais necessidade dose inquietar com a sorte de seus próximos, e que não se tem senão que pensar em si, em beber bem, em comer bem nesta vida, o que é todo proveito para o egoísta. Se a crença contrária é uma causa de loucura, por que há tantos loucos entre as pessoas que não crêem em nada? É, direis, que essa causa não é a única. De acordo; mas, então, por que gostaríeis que essas causas não possam atingir um Espírita como um outro; e por que pretenderíeis tornar o Espiritismo responsável por uma febre ou por um golpe de sol? Convidai a autoridade para punir com rigor contra as idéias espíritas porque, segundo eles, elas perturbam o cérebro; mas, por que não chamais também a vigilância da autoridade sobre as outras causas? Em vossa solicitude pela razão humana, da qual vos fazeis o tipo, fizestes o resumo dos inumeráveis casos de loucura produzida pelos desesperos do amor? Por que não convidais a autoridade para proscrever o sentimento amoroso? Está averiguado que todas as revoluções são marcadas por um recrudescimento notável nas afecções mentais; está aí, pois, uma causa eficiente bem manifesta, uma vez que ela aumenta o número da média; por que não aconselhais aos governantes para interditarem as revoluções como coisa malsã? Uma vez que o Sr. Burlet fez o resumo enorme de seis casos de loucura supostamente espírita, sobre uma população de 300.000 almas, convidamos os médicos espíritas para fazerem a de todos os casos de loucura, de epilepsia e outras afecções causadas pelo medo do diabo, ou o aterrorizante quadro das torturas eternas do inferno, e o ascetismo das reclusões claustrais.

 

Longe de admitir o Espiritismo como uma causa de aumento da loucura, dizemos que é uma causa atenuante que deve diminuir o número de casos produzidos pelas causas comuns. Com efeito, entre essas causas, é preciso colocar em primeira linha os desgostos de toda natureza, as decepções, as afeições contrariadas, os revezes de fortuna, as ambições frustradas. O efeito dessas causas está em razão da impressionabilidade do indivíduo; se houvesse um meio de atenuar essa impressionabilidade, isso seria, sem contradita, o melhor preservativo; pois bem! esse meio está no Espiritismo, que amortece o contragolpe moral, que faz receber com resignação as vicissitudes da vida; tal que teria se suicidado por um revés, haure na crença espírita uma força moral que lhe faz receber seu mal com paciência; não só não se matará mas, em presença da maior adversidade, conservará sua fria razão, porque tem uma fé inalterável no futuro. Dar-lhe-íeis essa calma com a perspectiva do nada? Não, por que não entrevê nenhuma compensação, e senão tiver nada para comer, poderá vos comer. A fome é uma terrível conselheira para aquele que crê que tudo termina com a vida; pois bem! o Espiritismo faz sentir mesmo a fome, porque faz ver, compreender e esperar a vida que segue a morte do corpo; eis a sua loucura.

 

A maneira pela qual o verdadeiro Espírita encara as coisas deste mundo e do outro, leva-o a domar em si as mais violentos paixões, mesmo a cólera e a vingança. Depois do artigo insultante da Gazette de Lyon, que lembramos mais acima, um grupo de uma dúzia de operários nos diz: “Se não fôssemos Espíritas, iríamos dar uma sova no autor para lhe ensinar a viver, e se estivéssemos em revolução, colocaríamos fogo na loja de seu jornal; mas somos Espíritas; lamentamo-lo e pedimos a Deus perdoar-lhe". Que dizeis dessa loucura, Sr. Burlet? Em semelhante caso o que teríeis preferido, ter relações com loucos dessa espécie, ou com homens que não temem nada? Pensai que, hoje, há deles mais de vinte mil em Lyon. Pretendeis servir aos interesses da Humanidade, e não compreendeis os vossos! Pedi a Deus que um dia não tenhais que lamentar que todos os homens não sejam Espíritas; é ao que, vós e os vossos, trabalhareis com todas as vossas forças. Semeando a incredulidade solapais os fundamentos da ordem social; levais à anarquia, às reações sangrentas; nós, nós trabalhamos para dar a fé àqueles que não crêem em nada; a difundir uma crença que torna os homens melhores uns para com os outros, que lhes ensina a perdoar seus inimigos, a se olharem como irmãos sem distinção de raças, de castas, de seitas, de cor, de opinião política ou religiosa; uma crença, em uma palavra, que faz nascer o verdadeiro sentimento da caridade, da fraternidade e dos deveres sociais.

Perguntai a todos os chefes militares que têm subordinados espíritas sob suas ordens, quais são aqueles que conduz com mais facilidade, que melhor observa a disciplina sem o emprego do rigor? Perguntai aos magistrados, aos agentes da autoridade que têm administrados espíritas nas classes inferiores da sociedade, quais são aqueles entre os quais há mais ordem e tranqüilidade; sobre os quais a lei tem menos a recair; onde há menos tumulto a apaziguar, desordens a reprimir?

 

Numa cidade do Sul, um comissário de polícia nos dizia: Desde que o Espiritismo se difundiu na minha circunscrição tenho dez vezes menos do mal do que antes". Perguntai, enfim, aos médicos espíritas quais são os doentes nos quais encontram menos afecções causadas pelos excessos de todos os gêneros? Eis uma estatística um pouco mais concludente, creio, do que os vossos seis casos de alienação mental. Se tais resultados são uma loucura, glorifico-me em propagá-lo. Onde esses resultados foram hauridos? Nos livros que alguns gostariam de lançar ao fogo; nos grupos que recomendais aos operários para fugirem. Que se vê nesses grupos, que pintais como o túmulo da razão? Homens, mulheres, crianças que escutam com recolhimento uma doce e consoladora moral, em lugar de ir ao cabaré perder seu dinheiro e sua saúde, ou fazer barulho na praça pública; que delas saem com o amor de seus semelhantes no coração, em lugar do ódio e da vingança.

 

Eis da parte do autor do artigo precitado uma singular confissão: Vítimas da alucinação que os possui, suas premissas admitidas raciocinam em seguida com uma lógica irrepreensível que não faz senão afirmar-lhes em sua aberração. Singular loucura em Verdade, que raciocina com uma lógica irrepreensível! Ora, qual é essa premissa? dissemo-lo há pouco: A alma sobrevive ao corpo, conserva sua individualidade e suas afeições, e pode se comunicar cornos vi vos, O que pode provar a verdade de uma premissa, se não for a lógica irrepreensível das deduções? Quem diz irrepreensível, diz inatacável, irrefutável; portanto, se as deduções de uma premissa são inatacáveis, é que elas satisfazem a tudo, e não se pode nada opor-lhe; portanto, se essas deduções são verdadeiras, é que a premissa é verdadeira, porque a verdade não pode ter um erro por princípio. De um princípio falso, sem dúvida, pode-se deduzir conseqüências aparentemente lógicas, mas isso não é senão uma lógica aparente, dito de outro modo, sofismas, e não uma lógica irrepreensível, porque ela deixará sempre uma porta aberta à refutação. A verdadeira lógica à aquela que satisfaz plenamente a razão ela não pode ser contestada; a falsa lógica não é senão um falso raciocínio sempre contestável. O que caracteriza as deduções de nossa premissa, é que são baseadas sobre a observação dos fatos; em Segundo lugar, que elas explicam, de maneira racional, o que, sem isso, é inexplicável, a casa passo, com dificuldades insolúveis. A teoria espírita, dizemos, está baseada sobre fatos, mas sobre milhares de fatos, se reproduzindo todos os dias, e observados por milhões de pessoas; a vossa, sobre meia dúzia observados por vós. Eis uma premissa da qual cada um pode tirar a conclusão.

(pp. 41-59)

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A luta entre o passado e o futuro

março de 1863

 

 

Uma verdadeira cruzada ocorre neste momento contra o Espiritismo, assim como isso nos foi anunciado: de diversos lados se nos assinalam escritos, discursos e mesmo atos de violência e de intolerância: todos os Espíritas devem se alegrar com isso, porque é a prova evidente de que o Espiritismo não é uma quimera. Fariam tanto barulho por uma mosca que voa?

 

O que excita, sobretudo, essa grande cólera é a prodigiosa rapidez com a qual a idéia nova se propaga, apesar de tudo o que se fez para detê-la. Também nossos adversários, forçados pela evidência de reconhecer que esse progresso invade as classes mais esclarecidas da sociedade e mesmo os homens de ciência, se reduziram a deplorar esse arrastamento fatal que conduz a sociedade inteira aos manicômios A zombaria esgotou seu arsenal de piadas e de sarcasmos, e essa arma, que se diz tão terrível, não pôde colocar os galhofeiros de seu lado, prova de que não tem matéria para rir. Não é menos evidente que ela não tirou um único partidário á Doutrina, longe disso, uma vez que aumentaram a olhos vistos. A razão disso é bem simples: reconheceu-se prontamente tudo o que há de profundamente religioso nessa Doutrina que toca as cordas mais sensíveis do coração, que eleva a alma para o infinito, que faz reconhecer a Deus àqueles que o tinham desconhecido: ela arrancou tantos homens ao desespero, acalmou tantas dores, cicatrizou tantas feridas morais, que os tolos e os chatos gracejos derramados sobre ela inspiraram mais desgosto do que simpatia. Os zombadores em vão se incomodaram sem proveito para fazer rir às suas custas; há coisas das quais, instintivamente, sente-se que não se pode rir sem profanação.

 

No entanto, se algumas pessoas, não conhecendo a Doutrina senão pelos gracejos sem graça, puderam crer que não se tratava senão de um sonho oco, de elucubração de um cérebro danificado, o que se passa é bem feito para desenganá-los. Ouvindo tantas declamações iradas, devem dizer a si mesmo que é mais sério do que não pensavam.

 

A população pode se dividir em três classes: os crentes, os incrédulos e os indiferentes. Se o número dos crentes centuplicou depois de alguns anos, isso não pode ser senão às custas das duas outras categorias. Mas os Espíritos que dirigem o movimento acharam que as coisas não iam ainda bastante depressa. Há ainda, disseram a si mesmos, muitas pessoas que não ouviram falar do Espiritismo, sobretudo no campo; é tempo de que a Doutrina ali penetre; além disso, é preciso despertar os indiferentes adormecidos. A zombaria fez seu trabalho de propaganda involuntária, mas tirou todas as flechas de seu estojo, mas as setas que ela dispara ainda são menos cortantes; é um fogo muito pálido agora. E preciso alguma coisa mais vigorosa, que faça mais barulho do que o tinir dos folhetins, que repercuta mesmo nas solidões; é preciso que a última aldeia ouça falar do Espiritismo. Quando a artilharia voltar, cada um se perguntará: O que há? e quererá ver.

 

Quando fizemos a pequena brochura: O Espiritismo em sua mais simples expressão, perguntamos aos nossos guias espirituais que efeito ela produziria. Foi-nos respondido: ela produzirá um efeito ao qual não esperas, quer dizer, teus adversários ficarão furiosos em ver uma publicação destinada, pelo seu extremo preço pouco elevado, a ser difundida em massa e penetrar por toda a parte. Anunciado te foi um grande desdobramento de hostilidades. tua brochura dele será o sinal. Não te preocupes com isso, conheces o fim. Eles se irritam em razão da dificuldade em refutar teus argumentos. —  Uma vez que assim é, dissemos, essa brochura, que deveria ser vendida por 25 centavos, será dada por duas moedas. O acontecimento justificou essas previsões, e disso nos felicitamos.

 

Tudo o que se passa, aliás, foi previsto e deveria ser para o bem da causa. Quando virdes alguma grande manifestação hostil, longe de vos amedrontar com ela, alegrai-vos, porque foi dito: o estrondo do rato será o sinal da aproximação dos tempos preditos. Orai então, meus irmãos; orai sobretudo pelos vossos inimigos, porque serão tomados de uma verdadeira vertigem.

 

Mas nem tudo ainda se cumpriu: a chama da fogueira de Barcelona não subiu tão alto. Se ela se renova em alguma parte, guardai-vos de extingui-la, porque ela se elevará mais, semelhante a um farol, será vista de longe, e ficará na lembrança das idades. Deixai, pois, fazer e em nenhuma parte opondo a violência à violência; lembrai-vos de que o Cristo disse a Pedro para guardar sua espada na bainha. Não imiteis as seitas que se entre dilaceraram em nome de um Deus de paz, que cada um chamava em ajuda aos seus furores. A verdade não se prova pelas perseguições, mas pelo raciocínio: as perseguições, em todos os tempos, foram a arma das más causas, e daqueles que tomam o triunfo da força bruta pelo da razão. A perseguição é um meio mau de persuasão: pode momentaneamente abater o mais fraco, convencê-lo, jamais; porque, mesmo na aflição em que o tiver mergulhado, exclamará, como Galileu em sua prisão: e pur si muove! Recorrer à perseguição é provar que se conta pouco com o poder de sua lógica. Não useis, pois, de represálias: à violência opondo a doçura e uma inalterável tranqüilidade; restitui aos vossos inimigos o bem pelo mal: por aí dareis um desmentido às suas calúnias, e força-los-eis a reconhecer que vossas crenças são melhores do que eles dizem.

 

A calúnia! direis; pode-se ver com sangue frio nossa Doutrina indignamente deturpada por mentiras? acusada de dizer o que não disse, de ensinar o contrário do que ela ensina, de produzir o mal ao passo que não produz senão o bem? A própria autoridade daqueles que têm uma tal linguagem não pode dobrar a opinião, retardar o progresso do Espiritismo?

 

Incontestavelmente está aí seu o objetivo; atingi-lo-ão? 4 urra outra questão, e não hesitamos em dizer que chegam a um resultado todo contrário: o de se desacreditarem e à sua causa. A calúnia, sem contradita, é uma arma perigosa e pérfida, mas tem dois gumes e fere sempre aquele que dela se serve. Recorrer à mentira para se defender é a mais forte prova de que não se tem boas razões para dar, porque, tendo-as, não se deixaria de fazê-las valer. Dizeis que uma coisa é má, se tal é vossa opinião: gritai-o sobre os telhados, se bom vos parece, cabe ao público julgar se estais no erro ou na verdade; mas deturpá-la para apoiar vosso sentimento desnaturá-la, é indigno de todo homem que se respeita. Nos relatórios das obras dramáticas e literárias, vêem-se freqüentemente apreciações muito opostas; um crítico louva exageradamente o que um outro achincalha: é seu direito: mas o que se pensaria daquele que, para sustentar a sua censura faria o autor dizer o que não disse, lhe emprestaria maus versos para provar que sua poesia é detestável?

 

Ocorre assim com os detratores do Espiritismo: pelas suas calúnias mostram a fraqueza de sua própria causa e a desacreditam fazendo ver a que lamentáveis extremismos são obrigados a recorrer para sustentá-la. De que peso pode ser uma opinião fundada sobre erros manifestos? De duas coisas uma, ou esses erros são voluntários, e então se vê a má fé; ou são involuntários, e o autor prova sua inconseqüência falando do que não sabe; num e noutro caso perde todo direito à confiança.

 

O Espiritismo não é uma Doutrina que caminha na sombra; ele é conhecido, seus princípios são formulados de maneira clara, precisa, e sem ambigüidade. A calúnia, pois, não poderia atingi-lo; basta, para convencê-la de impostura, dizer: lede e vede. Sem dúvida, é útil desmascará-la: mas é preciso fazê-lo com calma, sem aspereza nem recriminação, irritando-se a opor, sem discursos supérfluos, o que é do que não é; deixai aos vossos adversários a cólera e as injúrias, guardai para vós o papel da força verdadeira: o da dignidade e da moderação.

 

De resto, não é preciso exagerar as conseqüências dessas calúnias, que levam consigo o antídoto de seu veneno, e são em definitivo mais vantajosas do que nocivas. Forçosamente, elas provocam o exame de homens sérios que querem julgar as coisas por si mesmos, e nisso são excitados em razão da importância que se lhe dá; ora, o Espiritismo, longe de temer o exame, provoca-o, e não se lamenta senão de uma coisa, é que tantas pessoas dele falam como os cegos das cores; mas graças aos cuidados que nossos adversários tomam em fazê-lo conhecer, esse inconveniente logo não existira mais, e é tudo o que pedimos. A calúnia que ressalta desse exame engrandece-o em lugar de rebaixá-lo.

 

        Espíritas, não lamenteis, pois, essas deturpações: não tirarão nenhuma das qualidades do Espiritismo; ao contrário, as farão ressaltar com mais estrondo pelo contraste, e se voltarão para a confusão dos caluniadores: essas mentiras, certamente, podem ter por efeito imediato enganar algumas pessoas, e mesmo desviá-las; mas o que é isso? O que são alguns indivíduos perto das massas? Sabeis, vós mesmos, quanto o seu número é pouco considerável. Que influência isso pode ter sobre o futuro? Esse futuro vos está assegurado: os fatos realizados vos respondem por ele e cada dia vos traz a prova da inutilidade dos ataques de nossos adversários. A doutrina do Cristo não foi caluniada, qualificada de subversiva e de ímpia? Ele mesmo não foi tratado como velhaco e como impostor? Perturbou-se com isso? Não, porque sabia que seus inimigos passariam e que a sua doutrina ficaria. Assim o será com o Espiritismo. Singular coincidência! Não é outro senão o chamado à pura lei do Cristo, e é atacada com as mesmas armas! Mas seus detratores passarão; é uma necessidade à qual ninguém pode se subtrair. A geração atual se extingue todos os dias, e com ela vão os homens imbuídos dos preconceitos de um outro tempo; a que se ergue está nutrida de idéias novas, e sabeis, aliás, que se compõe de Espíritos mais avançados que devem fazer, enfim, a lei de Deus reinar sobre a Terra. Olhai, pois, as coisas de mais alto; não as vejais do ponto de vista restrito do presente, mais estendei vossos olhares para o futuro e dizei a vós mesmos: O futuro é nosso; que nos importa o presente! que nos fazem as questões de pessoas! as pessoas passam, as instituições ficam. Pensai que estamos num momento de transição; que assistimos à luta entre o passado que se debate e se coloca para trás, e o futuro que nasce e se coloca para adiante. Quem levará a melhor? O passado é vicioso e caduco, — falamos das idéias, — ao passo que o futuro é jovem, e caminha para a conquista do progresso que está nas leis de Deus. Os homens do passado se vão com ele; os do futuro chegam; saibamos, pois, esperar com confiança e nos felicitemos por sermos os primeiros pioneiros encarregados de arrotear o terreno. Se temos o trabalho, teremos o salário. Trabalhemos, pois, não para uma propaganda colérica e irrefletida, mas com a paciência e a perseverança do trabalhador que sabe o tempo que lhe é preciso para chegar à colheita. Semeemos a idéia, mas não comprometamos a colheita por um ensinamento intempestivo e por nossa impaciência, antecedendo a estação própria para cada coisa. Cultivemos, sobretudo as plantas férteis que não pedem senão produzir são bastante numerosas para ocupar todos os nossos instantes, sem usar nossas forças contra rochas irremovíveis que Deus se encarrega de abalar e destruir, quando chegar seu tempo, porque se tem a força de elevar as montanhas, tem a de abaixá-las. Tiremos a figura, e digamos simplesmente que há resistências que seria supérfluo procurar vencer, e que se obstinam mais por amor-próprio, ou por interesse, do que por convicção; seria perder seu tempo procurar trazê-los a si; não cederão senão diante da força da opinião. Recrutemos os adeptos entre as pessoas de boa vontade, que não faltam; aumentemos a falange de todos aqueles que, cansados da dúvida e assustados corno nada materialista não pedem senão crer, e logo o número deles será tal que os outros acabarão por se render à evidência. Esse resultado já se manifesta, e esperai, dentro em pouco, a ver em vossa fileiras aqueles que nela não esperáveis senão os últimos.

 

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Os falsos irmãos e os amigos desajeitados

março de 1863

 

 

Assim como demonstramos em nosso artigo precedente, nada poderia prevalecer contra a destinação providencial do Espiritismo. Do mesmo modo que ninguém pode impedir a queda daquele que, nos decretos divinos: homens, povos ou coisas, deve cair, ninguém pode deter a marcha do que deve ir adiante. Esta verdade, com relação ao Espiritismo, ressalta dos fatos realizados, e muito mais ainda de um outro ponto capital. Se o Espiritismo fosse uma simples teoria, um sistema, poderia ser combatido pai Um outro sistema, mas ele repousa sobre uma lei natural, tudo tão bem quanto o movimento da Terra. A existência dos Espíritos é inerente à espécie humana: não se pode, pois, fazer que não seja, e não se pode mais proibi-los de se manifestar quanto não se pode impedir o homem de caminhar. Não têm necessidade, para isso, de nenhuma permissão, e se riem de todas as proibições, porque não é preciso perder de vista que, além das manifestações mediúnicas propriamente ditas, há manifestações naturais e espontâneas, que se produziram em todos os tempos e se produzem todos os dias, entre uma multidão de pessoas que jamais ouviram falar dos Espíritos. Quem poderia, pois, se opor ao desenvolvimento de uma lei da Natureza? Sendo essa lei obra de Deus, insurgir-se contra ela é se revoltar contra Deus. Estas considerações explicam a inutilidade dos ataques dirigidos contra o Espiritismo. O que os Espíritas têm a fazer, em presença dessas agressões, é continuar pacificamente seus trabalhos, sem fanfarrice, com a calma e a confiança que dá a certeza de chegar ao objetivo.

 

No entanto, se nada pode deter a marcha geral, há circunstâncias que podem lhe trazer entraves parciais, como uma pequena barragem pode abrandar o curso de um rio sem impedi-lo de correr. Desse número são as providências inconseqüentes de certos adeptos mais zelosos do que prudentes, que não calculam bastante a importância de seus atos ou de suas palavras; por aí produzem, nas pessoas ainda não iniciadas na Doutrina, uma impressão desfavorável, muito mais própria para afastá-las do que as diatribes dos adversários, O Espiritismo, sem dúvida, está muito difundido, mas o seria ainda mais se todos os adeptos tivessem sempre escutado os conselhos da prudência, e sabido conter-se numa sábia reserva. Sem dúvida, é preciso ter em conta a intenção, mas é cedo que mais de um justificou o provérbio: Mais vale um inimigo confesso do que um amigo desajeitado. O pior disto, é fornecer armas aos adversários que sabem habilmente explorar uma imperícia. Não saberíamos, pois, senão recomendar aos Espíritas para refletirem maduramente antes de agir: em semelhante caso a prudência manda não se referir à sua opinião pessoal. Hoje, que de todos os lados se formam grupos ou sociedades, nada é mais simples do que se concordar antes de agir. O verdadeiro Espírita, não tendo em vista senão o bem da coisa, sabe fazer abnegação do amor-próprio; crer em sua própria infalibilidade, recusar em aceitar a opinião da maioria, e persistir num caminho que se demonstra mau e comprometedor, não é o fato de um verdadeiro Espírita isto seria dar prova de orgulho, senão foro fato de uma obsessão.

 

Entre as imperícias, é preciso colocar, em primeira linha, as publicações intempestivas ou excêntricas, porque são os fatos que mais repercutem. Nenhum Espírita ignora que os Espíritos estão longe deterem a soberana ciência; muitos dentre eles sabem disso menos do que certos homens, e, como certos homens também, não têm menos a pretensão de tudo saber. Sobre todas as coisas, têm sua opinião pessoal, que pode ser justa ou falsa; ora, como os homens ainda, são geralmente aqueles que têm as idéias mais falsas que são os mais obstinados. Esses falsos sábios falam de tudo, excitam os sistemas, criam utopias, ditam as coisas mais excêntricas, e ficam felizes de encontrar intérpretes complacentes e crédulos que aceitam suas elucubrações de olhos fechados. Essas espécies de publicações têm gravíssimos inconvenientes, porque o médium engana-se a si mesmo, freqüentemente seduzido por um nome apócrifo, as dá como coisas sérias das quais a crítica se apodera com pressa para denegrir o Espiritismo, ao passo que, com menos presunção, bastar-lhe-ia aconselhar-se com seus colegas para ser esclarecido. É muito raro que, nesse caso, o médium não ceda à injunção de um Espírito que quer, ai! ainda como certos homens, a toda força ser impresso; com mais experiência, saberia que os Espíritos verdadeiramente superiores aconselham, mas não se impõem nem gabam jamais, e que toda prescrição imperiosa é um sinal suspeito.

 

Quando o Espiritismo for completamente assistido e conhecido, as publicações dessa natureza não terão mais inconvenientes do que os maus tratados de ciências não têm em nossos dias; mas no inicio, nós o repetimos, elas têm um lado muito deplorável. Não se saberia, pois, em fato de publicidade, trazer mais circunspecção, nem calcular com mais cuidado o efeito que pode ser produzido sobre o leitor. Em resumo, é um grave erro crer-se obrigado a publicar tudo o que ditam os Espíritos, uma vez que, se há os bons e esclarecidos, há os maus e ignorantes; importa fazer uma escolha muito rigorosa de suas comunicações, podando tudo o que é inútil, insignificante, falso ou de natureza a produzir uma impressão ma. É preciso semear, sem dúvida, mas semear a boa semente e em tempo oportuno.

 

Passemos a um assunto mais sério ainda, os falsos irmãos. Os adversários do Espiritismo, alguns pelo menos, porque pode e deve haver os de boa fé, não são, como se sabe, muito escrupulosos sobre a escolha dos meios: tudo é para eles de boa guerra, e quando não se pode tomar uma cidadela de assalto, ela é minada por baixo. Na falta de boas razões, que são as armas leais, se os vê, todos os dias derramar sobre o Espiritismo a mentira e a calúnia. A calúnia é odiosa, eles bem o sabem, e a mentira pode ser desmentida, e também procuram fatos para se justificarem; mas como encontrar fatos comprometedores entre pessoas sérias, se não for os produzidos por si mesmo ou por associados? O perigo não está nos ataques de viva força: nem está nas perseguições, nem mesmo na calúnia, como vimos; mas está nas astúcias ocultas empregadas para desacreditar e arruinar o Espiritismo por si mesmo. Triunfarão? É o que examinaremos dentro em pouco.

 

Já chamamos a atenção sobre essa manobra no relatório de nossa viagem em 1862 (página 45), porque, no nosso caminho, recebemos três beijos de Judas dos quais não fomos vítima, embora nada tenham manifestado; de resto deles havíamos sido prevenidos antes de nossa partida, assim como as armadilhas que nos seriam estendidas. Mas ficamos de olho sobre eles, certo de que um dia mostrarão as suas verdadeiras intenções, porque é tão difícil a um falso Espírita arremedar sempre o verdadeiro Espírita, do que um mau Espírita simular um Espírito superior; nem um nem o outro podem sustentar por muito tempo seu papel.

 

De várias localidades nos assinalam indivíduos, homens ou mulheres, com antecedentes e com relações suspeitas, cujo zelo aparente pelo Espiritismo não inspira senão uma medíocre confiança, e não estamos surpresos de encontrar os três Judas dos quais falamos: há-os no baixo e no alto da escala. De sua parte, freqüentemente, é mais que do zelo; é do entusiasmo, uma admiração fanática. Segundo ele seu devotamento vai até o sacrifício de seus interesses, e apesar disso não atraem nenhuma simpatia: um fluido malsão parece envolvê-los: sua presença nas reuniões ali lança um manto de gelo. Acrescentemos que há os que cujos meios de existência tornam-se um problema, em província, sobretudo onde todo o mundo se conhece.

 

O que caracteriza principalmente esses pretensos adeptos é sua tendência em fazer o Espiritismo sair de seus caminhos de prudência e de moderação pelo seu ardente desejo do triunfo da verdade; a impelir as publicações excêntricas, a se extasiar de admiração diante das comunicações apócrifas mais ridículas, e que eles têm o cuidado de difundir; a provocar, nas reuniões, assuntos comprometedores sobre a política e a religião, sempre para o triunfo da verdade que não precisam ter sob o alqueire; seus elogios sobre os homens e as coisas são golpes de turíbulo a quebrar cinqüenta faces: são os Fanfarrões do Espiritismo. Outros são mais adocicados e mais insinuantes; sob seu olhar oblíquo e com palavras melosas, sopram a discórdia, pregando a desunião; lançam jeitosamente sobre o tapete questões irritantes ou formas, assunto de natureza a provocar dissidências; excitam um ciúme de preponderância entre os diferentes grupos, e ficam encantados em vê-los se lançarem pedra, e, em favor de algumas divergências de opinião sobre certas questões de forma e de fundo, o mais freqüentemente provocadas, levantar bandeira contra bandeira.

 

Alguns fazem, em seu dizer, um excessivo consumo de livros espíritas, do qual os livreiros quase não se apercebem, e uma propaganda exagerada; mas, por efeito do acaso, a escolha de seus adeptos é infeliz; uma fatalidade leva-os a se dirigirem de preferência a pessoas exaltadas, às idéias obtusas, ou que já deram sinais de aberração; depois, apresentando-se ocasião a deploram gritando-a por toda parte, constata-se que essas pessoas se ocupam do Espiritismo, do qual na maior parte do tempo não compreenderam a primeira palavra. Aos livros espíritas que esses apóstolos zelosos distribuem generosamente, freqüentemente, acrescentam não críticas, isso seria imperícia, mas livros de magia e de feitiçaria, ou escritos políticos pouco ortodoxos, ou diatribes ignóbeis contra a religião, a fim de que, apresentando-se a ocasião, fortuita ou não, se possa, numa verificação, confundir o todo reunido.

 

Como é mais cômodo ter as coisas sob a mão, para ter comparsas dóceis, o que se acha por toda parte, há os que organizam ou fazem organizar reuniões onde se ocupa, de preferência, daquilo que o Espiritismo precisamente recomenda para não se ocupar, e onde se tem o cuidado de atrair estranhos que não são sempre os amigos; ali o sagrado e o profano são indignamente confundidos; os nomes mais veneráveis são misturados ás práticas mais ridículas da magia negra, com acompanhamento de sinais e palavras cabalísticas, talismãs, tripés sibilinos e outros acessórios; alguns a isso acrescentam, como complemento, e às vezes como produto lucrativo, a cartomancia, a quiromancia, a marca de café, o sonambulismo pago, etc.; Espíritos complacentes, que ali encontram intérpretes não nomes complacentes, predizem o futuro, dizem a sorte, descobrem os tesouros escondidos e os tios da América, indicam, se for preciso, o curso da Bolsa e os números vencedores da loteria; depois, um belo dia, a justiça intervém, ou bem vê-se num jornal o relatório de uma sessão de Espiritismo à qual o autor assistiu e conta o que viu, com seus próprios olhos viu.

 

Tentareis reconduzir todas essas pessoas a idéias mais sadias? Seria tempo perdido, e se compreende o porquê: a razão e o lado sério da Doutrina não são seu negócio; é o que os mais atormenta; dizer-lhes que prejudica a causa, que dão armas aos seus inimigos, é elogiá-los; sendo seu objetivo desacreditá-la, tendo ar de defendê-la. Instrumentos, não temem nem de comprometer os outros levando-os sob o rigor da lei, e nem de se colocar eles mesmos, porque sabem ali encontrar compensação.

 

Seu papel não é sempre idêntico; varia segundo sua posição social, suas aptidões, a natureza de suas relações e o elemento que os faz agirem; mas o objetivo é sempre o mesmo. Nem todos empregam meios tão grosseiros, mas que nem por Isso são menos pérfidos. Lede cedas publicações supostamente simpáticas à idéia, mesmo em aparência defensiva da idéia, pesai-lhes todos os pensamentos, e vede se, ás vezes, ao lado do uma aprovação colocada à guisa de cobertura e de etiqueta, não descobrireis, lançado como por acaso, um pensamento insidioso, uma insinuação de duplo sentido, um fato contado de maneira ambígua e podendo se interpretar num sentido desfavorável. Entre eles ha os menos velados, e que, sob o manto do Espiritismo, são evidentemente feitos tendo em vista suscitar divisões entre os adeptos.

 

Perguntar-se-nos-ão, sem dúvida, se todas as torpezas das quais acabamos de falar são invariavelmente o fato de manobras ocultas, ou uma comédia representada num objetivo interessado, e se elas não podem ser também o de um movimento espontâneo; em uma palavra, se todos os Espíritas são homens de bom senso e incapazes de se enganar?

 

Pretender que todos os Espíritas são infalíveis seria tão absurdo quanto a pretensão de nossos adversários deterem, só eles, o privilégio da razão. Mas se há os que se enganam, é, pois, que menosprezam o sentido e o objetivo da Doutrina; nesse caso, sua opinião não pode fazer lei, e 6 ilógica ou desleal, segundo a intenção, de tomar a idéia individual pela idéia geral, e de explorar uma exceção. Ocorreria o mesmo tornando-se as aberrações de alguns sábios pelas regras da ciência. Aqueles diremos: Se quereis saber de que lado está a presunção de verdade, estudai os princípios admitidos pela imensa maioria, se não for ainda a unanimidade absoluta dos Espíritas do mundo inteiro.

 

Os crentes de boa fé podem, pois, se enganar, e não consideramos um crime não pensarem como nós: se, entre as torpezas relatadas acima, fossem elas o fato de uma opinião pessoal, não se poderia nisso ver senão desvios isolados, lamentáveis, dos quais seria injusto fazer recair a responsabilidade sobre a Doutrina, que os repudia vivamente; mas se dizemos que podem ser o resultado de manobras interesseiras, é que nosso quadro foi tomado sobre modelos. Ora, como é a única coisa que o Espiritismo haja, verdadeiramente, que temer no momento, convidamos todos os adeptos sinceros a se manterem em guarda evitando as armadilhas que se poderia estender-lhes. Para esse efeito, não poderiam ser mais circunspectos sobre os elementos a introduzir em suas reuniões, nem repelir com muito cuidado todas as sugestões que tendessem a desnaturar-lhe o caráter essencialmente moral. Mantendo ali a ordem, a dignidade e a seriedade que convêm a homens sérios, se ocupando de uma coisa séria, fecharão o acesso aos mal intencionados que se retirarão quando reconhecerem que ali nada têm a fazer. Pelos mesmos motivos, devem declinar toda solidariedade com as reuniões formadas fora das condições prescritas pela sã razão e os verdadeiros princípios da Doutrina, se não podem conduzi-los para um bom caminho.

 

Como se vê, há um a grande diferença, certamente, entre os falsos irmãos e os amigos desajeitados, mas, sem o querer, o resultado pode ser o mesmo: desacreditar a Doutrina. A nuança que os separa, freqüentemente, não está senão na intenção, o que faz que se possa, algumas vezes, confundi-los e, vendo-os servir os interesses do partido adverso, supor que foram ganhados por ele. A circunspecção é, pois, nesse momento, sobretudo, mais necessária do que nunca, porque não é preciso esquecer que palavras, ações ou escritos inconsiderados são explorados, e que os adversários se encantam em poderem dizer que isso vem dos Espíritas.

 

Nesse estado de coisas, compreende-se quais armas a especulação, em razão dos abusos aos quais pode dar lugar, podem oferecer aos detratores para apoiar sua acusação de malabarismos. Isso pode, pois, em certos casos, ser uma armadilha estendida da qual é preciso desconfiar. Ora, como não há malabarismo filantrópico, a abnegação e o desinteresse absoluto dos médiuns tiram aos detratores um de seus mais poderosos meios de difamação interrompendo toda discussão sobre esse assunto.

 

 

Levar a desconfiança ao excesso seria um erro muito grave, sem dúvida, mas num tempo de luta, e quando se conhece a tática do inimigo! a prudência se torna uma necessidade que não exclui, de resto, nem a moderação, nem a observação das conveniências das quais jamais se deve desistir. Aliás, não se poderia equivocar-se sobre o caráter do verdadeiro Espírita; há nele uma franqueza de maneiras que desafia toda suspeita, sobretudo quando é corroborada pela prática dos princípios da Doutrina. Que se levante bandeira contra bandeira como procuram fazê-lo nossos antagonistas, o futuro de cada um está subordinado à soma de consolações e de satisfação morar que trazem; um sistema não pode prevalecer sobre um outro senão com a condição de ser mais lógico, e do qual a opinião pública é o soberano juiz; em todos os casos, a violência, as injúrias e a aspereza são maus antecedentes e uma recomendação pior ainda.

 

Resta a examinar as conseqüências desse estado de coisas. Essas astúcias podem, sem contradita, momentaneamente trazer algumas perturbações parciais, por isso é preciso desmanchá-las tanto quanto possível, mas elas não poderiam prejudicar o futuro; primeiro porque não terão senão um tempo, uma vez que são uma manobra da oposição que cairá pela força das coisas; em segundo lugar que, o que quer que se diga e que se faça, não tirará jamais, a Doutrina, seu caráter distintivo, sua filosofia racional nem sua morai consoladora. Será estranho torturá-la e deturpá-la, fazer os Espíritos falarem à sua vontade, ou recolher comunicações apócrifas para lançar contradições como obstáculos, não se fará prevalecer um ensinamento solado, fosse ele verdadeiro e não suposto contra aquele que é dado de todas as partes, O Espiritismo se distingue de todas as outras filosofias naquilo que não é o produto da concepção de um único homem, mas de um ensino que cada um pode receber sobre todos os pontos do globo, e tal é a consagração que recebeu O Livro dos Espíritos. Este livro, escrito sem equívoco possível e ao alcance de todas as inteligências, será sempre a expressão clara e exata da Doutrina, e a transmitirá intacta àqueles que virão depois de nós. As cóleras que provoca são um indício do papel que está chamado a desempenhar, e da dificuldade de lhe opor alguma coisa de mais séria, O que fez o rápido sucesso da Doutrina Espírita são as consolações e as esperanças que ela dá; todo sistema que, pela negação dos princípios fundamentais, tendesse a destruir a própria fonte dessas consolações, não poderia ser acolhido com mais favor.

 

É preciso não perder de vista que estamos, como dissemos, em momento de transição, e que nenhuma transição se opera sem conflito. Que não se admire, pois, em verse agitarem as paixões em jogo, as ambições comprometidas, as pretensões frustradas, e cada um tentar recobrar o que vê lhe escapar, aterrando-se ao passado; mas pouco a pouco tudo isso se apaga, a febre se acalma, os homens passam, e as idéias novas ficam. Espíritas, elevai-vos pelo pensamento, levai vosso olhares vinte anos à frente, e o presente não vos inquietará.

(pp. 69-80).

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Os sermões continuam e não se assemelham

abril de 1863

 

 

Escreveram-nos de Chauny, em 7 de março de 1863:

 

Senhor,

 

Venho tentar vos dar a análise de um sermão que nos foi pregado ontem pelo Sr. abade X..., estranho á nossa paróquia. Esse padre, que, de resto, é muito bom pregador, nos explicou, tanto quanto é possível fazê-lo, o que é Deus e o que são os Espíritos. Não devia ignorar que tinha um número muito grande de Espíritas em seu auditório, também sentimos uma vivíssima satisfação de ouvir falar dos Espíritos e de suas relações com os vivos.

 

‘Não me explico de outro modo, disse ele, todos os fatos miraculosos, todas as visões, todos os pressentimentos, senão pelo contato daqueles que nos são caros e que nos precederam no túmulo; e se não temo levantar um véu muito misterioso, ou de vos falar de coisas que não seriam compreendidas por todos, me entendi por muito tempo sobre esse assunto. Sinto-me inspirado, e, obedecendo á voz de minha consciência, não poderia muito vos pedir em guardarem boa lembrança de minhas palavras: Crer nesse Deus de que todos os Espíritos emanam, e a quem deveremos nos reunir um dia.”

 

Esse sermão, senhor, dito com um acento de doçura, de benevolência e de convicção, aliado ao coração, bem melhor do que os discursos furiosos onde se procura em vão a caridade pregada pelo Cristo; estava ao alcance de todas as inteligências; também todos os compreenderam e saíram reconfortados, em lugar de desencorajados e tristes pelos quadros do inferno e das penas eternas, e tantos outros assuntos em contradição com a sã razão.

 

‘Aceitai, etc

Este sermão, obrigado Deus, não é único desse gênero; foram-nos assinalados vários outros deles no mesmo sentido, mais ou menos acentuados, que foram pregados em Paris e nos departamentos; e, coisa bizarra, num sentido diametralmente oposto, pregados no mesmo dia, na mesma cidade, e quase na mesma hora. Isso nada tem de surpreendente, porque há muitos eclesiásticos esclarecidos que compreendem que a religião não pode senão perder de sua autoridade ao se inscrever em falso contra a irresistível marcha das coisas, e que, como todas as instituições, ela deve seguir o progresso das idéias, sob pena de receber mais tarde o desmentido dos fatos realizados. Ora, quanto ao Espiritismo, é impossível que muitos desses senhores não estejam no estado de se convencerem por si mesmos da realidade das coisas; conhecemos pessoalmente mais de um desses casos. Um deles nos disse um dia: ‘Pode-se me proibir de falar em favor do Espiritismo, mas me obrigar a falar contra a minha convicção, a dizer que tudo isso é obra do demônio, quando tenho a prova material do contrário, é o que não farei jamais’.

 

        Dessa divergência de opinião ressalta um fato capital, é que a doutrina exclusiva do demônio é uma opinião individual que deverá, necessariamente, curvar-se diante da experiência e da opinião geral. Que alguns persistam em suas idéias até in extrermis, é possível, mas eles passarão, e com eles as suas palavras.

 

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Suicídio falsamente atribuído ao Espiritismo

abril de 1863

 

O ardor dos adversários em recolher, e sobretudo em desnaturar os fatos que crêem poder comprometer o Espiritismo, é verdadeiramente incrível; está num ponto que não haverá logo um acidente qualquer do qual não o tornem responsável.

 

Um fato lamentável ocorreu recentemente em Tours, e não podia faltar de ser explorado pela crítica, foi o suicídio de dois indivíduos que se esforçaram por atribuir ao Espiritismo.

 

O jornal le Monde (antigo Univers religieux), e depois dele vários jornais, publicaram sobre esse assunto um artigo do qual extraímos as passagens seguintes:

 

‘Um casal muito avançado em idade, Sr. e senhora ainda bem de saúde e gozando de uma renda que lhes permitia viver comodamente, se entregou há dois anos às operações do Espiritismo. Quase toda noite se reuniam em sua casa um certo número de operários, homens e mulheres, e pessoas jovens dos dois sexos, diante dos quais nossos dois Espíritas faziam suas evocações, pelo menos pretendiam fazê-las.

 

“Não falaremos das questões de toda espécie das quais se pedia solução aos Espíritos nessa casa. Aqueles que conheciam essas duas pessoas! há muito tempo, e seus sentimentos sobre a religião, jamais se surpreenderam das cenas que poderiam se produzir em sua casa. Estranhas a toda idéia cristã, estavam lançados na magia, onde passavam por mestres hábeis e completos.

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“Um e o outro estavam convencidos, há pouco tempo, que os Espíritos lhes convidavam vivamente a deixar a Terra, a fim de gozar num outro mundo, o mundo supra-terrestre, de maior soma de felicidade. Com efeito, não duvidando que seria assim, como maior sangue frio, consumaram um duplo suicídio, que fez hoje um grande escândalo na cidade de Tours.

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Assim, é hoje o suicídio que se tem a constatar como resultado do Espiritismo e de sua doutrina: ontem eram casos de loucura, sem falar das desordens domésticas e de outras desordens às quais o Espiritismo, tão freqüentemente, tem dado ocasião. Isto não basta para fazer compreender aos homens que não querem escutar a voz da religião, a quais perigos estão expostos entregando-se a essas tenebrosas e estúpidas práticas?

 

Notemos primeiro que se esses dois indivíduos pretendiam fazer evocações, é que não a faziam realmente; portanto, se não faziam evocações reais era uma quimera, e os Espíritos não podem lhes ter dado maus conselhos.

 

Eram Espíritas, quer dizer, Espíritas de coração e não de nome? O artigo constata que eles eram estranhos a toda idéia cristã; além disso, que passavam por mestres hábeis e completos em tato de magia; ora, está constatado que o Espiritismo é inseparável das idéias religiosas, e sobretudo cristãs; que a negação destas é a negação do Espiritismo; que ele condena as práticas da magia, com as quais nada tem de comum; que denuncia como supersticiosa a crença na virtude dos talismãs, sinais cabalísticos e palavras sacramentais; portanto, essas pessoas não eram Espíritas, uma vez que estavam em contradição com os princípios do Espiritismo. Para homenagear a verdade, diremos que, tomadas as informações acima, resulta que essas pessoas não se ocupavam de magia, e que, sem dúvida, quis se aproveitar da circunstância para unir seu nome ao Espiritismo.

 

O artigo disse, além disso que, em sua casa, eram feitas aos Espíritos perguntas de toda espécie, O Espiritismo diz expressamente que não se podem dirigir aos Espíritos todas as espécies de perguntas; que eles vêm para nos instruir e nos tornar melhores, e não para se ocuparem dos interesses materiais; que é se equivocar sobre os objetivos das manifestações nelas vendo apenas um meio de conhecer o futuro, de descobrir tesouros ou heranças, de fazer invenções ou descobertas científicas para se ilustrar ou se enriquecer sem trabalho; em uma palavra, que os Espíritos não vêm ler a sorte; portanto, fazendo aos Espíritos perguntas de toda espécie, o que é muito real, esses indivíduos provam a sua ignorância do próprio objetivo do Espiritismo.

 

O artigo não disse que disso fizessem negócio, e, com efeito, assim não era, de outro modo lembraríamos o que foi dito cem vezes a respeito dessa exploração e de suas conseqüências, das quais o Espiritismo sério não pode assumir a responsabilidade legal ou outra, não mais do que assume a das excentricidades daqueles que não o compreendem; não toma a defesa de nenhum dos abusos que poderiam ser cometidos em seu nome, por aqueles que dele tomassem a forma ou a máscara sem assimilar-lhe os princípios

 

Uma o