Refutações de Kardec – Revista Espírita 1864
Curso Público de Espiritismo em Lyon e em Bourdeaux
Algumas refutações – conspiração contra a fé
Reclamação do Sr. Abade Barricand
O Espiritismo em Constantinopla
Extrato do Progres Colonial, jornal da ilha Maurício
Extrado da Revista Espírita D'Anvers, sobre a cruzada contra o Espiritismo
Resposta do redator de La Vérité à reclamação do Sr. Abade Barricand
A influência da música sobre os criminosos, os loucos e os idiotas
Um suicídio falsamente atribuído ao Espiritismo
Outro suicídio falsamente atribuído ao Espiritismo
Curso Público de Espiritismo em Lyon e em Bourdeaux
maio de 1864
Não se trata aqui, como se poderia crê-lo, de uma demonstração
aprovadora da Doutrina, mas, ao contrário, de uma nova forma de ataque, sob um
título atraente e um tanto enganador, porque aquele que sob a fé do programa,
irá lá crendo assistir a lições de Espiritismo, será muito desapontado. Os
sermões estão longe de terem o resultado que deles se espera; não se dirigem,
aliás, senão aos fiéis; depois exigem uma forma muito solene, muito
exclusivamente religiosa; ao passo que a tribuna de ensino permite maneiras
mais livres, mais familiares; o orador eclesiástico faz abstração de sua
qualidade de sacerdote: torna-se professor. Esse meio triunfará? O futuro no-lo
ensinará.
O Sr. abade Barricand, professor da Faculdade de Teologia de Lyon,
começou no Pequeno-Colégio uma série de lições públicas sobre, ou melhor,
contra o magnetismo e o Espiritismo. O jornal la Vérité, em seu número
do dia 10 de abril de 1864, dá a análise de uma sessão consagrada ao
Espiritismo, e salienta várias afirmações do orador; promete manter seus
leitores ao corrente da continuação, ao mesmo tempo que trata de refutá-lo, o
que, disso não duvidamos cumprirá muito bem, a julgá-lo pelo seu início. A
conveniência e a moderação da qual deu prova até este dia, em sua polêmica, nos
são garantia de que dela não renunciará nesta circunstância, no caso mesmo onde
seu contraditor dela se afastar.
Enquanto o Sr. abade Barricand permanecer sobre o terreno da
discussão dos princípios da Doutrina, estará em seu direito; não podemos estar
descontente de não ser de nossa opinião, de dizê-lo, e de procurar provar que
tem razão. Gostaríamos que, em geral, o clero fosse partidário do livre exame,
como nós mesmos o somos. O que está fora do direito de discussão são os ataques
pessoais, e sobretudo as personalidades maldosas; é quando, pelas necessidades
de sua causa, um adversário desnatura os fatos e os princípios que quer
combater, as palavras e os atos daqueles que os defendem. Semelhantes meios são
sempre uma prova de fraqueza e testemunham pouca confiança que tem nos
argumentos tirados da própria culpa. São esses desvios da verdade que é
essencial salientar na ocasião, permanecendo tudo no limite das conveniências e
da urbanidade.
A Vérité resume assim como se segue uma parte da
argumentação do Sr. abade Barricand:
"Quanto aos Espíritas que são
muito mais numerosos, igualmente me empenho em vos provar que descem hoje do
pretensioso pedestal sobre o qual o Sr. A. Kardec os fazia dominar em 1862. Em
1861, com efeito, o Sr. Kardec efetuou uma viagem em toda a França, viagem da
qual complacentemente deu conta ao público. Oh! então, senhores, tudo estava
para o melhor; os adeptos dessa escola se contavam por trinta mil em Lyon, por
dois ou três mil em Bordeaux, etc., etc. O Espiritismo parecia ter invadido
toda a Europa! Ora, o que se passa em 1863? O Sr. A. Kardec não faz mais
viagem... não mais de relatório enfático! É que, provavelmente, constatou bom
número de deserções, e a fim de não desencorajar o que resta ainda de
Espíritas, por um estado pouco a seu favor, julgou prudente e sagaz abster-se.
Perdão, senhores, eu me engano, o Sr. A. Kardec consagra algumas páginas de sua
Revista Espírita (janeiro de 1864), a nos dar algumas notícias gerais
sobre a campanha de 1863. Mas aqui, não mais cifras ambiciosas! Mas disso se
guarda bem e com razão!.....O Sr. Kardec se contenta em nos anunciar que o
Espiritismo está sempre florescente, mais florescente do que nunca. Como prova
ao apoio, cita a criação de dois novos órgãos da escola, a Ruche de
Bordeaux e a Vérité de Lyon; a Vérité sobretudo, que veio, disse
ele, colocar-se como atleta temível, por seus artigos de uma lógica tão
apertada, que não deixam nenhuma presa à crítica. Espero, senhores, vos
demonstrar sexta-feira que a Vérité não é assim tão terrível quanto se
quer dizê-lo.
"É
fácil ao Sr. Allan Kardec colocar esta afirmação: O Espiritismo está mais
poderoso do que nunca, e de citar como principal prova a Ruche e a
Vérité! Senhores, que co-média tudo isso!... Esses dois jornais podem bem
existir, sem ser precisamente obrigado a concluir que o Espiritismo dê um passo
adiante?... Se me objetardes que esses jornais têm despesas e que para pagá-las
são necessários assinantes ou se impor sacrifícios por muito deprimentes, vos
responderei ainda: Comédia!... A caixa do Sr. A. Kardec está bem abastecida,
diz-se; não é justo, racional, que venha em ajuda aos seus discípulos?"
O
redator da Vérité, Sr. Edoux, acompanha essa citação da nota seguinte:
"Ao sair do curso, tivemos um momento de conversa com o Sr. abade
Barricand que, de resto nos recebeu de maneira muito cortês. Nosso objetivo era
oferecer-lhe uma coleção da Vérité, a fim de que dela fale
comodamente."
Veremos
se o Sr. Barricand será mais feliz do que seus confrades, e se encontrará,
enfim, o que tantos outros procuraram: argumentos esmagadores contra o
Espiritismo. Mas para que tanto trabalho, uma vez que este morreu? Uma vez que
o Sr. Barricand o crê, deixemos-lhe essa doce crença, porque isso não será nem
mais nem menos.
Não
temos nenhum interesse de dissuadi-lo. Diremos somente que se não tem motivos
de segurança mais sérios do que aqueles que faz valer, suas razões não são
quase nada concludentes, e se todos os seus argumentos contra o Espiritismo são
da mesma força, podemos dormir tranqüilos.
Pode-se
admirar que um homem sério tire conclusões tão arriscadas do que não fizemos de
viagens no ano último, e se imiscua em nossos atos privados supondo o
pensamento que devêramos ter para viajar ou não. De uma suposição ele tira uma
conseqüência absoluta, o que não é de uma lógica muito rigorosa, porque, se as
premissas não estão certas, a conclusão não saberia sê-lo. Isso não é
responder, direis; mas não temos nenhuma intenção de satisfazer a curiosidade
de quem quer que seja; o Espiritismo é uma questão humanitária; seu futuro está
na mão de Deus, e não depende de tal ou tal providência de um homem. Lamentamos
que o Sr. abade Barricand o veja de um ponto de vista tão estreito.
Quanto
a saber se nossa caixa está bem ou mal abastecida, nos parece que supor o que
há no fundo da bolsa de alguém, que não deu o direito de nela olhar, poderia
passar por indiscrição; fazendo disso um texto de um ensino público, é uma
violação da vida privada; supor o uso que uma pessoa deva fazer daquilo que se supõe
que ela deva possuir, pode, segundo as circunstâncias roçar à calúnia.
Parece
que o sistema do Sr. Barricand é de proceder por suposições e por insinuações;
com um semelhante sistema, pode-se se expor a receber desmentidos; ora, nós lhe
damos um formal desmentido a respeito de todas as alegações, suposições e
deduções acima relatadas. Discuti quanto quiserdes os princípios do
Espiritismo, mas o que fazemos ou não fazemos, o que temos ou não temos, é estranho
à questão. Um curso não é uma diatribe; é uma exposição séria, completa e
conscienciosa do assunto que se trata; se é contraditória, a lealdade quer que
se coloque em frente os argumento pró e contra, a fim de que o público julgue
de seu valor recíproco; às provas é preciso opor provas mais preponderantes; é
dar uma pobre idéia da força de seus próprios argumentos, procurando lançar o
descrédito sobre as pessoas. Eis como compreendemos um curso, sobretudo da
parte de um professor de teologia que deve, antes de tudo, procurar a verdade.
Bordeaux
também tem seu curso público de Espiritismo, quer dizer, contra o Espiritismo,
pelo Rev. Pe. Delaporte, professor da faculdade de teologia dessa cidade. A Ruche
o anuncia nestes termos:
"Assistimos
quarta-feira última, 13 do corrente, ao curso público de dogma, no qual o Rev.
Pe. Delaporte tratou esta questão:
Da hipótese de uma nova religião
revelada pelos Espíritos, ou o Espiritismo. O sábio professor não tendo ainda concluído,
seguiremos com atenção suas lições, e dele daremos conta com essa
imparcialidade e essa moderação das quais um Espírita não deve jamais se
afastar".
O Sauveur
des peuples, em seus números de 17 e 24 de abril, dá o relatório das duas
primeiras lições e delas faz uma crítica séria e cerrada que não deve deixar de
causar algum embaraço ao orador. Assim, eis dois professores de teologia de
incontestável talento, que, nos dois principais centros do Espiritismo na
França, empreendem contra ele uma nova guerra, e se acham lutando, sobre os dois
pontos com defensores que têm o que lhes responder. É que hoje se encontra o
que era mais raro há alguns anos: homens que estudaram seriamente, e que não
temem se estar sempre lutando. O que disso sairá? Um primeiro resultado
inevitável: o exame mais aprofundado da questão por todo o mundo; aqueles que
não leram quererão ler; aqueles que não viram quererão ver. Um segundo
resultado será o de fazê-lo tomar a sério por aqueles que nele não vêem ainda
senão uma mistificação, uma vez que sábios teólogos o julgam digno de fazer o
assunto de uma discussão pública séria. Um terceiro resultado, enfim, será de
fazer calar o medo do ridículo que retém ainda muitas pessoas. Quando uma coisa
é publicamente discutida por homens de valor, pró e contra, não se teme mais
dela falar por si mesmo.
Do
púlpito religioso a discussão passará muito seriamente na cátedra científica e
filosófica. Essa discussão, pela elite dos homens inteligentes, terá por efeito
esgotar os argumentos contraditórios que não poderão resistir à evidência dos
fatos.
A idéia
espírita, sem dúvida, está muito difundida; mas não se pode dizer que está
ainda no estado de opinião individual; o que se passa hoje tende a dar-lhe
postura na opinião geral, e lhe determinará, num tempo próximo, o lugar oficial
entre as crenças recebidas.
Aproveitamos
com alegria a ocasião que nos é oferecida para dirigir as nossas felicitações e
nossos encorajamentos a todos aqueles que, desafiando todo medo, tomam
resolutamente na mão a causa do Espiritismo; somos felizes em ver o número
deles que cresce todos os dias. Que perseverem, e verão logo os apoios se
multiplicarem ao seu redor; mas que se persuadam também que a luta não
terminou, e que a guerra a céu aberto não é mais de se temer; o inimigo mais
perigoso é aquele que age na sombra e, freqüentemente, se esconde sob uma
máscara falsa. Nós lhes diremos, pois: Desconfiai das aparências; julgai os
homens não pelas suas palavras, mas por seus atos; temei sobretudo as
armadilhas. (pp. 152-155).
Algumas refutações – Conspiração contra a fé
junho de 1864
A história registrará a singular lógica dos contraditores do
Espiritismo, da qual vamos dar algumas outras amostras.
Dirigem-nos do departamento da Haute-Marne a ordenação do Mons. o
bispo de Langres, onde se nota a passagem seguinte:
".... E eis o (a fé) que os homens que se dizem os amigos da
humanidade, da liberdade e do progresso, mas que na realidade, a sociedade deve
contar entre os seus mais perigosos inimigos, se esforçam, por todos os meios,
de extirpar do coração das populações cristãs. Porque, é preciso dizê-lo,
nossos muito caros irmãos, e é nobre dever vos advertir disso, a nós que
estamos encarregados de velar pela guarda de vossas almas, a fim de que nossas
advertências vos tornem prudentes e precavidos: Talvez jamais se viu uma
conspiração mais odiosa, mais vasta, mais perigosa, mais sabiamente, quer
dizer, mais satanicamente organizada contra a fé católica, do que a que existe
hoje. Conspirações de sociedades secretas, que trabalham na sombra para aniquilar,
se o pudessem, o catolicismo; conspiração do protestantismo que, por uma
propaganda ativa, procura se insinuar por toda parte; conspiração dos filósofos
racionalistas e anticristãos, que rejeitam, sem razão e contra toda razão, o
sobrenatural e a religião revelada, e que se esforçam para fazer prevalecer no
mundo letrado sua falsa e funesta doutrina; conspiração das sociedades
espíritas que, pela superstição prática da evocação dos Espíritos, se entregam,
e incitam outros a se entregarem, à pérfida maldade do espírito de mentira e de
erro; conspiração de uma literatura ímpia ou corrupta; conspiração dos maus
jornais e dos maus livros, que se propagam de maneira assustadora, na sombra de
uma tolerância ou de uma liberdade que se gaba como um progresso do século,
como uma conquista daquilo que se chama o espírito moderno, e que não é isso
menos um encorajamento para o gênio do mal, um justo motivo de dor para uma
nação católica, uma armadilha e um perigo muito evidente para todos os fiéis, a
qualquer classe a que pertençam, que não são suficientemente instruídos da
religião, e o número deles é grande, infelizmente; conspiração, enfim, desse
materialismo prático que não vê, que não procura, que não persegue senão o que
interessa ao corpo e ao bem-estar físico; que não se ocupa mais da alma
e de seus destinos como se não existissem, e cujo exemplo pernicioso seduz e
arrasta facilmente as massas. Tais são, para notar, nossos muito caros irmãos,
os perigos que correm hoje a fé.... etc."
Estamos perfeitamente de acordo
com o monsenhor no que toca às funestas conseqüências do materialismo; mas pode
se admirar de vê-lo confundir, na mesma reprovação, o materialismo que nega
tudo: a alma, o futuro, Deus, a Providência, com o Espiritismo que vem
combatê-lo e dele triunfa pelas provas materiais que dá da existência da alma,
precisamente com a ajuda dessas mesmas evocações pretensamente supersticiosas.
Seria porque ele triunfa ali onde a Igreja é impotente? O monsenhor partilharia
a opinião desse eclesiástico que dizia do púlpito: "Prefiro um ateu que
não crê em nada a um Espírita que crê em Deus e em sua alma." É uma
opinião como outra, e não se podem disputar os gostos. Qualquer que seja a do
monsenhor sobre esse ponto, ficaremos encantados se consentisse em resolver as
duas questões seguintes: "Como ocorre que, com a ajuda dos meios poderosos
de ensino que a Igreja possui para fazer a verdade brilhar a todos os olhos,
ela não haja podido deter o materialismo, ao passo que o Espiritismo, nascido
ontem, reconduz cada dia incrédulos endurecidos? - O meio pelo qual se alcança
um objetivo é pior do que aquele com a ajuda do qual não se o alcança?"
O
monsenhor expõe uma profusão de conspirações que se dirigem ameaçadoras contra
a religião; sem dúvida, não refletiu que, por esse quadro pouco tranqüilizados
para os fiéis, vai precisamente contra seu objetivo, e pode provocar mesmo,
nestes últimos, deploráveis reflexões. Ao ouvi-lo, os conspiradores seriam cedo
os mais numerosos.
Ora,
que adviria num Estado se toda a nação conspirasse? Se a religião se vê atacada
por tão numerosas coortes, isso não provaria em favor das simpatias que ela
encontra. Dizer que a fé ortodoxa está ameaçada é confessar a fraqueza de seus
argumentos. Se está fundada sobre a verdade absoluta, ela não pode temer nenhum
argumento contrário. Soar o alarme, em semelhante caso, é da imperícia.
Uma
instrução de catecismo.
Num
catecismo de perseverança da diocese de Langres, por ocasião da ordenação acima
relatada, foi feita uma instrução sobre o Espiritismo e dado como assunto a
tratar pelos alunos.
Eis a
narração textual de um deles:
"O
Espiritismo é a obra do diabo que o inventou. Entregar-se a isso, é colocar-se
em relação direta com o demônio. Superstição diabólica! Deus freqüentemente
permite essas coisas para reavivar a fé dos fiéis. O demônio faz o
bom, faz o santo; ele cita as palavras das Escrituras santas."
Esse
meio de reavivar a fé nos parece muito mal escolhido.
"Tertuliano,
que viveu no segundo século, nos conta que faziam as cabras e as mesas falarem;
é a essência da idolatria. Essas operações satânicas eram raras em certos
países cristãos, e hoje são muito comuns. Esse poder do demônio é mostrado em
todo seu estrondo na aparição do protestantismo.
Eis as
crianças muito convencidas do grande poder do demônio; não seria de temer que
isso lhes fizesse duvidar um pouco do poder de Deus, quando se vê o primeiro se
impor tão freqüentemente sobre o segundo?
"O
Espiritismo nasceu na América, no seio de uma família protestante, chamada Fox.
O demônio apareceu primeiro por golpes que despertavam em sobressalto; enfim,
impaciente com os golpes, procurou-se o que isso poderia ser. A filha do Sr.
Fox se pôs a dizer um dia; Bate aqui, bate lá, e batia-se onde ela
queria."
Sempre
a excitação contra os protestantes! Eis, pois, crianças instruídas pela
religião no ódio contra uma parte de seus concidadãos, freqüentemente contra os
membros de sua própria família! Felizmente o espírito de tolerância que reina
em nossa época aí faz contrapeso, sem isso ver-se-ia renovarem-se as cenas
sangrentas dos séculos passados.
"Essa
heresia logo se tornou vulgar; cedo contou com quinhentos mil sectários. Os
Espíritos invisíveis se prendem a fazer todas as espécies de coisas. À simples
pergunta de um indivíduo, mesas carregadas de várias centenas de livros se
moviam; mãos sem corpo se faziam ver. Eis o que se passa na América, e isso
chegou à França pela Espanha. Primeiro, o Espírito foi forçado por Deus e os
anjos para dizer que era o diabo, para que não prenda mais em suas armadilhas
as pessoas honestas."
Cremos estar bastante ao corrente
da marcha do Espiritismo, e jamais ouvimos dizer que ele veio para a França
pela Espanha. Seria um ponto da história do Espiritismo a retificar?
Vê-se,
da confissão dos adversários do Espiritismo, com que rapidez a idéia nova
ganhou terreno; uma idéia que, apenas eclodida, conquista quinhentos mil
partidários não é sem valor e prova o caminho que fará mais tarde; também, há
dez anos daqui, um deles lhe traz a cifra de vinte milhões só na França, e predisse
que dentro em pouco a heresia terá ganhado outros vinte milhões. (Ver a Revista
Espírita, de junho de 1863.) Mas então, se todo mundo é herético, que
restaria à ortodoxia? Não seria o caso de aplicar a máxima: Quando todo mundo
está errado, todo mundo tem razão? Que teria respondido o instrutor, se uma
criança terrível de seu jovem auditório lhe tivesse feito esta pergunta:
"Como ocorre que a primeira pregação de São Pedro não teve senão três mil
Judeus convertidos, ao passo que o Espiritismo, que é obra de Satã, fez logo em
seguida quinhentos mil adeptos? É que Satã é mais poderoso do que Deus? -
Talvez lhe tivesse respondido: "É porque eram protestantes."
"Satã
disse que é um bom Espírito; mas é um mentiroso. Um dia se quis fazer uma mesa
falar; ela não quis responder; acreditou-se que era a presença de
eclesiásticos, que estavam lá, que a isso impediam. Enfim, dois golpes
violentos vieram advertir que o Espírito estava ali. Perguntou-se-lhe: - Jesus
Cristo é filho de Deus? - Não. - Reconheces a santa Eucaristia? - Sim. - A
morte de Jesus Cristo aumentou teus sofrimentos? - Sim."
Há,
pois, eclesiásticos que assistem a essas reuniões diabólicas. A criança
terrível teria podido perguntar por que, quando eles vêm, não fazem o diabo
fugir?
"Eis
uma cena diabólica." Eis o que dizia o Sr. Allan Kardec: A esperteza dos
Espíritos mistificadores ultrapassa tudo o que se pode imaginar: eram dois
Espíritos, um fazendo o bom e o outro o mau; ao cabo de alguns meses um disse:
- Aborreço-me em vos repetir as palavras melosas que não penso. - És, pois, o
Espírito do mal? - Sim. - Não sofres por não falar de Deus, da santa Virgem e
dos santos? - Sim. - Queres o bem ou o mal? - O mal. - Não eras tu o Espírito
que falou há pouco? - Não. -Onde estás? - No inferno.
- Sofres?
- Sim. - Sempre? - Sim. - És submisso a Jesus Cristo?
- Não,
a Lúcifer. - Ele é eterno? - Não. - Gostas do que tenho na mão? (eram medalhas
da santa Virgem) - Não: acreditei vos inspirar confiança; o inferno me reclama,
adeus!"
O
relato é muito dramático, sem dúvida, mas aquele que provar que nele estamos
por alguma coisa será muito hábil. É triste ver a que expedientes se é obrigado
a recorrer para dar a fé. Esquece-se que essas crianças se tornarão grandes e
refletirão. A fé que repousa sobre tais provas tem razão de temer as
conspirações.
"Acabamos
de ver o Espírito do mal forçado a confessar que era tal. Eis uma outra frase
que o lápis escreveu por um médium: "Se queres te entregar a mim, alma,
espírito e corpo, satisfarei teus desejos; se queres estar comigo, escreve teu
nome sob o meu;" e ele escreveu: Giefle ou Satã. O médium tremia, e
não escrevia; tinha razão. Todas essas sessões terminam com estas
palavras: Queres alistar-te? "O demônio queria que se fizesse um
pacto com ele. Entrega-me tua alma! disse um dia a alguém. - Quem és tu?
respondeu-se. - Eu sou o demônio. - Que queres? - Ter-te. O purgatório não é
mais; os celerados, os maus, tudo isso ao céu."
Que
dirão essas crianças quando forem testemunhas de algumas evocações, e que, em
lugar de um pacto infernal, ouvirão os Espíritos dizerem: "Amai a Deus
acima de todas as coisas, e a vosso próximo como a vós mesmos; praticai a
caridade ensinada pelo Cristo; sede bons para todo mundo, mesmo para vossos
inimigos; orai a Deus, e segui seus mandamentos para serdes felizes neste mundo
e no outro?
“Todos esses prodígios, todas
essas coisas extraordinárias, vêm dos Espíritos das trevas. O Sr. Home,
fervoroso Espírita, nos disse que algumas vezes o solo estremesse sob os
pés, os apartamentos tremem, arrepia-se; uma mão invisível vos apalpa sobre os
joelhos, as espáduas; uma mesa que salta. Pergunta-se-lhe: Estás tu ali? - Sim.
- Dê provas disso. E a mesa se ergue duas vezes!"
Ainda
uma vez, tudo isso é muito dramático; mas, entre os jovens ouvintes, mais de
um, sem dúvida, desejou ver e não deixará de fazê-lo na primeira ocasião.
Encontrar-se-ão também moças impressionáveis, de organização delicada, que, ao
menor prurido, crerão sentir a mão do diabo e se sentirão mal.
“Todas
essas coisas são ridículas; a santa Igreja, nossa mãe de todos, nos faz ver que
isso não é senão uma mentira”.
Se tudo
isso é ridículo e mentira, por que, pois, dar-lhe tanta importância? Por que
assustar as crianças com quadros que não têm nenhuma realidade? Se há mentira,
não é nesses mesmos quadros?
"Por
exemplo, a evocação dos mortos, não é preciso crer que sejam nossos parentes
que nos falam; é Satã que nos fala e que se dá por um morto. Certamente estamos
em comunicação pela comunhão dos santos. Temos, na vida dos santos, exemplos de
aparição de mortos; mas é um milagre da sabedoria divina, e esses milagres são
raros. Eis o que se nos disse: Os demônios se dão algumas vezes por mortos; se
dão algumas vezes também por santos."
Algumas
vezes, não sempre; portanto, pode ocorrer que o Espírito que se comunica não
seja um demônio.
"Podem
fazer muito outra coisa. Um dia, um médium que não sabia desenho, reproduziu, a
mão conduzida por um Espírito, as imagens de Jesus Cristo e da Santa Virgem, que apresentadas a
alguns de nossos melhores artistas, foram julgadas dignas de serem
expostas."
Ouvindo
isso, um aluno poderia bem dizer: Se um Espírito pode conduzir-me a mão para
fazer meu dever e me fazer ganhar um prêmio! Tentemos!
"Saul
consultou a Pitonisa de Endor, e Deus permitiu que Samuel lhe aparecesse para
dizer-lhe: Por que perturbas meu repouso? Amanhã estarás comigo no túmulo.
Nossos Sauis de salão deveriam pensar muito nessa história. São Felipe de Neri
nos disse: Se a santa Virgem vos aparecesse, ou mesmo Nosso Senhor Jesus
Cristo, escarrai-lhe no rosto, porque isso não seria senão uma mentira
do demônio para vos induzir em erro.
Em que
se torna então a aparição de Nossa Senhora da Salette a duas pobres crianças?
Segundo essa instrução de catecismo, deveriam escarrar-lhe no rosto.
"Nosso
santo pai o papa Pio IX proibiu expressamente entregar-se a essas coisas. Mons.
o bispo de Langres, e muitos outros ainda, fizeram isso igualmente. Há perigo
para a sua vida: dois velhos se suicidaram, porque os Espíritos lhes disseram
que depois de sua morte gozariam duma felicidade infinita; perigo para a razão:
vários médiuns se tornaram loucos, e se contam numa casa de alienados mais de
quarenta indivíduos que o Espiritismo tornara loucos."
Não
conhecemos ainda a bula do papa que proíbe expressamente de se ocupar com essas
coisas; se ela existisse, Mons. de Langres e outros não teriam deixado de
mencioná-la. A história dos dois velhos, aos quais fez alusão, é inexata; foi
provada, por peças oficiais, depositadas em tribunal, e notadamente duas cartas
escritas por eles antes de sua morte, que se suicidaram em conseqüência de
perdas de dinheiro, e do medo de cair na miséria (Ver a Revista Espírita de
abril de 1863). A de quarenta indivíduos doentes numa casa de alienados não é
mais verídica. Estar-se-ia muito embaraçado em justificá-la pelos nomes desses
pretensos loucos, dos quais um primeiro jornal trouxe o nome de quatro, um
segundo de quarenta, um terceiro de quatrocentos, um quinto disse que se
trabalhava para o aumento do hospício. Um instrutor de catecismo deveria haurir
essas notícias históricas em outro lugar do que nos boatos de jornais. As
crianças às quais se vende seriamente semelhantes coisas as aceitam de
confiança; quanto mais a confiança for grande, mais forte será a reação no
sentido inverso quando, mais tarde, vêm a saber a verdade. Isto dito em geral e
não exclusivamente para o Espiritismo.
Se
analisamos esse trabalho de uma criança, seja bem entendido que não é a opinião
da criança que refutamos, mas a da qual sua narração é o resumo. Se se
pesquisassem com cuidado todas as instruções dessa natureza, estar-se-ia menos
espantado dos frutos que delas se recolhem mais tarde. Para instruir a criança
é preciso um grande tato e muito de experiência, porque não se imagina a
importância que pôde ter uma única palavra imprudente que, do mesmo modo que a
semente de uma má erva, germina nessas jovens imaginações como numa terra
virgem.
Parece
que os adversários do Espiritismo não acham que a sua idéia esteja bastante
difundida; dir-se-ia que impelidos, apesar deles, a engenhar os meios de
difundi-la ainda mais. Depois dos sermões, cujo resultado é conhecido, não se
poderia encontrar um mais eficaz do que fazê-lo o assunto das instruções e dos
deveres do catecismo. Os sermões agem sobre a geração que se vai; essas
instruções dispõem ali a geração que chega. Estaríamos, pois, bem errados em
não lhes ser agradecidos. (pp. 179-185).
Reclamação do Sr. Abade Barricand
julho de 1864
O número da Revista do mês de junho estava composto e
em parte tirado, quando nos chegou a carta adiante do Sr. abade Barricand, ao
qual fizemos responder o que segue:
"Senhor.
"O Sr. Allan Kardec encarrega-me de vos acusar o
recebimento da carta que lhe endereçastes, e vos dizer que era supérfluo
requerer para inseri-la na Revista; bastaria que lhe tivésseis dirigido
uma retificação motivada para que a considerasse como um dever de
imparcialidade e de lhe fazer direito. O número da Revista de 1º de
junho, estando tirado no momento do recebimento de vossa carta, ela não poderá
aparecer senão no número seguinte.
"Recebei, etc."
"Lyon, 19 de maio 1864.
"Senhor,
"Acabo de ler, no número da Revista Espírita domes de
maio de 1864, um artigo onde meu curso é de tal modo mascarado e desfigurado,
que me vejo na necessidade de lhe dar uma resposta, para destruir a impressão
desfavorável que esse artigo por certo deixou aos vossos leitores, com respeito
à minha pessoa e ao meu ensinamento.
"Esse artigo é intitulado: Curso público de Espiritismo em
Lyon. Jamais se viu figurar essa designação sobre nenhum de meus programas,
e se alguém foi ao meu curso na crença de que assistiria a lições de
Espiritismo, não é, como o insinuais, porque foi seduzido por um título atraente
e um pouco enganador, mas unicamente porque não se deu ao trabalho de ler o
que levam nossos cartazes.
"Ensinais aos vossos leitores que o journal LA VÉRITÉ salienta
várias de nossas afirmações, e além disso que se encarrega de nos refutar,
ao que, disso não duvidamos, acrescentais, e cumprirá muito bem, julgando-o
por seu início. Mas não dais a conhecer essas afirmações. Nosso contraditor
afirma, e é verdade, que não é necessário ter feito a sua teologia para ter
uma caneta, e que não teme de vos perseguir unicamente com as armas da
razão e da fé em Deus que o Espiritismo dá;... que a tese paradoxal que
sustentamos não se discute;... que não cederemos com dificuldade por
acompanhar o Espiritismo ao cemitério, mas que não é preciso se apressar muito
em soar o dobre de finados;... que, por sua própria conta, está em
condições de amamentar por si mesmo, e sem muita dificuldade, essa pequena
criança que se chama a Verdade;... que o sangue do futuro corre mais quente do
que nunca nas veias do Espírita, e que tem a confiança íntima de que um dia nos
será dado o tom definitivo do mais magnífico TE DEUM.
"O
Sr. Allan Kardec está muito senhor, seguramente, de se imaginar que essas
afirmações copiam as nossas e de prometer, aos seus leitores, que, julgando-o,
pelo seu início, o diretor da Vérité cumprirá sem dificuldade atarefa
que se impôs de nos refutar; mas nós temos dificuldade em crer que, fora da
escola espírita, tenha-se a mesma opinião, e não iríamos mesmo até supor que,
se aprouvesse ao Sr. diretor da Revista Espírita de colocar inteiramente
sob os olhos de seus assinantes o artigo onde nosso antagonista inicia a luta,
muitos dentre eles teriam hesitado em considerá-lo como um início que promete
uma refutação maravilhosa de nossas lições contra o Espiritismo.
"Mas
digais talvez: o resumo que a Vérité dá de uma parte de vossa
argumentação não a reproduziu com fidelidade? Não, senhor, esse resumo não é
senão uma burlesca paródia dela. Tudo ali está falsificado, e nossa linguagem,
e nossas idéias, e nosso raciocínio. Essas expressões altivas: Fiz-me muito
em vos provar, pretensioso pedestal... relatório enfático, cifras ambiciosas,
comédia que tudo isso. A caixa do Sr. Allan Kardec está bem abastecida, não é
justo que ela venha em ajuda aos seus discípulos, etc., jamais entraram nas
lições, e o Sr. diretor da Vérité ter-se-ia poupado o trabalho de
colocá-la sobre nossa conta, se tivesse compreendido ou querido compreender o
verdadeiro estado da questão que tratamos diante dele.
"De
que se trata, com efeito? De dar a conhecer ao nosso auditório qual era,
no fim de 1862 e no fim de 1863, a situação do Espiritismo em Lyon. Ora, para
não nos apoiarmos senão sobre os dados que nenhum espírita pode recusar, em
lugar de falar de vossas viagens e de supor o que poderia conter a vossa caixa,
estamos contentes de pôr em oposição a vossa brochura intitulada: Viagem
espírita em 1862, e vosso artigo da Revista Espírita (janeiro de
1864), no qual dais conta, aos vossos assinantes, da situação do Espiritismo em
1863. Da diferença tão marcante de tom e de linguagem que se nota nesses dois documentos,
acreditamos dever concluir, não como nos fez dizer a Vérité, que o
Espiritismo está morto ou morrendo, mas que sofre, pelo menos em Lyon, um tempo
de parada, se é que já não entrou num período de decadência. Em apoio a essa
conclusão, lembramos as confissões do diretor da Vérité; porque,
enquanto o Sr. Allan Kardec afirma que em 1862 podia-se, sem exagero, contar de
25 a 30 mil Espíritas lioneses, o Sr.Edoux não tem dificuldade de reconhecer
que seu número hoje não passa de dez mil; ora, que outro nome, senão o de
decadência, pode-se dar a uma tão sensível diminuição?
"Nada
era mais fácil, isso nos parece, do que tomar o verdadeiro sentido de uma tão
simples argumentação, e dele fazer uma análise exata; mas o Sr. diretor
da Vérité, em lugar de se limitar a reproduzir fielmente a nossa
exposição, pensou que seria mais picante dar aos seus leitores a bonita mostra
de nosso curso que inseriu em seu jornal.
"Foi,
todavia, nesse relatório, onde se descobre a cada linha a falta de lógica e de
sinceridade, que acreditastes poder dar por fundamento a essas insinuações
malévolas que tendem a nos apresentar, aos vossos leitores, como um homem que
se imiscui em vossos atos particulares, que de uma simples suposição
tira uma conseqüência absoluta; que supões o que há no fundo de vossa
caixa para disso fazer um texto de um ensino público. Tais acusações,
lançadas ao acaso e sem sombra de provas, cai por si mesmas: basta, segundo a
palavra de um antigo autor, trazê-las a luz para refutá-las: Vestra
exposuisse refellisse est.
Acreditastes dever, terminando vosso artigo, nos ensinar como se deve
fazer um curso de teologia; guardar-nos-emos muito de querer, ao nosso turno,
vos dar a lição; mas que nos seja permitido, pelo menos, vos dar o conselho
caridoso, se quereis vos poupar de muitos desmentidos, de não aceitar
doravante, senão com uma certa desconfiança, os relatórios de vossos
correspondentes; porque, para emprestar a linguagem de nosso bom La Fontaine:
Nada é
mais perigoso do que um ignorante amigo,
Mais
vale um sábio inimigo.
"Eu
vos peço, e por necessidade vos requeiro, inserir integralmente esta resposta
em vosso próximo número. "Aceitai a segurança de meus sentimentos
distintos.
"A.
Barricand.
"Decano
da Faculdade de Teologia."
As
palavras contra as quais reclama o Sr. abade Barricand são estas: "É fácil
ao Sr. Allan Kardec colocar esta afirmativa: O Espiritismo está mais
poderoso do que nunca, e de citar como principal prova da criação da Ruche
e da Vérité! Senhores, comédia que tudo isso!... Esses dois jornais
podem bem existir, sem serem precisamente obrigados a concluir que o
Espiritismo deu um passo avante...Se me objetais que esses jornais têm
despesas, e que para pagá-las são necessários assinantes, ou sem impor
sacrifícios muito deprimentes, eu responderia ainda: Comédia!... A caixa do Sr.
Allan Kardec está bem abastecida, diz-se; não é justo, racional, que venha em
ajuda aos seus discípulos?"
Elas
são extratos textuais do jornal la Vérité de 10 de abril de 1864;
não fizemos senão acrescentar as reflexões muito naturais que nos sugeriram,
dizendo que não reconhecemos a ninguém o direito de supor o fundo de nossa
bolsa, e de prejulgar o uso que fazemos daquilo que se supõe que possuímos, e
ainda menos disso fazer o texto de um ensino público. (Ver a Revista do
mês de maio, pág. 154.).
Sem
procurar se o Sr. Barricand pronunciou as palavras que ele contesta, ou o
equivalente, pode-se admirar de que não haja pedido, desde o início, a
retificação ao jornal ao qual não fizemos senão lhes emprestar. Esse jornal é
de 10 de abril; aparece em Lyon todas as semanas e lhe é endereçado; ora, sua
carta é de 19 de maio, e cinco números tinham aparecido no intervalo. De duas
coisas uma: essas palavras são justas ou elas são falsas; se são falsas, é que
o redator, que declara, no artigo, ter assistido à lição do professor,
inventou-as; como ocorre então, nesse mesmo artigo, ele protesta contra a
alegação de ser subvencionado por nós, dizendo que não tem necessidade do
socorro de ninguém, e pode caminhar sozinho? Seria, pois, estranho desprezo.
Como ocorre que, em presença desta dupla afirmação, o Sr. Barricand tenha
deixados passar mais de um mês sem protestar? Seu silêncio, então que não podia
isso ignorar, deveu ser considerado por nós como um assentimento, porque é muito
evidente que, se tivessem sidos retificados na Vérité, nós não os
teríamos reproduzido.
O Sr.
abade Barricand retorna, em sua carta, sobre a tese que sustentou concernente à
suposta decadência do Espiritismo, restringindo, todavia, a importância de suas
expressões. Uma vez que esse pensamento o tranqüiliza, nós lhe o deixamos de
boa vontade, porque não temos nenhum interesse em dissimulá-lo. Que ele tire,
pois, da ausência de estipulações precisas sobre o número de Espíritas todas as
induções que queira, isso não impedirá às coisas seguirem seu curso. Pouco nos
importa que nossos adversários creiam ou não creiam no progresso do
Espiritismo; ao contrário, quanto menos nisso crerem, menos disso se ocuparão,
e mais nos deixarão tranqüilos; de boa vontade nos faremos mesmo os mortos se
isso puder lhe ser agradável. Caberia a eles não nos despertar; mas enquanto
crerem, fulminarão, anatematizarão, usarão de violência e perseguições, e não
farão crer a ninguém que somos mortos seriamente.
Até o
presente o clero acreditava que um meio de amedrontar com respeito ao
Espiritismo, e de fazê-lo repelir, era de exagerar desmedidamente o número de
seus adeptos. Em muitos sermões, ordenações e publicações de todos os gêneros,
estes não estavam apresentados como invadindo a sociedade e colocando, pelo seu
crescimento, a Igreja em perigo? Afirmamos o progresso das idéias espíritas
que, melhor do que quem que seja, estamos em condições de constatar; mas jamais
caímos nesses cálculos hiperbólicos; jamais dissemos, como um certo pregador,
que só em Bordeaux venderam-se, em pouco tempo mais de 170.000 francos de
nossos livros. Não fomos nós que dissemos que havia 20 milhões de Espíritas na
França, nem, como numa obra recente, 600 milhões no mundo inteiro, o que
equivaleria a mais da metade da população total do globo. O resultado desses
quadros foi diferente daquilo que deles se esperava; ora, se quiséssemos
proceder por indução, suporíamos o Sr. abade Barricand de querer seguir uma
tática contrária, atenuando os progressos do Espiritismo ao invés de
exaltá-los. O que quer que seja, a estatística exata dos Espíritas é uma coisa
impossível, tendo em vista o número imenso de pessoas simpáticas à idéia, e que
não têm nenhum motivo de se porem em evidência, não sendo os Espíritas arregimentados
como numa confraria. Enganar-se-ia muito tomando-se por base o número dos
grupos oficialmente conhecidos, tendo em vista que não há a milésima parte dos
adeptos que os freqüentam; conhecemos tais cidades onde não existe nenhuma
sociedade regular, e onde há mais Espíritas do que numa tal outra que delas
conta várias. Dissemos, aliás, as sociedades não são de nenhum modo uma
condição necessária à existência do Espiritismo; elas se formam hoje, que
cessem amanhã, sem que a sua marcha seja entravada no que quer que seja; o
Espiritismo é uma questão de fé e de crença e não de associação.
Quem
partilha nossas convicções a respeito da existência e da manifestação dos
Espíritos, e das conseqüências morais que disso decorrem, é Espírita de fato,
sem que tenha necessidade de estar inscrito num registro de matrícula ou de
receber um diploma. Uma simples conversação basta para fazer conhecer aqueles
que são simpáticos à idéia ou que a repelem, e, por aí, julga-se se ela ganha
ou perde terreno.
A
avaliação aproximada do número dos adeptos repousa sobre as relações íntimas,
porque não existe nenhuma base para o estabelecimento de uma cifra rigorosa,
cifra, de resto, incessantemente variável; tal carta, por exemplo, vai nos
revelar toda uma família espírita, e, freqüentemente, várias famílias, das
quais não tínhamos nenhum conhecimento. Se o Sr. Barricand visse a nossa
correspondência, talvez mudasse de opinião, mas nós não a temos.
A oposição que se faz a uma idéia está sempre em razão de sua importância; se o Espiritismo fosse uma utopia, dele não se teria ocupado mais do que de tantas outras teorias; a obstinação da luta é indício certo de que se o toma a sério. Mas se há luta entre o Espiritismo e o clero, a história dirá quais foram os agressores. Os ataques e as calúnias dos quais foi objeto forçaram devolver as armas que se lhe lançaram, e de mostrar os lados vulneráveis de seus adversários; estes, assediando-o, detiveram sua caminhada? Não; é um fato adquirido. Se o tivessem deixado em repouso, o próprio nome do clero não teria sido pronunciado, e talvez aquele nisso teria ganho. Atacando-o em nome dos dogmas da Igreja, forçou a discussão do valor das objeções e, por isso mesmo, de entrar sobre um terreno que não tinha a intenção de abordar. A missão do Espiritismo é combater a incredulidade pela evidência dos fatos, de conduzir a Deus aqueles que o desconhecem, de provar o futuro àqueles que crêem no nada; por que, pois, a Igreja lança anátema àqueles a quem dá essa fé, mais do que quando não acreditavam em nada? Repelindo aqueles que crêem em Deus e em sua alma por ele, é constrangê-los a procurar um refúgio fora da Igreja. Quem, o primeiro, a proclamar que o Espiritismo era uma religião nova com seu culto e seus sacerdotes, se não foi o clero? Onde, até o presente, viram-se o culto e os sacerdotes do Espiritismo? Se jamais tornar-se uma religião, foi o clero que terá provocado. (pp. 193-199).
O Espiritismo em Constantinopla
Julho de 1864
Sob esse título, o jornal de Constantinopla publicou, no mês de
março último, três artigos muito extensos sobre, ou melhor, contra o Magnetismo
e o Espiritismo, que têm, nessa capital, numerosos e fervorosos adeptos. Como
em todas as críticas em geral, neles procuramos em vão alguns argumentos
sérios, ao passo que ali vimos a prova evidente de que o autor fala de uma
coisa que não conhece, ou que não conhece senão superficialmente; ele julga o
Espiritismo sobre as aparências, sobre o ouvir-dizer, sobre a leitura de alguns
fragmentos incompletos, sobre o relato de alguns fatos excêntricos repudiados
pelo próprio Espiritismo, isso lhe parece suficiente para pronunciar um
julgamento. Como se vê, é uma nova amostra da lógica de nossos antagonistas. O
que parece ter lido melhor é o Sr. de Mirville, a magia do Sr. Dupotet e ávida
do Sr. Home; mas da ciência espírita propriamente dita, não se vêem nem estudos
nem observações sérias.
Estamos longe de pretender que
aquele que estuda o Espiritismo deve necessariamente aprová-lo; mas, se está de
boa fé, em sua própria censura não se afastará da verdade; não nos fará dizer o
contrário daquilo que dizemos, o que chegará necessariamente se não sabe tudo o
que dissemos. Não reconheceríamos por crítico sério senão aquele que, saindo
das generalidades, opusesse aos nossos argumentos peremptórios, e provasse, sem
réplica possível, que os fatos sobre os quais nos apoiamos são falsos,
controversos e radicalmente impossíveis; é o que ninguém ainda fez, não mais o
redator do jornal de Constantinopla do que os outros. O Espiritismo foi atacado
de todas as maneiras, com todas as armas que se acreditou mais mortíferas; nada
foi poupado para aniquilá-lo, nem mesmo a calúnia; não será o mais medíocre
escritor que, num opúsculo ou num folhetim, não se sinta lisonjeado em lhe dar
um golpe de misericórdia; entre seus adversários, se encontram homens de um
valor real que deveram rebuscar até o fundo o arsenal das objeções, com um
ardor tanto maior quanto tinham interesse em abafá-lo. No entanto, o que quer
que se haja feito, não só ele está ainda de pé, mas se estende cada dia mais;
se implanta por toda parte; o número de seus adeptos cresce sem cessar; isto é
um fato notório. Que é preciso disso concluir? é que não se lhe pode opor nada
de sério e de concludente. Nosso contraditor de Constantinopla será mais feliz?
Disso duvidamos muito se não tem melhores argumentos para fazer valer. Seus
artigos, longe de deter o movimento espírita no Oriente, não podem senão
favorecê-lo, como fizeram todos os do mesmo gênero, porque se voltam exatamente
no mesmo círculo; é por isso que não temos de outro modo
que nos preocupar com isso. Limitar-nos-emos a citar alguns fragmentos que
resumem a opinião do autor.
Não há
uma das objeções feitas contra o Espiritismo que não encontre sua refutação em
nossas obras; se nos fosse necessário realçar todos os absurdos debitados a
esse respeito, nos seria preciso, sem cessar, nos repetir, o que é inútil, uma
vez que, em definitivo, essas críticas não tendo nenhum fundo sério servem bem
mais do que prejudicam.
"Ao
lado dos práticos hábeis, tais quais os mágicos como o Sr. Dupotet, ou os
médiuns como o Sr. Home, vêm se colocar os operadores de uma ordem diferente,
nas primeiras linhas dos quais figura o Sr. Allan Kardec. Este pode ser
apresentado como o padrão sobre o qual são calcados todo um quadro de Espíritas
cuja boa fé não poderia ser colocada em dúvida.
"Os
Espíritas de Constantinopla pertencem, assim como já o dissemos, a essa escola
literária e artística, que milita principalmente por seus escritos, dos quais a
Revista Espírita de Allan Kardec é o tipo mais perfeito. Foram os
adeptos dessa categoria que estabeleceram a Doutrina. A teoria dos Espíritos
não tem nenhum segredo para eles; também desdenham, o mais freqüentemente,
recorrer aos procedimentos materiais empregados pelos médiuns do comum. Eles têm
manifestações diretas. Seu procedimento, tão simples quanto eles mesmos,
consiste em pegar, como o faria o primeiro profano que chegasse, um lápis comum
com ajuda do qual se colocam em relação imediata com os Espíritos, e escrevem
sob seu ditado. Entre outras vantagens, esse método lhes permite colocar toda
modéstia de lado, e de dar, às suas próprias obras, os louvores mais
exagerados, cobrindo-se com o nome dos seus supostos autores.
"Antes
de crer na exatidão de um médium escrevente mecânico, gostar-se-ia de
ver escrever por um idiota alguma bela página, tal como os Espíritos que agem
por via mediúnica jamais a ditaram. O médium intuitivo é mais aceitável;
mas nos parece muito difícil que a experiência ensine a distinguir o pensamento
do Espírito do do médium. O papel desempenhado por este último pode, de resto,
se explicar facilmente. Na maioria dos casos, é sincero, e é antes a ele
do que aos operadores da ordem dos Srs. Home e Dupotet que se aplicaria com
justeza o julgamento dado pelo Sr. conde Gasparin. Quanto à opinião do Sr. de
Mirville, não há lugar de discutir aqui, porque está perfeitamente averiguado
que nenhum médium, em Constantinopla pelo menos, não é feiticeiro.
"Se
nos fosse preciso defender os Espíritas contra acusações tão odiosas quanto aquelas
que rejeitamos aqui, nos bastaria demonstrar sua completa inocência em
citar alguns dos ensinos que os Espíritos dão.
"Os
diferentes planetas que circulam no espaço são povoados como nossa Terra. As observações
astronômicas induzem a pensar que os meios onde vão seus habitantes
respectivos são bastante diferentes para necessitar de organizações corpóreas
diferentes; mas o perispírito se acomoda à variedade dos tipos e permite
ao Espírito que ele recobre se encarnar na superfície de planetas diferentes.
"O
estado moral, intelectual e físico desses mundos forma uma série progressiva,
na qual nossa Terra não ocupa nem o primeiro nem o último lugar; no entanto,
ela é um dos globos mais materiais e mais atrasados. Há os que onde o mal moral
é desconhecido; onde as artes e as ciências são levadas a um grau de perfeição
que não podemos compreender; onde a organização física não está sujeita nem aos
sofrimentos, nem às doenças; onde os homens vivem em paz, sem procurar
se prejudicar, isentos de desgostos e de cuidados."
"Com
meus novos instrumentos, esta noite, verei homens na lua..." disse
em alguma parte o rei Alphonse; mais feliz do que ele, os Espíritas os viram,
mas é muito errado que invejem a sorte dos lunáticos; nada poderia, cremos,
impedi-los de gozar desses mundos comodamente.
'Vê-se,
por tudo o que precede, ao que se reduz o maravilhoso e o sobrenatural do
Espiritismo; basta, para reduzi-los a nada, examinar todos os fatos que
citamos, sem partidarismo antecipado de nele encontrar as práticas da feitiçaria
mais repreensível, ou a ação de um fluido dos quais os sábios negam a
existência. Para quem quiser se dar ao trabalho de assistir às suas sessões sem
se condenar a tomar os fatos que produzem por aquilo que eles os dão, os Srs.
Home e Dupotet, assim como todos os operadores da mesma ordem, serão muito
evidentemente mistificadores interessados. Suas operações são mais ou menos
comparáveis, no que concerne à habilidade, às do Sr. Bosco, e este tem a mais a
sinceridade, o que não permite levar mais longe a comparação entre eles.
"Bem
diferentes dos mágicos dos quais acabamos de falar, os médiuns da categoria do
Sr. Allan Kardec, categoria à qual pertencem geralmente os Espíritas de
Constantinopla, são ao contrário os mistificados. Todos os seus esforços tendem
a tornar cada vez mais completa a mistificação que dão a si mesmos. Apesar de
toda boa vontade que nisso se possa pôr, é verdadeiramente impossível levar a
sério nenhuma de suas práticas. Todavia, é permitido lamentar que pessoas
honestas passem assim a maior parte de seu tempo a se compenetrarem de erros
que para elas se tornam realidade. Por inofensivos que possam parecer no fundo
esses erros, não é menos verdadeiro que eles não podem produzir senão
resultados funestos, uma vez que tomam o lugar da verdade; é nesse sentido que
são condenáveis."
Os
próprios Espíritas de Constantinopla se encarregaram de responder, por dois
artigos que o jornal publicou em seus números de 21 e 22 de março último. Um é
de um médium que dá conta da maneira pela qual a faculdade se desenvolve nele e
triunfou de sua incredulidade. O outro, que reproduzimos adiante, está em nome
de todos.
"Senhor redator,
'Vosso
jornal acaba de publicar três longos artigos intitulados: o Espiritismo em
Constantinopla, em seguida dos quais vimos vos pedir consentir em nos dar
lugar para as poucas linhas seguintes:
“O
VERDADEIRO ESPIRITISMO EM CONSTANTINOPLA”
"A
doutrina que se baseia sobre a crença de um Deus infinitamente justo e
infinitamente bom: o amor infinito; que indica por objetivo, aos Espíritos
criados por esse mesmo Deus, a marcha para a perfeição cada vez mais completa;
e por castigo, no estado de Espírito, a percepção perfeita desse objetivo com o
desgosto de dele estar distanciado, ao mesmo tempo que a necessidade de recomeçar
essa marcha ascensional por novas encarnações.... A doutrina que ensina a moral
mais pura: ali está mesmo a que o Cristo ex-punha tão bem por estas simples
palavras: Amai-vos uns aos outros... Uma tal doutrina de amor, dizemos
claramente, pode perfeitamente abster-se das manifestações que o autor dos
artigos, O Espiritismo em Constantinopla, depois de ter prometido
explicá-la, fora do Espiritismo, limita-se a qualificar de mistificações.
"Mas
essas manifestações, hoje tão completamente averiguadas, e das quais se
encontra a prova a quase cada página da história humanitária, Deus as permite
continuamente, a fim de dar a todos a prova da solidariedade que existe entre
os Espíritos encarnados e os não encarnados; e isto, a fim de que uns e outros
se ajudem mutuamente, e que o ser espiritual, chamado à vida eterna, possa
alcançar mais facilmente e sobretudo mais seguramente o objetivo providencial
assinado à criação.
Se os fatos de onde decorrem
semelhantes teorias, que são a base da Doutrina Espírita, podem ser tomados, por
certas pessoas, por mistificações, ao menos deveriam elas indicar-lhes as
razões, e, o que valeria ainda mais, apresentar outras teorias mais
racionais e sobretudo mais verdadeiras.
"Agora,
chamai a verdade feitiçaria, magia, prestidigitação e outros epítetos
ainda mais ridículos, não impedireis, a esta verdade de se propagar e de
estender seus raios benfazejos sobre todo o gênero humano.
"Eis
por que o Espiritismo se propagou tão rapidamente sobre toda a superfície da
Terra; e, apesar das críticas do gênero dos supracitados artigos, isso não
impede seus adeptos de se contarem por milhões.
"OS
ESPÍRITAS DE CONSTANTINOPLA."
Dirigimos
aos nossos irmãos Espíritas de Constantinopla, tanto em nosso nome pessoal
quanto no dos membros da Sociedade de Paris, as sinceras felicitações que sua
resposta merece, ao mesmo tempo digna e moderada. A carta seguinte, que a esse
respeito nos escreveu o Sr. Repôs, advogado, presidente da Sociedade Espírita
de Constantinopla, testemunha muito bem seu devotamento à causa da Doutrina,
para que não nos façamos um dever e um sincero prazer de publicá-la, a fim de
que os Espíritas de todos os países saibam que têm na capital do Oriente irmãos
sobre a fraternidade dos quais podem contar. Falando do Oriente, não devemos nos
esquecer os de Smirna; eles também têm direito a todas as suas simpatias.
"Constantinopla,
15 de junho de 1864."
"Caro
mestre e muito honrado irmão em Espiritismo,
"Recebi,
em tempo a vossa boa carta de 8 de abril último, que me deu o maior prazer,
assim como aos irmãos Espíritas, aos quais não deixei de dar-lhes conhecimento
em sessão.
“Todos
os Espíritas de Constantinopla se juntam a mim, em conjunto, para assegurar de
nossos sentimentos fraternos a vós e a todos os Espíritas que fazem parte da
Sociedade de Paris; e todos, vos agradecendo pelos encorajamentos que nos dais
para nos ajudar a combater por nossa grande causa, ficai bem persuadido de que
não falharemos na tarefa que empreendemos, e que todos os nossos esforços
tenderão à propagação da verdade, do amor ao bem, e da emancipação intelectual
dos outros homens, nossos irmãos em Deus, devêssemos sustentar as lutas mais
obstinadas contra os nossos inimigos. Se há homens bastante servis e bastante
frouxos para ousar combater a verdade, há também os bastante independentes e
bastante corajosos para defendê-la, obedecendo nisso ao sentimento de justiça e
de amor fraterno que fazem do ser humano um verdadeiro filho de Deus.
"Foi
com um interesse muito vivo que li os detalhes interessantes contidos em vossa
supradita carta, com relação ao progresso do Espiritismo na França e por todas
as outras partes; esperamos que, no futuro, a idéia crescerá cada vez mais, e
desejamo-lo ardente-mente para nossos irmãos terrestres, de todos os países e
de todas as religiões.
"O
jato poderoso da revelação jorra de todas as partes: cego quem não o vê,
imprudente quem o nega, insensato quem o combate procurando reprimi-lo em sua
fonte; sua água pura e límpida, não parte do pé do trono eterno para se
derramar em doce e fecundo orvalho sobre toda a Terra, que ela deve regenerar?
Nenhuma força humana poderá, pois, comprimi-la!... E, com efeito, não vemos
que, desde que um jato surge em qualquer parte, se alguém faz esforços para
comprimi-lo, logo se vêem milhares de jatos surgirem em todas as direções e em
todos os degraus da escala social? tanto é verdade que a vontade divina é
onipotente, e que num momento dado nenhum obstáculo pode lhe ser oposto sob
pena de ser derrubado e esmagado pelo carro brilhante da justiça e da verdade.
"Caro mestre, tenho um bem
doce dever a cumprir, o de vos cumprimentar, tanto em meu nome como em nome de
todos os nossos irmãos do Oriente, daquilo que as nossas obras sofreram a
condenação da muito santa inquisição do pensamento, quero dizer, a condenação
do Index. Rejubilai-vos, pois, com todos os nossos irmãos, se vossas obras
levantaram tão altas cóleras que não puderam vos atingir senão se
ridicularizando e deixando ver, cada vez mais a realidade. Esse
julgamento já foi declarado nulo e o dito pelo não dito pela opinião pública de
todos os países.
"Sem
dúvida, recebestes os jornais de Constantinopla que lhe remeti, e nos quais se
achava a maior parte dos artigos publicados contra o Espiritismo e contra os
Espíritas. Vistes as nossas duas pequenas respostas; como as achou? Aqui elas
produziram bom efeito, e agora fala-se do Espiritismo mais do que nunca.
Esperamos impacientemente o que direis para nos ajudar a combater o embuste e a
mentira, que são o único apanágio dos inimigos de nossa bela Doutrina.
"Aqui
a perseguição surda que anunciastes começou; um de nossos irmãos, devido à sua
qualidade de Espírita, perdeu seu emprego; outros são perseguidos, ameaçados em
seus mais caros interesses de família, ou em seus meios de existência, pelas
manobras tenebrosas dos eternos inimigos da luz, e que ousam dizer que o
Espiritismo é a obra do anjo das trevas! Se é assim que crêem abafá-lo,
enganam-se. A perseguição, longe de deter, faz engrandecer toda idéia que vem
do alto; apressa a sua eclosão e sua maturidade, porque é o adubo que a
fecunda; ela prova a ausência de todo meio inteligente para combatê-la. É que a
idéia cristã foi abafada no sangue dos mártires?
"Até
à vista, caro mestre; crede em meu devotamento muito sincero por vós e nos-sos
irmãos Espíritas de Paris, aos quais vos peço fazer meus cumprimentos.
"B.
REPÔS júnior, advogado."
(pp. 205-213).
Extrato do Progres Colonial, Jornal da Ilha Maurício
março de 1864
Ao Senhor Redator do PROGRÈS COLONIAL.
Senhor,
Conhecendo vosso liberalismo e sabendo também que vos ocupais do
Espiritismo, consenti na cortesia de inserir em vosso próximo número a carta
que vos envio, dirigida ao Sr. abade de Régnon, vos deixando a liberdade de
fazer as reflexões que julgais conveniente fazê-lo, no interesse da verdade.
Contando com a vossa imparcialidade, ouso acreditar que me
abrireis as colunas de vosso jornal, para todas as reclamações do gênero
daquela que tenho a honra de vos enviar.
Sou, senhor, vosso muito humilde servidor,
C.
Ao Senhor abade de RÉGNON.
"Port-Louis, 26 de março de 1864.
"Senhor abade,
"Em vossa conferência de quinta-feira última (24 de março),
atacastes o Espiritismo, e gosto de crer que o fizestes de boa fé, se bem que
os argumentos dos quais vos servistes contra ele não hajam talvez sido de uma
inteira exatidão.
"Há a lamentar por nós, Espíritas bem convencidos, que
hauristes em outra parte senão no conhecimento positivo dessa ciência;
estudando-a um pouco, teríeis aprendido que rejeitamos, assim como vós, todas
as comunicações emanadas de Espíritos grosseiros ou enganadores, que com a
menor experiência é fácil de reconhecer, e que nos ligamos somente àquelas que
se apresentam de maneira clara, racional, e segundo as leis de Deus, que, vós o
sabeis como nós, permitiu em todos os tempos as manifestações espíritas;
as santas Escrituras estão aí para disto fazer fé.
"De resto, não negais a existência dos Espíritos, ao
contrário; somente não admitis deles senão os maus; eis a diferença que existe
entre nós.
"Estamos seguros de que há os bons, e que seus conselhos,
quando são seguidos, e todo verdadeiro Espírita nisso não falha, conduzem mais
almas a Deus e fazem muito mais prosélitos para a religião do que não pensais.
Mas compreender e praticar esta ciência, assim como todas as outras, é preciso primeiro
dela se instruir e conhecê-la a fundo.
"Convido-vos, pois, senhor abade, primeiro no vosso
interesse, depois no daqueles que têm a felicidade de vos ouvir, a ler uma das
principais obras que apareceram sobre este assunto, O Livro dos Espíritos, ditado
por eles ao Sr. Allan Kardec, presidente da Sociedade Espírita de Paris,
composta de pessoas sérias e muito instruídas, em sua maioria.
"Ali, vereis como só os ignorantes se deixam enganar por
falsos nomes e palavras mentirosas, e que pelos frutos é muito fácil
reconhecer a arvorei Tenho necessidade, de resto, de vos lembrar da 4a. epístola de São João,
versículos 1,2,3, sobre a maneira de provar os Espíritos?
"Sim, convenho com isto, o
Espiritismo é uma ciência que, assim como o que há de melhor neste mundo, pode
algumas vezes produzir grandes males, quando é exercido por aqueles que não a
estudaram e a praticam ao acaso; mas deveis, pois, vós homem sábio, julgá-la
assim sem conhecê-la?
"E nossa bela religião
cristã, em nome da qual um tão grande número de insensatos, de ignorantes, e
mesmo de celerados cometeram tantos crimes, e fazem derramar tanto sangue, é
preciso, pois, também julgá-la sobre as ações loucas ou criminosas desses
infelizes?
"Não, senhor abade, não é nem
justo, nem racional ter um julgamento temerário sobre coisas das quais primeiro
não se estar assegurado; deixai a superfície, ide ao fundo para o estudo; então
dela podereis tratar com conhecimento de causa e vos escutaremos com
recolhimento, porque, então, estareis sem dúvida na verdade, e não sorriremos
mais em nos falando baixinho:
"Ele fala do que
ignora."
"UM ESPÍRITA."
Se o Espiritismo tem detratores,
tem também por toda a parte defensores, mesmo nas regiões mais distantes; o
autor desta carta publicou-a em folhetins, nesse mesmo jornal, um romance muito
interessante do qual o Espiritismo forma a base e que contribuiu poderosamente
para difundir estas idéias no país. Disso daremos conta ulteriormente.
(pp. 214-215).
Extrato da Revista Espírita D’Anvers, sobre a cruzada contra o Espiritismo
junho de 1863
"Decididamente o Espiritismo é uma coisa horrível, porque
jamais nem ciência, nem doutrina herética, nem o próprio ateísmo, não
levantaram contra si um tão forte motim no seio da Igreja, quanto o fez o
Espiritismo. Todos os recursos imagináveis, louváveis ou não, foram postos em
jogo para abafá-lo primeiro, e depois, quando a impossibilidade desse
aniquilamento foi demonstrada, para desnaturá-lo e apresentá-lo sob um aspecto
negro de pecados. Pobre Espiritismo! não pedia senão um pequeno lugar ao sol
para fazer o mundo desfrutar gratuitamente de seus benefícios; não pedia a
essas pessoas que, na qualidade de discípulos em título do Cristo, do
Homem-Amor, são levados a colocar a palavra de caridade inscrita em letras brilhantes
sobre seus paramentos, e não lhes pedia senão poder conduzir, ao bom caminho,
esses milhares de ovelhas que não foram capazes de nele se manter; não lhes
pedia senão poder secundá-lo em sua obra de devotamento, curando-o por uma
esperança fundada os pobres corações roídos pela gangrena da dúvida, - a esse
pedido tão desinteressado, tão puro de intenção, não respondeu senão por um
decreto de prescrição! Verdadeiramente se vêem estranhas coisas neste mundo: os
mensageiros oficiais da caridade condenam mais de nove décimos dos homens por
que escapam à sua influência e condenam mais profundamente aqueles que querem
salvar esses infelizes!
"Sem dúvida, pois, o
Espiritismo é coisa muito culpável uma vez que é de tal modo combatido, e é
muito espantoso que uma doutrina tão perversa haja caminhado tanto em um tão
curto lapso de tempo. Mas o que deve parecer muito mais espantoso ainda, é que
esse abominável Espiritismo é tão solidamente estabelecido e tão lógico, que
todos os argumentos que se lhe opõem, longe de fazê-lo abater e reduzi-lo a
nada, longe mesmo de abalá-lo, vêm todos, ao contrário, contribuir, pela sua
inanidade e sua impotência manifestas, à sua solidificação e à sua propagação.
É, com efeito, aos entraves que quiseram suscitar-lhe, que ele deve em notável
parte a rapidez de sua extensão, e as pregações sem freio de certos de nossos
adversários, certamente, não ajudaram pouco a generalizá-lo. Está ele assim na
ordem das coisas: a verdade nada tem a temer de seus detratores, e são eles
mesmos que contribuem involuntariamente para fazê-la triunfar. O Espiritismo é
um imenso foco de calor e de luz, e que sopra sobre esse braseiro, além de que
infalivelmente se não queima um pouco, não obtêm outro resultado senão que
reavivá-la mais.
"Entretanto, mandamentos e
conferências parecem insuficientes para destruir o Espiritismo (estamos longe
de negar essa insuficiência patente), também a Congregação romana vem colocar
no Index todos os livros do Sr. Allan Kardec, livros que
contêm o ensino universal dos Espíritos, e aos quais, Espíritas, todos nos
ligamos. Que se nos permita fazer a este respeito as duas reflexões seguintes:
Os livros espíritas em questão encerram em toda a sua pureza e com os
desenvolvimentos que o estado atual do espírito humano exige, os ensinos e os
preceitos de Jesus, em que os Espíritos reconhecem um Messias: condenar estes
livros, não é, pois, condenar ao mesmo tempo as palavras do Cristo, e colocar
estes livros no Index, não é colocar ali de alguma sorte os evangelhos
que estão de acordo conosco? Parece-nos que sim, mas é verdade que não o somos infalíveis
como vós! Segunda reflexão: Esta medida que se toma hoje, não é tanto que
seja pouco tardia? Por que esperar tão longo tempo? Além de que é mais ou menos
inexplicável (a menos de crer que o Espiritismo vos pareça de tal modo
verdadeiro e que estais de tal modo persuadidos de seu triunfo, que haveis
hesitado por muito tempo em atacá-lo decididamente de frente, e que um
interesse pessoal muito poderoso (porque não vos faremos a injúria de crer-vos
ultra-ignorantes) só vós pudestes decidir a fazê-lo), além disso, dizemos nós,
que é mais ou menos inexplicável, é ainda muito inábil. Com efeito, O Livro
dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e A Imitação do Evangelho Segundo o
Espiritismo, estão atualmente nas mãos de milhares de pessoas, e duvidamos
muito que a condenação da Congregação de Roma possa fazer achar agora mau e
abjeto o que cada um julgou grande e nobre.
"O
que quer que seja, os livros espíritas estão colocados no Index. Tanto
melhor, porque muitos daqueles que ainda não os leram os devorarão; tanto
melhor! porque de dez pessoas que os percorrerem, pelo menos sete serão
convencidas, ou fortemente abaladas e desejosas de estudar os fenômenos
espíritas; tanto melhor! porque os nossos próprios adversários, vendo seus
esforços não chegarem senão a resultados contrários àqueles que deles
esperavam, se juntarão a nós, se possuem a sinceridade, o desinteresse e as
luzes que seu ministério comporta. Assim o quer, aliás, a lei de Deus: nada no
mundo pode ficar eternamente estacionário, mas tudo progride, e a idéia
religiosa deve seguir o progresso geral, se ela não quiser desaparecer.
"Que os nossos adversários, pois, continuem a sua cruzada. Já colocaram em jogo as ordenações, os sermões, os cursos públicos, as influências ocultas e freqüentemente vitoriosas na aparência, por causa do estado dependente daqueles sobre os quais elas pesam tiranicamente; usaram do auto-de-fé, queimando publicamente nossos livros em Barcelona; não podendo ali queimar senão alguns exemplares e estes se substituindo em número espantoso, puseram-nos, enfim, no Index. A inquisição não sendo, ah! mais tolerada, embora esteja bem longe de não mais existir sob uma outra forma e com a ajuda das influências ocultas das quais acabamos de falar, não lhes resta mais senão a excomunhão de todos os Espíritas em massa, quer dizer, de uma notável fração de homens e, em particular, de uma muito notável fração de cristãos (não falamos senão dos Espíritas confessos, porque o número daqueles que o são sem sabê-lo é inapreciável)." (p. 215-218).
Resposta do redator de La Vérité à reclamação do Sr. Abade Barricand
agosto de 1864
Caro Senhor
Allan Kardec,
Serieis bastante bom para inserir as poucas linhas seguintes no
mais próximo número de vossa Revista?
Fiquei muito surpreendido, abrindo vosso último número (julho de
1864), de encontrar ali uma carta assinada Barricand, na qual esse teólogo me
toma a partir do assunto do relatório que publiquei sobre um de seus cursos
anti-espíritas. (La Vérité de 10 de abril de 1864.)
As observações muito judiciosas das quais fizestes seguir esse
inqualificável e muito tardio protesto, certamente, ter-me-iam dispensado de
respondê-lo eu mesmo, se não tivesse medo de que, aos olhos de alguns,
meu silêncio passasse por um defeito ou uma falta. Declaro abertamente que a
minha consciência não poderia se associar à censura grave que me é feita de ter
travestido, falsificado o curso do qual se trata; eu o afirmo diante de
Deus: Se nem sempre reproduzi as mesmas frases, as mesmas palavras pronunciadas
por meu contraditar, estou convencido de lhes ter dado o verdadeiro
sentido.
Segundo
isso, que a alta inteligência do Sr. abade Barricand julgue a minha muito
ínfima e muito pesada por não ter podido agarrar o tema verdadeiro de seu
discurso, através dos caminhos sinuosos, mas floridos, onde o conduziu; que o
Sr. abade Barricand tire dessa premissa a indução que, em semelhante
ocorrência, não me é mais permitido nem afirmar, nem negar; é, minha fé, muito
possível! Neste caso, e para ser fiel aos meus princípios de tolerância,
consentiria quase repreender-me por ter defendido la Vérité e os outros
jornais espíritas contra as acusações ilusórias, eclodidas em meu cérebro em
delírio; a me bater no peito por ter compreendido que em lugar de soar o dobre
de finados sobre nossas cabeças, contentar-se-ia, parece, em nos tatear o
pulso.
Assim
se acalmará, eu o espero, a ira do Sr. decano da Faculdade de teologia; assim
estarão reabilitados aos olhos do mundo a sua pessoa e o seu ensino.
Aceitai, etc.
E. EDOUX, Diretor de Ia Vérité.
(pp. 245-246).
L’AVENIR.
Moniteur du Spiritisme.
Durante muito tempo estivemos
sozinhos lutando para sustentar a luta iniciada contra o Espiritismo, mas eis
que os defensores surgiram dos diversos lados e entraram audaciosamente na
liça, como para dar um desmentido àqueles que pretendem que o Espiritismo com
isso se vai. Primeiro la Vérité em Lyon; depois em Bordeaux: la
Ruche, le Sauveur, la Lumière; na Bélgica: a Revista
Espírita d'Anvers; em Turim: os Annalis du Spiritisme en Italie. Estamos
felizes em dizer que todos bravamente sustentaram a bandeira, e provaram aos
nossos adversários que encontrariam com quem contar. Se damos justos elogios à
firmeza das quais esses jornais deram prova, as suas refutações cheias de
lógica, devemos sobretudo louvá-las por não terem se afastado da moderação, que
é o caráter essencial do Espiritismo, ao mesmo tempo que a prova da verdadeira
força; de não terem seguido nossos antagonistas sobre o terreno da
personalidade e da injúria, sinal incontestável de fraqueza, porque não se
chega a esse extremismo senão quando se está sem boas razões. Aquele que, em
presença de argumentos sérios, os faz valer; não os substitui, ou se guarda de
enfraquecê-los por uma linguagem indigna de uma boa causa.
Em
Paris, um recém-chegado se apresenta sob o título sem pretensão de o Avenir,
Moniteur du Spiritisme. A maioria de nossos leitores já o conhece, assim
como seu redator-chefe, Sr. d'Ambel, e puderam julgá-lo pelas suas primeiras
armas; o melhor reclame é o de provar o que se pode fazer; em seguida é o
grande júri da opinião que pronuncia o veredicto; ora, não duvidamos que não
lhe seja favorável, a julgá-lo pela acolhida simpática que recebeu em seu
aparecimento.
A
ele, pois, também as nossas simpatias pessoais, adquiridas de antemão por todas
as publicações de natureza a servir validamente à causa do Espiritismo; porque
não poderíamos conscienciosamente apoiar nem encorajar aquelas que, pela forma
ou pelo fundo, voluntariamente ou por imprudência, lhes seriam antes nocivas do
que úteis, prestando-lhe flanco aos ataques e às críticas fundadas de nossos
inimigos. Em semelhante caso, a intenção não pode ser refutada pelo fato.
agosto de 1864
Escritas
a eclesiásticos pela senhora J. B., com essa epígrafe de circunstância, e que é
o sinal característico de nossa época:
Tenho
ainda muitas coisas a vos dizer, mas não poderíeis suportá-las agora. - Quando
esse Espírito de verdade vier, vos ensinará toda a verdade; porque não falará
de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas a
virem. - E quando vier, convencerá o mundo no que respeita ao pecado, no que
respeita à justiça, e no que respeita ao julgamento. (S. João, cap. XVI, v. 8,
12, 13.)
As
reflexões que fizemos acima, a propósito do Avenir, não se aplicam
somente às folhas periódicas, mas às publicações de toda natureza, volumes ou
brochuras, cujo número se multiplica sem cessar, e cujos autores são igualmente
combatentes que tomam parte na luta, e trazem sua pedra ao edifício. Saudação
fraternal de boas vindas a todos esses defensores, homens e mulheres, que,
sacudindo o jugo dos velhos preconceitos, arvoram a bandeira sem pensamento
dissimulado pessoal, sem outro interesse do que aquele do bem geral, e fazem
ecoar o grito libertador e emancipador da Humanidade: Fora da caridade não
há salvação! Apenas esse grito foi pronunciado pela primeira vez, e todos
compreenderam que encerrava toda uma revolução moral há muito tempo pressentida
e desejada, e que encontra ecos simpáticos nas cinco partes do mundo. Foi
saudada como a aurora de um futuro feliz, e, em alguns meses, tornou-se a
palavra de união de todos os Espíritas sinceros; é que depois de uma tão longa
e tão cruel luta contra o egoísmo, fazia, enfim, entrever o reino da
fraternidade.
A
brochura que anunciamos aqui é devida a uma senhora, membro da Sociedade
Espírita de Paris, excelente médium, chefe de um grupo particular
admiravelmente dirigido e a quem não se poderia censurar senão por um excesso
de modéstia, se pudesse ali haver excesso no bem. Se ela não assinou seu
escrito senão por iniciais, é que pensou que um nome desconhecido não é uma
recomendação, e que não se prende de nenhum modo a se colocar como escritora;
mas ela não tem por isso menos a coragem de sua opinião, da qual não faz
mistério a ninguém.
A senhora J. B. é sinceramente
católica, mas católica muito esclarecida, o que quer tudo dizer; sua brochura é
escrita nesse ponto de vista, e, por isto mesmo, se dirige principalmente aos
eclesiásticos. É impossível refutar com mais talento, elegância na forma,
moderação e lógica, os argumentos que uma fé exclusiva e cega opõe às idéias
novas. Recomendamos este interessante trabalho aos nossos leitores; eles podem
sem medo propagá-lo entre as pessoas de uma suscetibilidade desconfiada com
relação à ortodoxia, e dá-la em resposta aos ataques dirigidos contra o
Espiritismo do ponto de vista religioso. (p. 251).
Influência da música sobre os criminosos, os loucos e os idiotas
setembro de 1864
A Revista musical do Siècle, de 21 de junho de 1864,
continha o artigo seguinte:
"Sob este título: Um Orfeão sob os ferrolhos, o Sr. de
Pontécoulant acaba de publicar uma excelente notícia em favor de uma boa causa.
Parece que o diretor de uma casa central de detenção concebeu a engenhosa idéia
de fazer penetrar a música nas celas dos condenados; compreendeu que seu dever
não era só punir, mas de corrigir.
"Para agir com certeza sobre o caráter do prisioneiro,
magoado pelo castigo, dirigiu-se diretamente à música. Começou por criar uma
escola de canto. Os detentos que eram distinguidos por sua boa conduta
consideravam como uma recompensa fazer parte desse orfeão.
"O penitenciário se encontrava assim transformado. Cerca de
mil pensionistas mais ou menos, escolheram cem que foram chamados a concorrer
aos primeiros ensaios. O efeito foi muito grande sobre o moral desses
infelizes. Uma infração às regras poderia fazê-los mandar embora da escola;
eles se organizaram para respeitar obrigações, até então desdenhadas por eles.
"A fim de melhor fazer compreender a importância que dão à
instituição desses coros, lembrarei que o silêncio lhes era habitualmente
imposto. Eles pensam, não falam. Poderiam esquecer sua língua, da qual
momentaneamente não mais se serviam. Nessas condições, compreende-se, esses
trechos de conjunto, falados e cantados, lhes cai como um maná do céu. É a
ocasião de se reunir, de ouvir vozes, de quebrar sua solidão, de se emocionar,
de existir.
"Eu o repito, os resultados são excelentes. Sobre setenta
cantores dos quais o orfeão se compõe esse ano, dezesseis graças puderam ser
concedidas. Não é concludente?
"Esquecia-me de dizer que a experiência foi feita em Melun. É
uma prova para encorajar, um exemplo a seguir. Quem sabe? esses corações
endurecidos sentirão talvez seu gelo fundir-se, e cuidarão de amar ainda alguma
coisa. Em lhes ensinando a cantar, se lhes ensina não mais maldizerem. Seu
isolamento se povoa, sua cabeça se acalma, e o trabalho forçado lhes parece
menos duro. Depois de seu tempo terminado, freqüentemente encurtado pela
aplicação e a boa conduta, sairão de outro modo do que pervertidos pelo ódio.