REFUTAÇÕES AO TEXTO
Um espírito pode interferir na vida de outro?
Douglas, Luciano e demais companheiros de GAE,
Aí vai a minha breve análise de mensagem do Espírito canalizado na ONG Círculo de São Francisco. Abraços,
Ricardo
----- Original Message -----
From: Adilson Marques
Sent: Friday, August 11, 2006 11:04 PM
Subject: [gae] Um espírito pode interferir na vida do outro?
Um espírito pode interferir na vida do outro?
Texto canalizado na ONG Círculo de São Francisco (www.csf.org.br)
São Carlos/SP – 10/08/2006.
Na pergunta 551, dO Livro dos Espíritos, está explicito que Deus não permite
que um homem mau, com a ajuda de um mau Espírito, faça mal ao seu próximo.
Essa é mais uma das inúmeras questões dO Livro dos Espíritos que muitos
espíritas ignoram. Por isso, acreditar que alguém pode prejudicar o outro é
uma informação presente na doutrina espírita humanizada, mas que não
pertence à doutrina espírita dos espíritos.
Certamente, o Espírito aqui deve considerar-se mais atento à resposta do que os egos espíritas espalhados por aí. Pelo visto, a entidade canalizada deve ter encontrado um canal obstruído ou entrado pelo cano mesmo, pois não parece haver assimilado a essência da resposta. Não se pode examinar o Espiritismo sem uma averiguação sistêmica de tudo quanto se pode nele encontrar. Outrossim, a maioria das más interpretações decorre ou do uso de uma tradução aproximada ou da ausência de análise panorâmica do Espiritismo. Em língua francesa, eis a pergunta formulada por Kardec: "Un homme méchant peut-il, à l'aide d'un mauvais Esprit qui lui est devoué, faire du mal à son prochain?" Um sentido vernáculo da interrogativa, mais próximo ao da originária, poderia ser: "Um homem ruim (malvado), ao auxílio de um Espírito mau que se lhe devote, pode fazer mal ao seu próximo?" Eis a resposta ao Codificador: "Non, Dieu ne le permettrait pas". Ora, o verbo permettre está conjugado no denominado conditionnel, equivalente ao vernacular futuro do pretérito, de tal sorte que uma tradução mais próxima à resposta originária poderia ser: "Não, Deus não o permitiria".
Dessa maneira, mister compreender, em um contexto doutrinário, o sentido essencial da resposta: fosse o mal desejado pelo homem contra quem não o merecesse como prova, Deus não lho permitiria, ainda que secundado aquele por um Espírito mau. Do contrário, essa resposta contradiria, de modo real e não aparente, a da questão 557 de O Livro dos Espíritos: "Deus não escuta a maldição injusta e culpado perante ele se torna o que a profere. Como temos os dois gênios opostos, o bem e o mal, pode a maldição exercer momentaneamente influência, mesmo sobre a matéria. Tal influência, porém, só se verifica por vontade de Deus como aumento da prova para aquele que é dela objeto. Demais,o que é comum é serem amaldiçoados os maus e abençoados os bons. Jamais a bênção e a maldição podem desviar da senda da justiça a Providência, que nunca fere o maldito, senão quando mau, e cuja proteção não acoberta senão aquele que a merece".
Ademais, é sabido e consabido que Deus não interfere diretamente na matéria, para a qual também produzira Ele certas leis universais. Quando a Ele se referem os Espíritos, fazem-no eles sob a perspectiva da resposta à questão 964:"Deus tem as suas leis, que regem todas as vossas ações. Se as violardes, a culpa é vossa. Sem dúvida, quando um homem comete um excesso, Deus não lavra contra ele uma sentença, para lhe dizer, por exemplo: 'És um glutão e eu te vou castigar!'. Mas traçou um limite. As doenças e, por vezes, a morte são conseqüências dos excessos. Eis a punição: ela resulta da mesma infração da lei. Assim em tudo o mais". O mesmo se pode anteriormente encontrar na segunda interrogativa da questão 258 da mesma obra.
Mister entender as respostas dos Espíritos rebus sic stantibus, a fim de apreender-se o verdadeiro sentido. Outrossim, Allan Kardec comentara, de maneira proficiente, a natureza de O Livro dos Espíritos, na edição de julho de 1866 da Revue Spirite, no artigo Visão Retrospectiva das Existências do Espírito - A propósito do Drº. Cailleux (segundo período do segundo parágrafo): "O Livro dos Espíritos não é um tratado completo de Espiritismo; não faz senão lançar as bases e os pontos fundamentais, que se devem desenvolver sucessivamente pelo estudo e pela observação". O último excerto, dentre outros, demonstra e aponta não ser o Espiritismo uma "Doutrina fechada", tal qual já vi esse Espírito da ONG do Círculo de São Francisco defender em mensagem remetida ao GAE (Grupo Apologética Espírita). Desse modo, parece-me humanizadíssimo o comentário desse Espírito, por incompreensão do contexto principiológico ao qual se liga a Doutrina Espírita. Assim, não poderia aquilatar se os espíritas é que realmente ignoram "inúmeras questões dO (sic) Livro dos Espíritos". Outra aspecto por notar é que esse Espírito se reporta à Doutrina Espírita regularmente, quase como se nele houvesse um monoideísmo e como se, do alto da auto-reconhecida autoridade espiritual, todos os espíritas fôssemos imbecis.
Da mesma forma que a Bíblia é utilizada para satisfazer todos os tipos de
egos, onde cada um sempre encontra um trecho para ilustrar o seu
individualismo, defender a sua verdade, a doutrina espírita humanizada
distorce ou ignora os ensinamentos do Espírito da Verdade para satisfazer
interesses particulares.
Inclusive, aqui, o próprio comunicante!
Por não compreender que o único mal que existe na terra é o egoísmo, muitos
livros espíritas, escritos por encarnados ou não, encontram culpados para o
seu sofrimento ou de outra pessoa. Assim, acusa-se um médico de erro,
acusa-se um desencarnado de prejudicar o trabalho em uma casa espírita,
acusa-se o governo pela miséria, acusa-se outras religiões pelo fato da
Terra não ser ainda “evoluída” etc., esquecendo-se que Deus não permite que
o “mal” ou algo que não contemple o gênero de provas escolhido pelo próprio
espírito aconteça e que “o que Deus quer, deve ser; se há atraso ou
obstáculo, é por Sua vontade” (pergunta 529).
Mais uma vez, o Espírito mostra não possuir visão panorâmica da Doutrina e procura solucionar problema tão complexo mediante uma questão só, aliás, aí mal compreendida. Sempre necessário compreender as respostas dos Espíritos modus in rebus, a fim de que não se infiram idéias falsas. Na mensagem em comento, o problema está analisado fora de contexto, pois o Espírito não examinou as respostas anteriores. Na questão 525 de O Livro dos Espíritos, perguntado se "exercem os Espíritos alguma influência nos acontecimentos da vida", os Numes tutelares responderam a Kardec: "Certamente, pois vos aconselham". Na questão 525a, questionado se "exercem influência por outra forma que não apenas pelos pensamentos que sugerem, isto é, têm ação direta sobre o cumprimento das coisas", os Espíritos redargüiram ao Codificador: "Sim, mas nunca atuam fora das leis da natureza". Nem Deus age fora das leis da natureza, porque Ele as criara perfeitas e adequadas à Sua intenvenção providencial no universo físico, para a qual concorrem os Seus Ministros, os Espíritos Puros, razão por que nada existe sobrenatural. Na questão 259, perguntado se "do fato de pertencer ao Espírito a escolha do gênero de provas que deva sofrer, seguir-se-á que todas as tribulações que experimentamos na vida nós as previmos e buscamos", os Espíritos responderam a Kardec: "Todas, não, porque não escolhestes e previstes tudo o que vos sucede no mundo, até às mínimas coisas. Escolhestes apenas o gênero das provações. As particularidades correm por conta conta da posição em que vos achais; são, muitas vezes, conseqüências das vossas próprias ações. Escolhendo, por exemplo, nascer entre malfeitores, sabia o Espírito a que arrastamentos se expunha; ignorava, porém, quais os atosque viria a praticar. esses atos resultam do exercício da sua vontade, ou do seu livre-arbítrio. Sabe o Espírito que, escolhendo tal caminho, terá que sustentar lutas de determinada espécie; sabe, portanto, de que natureza serão as vicissitudes que se lhe depararão , mas ignora se se verificará este ou aquele êxito. Os acontecimentos secundários se originam das circunstâncias e da força mesma das coisas. Previstos só são os fatos principais, os que influem no destino. Se tomares uma estrada cheia de sulcos profundos, sabes que terás de andar cautelosamente, porque há muitas probabilidades de caíres; ignorais, contudo, em que ponto cairás e bem pode suceder que não caias, se fores bastante prudente. Se, ao percorreres uma rua, uma telha te cair na cabeça, não creais que estava escrito, segundo vulgarmente se diz. Para exemplificar-se a resposta, considere-se um Espírito cuja desencarnação deva ocorrer por assassínio: o gênero de morte já se estabeleceu, podendo ela vir a ocorrer por um projétil de arma de fogo, por envenenamento, por asfixia (afogamento doloso, esganadura ou estrangulamento), por espancamento, por queimadura (como aconteceu ao índio pataxó em Brasília), por uma queda (alguém empurra a outrem de sobre um edifício) etc.
Para a doutrina espírita humanizada o ser humano tem o livre arbítrio para
alterar a ordem material da vida ou até mesmo de tirar a vida humanizada de
um outro espírito antes da hora, quando, na questão 853, está claro que,
qualquer que seja o perigo que nos ameace não morremos se a hora não é
chegada, e que Deus sabe, antecipadamente, de qual gênero de morte
partiremos da Terra.
O Espírito parece defender um determinismo absoluto, pois o homem não tem livre-arbítrio para intervir na vida de outrem. Pelo teor da questão, Deus conhece o gênero de morte, mas, como a entidade comunicante não examina a Doutrina Espírita em conjunto, acaba derivando para interpretações deterministas e negando o livre-arbítrio de todos os seres. Ora, Deus conhece o gênero de morte antevisto para certo Espírito encarnado e tal gênero se efetivará se tudo acontecer como o previsto. Ora, sendo onisciente a Divindade, não saberia ela a espécie de morte? Aqui, não expendo, como Einstein, o argumento de que "Deus não joga dados". Deus pode jogá-los, mas conhece antecipadamente os resultados possíveis, haja vista ter ciência de todos os anagramas possíveis nas diversas relações teleológicas existentes. Isto não Lhe retira a onisciência, antes vem confirmá-la, porque Ele conhece todo o espaço amostral de causas suscetíveis de gerar efeitos. Não obstante, a espécie de morte compõe uma função ou aplicação de múltiplas variáveis, dependendo, por conseguinte, do próprio livre-arbítrio do Espírito. Deus não predetermina a espécie de morte, tampouco o gênero, mas tão somente conhece este, por tratar-se de uma escolha do Espírito. Ora, se o Espírito é que escolheu o gênero de morte, por que Deus não o conheceria também? Sim, há casos em que o Espírito não pode nem consegue escolher, mas, aí, a Providência faz as vezes do próprio Espírito reencarnante (vide a resposta à questão 262a de O Livro dos Espíritos). Desse modo, pode compreender-se a fatalidade a que se refere a resposta à questão 853, sob o argumento de que, se tudo quanto pretendeu o Espírito ocorrer em uma seqüência de causas específicas, a morte se tornará inevitável para ele e, portanto, fatal.
Na questão 854, perguntado se "do fato de ser infalível a hora da morte, poder-se-á deduzir que sejam inúteis as precauções que tomemos para evitá-la", os Espíritos redargüiram a Kardec: "Não, visto que as precauções que tomais são sugeridas com o fito de evitardes a morte que vos ameaça. São um dos meios empregados para que ela não se dê". Já na questão 859a, em que se obtivera uma confirmação da resposta da questão 259, perguntado se "haverá fatos que forçosamente devam dar-se e que os Espíritos não possam conjurar, embora o queiram", responderam a Kardec as Entidades venerandas: "Há, mas que tu viste e pressentiste, quando, no estado de Espírito, fizeste a escolha. Não creais, entretanto, que tudo o que sucede esteja escrito, como costumam dizer. Um acontecimento qualquer pode ser a conseqüência de um ato que praticaste por tua livre vontade, de tal sorte que, se não o houvesses praticado, o acontecimento não se teria dado. Imagina que queimas o dedo. Isso nada mais é senão resultado da tua imprudência e efeito da matéria. Só as grandes dores, os fatos importantes e capazes de influir no moral, Deus os prevê, porque são úteis à tua depuração e à tua instrução". Ora, não houvesse tais precauções, a morte ocorreria. A chave desse complexo fenômeno parece encontrar-se na questão 861, na qual, perguntado se, "ao escolher a sua existência, o Espírito daquele que comete um assassínio sabia que viria a ser assassino", Kardec obtivera dos Espíritos a seguinte resposta: "Não. Escolhendo uma vida de lutas, sabe que terá ensejo de matar um de seus semelhantes, mas não sabe se o fará, visto que ao crime precederá quase, de sua parte, a deliberação de praticá-lo. Ora, aquele que delibera sobre uma coisa é sempre livre de fazê-la, ou não. Se soubesse previamente que, como homem, teria que cometer um crime, o Espírito estaria a isso predestinado. Ficai, porém, sabendo que ninguém há predestinado ao crime e que todo crime, como qualquer outro ato, resulta sempre da vontade e do livre-arbítrio". Em seguida, continuaram os Espíritos: "Demais, sempre confundis duas coisas muito distintas: os sucessos materiais da vida e os atos da vida moral. A fatalidade, que algumas vezes há, só existe com relação àqueles sucessos materiais, cuja causa reside fora de vós e independem da vossa vontade. Quanto aos atos da vida moral, esse emanam sempre do próprio homem que, por conseguinte, tem sempre a liberdade de escolher. No tocante, pois, a esses atos, nunca há fatalidade (último grifo originariamente em itálico)".
Se existem causas morais para a morte e se elas podem efetivá-la, não há dúvida razoável de que pode a morte ocorrer sem ter sido antevista pelo Espírito nem predeterminada por Deus, porquanto os atos da vida moral provêm da escolha do ser, do próprio livre-arbítrio, da própria vontade livre. Deus pode conhecer o gênero e a espécie, porque, de antemão, sabe Ele todas as combinações possíveis entre causas e efeitos, na teleologia existencial, mas a espécie em si da morte só pode ser determinada pela vontade e pelo alvedrio livre do próprio ser, diante da seqüência mesma das coisas.
Essa contradição aparece freqüentemente nos livros espíritas, sejam eles
escritos por encarnados ou por desencarnados, e é fruto da chamada fé
raciocinada, algo que nos impede de viver a Fé, a entrega incondicional aos
desígnios de Deus. Ou seja, se tivéssemos Fé jamais julgaríamos ou
condenaríamos ninguém. O outro é sempre o instrumento para nossas provações
e aquilo que nosso ego julga como mal ou errado é exatamente o que
precisávamos vivenciar, são nossas vicissitudes negativas, e nada mais. Se
um espírito humanizado não precisa passar por uma determinada experiência na
qual seria uma pobre vítima, ou se tal experiência iria levá-lo a sofrer
injustamente, Deus, de alguma forma, não a permitiria. Leiam as respostas do
Espírito da Verdade às questões 525, 526, 527 e 528. Em resumo, se você
precisa desencarnar caindo de uma escada, será intuído para ir até a escada
carcomida; se precisar desencarnar com um raio, será intuído para ir até a
árvore onde o raio cairá e se não deve perecer vítima de um tiro, será
intuído para se desviar. Só a Fé raciocinada, como dissemos, nos impede de
aceitar que nada acontece sem que Deus permita e nos ilude acreditando que
temos qualquer possibilidade de alterar um fato material. Todo o nosso livre
arbítrio após a humanização se restringe à dimensão moral, ou seja, com que
intenção vamos nos envolver naquele fato, com amor ou com egoísmo
(individualismo). Isso é ensinado também no Baghavad Gita, por exemplo.
Quando alguém acusa quem quer que seja por qualquer erro ou injustiça,
esquece-se ou ainda não tomou consciência de que Deus não permitiria que o
“mal” fosse feito, ou seja, ninguém sofre pelo “erro” do outro, uma vez que
não há erro algum no mundo material. Tudo funciona perfeitamente para que os
espíritos humanizados vivam suas provações, resultantes do gênero de provas
escolhido antes da encarnação.
Esse Espírito considera todas as respostas de O Livro dos Espíritos como dadas pelo Espírito de Verdade. Perceba-se, no início, como o Espírito canalizado se põe a criticar a fé raciocinada e a defender apenas uma fé, possivelmente não raciocinada, ou seja, uma fé parecida à das igrejas espalhadas por aí, uma fé sem bases lógicas. Daí, a ilogicidade do que esse Espírito afirma nas mensagens remetidas ao GAE. Ora, o conceito de fé raciocinada está expendido por Kardec e pelos Espíritos, por exemplo, no capítulo I de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Contra essa idéia de uma fé cega, sem bases racionais e lógicas, bem se posiciona Kardec no capítulo XIX da mesma obra, nos itens 6 e 7, havendo comentado: "preconizar a fé cega sobre um ponto de crença é confessar impotência em demonstrar que se tem razão (item 6, in fine). No fim do item 7 do referido capítulo, encontra-se arquifamosa máxima do Bom Senso encarnado: "Não há fé inabalável senão aquela que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade". Ora, Kardec estivera sob amparo do próprio Espírito de Verdade e não daria a lume tais conceitos se não fossem autênticos. Esse espírito tenciona possuir mais bom senso do que o próprio Allan Kardec e do que o próprio Espírito de Verdade. Em que excerto da Doutrina Espírita se pode encontrar a afirmativa de que "só a fé raciocinada (...) nos impede de aceitar que nada acontece sem que Deus permita e nos ilude acreditando que temos possibilidade de alterar um fato material"? O Espírito comunicante, não sei se por causa da canalização, parece não ter lido e entendido as respostas das questões 259, 859a e 861 de o Livro dos Espíritos. Nessa última, pode ler-se claramente: "(...) a fatalidade, que algumas vezes há, só existe com relação àqueles sucessos materiais, cuja causa reside fora de vós e independem da vossa vontade (...)". Na questão 853, pode ler-se: "Fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só o instante da morte o é (...)" Em face de tais respostas, como pode esse Espírito canalizado afirmar não ser possível alterar um fato material e, ainda mais, reiterar não existir livre-arbítrio na causa de um fato material. Ademais, quando os Espíritos se referem à fatalidade atinente às provas físicas, não estão eles afirmando existir fatalidade em todos os fatos materiais e sim em fatos probatórios do Espírito encarnado e por este escolhidos. Ainda assim, leia-se a resposta à questão 853.
Outra questão também põe em xeque essa tese do Espírito canalizado, no concernente à fatalidade da morte como ele a compreende: a 199 de O Livro dos Espíritos. Perguntado se "por que tão freqüentemente a vida se interrompe na infância", os Espíritos responderam a Kardec: "A curta duração da vida da criança pode representar, para o Espírito que a animava, o complemento de existência anterior precedentemente interrompida antes do momento em que devera terminar, e sua morte, também não raro, constitui provação ou expiação para os pais". Ora, podendo o encarnado morrer antes do momento em que a morte deveria ocorrer, como não poderia o livre-arbítrio alterar o fatalismo da morte, a fim de que o mesmo Espírito possa, pela interrupção da vida infantil, complementar o tempo existencial anterior? Eis prova inequívoca de que um fato material, como a morte, pode ser alterada por uma causa outra, quiçá o livre-arbítrio, externa ao indivíduo. Além dos mais, não pode o Espírito fracassar nas provas escolhidas e alterar o curso de tudo quanto se previu anteriormente à encarnação? Não pode o Espírito encarnado, no mundo moral, rejeitar uma inspiração de um Espírito Protetor, a qual lhe evitaria a morte, vindo aquele a sucumbir? Não se pode ignorar o conjunto e segregar a parte, como, não raras vezes, insinua esse Espírito canalizado.
Quando o espírita julga, critica ou condena o governo, o médico, o
catolicismo ou o que quer que seja pelo seu “sofrimento” ou de outro
espírito humanizado, esquece que o egoísmo é o maior dos males e que deve
começar por combater o seu próprio egoísmo, pois é ele que o impede de ver a
perfeição de Deus em todos os atos, mesmo naqueles que o ego (razão) acusa
como errado, injusto, etc. Quem tem fé raciocinada, esteja ou não encarnado,
verá injustiça onde, essencialmente, está a mão de Deus proporcionando
oportunidades de elevação espiritual.
Quanto a este comentário do Espírito canalizado, nele está provado apenas o monoideísmo da entidade filtrada em relação ao Espiritismo e aos espíritas. Tenho a impressão de que esse Espírito está por demais humanizado para compreender a lógica racional do Espiritismo, em face das opiniões personalíssimas de que ele se faz portador. No tocante às achegas do Srº. Adilson Marques, infratranscritas, dispenso-me de comentá-las, porque vazadas nas idéias preconceituais do Espírito canalizado. Suum cuique tribuere.
Abraços fraternais,
Ricardo
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